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Portugal 5, tivemos Uzbequistão 0, depois de uma primeira jornada de grande desilusão para a seleção nacional. A segunda, Gabriel Alves, Augusto Inácio, a começar por Gabriel, é de grande ilusão. Ficamos todos, como diriam os espanhóis, "llenos de ilusión".

Sim, mas não podemos ir do oito ao 80. Temos que ficar consistentes, temos que ficar objetivos. Temos que ficar emocionados, sim, mas também racionais. Viver a emoção, mas controlá-la. Eu sei que o futebol é utopia e é o que faz movimentar muito as emoções, os desejos e, obviamente, as bandeiras que temos todos dentro de nós. Foi, de facto, o regresso da seleção a uma alta competição, depois daquele primeiro jogo frente à República Democrática do Congo. Foi um regresso em várias dimensões naquilo que é o jogo bem jogado, naquilo que é a postura, a atitude, a intensidade, a dinâmica, aquilo que foi a projeção do treinador para o jogo, no estudo daquilo que era o adversário, os jogadores a cumprirem essa estratégia de forma bem evidente, com toda a entrega, com bom futebol, pondo à flor da relva a sua qualidade técnica e também a sua qualidade atlética, que é muito importante tê-la aqui bem presente. E isto porque hoje o futebol, independentemente de saber jogar com bola e saber jogar os pés, jogar a bola, tens que ter uma coisa que se vai notando com bastante intensidade, que é fisicalidade. Portanto, cabeça é importante. Ter bons pés é importantíssimo. Ter físico também é importante. E ter atitude também é. Toda esta conjugação de fatores no ser humano que faz um futebolista de qualidade, jogadores de alta competição, militar em grandes campeonatos, em grandes clubes e que se juntam à volta da bandeira nacional, da bandeira portuguesa, nesta seleção, hoje estiveram muito bem em Houston. Ganharam, conseguiram desbloquear completamente aquilo que era a estratégia de uma equipa que era a sua adversária, que criou problemas ao outro adversário do grupo, que é a Colômbia, que é uma boa seleção, e a verdade é que Portugal dominou e concretizou. Especial atenção, porque a bola cai sempre nele. Cristiano Ronaldo, tão criticado ao final do primeiro jogo, olha, está nas redes do mundo, ao nível planetário, por tudo que é digital. Olha, tudo que é informação. Ele disse para as câmeras, quando passou por elas no final do jogo: "Estou de volta." É o que corre o mundo.

E agora é fazer todas as mezinhas possíveis e rezar para que não vá embora. Grande prestação de Cristiano Ronaldo, mas também da equipa como um todo, que hoje apareceu muitíssimo mais ligada, cheia de jogo interior, com variações também para os flancos. Muito interventiva toda a equipa no jogo de hoje, um belíssimo jogo da seleção nacional, a deixar água na boca para o que aí vem enfrentar a Colômbia.

Eu estava com algum receio deste jogo, por aquilo que o Uzbequistão tinha feito no jogo com a Colômbia, que deu uma luta danada aos colombianos. Tiveram os colombianos que, como se costuma dizer, dar a caneta para chegar à vitória. Eu estava com algum receio de que Portugal, se entrasse da mesma forma como entrou no jogo com a República do Congo, iria ter muitas dificuldades. O que é certo é que Portugal teve um nível de jogo que dá e volta a esperança a todos aqueles que querem que a seleção ganhe, como nós aqui e de certeza absoluta todos os portugueses, de que esta exibição, pode-se dizer, Portugal está de volta. E Portugal está de volta, está de volta a equipa, está de volta também Cristiano Ronaldo, que é o símbolo máximo da seleção nacional. Tanta crítica que Portugal recebeu e, acima de tudo, Cristiano Ronaldo, não só a nível nacional como a nível internacional, que agora merece, à mesma medida, os elogios em relação à crítica que lhe foi feita. Por isso, o Cristiano Ronaldo fez um belíssimo jogo, a seleção nacional no seu todo fez um belíssimo jogo. Viu-se que Portugal não tirou o pé do acelerador, Portugal mandou sempre no jogo, Portugal não deu qualquer voleidade ao Uzbequistão e isso demonstrou um respeito enorme, não só por este adversário, como o seu próprio respeito. Ou seja, tu só consegues ser grande quando tu olhas para o adversário e o consideras com respeito. E assim consegues ganhar de uma forma convicta e convincente e que abre perspectivas e de que maneira que Portugal, no jogo com a Colômbia, possa também repetir a exibição. Agora, claro que as dificuldades vão ser provavelmente diferentes, outras, mas que o ambiente que se respira é agora muito mais leve do que aquele antes deste jogo.

Mas Roberto Martínez disse uma coisa interessante na conferência de imprensa, que foram precisamente estas primeiras dificuldades, estas primeiras dores do mundial, que deram este elã à seleção, que estas dificuldades vividas no primeiro jogo se vão acabar por revelar muito positivas. Disse também que uma equipa que ganha o mundial não é aquela que melhor joga, aquela que mais limpo faz o caminho, é aquela que consegue debelar melhor as dificuldades. Ficamos agora com a esperança de ganhar o mundial. Da última vez, ficamos aqui um bocadinho com aquele espírito de quem é tirado óleo ao chão. Agora, pedimos passar de oito para 80, fazendo aqui o que disse o Gabriel.

Não, eu diria que o Roberto Martínez sabe jogar com as palavras, e sabe jogar com o momento e com as situações em que está a viver. Repare numa coisa: Portugal está a ganhar 1 x 0 à República do Congo e no final do jogo, na conferência de imprensa, o que é que o Roberto Martínez disse? Disse que Portugal ficou com pressão a mais por estar a ganhar por 1 x 0. Pressão a mais por estar a ganhar 1 x 0? Então quando devia ficar livre, porque Portugal conseguiu fazer um gol cedo, não vejo onde é que está a pressão a mais. Pressão a mais, nesse sentido, era o jogo de hoje, porque Portugal tinha que ganhar o jogo para poder respirar um bocadinho melhor. Mas diria, e o Gabriel Alves já tocou nisso, e bem, nós realmente ganhámos o jogo, mas ganhámos só um jogo. Ganhámos um jogo que nos vai permitir passar à fase seguinte, não sabemos se em primeiro, se em segundo, se em terceiro lugar.

Falta ainda o jogo com a Colômbia.

Falta o jogo com a Colômbia, mas o que é certo é que Portugal deu um primeiro sinal de que realmente está a voltar ao seu nível. E dentro dessa perspectiva, as pessoas ficam mais confiantes. Eu fico mais confiante. Já disse e reafirmo, e não tenho medo das palavras, antes do jogo, eu estava com muito medo do jogo.

Eu lembro-me da primeira pergunta que te fiz, ainda estavas sentado à porta.

Eu estava com medo do jogo.

Estávamos todos um bocadinho, não é? É normal depois de uma primeira jornada destas.

Eu expresso-me assim, desta maneira tão direta.

E nós gostamos muito.

Eu estava com medo do jogo, mas o que é certo é que comecei a ver os primeiros minutos e depois de Portugal ter ganho, fiquei naquela assim: "Ó Portugal, não tires o pé, porque se tiras o pé, vais cometer o mesmo erro da República do Congo". E o que é certo é que Portugal dominou, construiu, as alterações fizeram um jogo muito mais dinâmico, muito mais intenso, muito jogo entre linhas, muito jogo em que o João Félix teve um papel muito grande, o Pedro Neto também. Eu diria que o Bruno Fernandes esteve mais solto, o Vitinha comandou aquele meio-campo e tivemos aqui uma coisa que eu não esperava que fosse até ao fim, que é o Nuno Mendes. Eu estava com medo que o Nuno Mendes, por causa da sessão de esforço, tinha saído no último jogo, em que se falou que foi uma gestão, que saiu por gestão. E eu digo assim: "O Nuno Mendes vai se resguardar ou vai sair". Não, ficou até o fim. E o Cristiano Ronaldo também vai sair, vai ser poupado. Ficou até o fim. Eu compreendo o Cristiano Ronaldo ter ficado até o fim.

Para responder às críticas.

Exatamente. Mas eu diria que Portugal tem um lote de jogadores que faz com que o selecionador possa optar por essa ou aquela estratégia, porque a qualidade está lá. É preciso é pôr essa qualidade ao serviço da equipa e hoje Portugal esteve assim.

E a verdade é que Nuno Mendes estreou a marcar em Mundiais e de belo efeito, gol batido de livre, um livre em que Cristiano Ronaldo fez um enorme trabalho também de ator. Esteve muito concentrado, com cara de quem ia bater o livre, mas acabou por deixar para o colega. Fica também esse dado positivo do comportamento do Ronaldo, num jogo em que bateu o recorde de Mundiais seguidos a marcar. É o primeiro jogador de sempre a marcar em seis edições do Campeonato do Mundo e num jogo em que também superou Eusébio como o melhor marcador da seleção nacional, depois de ter feito o nono gol, que foi o primeiro gol do Ronaldo no jogo. Ao chegar ao segundo gol, Ronaldo fez 10, ultrapassou Eusébio, um jogador que Portugal jamais esquecerá. Falava-se em decadência. Hoje o dia foi de ascendência e, na verdade, é um carrossel isto, Gabriel Alves.

É um carrossel e a verdade é que Cristiano Ronaldo tem, sem sombra de dúvida, por aquilo que é o seu valor, o seu trabalho, a sua dimensão, os seus anos ao serviço do futebol e da sociedade, os olhos do mundo. Há 20 anos eram jovens, hoje são homens e mulheres maduras. Hoje há jovens que vão ser homens e mulheres maduras, que daqui a uns anos olham Ronaldo e se calhar aqueles que eram jovens há 20 anos, já são além de pais, são avós, etc.

Há uma certa sensação de filiação a Cristiano Ronaldo.

É, de envolvência.

E talvez também daí a dureza das críticas. Nós criticamos mais duramente quem amamos, muitas vezes.

Sim, também é verdade. A verdade é que Cristiano não é por acaso que hoje está, depois desta partida, estava já antes e ainda mais ficou depois desta partida, porque havia este espectro que é preciso também termos aqui em nota. O Messi fez um hat-trick e já fez mais dois gols, cinco gols. Messi, durante os últimos 20 anos, tem sido ele e Cristiano, os grandes competidores daquilo que é o futebol ao nível individual, em termos mundiais, não descartando outros grandes nomes como Mbappé.

Eles dois mexeram com o mundo do futebol.

Exatamente. Eles viraram o mundo do futebol, melhor dizendo. E com este predicado, porque jogaram em Espanha, em duas províncias completamente rivais, que é Catalunha e Castela, e depois em dois clubes, que são o Barcelona e o Real Madrid. Cada um num pom completamente diferente, onde a competição não era só deles, era deles e dos clubes e dos povos que naturalmente os envolvem. Tornaram o mundo enorme. E a verdade é que Messi já tinha marcado três, marcou mais dois e Ronaldo, enfim. Depois Mbappé também já a marcar. E depois há esse, com todo o carinho e com todo o respeito, essa besta chamada Haaland, já leva quatro. E tudo isto, naturalmente, mexe, porque são grandes nomes. E cadê Ronaldo? Cadê Ronaldo? É o que diziam bilhões. Ronaldo não está. Olha.

Apareceu.

Estou de volta. E a verdade é que não aparece só com os gols. Aparece com os gols, com uma boa exibição, mostrando qualidade técnica, qualidade física, qualidade tática, mostrando que de fato é o Ronaldo. Agora, o Ronaldo de hoje não pode ser o Ronaldo quando tinha 20. O Ronaldo não pode ser aquele Ronaldo que marcou três gols à Suécia quando aquilo tudo estava perdido. O Ronaldo não pode ser, nem vão pedir isso mais ao Ronaldo. Também não se pode pedir hoje, e não se pede, eu tenho lido muita coisa interessante sobre esse assunto, que a Argentina dependa do Messi. Não! A Argentina tem que depender dela. O Messi é só mais um que influencia positivamente o jogo. É isso que tem que se pedir exatamente ao Cristiano Ronaldo, não ser dependente, porque já ser dependente já é mau, porque um grande jogador, seja em que modalidade for, é importante. É o tal jogador diferencial, aquele que está tudo apertado e pode numa jogada fantástica acabar por resolver o assunto. Mas ele tem que ser jogador da equipe. Ele é influente na equipe, porque quando passas a ser dependente dele Vai ser difícil. Eles marcam os golos e é isso que o povo gosta, porque se as defesas ganham campeonatos, os jogos são ganhos com gols. E quanto mais goleadores, quantos gols mais bonitos houver, aí é que o mercado está. Está lá o mercado. Por quê? Porque está lá o povo, o povo do mundo.

Deixa-me dizer que há uma coisa que eu acho um bocadinho injusto.

O quê?

O Cristiano Ronaldo, neste momento, é o melhor marcador da seleção nacional nos mundiais.

Em mundiais. Dez gols, mais um que o Eusébio, que tem nove.

Aí é que está a diferença, é que o Eusébio só fez um mundial.

É verdade.

E isso acho que é injusto.

É injusto estar a colocar este recorde e tirá-lo assim.

Estar a dizer que bateu o recorde do Eusébio.

Eusébio continua a ser o recordista de gols marcados em um só mundial.

Sim, mas dizer que ele ultrapassou o Eusébio, acho que não é justo, porque o Eusébio só fez um mundial e Cristiano Ronaldo tem muito mais mundiais.

E acho que fica muita justiça também feita com essa nota, Augusto Inácio, para finalizarmos aqui a sentença deste jogo, o melhor e o pior, na tua opinião.

Se no primeiro jogo houve muita coisa que foi o pior e pouca coisa que foi o melhor, hoje eu diria que o pior não existiu. O pior hoje não há.

Nem a capacidade da equipe uzbeque para nada tal como se prevê.

O mérito é nosso, o mérito é da nossa seleção, mas o melhor da seleção nacional é a ideia que dá, temos Portugal de volta, o jogo que Portugal fez, os gols do Cristiano Ronaldo, mas acima de tudo, o grande jogo que Portugal fez hoje do trabalho de casa nas bolas paradas. Acho que está ali muito trabalho investido, que deu resultado e que provavelmente deve estar a preparar outro tipo de trabalho, outro tipo de estratégias, porque cada canto, cada livre, lateral, central, frontal, pode ser uma ideia diferente, mas eu diria que Portugal hoje aproveitou esses momentos para dizer: "Nós aqui não estamos na praia, nós trabalhamos."

Para fechar, Gabriel Alves, o melhor e o pior da noite de hoje neste triunfo de manita de Portugal frente ao Uzbequistão.

Manita 5 x 0, quero dar 66% de posse de bola e, atenção, 624 passes certos, 90,1%. É obra. Isto quer dizer, para mim, o melhor e o pior. Vou só dizer o melhor. O coletivo liderado por CR7.

Está feito e entregue o relatório de jogo com duas assinaturas, a do Gabriel Alves e também do Augusto Inácio, desta vitória de Portugal na segunda jornada do grupo K, cinco bolas a zero frente ao Uzbequistão. Relatório de jogo com a análise de Gabriel Alves e Augusto Inácio à vitória portuguesa frente ao Uzbequistão vai ficar disponível em observador.pt e nas plataformas de podcast já daqui a pouco. E já daqui a pouco também vamos regressar a esta emissão especial de desporto para ouvir o Pedro Henriques em mais uma edição do "Sem Falta" especial mundial, para analisar o trabalho da equipa de arbitragem, hoje liderada pelo marroquino Jalal Jayyid.