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Final da Taça de Portugal, edição 2025/2026. Passados 16 anos, houve uma equipe da segunda divisão a chegar à final, o Torriense, que 70 anos depois voltou a marcar presença no Jamor apenas pela segunda vez, e aconteceu também a maior história da competição. Tivemos, pela primeira vez, Luís Francisco, uma equipe da segunda liga, de escalões inferiores, a vencer a Taça de Portugal e apesar de não ter sido talvez a equipe dominadora do jogo, é o justo vencedor desta taça, porque uns furos abaixo, em termos de plantel e dinheiro, também com maior cansaço nas pernas por causa desse playoff que ainda está a ser jogado, teve muito mais vontade esta equipe do Torriense.
Sim, naturalmente que os adeptos do Sporting não acharão graça nenhuma a esta gracinha, mas é um fato que este é um jogo histórico, é uma edição histórica da competição e é um desfecho que acaba por soar à justiça, porque convenhamos, não é estarmos do lado do mais fraco, é perceber que parecia estar tudo contra o Torriense, incluindo a carga de jogos na fase final da temporada, que normalmente é algo que se aplica às equipes ganhadoras de topo, às equipes de elite.
Acaba por ser um pouquinho também poética a justiça que aqui se faz, Luís.
É verdade. É claro que com 72% de posse de bola, mais do quádruplo dos remates que o Torriense fez, o Sporting teve muito mais ações atacantes, teve muito mais proximidade da baliza e esteve muito mais perto de marcar mais gols do que o Torriense. Mas a verdade é que soou sempre a qualquer coisa de desespero, houve sempre qualquer coisa de tentativa de última hora. Foi sempre um Sporting, como disse o seu treinador, a reagir e não a tomar o comando do jogo.
E também Mortimur a dizer que não ficou propriamente convencido, nem feliz com a linguagem corporal da equipe. Foi exatamente esta a sua expressão.
Sim, falou na linguagem corporal e disse: "Este jogo não está nos standards, não está ao nível do Sporting que eu conheci nos últimos três anos". Eu acho que houve, de fato, problemas de atitude. Agora, nós sabemos, quando uma equipe teoricamente mais fraca defronta uma equipe mais forte, tem de estar a 110%, tem de ter um bocadinho de sorte e, além disso tudo, tem de esperar que o adversário não esteja minimamente próximo dos 100%. E hoje todas as condições se verificaram. O Torriense foi o exemplo de uma equipe unida, que acreditou sempre. Marcar muito cedo também deu gás a essa fé, a essa crença, mas foi uma equipe sempre muito unida, capaz de defender, capaz de ir esticando o jogo. Enfim, com alguma dificuldade, mas era o que se arranjava. E depois, contou também com a sorte do jogo, o tal gol marcado cedo, a bola ao poste do Pedro Gonçalves, que a entrar podia ter dado o empate relativamente rápido ao Sporting e o jogo poderia ter partido noutras bases. Enfim. E finalmente, o fato de haver um Sporting claramente de menos para um jogo tão importante e claramente de menos para fechar uma temporada onde devia a si própria e aos seus adeptos mais qualquer coisa, e também, já agora, devia aos jogadores que vão sair e que fecham o ciclo. E não quis adiantar nada sobre isso.
Mas pareceu claramente já com o pé fora.
Morita já se despediu. Quenda já se sabia que iria ser jogador do Chelsea.
Nem contou para as contas da reavaliação do plantel do Sporting.
Exato. E basicamente fala-se que o Liverpool anda louco para contratar o Trincão. Quem faz uma campanha como o Sporting fez na Liga dos Campeões, naturalmente sujeita-se à cobiça. Agora, naturalmente também, a boa notícia que veio de Inglaterra, e foi a única do dia, diz ao Sporting que não há dúvida nenhuma de que vai contar com os milhões da liga e, portanto, pode fazer finca-pé em algumas saídas de jogadores.
Depois da vitória do Aston Villa em casa do Manchester City. Mas a verdade é que o Sporting acaba por perder esta final e fomos falando das maldições que não têm valor, não podemos provar a correlação factual entre uma coisa e outra, mas o que é certo é que o Sporting volta a perder uma final depois de ter eliminado o Porto nas semifinais, é a quinta vez consecutiva. Três delas foram contra o Benfica, o que podia ser compreensível, mas depois de ter perdido com o Aves, perde agora também com o Torriense. Não desmerecendo o Torriense, mas sendo uma equipe da Segunda Liga, o Sporting também fica aqui com uma maldição construída em torno das finais dos Jamores.
Sim, eu costumo dizer que não é uma questão de acreditar, é só uma questão de olhar e ver que há aqui um fato que é curioso e que pode, nas mentes mais sensíveis, criar algumas dúvidas no futuro. Se eu fosse jogador do Sporting, não olharia muito para isso. Aconteceu, há que ultrapassar. Mas a verdade é que, o que me parece relevante, e o João Castro falou nisso, pela terceira vez em finais recentes, o Sporting parte como grande favorito e deixa o troféu escapar. E neste caso, deixa escapar dois troféus. Um, potencialmente, que seria a próxima Supertaça. Como não vai disputar, não ganha de certeza absoluta e deixa escapar esta. Já agora, a vitória do Torriense, histórica por ser a primeira de uma equipe de Segunda Liga, provoca um verdadeiro terremoto na Primeira Liga.
É verdade, porque aqui não sabemos quem é que vai à Liga Europa diretamente, porque se depois desta vitória, quem conquista esse lugar direto na Liga dos Campeões é a equipe do Torriense, obrigando com isso, teoricamente, o Benfica a fazer três jogos para poder chegar à Liga Europa. Será algo que vai acontecer? Podemos contar com o Torriense? Não vão surgir aquelas questões de secretaria que ditarão que o clube não pode? Seria muito interessante ver uma equipe desta natureza chegar logo diretamente assim à Europa.
Eventualmente, a única coisa que eu vejo como questão a ultrapassar é se o estádio pode ou não receber os jogos. Agora, que a equipe pode disputar, pode. Pode optar por não o fazer, considerando que isso pode trazer custos terríveis, etc. Mas eu duvido muito que uma equipe vire costas a ter uma presença europeia.
Até porque para fazer a atração para o ano, para jogadores que possam vir para o ano, é um belíssimo cartão de visita.
Agora, atenção, é um investimento fortíssimo. Claro que para chamar jogadores é fantástico, mas é um investimento fortíssimo, porque o Torriense fica apurado diretamente para a fase de Liga da Liga Europa, enquanto que o Benfica terá que disputar três pré-eliminatórias para lá chegar, começando a jogar logo em julhoPossivelmente com seis jogos. O Sporting Braga fê-lo esta época. E é muito pesado. Já falámos nisso em relação à mera pré-eliminatória ou pré-eliminatórias da Liga dos Campeões, mas aí com um prémio monetário muito superior, já condiciona muito o arranque de temporada em termos de prazos. Então fazer isso para a Liga Europa, onde os prémios não são tão fortes, torna esta vitória do Torreense uma má notícia para o Benfica, não tanto como para o Sporting, mas também para o Benfica e, já agora, para um Sporting Braga que não disputará a Liga Europa, mas sim Liga Conferência e para o Famalicão, que fica fora das competições europeias. Portanto, isto é um terramoto que vem por ali para a primeira liga abaixo.
E eu acredito que muito ao longo da semana. Eu pensei em fazer a preparação do cenário caso de vitória do Torreense, vou admitir aqui, e como pareceu bastante improvável, sem problemas de admiti-lo, acabei por não fazer essa preparação, mas o que é facto é que há uma alteração quase estrutural na tabela classificativa.
Apetece brincar, naturalmente que isto é desporto, mas se o Torreense subir à primeira liga, quando lá chegar, já perdeu uma série de amigos, porque há aqui muita gente com motivos de queixa da equipa de Torres Vedras, que se está nas tintas para isso tudo, obviamente, e deve estar agora a festejar forte e feio, porque merece.
Pegando na terminologia que a cidade também gostará de certeza, está montado o carnaval para o Torreense, também.
Com certeza. Eu acho que é muito bonito estas histórias acontecerem. Claro que aos adeptos do favorito derrotado não cai nada bem, mas é muito bonito estas histórias acontecerem, porque de facto a taça tem uma história riquíssima e tem uma história muito bonita e este é mais um episódio que engrandece. Claramente, acho que olhando meramente para o jogo, o Sporting jogou mais e procurou mais o gol, mas não há como reconhecer que o Torreense foi muito competente naquele seu plano de jogo.
Foi isso que disse mesmo o Rui Borges, deu os parabéns ao adversário e reconheceu a eficácia do Torreense na proteção da área, quer no jogo aéreo, quer também entre linhas, a fechar o seu bloco. Mérito também para Luís Tralhão, que nos pareceu aqui, e como eu próprio disse num momento de consensos, um treinador com potencial para mais, tendo também essa ideia engraçada que é irmão do treinador adjunto do Benfica.
Sim, está nos genes, está visto, mas claramente muito bom trabalho do João Tralhão. Muito bom trabalho da equipa em campo, mas o treinador a passar os sinais certos. Creio que do lado do Sporting, as hesitações, os erros e alguma falta de foco para este jogo, parece que para o Sporting a época já tinha acabado e este jogo foi só um extra que fizeram e é ridículo.
Algo irônico que a frase com que começou Rui Borges o seu caminho no Sporting tinha sido: "Quando nos faltar inspiração, que não nos falte a atitude." Hoje faltou inspiração, atitude.
Faltou quase tudo. E também lhe faltou, a Rui Borges, também faltou isso.
Capacidade técnica.
Eu acho que na segunda parte, quando ele troca o sistema para três centrais, a equipa do Sporting perdeu claramente a capacidade para controlar o jogo e, portanto, eu diria que o treinador falhou pelo menos tanto como os seus jogadores. E fez depois também algumas substituições tardias, que me parece que até da maneira como Rui Borges falou, revelavam alguma falta de fé na equipa, porque ele diz que fez algumas substituições para jogadores que iam jogar 35 minutos. Ora, com o Sporting ainda com a possibilidade de ganhar o jogo, ele fazer substituições tendo em conta o tempo do prolongamento, revela também alguma falta de fé. Eu não gosto de lançar este tipo de dúvidas, mas a mim parece-me que se a questão da renovação do Rui Borges fosse falada agora, se calhar havia menos adeptos do Sporting convencidos. Eu acho que não faz sentido não renovar com o Rui Borges, atendendo à época que ele fez, mas a forma como perdeu a equipa nesta fase final e vai ser uma nova equipa na próxima temporada, não joga muito a favor do Rui Borges.
Estará o perfume de Rúben Amorim a abandonar também o Sporting, esse período de maior. Poderá o Sporting estar agora outra vez numa fase descendente, também com a nova ascendência do Porto Farioli?
Não, mas eu acho que o Sporting tem mais do que condições para reagir. Acho é que, brincando um bocadinho com as palavras, a glândula da desconfiança vai estar muito ativa durante o verão no Sporting. Vamos ver como é que corre o início da temporada e como é que corre o mercado, porque o Sporting, para começar, tem trabalhado muito bem.
E tem sofrido também muitas críticas ao mercado de janeiro, por exemplo.
Sim, mas o mercado de verão, convenhamos que se alguém já está a dar sinais do que quer fazer na próxima temporada, é o Sporting. E a esse nível, acho que tem corrido muito bem.
E para terminar esta noite histórica, vamos saber o que foi pior. Acredito que tenha sido qualquer coisa relacionada com o Sporting. Não sei se queres destacar alguma coisa em específico, Luís. A ausência de algum jogador?
Eu acho que, não estou a ser preguiçoso, mas acho que atendendo a que se tratou de um jogo e que foi apenas um jogo, era uma final, eram duas equipas que estavam uma de um lado, outra do outro. Eu acho que o negativo na história deste jogo é o Sporting. E falo como um todo, porque me parece que jogadores, treinador, enfim, até se calhar algum trabalho de sapa dentro do clube para que os jogadores não desistissem da temporada antes deste jogo se realizar. E eu acho que é, eu disse há pouco, é quase ridículo pensar que o Sporting desistiu da temporada quando tinha aqui uma oportunidade única de dar um prémio aos seus jogadores que saem, de dar um prémio aos seus jogadores que perderam outras coisas numa altura dramática da temporada e dar um prémio aos seus adeptos. Portanto, negativo eu acho que é o Sporting.
E houve também a questão de algumas altercações que foram sendo relatadas pelo Diogo entre jogadores e adeptos, que é algo que costuma ser natural quando as coisas começam a correr mal. Ainda assim, a dos adeptos sabemos que é uma realidade muito complicada, mas o profissional ali é o jogador, que também não pode deixar-se envolver nestas coisas.
Não, e é claro que há frustração e é claro que às vezes há injustiças. Enfim, e todos nós que temos algum perfil público, e não me estou a comparar minimamente.
Nem queremos.
Claro. Sabemos que de vez em quando alguém faz uma observação que não é nada justa, de pessoas que às vezes não estão por dentro de tudo, até as que eu estou a fazer aqui.
De vez em quando seja justa, às vezes o momento em que é dito também pode ser complicado.
Agora, bom senso para todos os lados.
E para terminar, o melhor é só mesmo para dar essa menção histórica.
Exato. Uma vez que o pior é o Sporting, o melhor é mesmo o Torreense, pela atitude, pela capacidade para acreditar numa altura em que o cenário era completamente desfavorável, porque recordo, o Torreense tem quatro jogos em 12 dias e três deles de importância capital. Vamos ver o que é que acontece na luta pela subida à primeira liga. Para já, esta equipa já marcou uma época, já marcou a história de uma competição. Mas volto a referir, acho que ganhar a taça é algo de histórico, mas é muito mais estrutural para o clube subir à primeira liga. E, portanto, vamos ficar à espera de ver o que é que acontece com o Casa Pia. Mas uma coisa é certa, o cansaço nas pernas acho que é largamente compensado com as emoções positivas.
Pelas pernas metafóricas que se criaram com esta vitória.
Pelo que o Jamor lhes traz de emoções positivas.
Luís Francisco esteve conosco para acompanhar a 86ª final da Taça de Portugal, assim é que é, que foi uma final inédita e também com grande história. Pela primeira vez, uma equipa de escalões inferiores ganhou a Taça de Portugal, vitória do Torreense por duas bolas a uma, frente ao Sporting, no Jamor. Vimos história e cá estaremos para o ano. Um grande abraço. Luís Francisco, gostei em receber-te.
Tá, até à próxima.