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Fica por aqui o sonho europeu do Sporting. Depois de ter passado nos sete primeiros na fase de liga e de ter chegado pela primeira vez na sua história aos quartos de final, sonhou com a chegada às meias, mas ficou pelo caminho frente a uma equipa, do Arsenal, que é primeira na Premier League e que volta a chegar a meias-finais da Liga dos Campeões pela segunda vez consecutiva e caiu apenas com um golo sofrido em casa, mesmo nos minutos finais. Conseguiu hoje também passar um 0 a 0 em casa deste difícil rival. O Sporting fica pelo caminho, mas deixou, não só nesta primeira parte, em todos os jogos destas eliminatórias, na primeira e na segunda parte de cada um dos jogos, bons sinais. Sinais de que é uma equipa que compete, que procura o gol, que é criativa na frente e que nem as melhores defesas têm tarefa fácil quando jogam contra este Sporting de Rui Borges.

É, mas o Sporting teve azar numa coisa, que encontrou uma equipa que se diria que não é bem uma equipa inglesa. Joga num estilo completamente diferente-

Italiana, quase

...mais italiana, mais cínica, mais reagrupada, mais defensiva para o ataque do Sporting.

E será essa a razão pela qual mais nenhuma equipa inglesa está nesta fase? Será porque o Arsenal está assim à italiana que chega aqui?

Provavelmente, e repara como é que o Farias também monta as equipas do Porto. Porque primeiro é preciso não sofrer e depois há capacidade para marcar. E o Arsenal é um bocadinho isso. Repara que em dois jogos, o Sporting, que tem um excelente ataque, não consegue fazer um gol. Mas também o Arsenal só fez um gol em dois jogos. O que isto quer dizer é que são muito resultadistas naquilo que é os seus objetivos.

E de alguma forma achas que o Sporting, pelas vezes e pelos momentos em que conseguiu ter o domínio do jogo, da bola, dos movimentos, achas que isso foi consentido por parte do Arsenal ou o Arsenal deixou de se surpreender ao todo nestas eliminatórias? Ficou também surpreendido com aquilo que é capaz a equipa do Sporting.

É um bocadinho das duas coisas, que isto é uma resposta muito politicamente correta.

E às vezes é verdade.

É, mas deixa-me dizer que eu acho que o estilo de jogo do Arsenal é realmente como eu já disse, toda a gente tem que defender. Até o Ødegaard, que no Sporting não vinha praticamente a quase defender e agora já vem defender.

No jogo contra o Everton, de resto, quando foi aquele gol do jovem, quem cortou essa bola de cabeça na área que nem o defesa central foi Ødegaard.

Exatamente. Tem essa cultura. Eu diria que às vezes o Arsenal deixa o adversário invadir o seu meio-campo para depois poder, quando ganhar a bola, ser rápido e dinâmico no ataque rápido. Quando realmente a equipa ganha a bola e a equipa adversária está organizada, sabem trocar a bola, não vão à procura do gol de qualquer maneira. Também sabem jogar devagar, devagarinho, parado, troca a bola, passa para trás, enfim, à procura de um espaçozinho em que possa depois poder penetrar na organização defensiva do adversário. Eu diria que este Arsenal, como vai jogar a meia final com o Atlético de Madrid, vão estar uma equipa uma para a outra. Ambas gostam primeiro a defender e depois é que tentam marcar. O Sporting, por sua vez, o Rui Borges disse aqui na conferência de imprensa, algo que nós já tínhamos reparado e que vem ao encontro daquilo que nós vínhamos tendo dito. Ou seja, o Sporting, quando às vezes não era rápido no ataque ou no contra-ataque, preferia mais o ataque organizado. Por que o Sporting fazia isto? E eu disse aqui, o Sporting devia ser mais rápido, devia ser mais incisivo, era para não partir o jogo. Disse Rui Borges. Ora, se é para não partir o jogo, tu não podes ter os ataques rápidos com a defesa lá atrás, o meio-campo completamente partido e o ataque muito na frente. Haveria ali muito espaço entre os setores e aí podia ser aproveitado pelo Arsenal. Mas isso é a estratégia do treinador do Sporting. Mas o Sporting lá está tal coisa. Mesmo assim, não sendo uma equipa muito pragmática no nível ofensivo, conseguiu criar as melhores oportunidades de gol. Tanto em Alvalade-

Teve uma bola na primeira parte. Teve nessa primeira parte, agora uma bola-

...como em Londres

Em Alvalade foi aquela bola do Maxi que era defendida por Raya, que foi à barra. E agora também na primeira parte, um lance, um cruzamento do Maxi Araújo também.

Maxi Araújo para o Jérémy Catena.

E no segundo posto.

E antes o Trincão já tinha feito um arremate que faltou-lhe a tal coisa.

Como de resto, o Maxi Araújo também na segunda parte voltou a faltar.

Exatamente, mas foi com o pé direito, aí até erra o desculpa. Mas eu diria que eu estou de acordo com o Rui Borges. Acho que mesmo assim, as melhores oportunidades acho que são do Sporting. E se nós repararmos no conjunto dos dois jogos, eu não vejo uma grande defesa do Rui Silva para dizer que salvou um gol ao Sporting. Eu vi sempre uma defesa do Sporting bem organizada e acima de tudo com uma característica que não é fácil encontrar nas equipas portuguesas quando jogas contra estas equipas, que nas bolas paradas são muito perigosas e onde o Arsenal faz imensos gols. Eu diria que o Sporting não deu qualquer possibilidade ao Arsenal, tanto em Alvalade como nos Emirates, de criar essas grandes oportunidades, a não ser um lance a acabar de troçar, em que realmente arrematou de um ângulo difícil, que a bola foi ao poste, mas diria que foi realmente aquele o único lance. Agora, tantos cantos, tantos livres que o Arsenal teve, não conseguiu criar essa superioridade. Mas diria que realmente ao Sporting faltou aquilo que é eficácia. Eu estou muito de acordo com o que o Rui Borges disse. Faltou realmente eficácia.

Faltou eficácia e não faltou também um pouco de ousadia nas substituições? Fomos falando aqui ao longo da emissão, Augusto Inácio, que talvez com a eliminatória neste estado, completamente perdida, independentemente do resultado com que saísse daqui, o Sporting até poderia sair daqui com dois ou três gols sofridos, mas podia ter tentado tirar um defesa central para lançar um homem na frente. Se o Rui Borges opta por não o fazer, entende-se que assim seja, para não partir o jogo mais uma vez.

Aí não ia partir o jogo, o que irias ter é menos uma unidade defensiva, eu tinha dito isso aqui, que entrava o Rafael Nel, já que era o único contra-lançamento que o Sporting tinha, e saía um central, precisamente para o Sporting jogar em 4-2-4 ou 4-4-2, como se queira. Esse acho que era o risco dos riscosAcho que faltou realmente um pouquinho. Agora, está sujeito a perder o jogo, porque mete-se bastante gente na frente.

É que mesmo naqueles lances finais também não houve Rui Silva a ir à área.

Não houve Rui Silva.

E ficámos todos marcados pelo evento turbinas da Liga dos Campeões e estávamos todos a pedi-lo.

A não ser o remate na parte final do João Simões, praticamente o Sporting também ali pouco ou nada. Porque as substituições que o Sporting fez, eu acho que partiu a clarividência que o Sporting estava a ter. Aquilo que era o passe, aquilo que era a desmarcação, aquilo que era a segurança, o Sporting perdeu muito isso, porque entretanto o Sporting foi recuando ao ponto do Arsenal poder instalar mais no seu meio-campo e quando era preciso cortar a bola, a bola ia para quem? Para os defesas do Arsenal. Por quê? Porque não estava ninguém na frente do Sporting. Eu diria que faltou esse pequeno grande risco que tem que se correr, independentemente de depois perder o jogo ou não.

Augusto Inácio, o Arsenal depois acabou por, nos minutos finais, retomar algum controle da partida. O Sporting teve esse lance de João Simões, mas foi trocando bola nesses quatro minutos que faltavam, sem grande capacidade, sem grande densidade. Tivemos também aqui já um Sporting a olhar para esta eliminatória mal parada e a querer gerir-se, a pensar nesse dérbi de domingo, ou isso não terá entrado na cabeça de uma equipa que hoje estava à procura de fazer história?

Não, eu acredito que não estivesse na cabeça dos jogadores esse jogo com o Benfica, porque o Sporting estava ainda a disputar esta possível eliminatória de chegar às semifinais. Não, o que eu acho é que realmente a forma como os jogadores entraram a frio, também no sentido de que o jogo estava em um ritmo já completamente diferente. E depois o Sporting jogar com três médios, coisa que às vezes só se tem quando é para defender e não para atacar. Eu diria que Geny Catano provavelmente estava desgastado e, para mim, é a unidade que mais desequilibra. Pote, ao contrário do que o Rui Borges diz, e eu acho bem que ele diga isso, defende o seu jogador, que é normal, mas nós somos comentadores e temos que dizer aquilo que vimos, acho que o Pote está muito abaixo daquilo que é o Pote e daquilo que é a sua envolvência no jogo.

E atenção que ter o Pote abaixo de forma, mesmo em termos de números de época, não quer significar que temos um Pote mal. Estamos também a falar um pouco daquilo a que o jogador nos habituou.

Exatamente. O Pote habituou-nos a um nível que a gente quer ver o Pote nesse nível. Quando o Pote não atinge esse nível, a gente estranha, porque há alguma coisa que não está a correr bem.

É a própria expectativa que o jogador lançou.

Exatamente. Por isso é que está catalogado como grande jogador. E o grande jogador é assim, tem uma marca e espera-se que chegue a essa marca. E se subir essa marca, ainda melhor. Quando baixa dessa marca, é um jogador que passa-se alguma coisa, não está a correr bem, vem da lesão, não está bem fisicamente. Mas Pote realmente não esteve naqueles seus belos dias. Eu diria, sinceramente, que fica qualquer coisa aqui de amargo, porque olha-se para os dois jogos, aos 180 minutos, mais os descontos.

Mas fica mais um amargo do que uma cabeça erguida ou é uma sensação partilhada entre o amargo e a cabeça erguida, Augusto?

A cabeça erguida está sempre. Está sempre que o Sporting cai de pé, mas fica aquela coisa: "Caiu de pé, mas..." Parece quase aquelas vitórias morais. "Jogamos muito bem, aquela vitória moral."

Há uns tempos dizia-se que aquela maldade que a jogaram como nunca, perderam como sempre.

Exato, como sempre. Mas eu acho que analisando bem a coisa dos dois jogos, eu diria que o Sporting perdeu uma grande oportunidade de estar nas semifinais. Embora fizesse uma grande campanha na Liga dos Campeões.

Augusto Inácio, esta noite no Emirates, o que é que foi para ti o pior?

Foi a falta de eficácia do Sporting. Tanto em Alvalade como nos Emirates. Bolas no poste. A bola tem que entrar, não é para bater nos ferros. Acho que faltou essa eficácia.

E o que foi o melhor, na tua opinião?

O melhor foi a grande exibição do Sporting nesse sentido coletivo, personalizado como equipa, que o Sporting demonstrou por esses relvados fora na Europa e neste caso aqui no Emirates, em Londres. Acho que o Sporting deixou uma grande imagem, não só do Sporting, como também do futebol português. E o Rui Borges falou, e bem. Acho que a gente não valoriza muito, às vezes, o futebol português e ele tem que ser valorizado, porque o Sporting demonstrou, o Porto está a demonstrar, o Braga também está a demonstrar, porque estão também nos quartos de final. Eu diria que nós temos que olhar um bocadinho mais para cima e não olharmos para aquilo que é a desvalorização daquilo que nós valemos. E também, nota destaque para a equipa observador, os adeptos do Sporting. Eu tenho que enaltecer isto, porque do primeiro minuto até ao fim, sempre acreditaram que o Sporting podia passar às semifinais e os jogadores do Sporting tiveram um apoio enormíssimo, não só daqueles que foram aos Emirates, mas aqueles que ficaram cá em Lisboa, onde eu vivo, que estavam a torcer muito pelo Sporting, sabes por quê? Porque acreditavam que era possível e tinham razões para isso.

Augusto Inácio, está feito e entregue o relatório de jogo deste Arsenal zero, Sporting também zero, empate que ditou a eliminação do Sporting da Liga dos Campeões. Nunca tinha chegado aos quartos de finais. Fica por cumprir o sonho de chegar às meias. Caso para dizer que há pro ano a mais. Um abraço, Augusto.