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Nós gostaríamos de falar sobre esta denúncia que surgiu do clima de pressões e restrições. Eu gostaria de lhe perguntar: tendo em conta estas acusações, quem é que está a condicionar os jornalistas?
São várias pessoas. Primeiro, da parte das assessorias que representam o governo regional, de notícias que nós damos e depois ficam incomodados. Por exemplo, dou um caso muito concreto, quando tivemos conhecimento de que o briefing ia ser cancelado porque o secretário da Saúde estava no Porto Santo, noticiamos e eu também noticiei em direto e houve logo o incômodo com telefonemas a perguntar por que aquela notícia tinha que sair. Aconteceu de forma velada, nunca tinha tido essa experiência de alguém ligar e de fazer estes comentários com as chefias e dos jornalistas que publicaram. E depois a questão de notícias que foram confirmadas quando foram acionados os canadair da Força Aérea Espanhola, por exemplo, o Diário de Notícias, isso eu confirmei antes de enviar o comunicado para ter a certeza. Essa notícia tinha sido confirmada, já se saberia que esses dois e-mails iam vir e de repente houve vários departamentos do governo que se apressaram a dizer que era mentira, que isso não era bem assim, que era errado, quando duas horas depois essa notícia acabou por ser confirmada. O que eu acho e que te posso dizer é que o midiatismo nacional está tão centrado nisto, que acho que a gestão do incêndio não foi a melhor. E como há um grande midiatismo e uma grande pressão, eu penso que a primeira coisa que fazem é logo condicionar. "Isso não é bem assim, essa notícia não está correta, carece de confirmação", quando depois vem-se a confirmar que o assunto já estava a ser negociado um dia antes. Portanto, essas são as situações mais concretas. Outras situações é o acesso aos lugares. Parece que há aqui um certo bloqueio, no início, de falarmos com as pessoas, de recolhermos depoimentos e situações de que as estradas foram encerradas com dois quilômetros de distância quase do acontecimento. E todas essas situações acabam por impedir que o jornalista esteja no local, esteja a falar com as pessoas, esteja a testemunhar, porque a mim o que me parece é que tentaram fazer com que o jornalista não reportasse aquilo que estava a ver e daí afastasse um pouco da situação, do local, neste caso, do incêndio. Por exemplo, no caso do Curral das Freiras, quanto mais afastado nós ficávamos, mais distante víamos o incêndio, mais distante víamos os operacionais. E essas situações complicaram o nosso trabalho. E eu entendi. Eu ainda ponderei como direção, falei com a minha equipa, ponderei se devia ou não vir a público, porque ainda há Serra a arder, há ainda muito trauma, há famílias que ainda não regressaram a casa, mas eu acho que temos que atacar este problema de imediato. Desculpa que eu estou a estender, mas eu acho que há duas realidades. Há uma realidade daquilo que é passado nas conferências de imprensa e outra realidade dos repórteres que estão horas a fio sem sair do local, muitas das vezes sem comer, para testemunhar. Eu acho que são essas duas realidades, uma das conferências de imprensa e outra daquilo que o repórter está a noticiar. Como recebi muitas denúncias, muitas queixas, muitos camaradas a dizer que estavam a ser condicionados, que não conseguiam chegar aos locais, que as estradas eram encerradas, que depois podiam passar uns, mas depois a comunicação social não pode passar. E depois estamos com dualidade de critérios, por quê? Quando o dever máximo tem que permitir que o jornalista possa noticiar. Portanto, são essas situações que há dois dias aconteceram e que achamos e entendemos que devíamos tornar público e denunciar.
E sentiram algum tipo de restrição, por exemplo, diretamente do presidente?
Não, do presidente não, até porque ele também esteve de férias no Porto Santo. Mas não, diretamente do presidente, não. Vou dar um caso muito concreto. Por acaso aconteceu comigo e também aconteceu com uma colega da CNN. Quando disseram que eu tinha que sair dali daquela zona, eu perguntei se as pessoas iam ser retiradas. Eu ainda pensei que era o perigo iminente, que as chamas iam descer e a comissária que estava no local encolheu os ombros e disse: "Não". E eu disse: "Mas até onde é que eu posso ficar em segurança para fazer o meu trabalho?" "Tem que me seguir." "Mas vai encerrar a estrada?" "Não, tem que me seguir, por favor, siga-me." E depois eu não gostei desta abordagem e disse: "Vou acabar de fazer as minhas entrevistas e já continuo." Mais à frente, estávamos a tentar falar com as pessoas e disseram: "Têm que sair porque recebemos ordens que a comunicação social não pode estar aqui." Era só a comunicação social. Portanto, isto é das duas, uma: ou é um descrédito do nosso trabalho ou então é tentar impedir que nós estejamos a fazer o nosso local. Ou seja, não é diretamente do governo, é mais por assessorias, assim uma forma não tão evidente e tão clara.
Então acha que os principais interesses para restringir os jornalistas é não trazer a realidade cá para fora?
É não mostrar que em certas zonas o incêndio está descontrolado e que não há pessoas e meios lá no local a atuar. Porque houve o caso do Curral das Freiras, em que os jornalistas estavam lá quase de plantão, acompanhando a serra toda a arder. E se forem ver os diretos de todos os jornalistas da televisão, dizíamos: "Há o perigo das chamas chegarem ao Pico do Arieiro". Basta só fazer uma pesquisa nos diretos que foram feitos, RTP, SIC, TVI, e nós estávamos a dizer: "As chamas podem chegar ao Pico do Arieiro". E depois, quando a situação começou mesmo a preocupar, porque o presidente da Câmara veio a público dizer que estava preocupado e que precisava de mais meios, aí a situação começou a ficar um bocadinho descontrolada e foi aí que não quiseram jornalistas perto, pelo menos para assistir a tudo aquilo que estava a acontecer no terreno, para não dar azo de que tinha havido um descontrole e que a comunicação social estava a passar essa imagem. É um pouco branquear e não mostrar que se este incêndio tivesse sido gerido de outra forma, se o apoio nacional tivesse sido aceito logo de início, as coisas não chegavam até agora. Eu acho que é um pouco não mostrar que houve um descontrole e os jornalistas acabam por sofrer essas consequências.
E deixe-me perguntar-lhe, alguma vez sentiram alguma situação semelhante ou isto foi mesmo a primeira vez?
Há muitos anos, na altura que era o presidente do Governo Regional, Alberto João Jardim, nós sentíamos um certo clima de medo, uma crispação. O próprio presidente tinha uma relação com os jornalistas muito hostil, tratava-nos muito mal, fazia um clima de medo para nos intimidar. Depois, a situação com este governante, no início, melhorou um bocado, nós podíamos fazer o nosso trabalho. Só que neste incêndio, eu não quero estar enganado, e estou a falar também da minha experiência, sou jornalista há 20 anos. Eu quero crer que nunca me aconteceu, pelo contrário, se não fossem alguns bombeiros que nós conhecemos a nos darem indicações: "Olha, que isto pode progredir para..." Ou alguma pessoa que vem ter conosco e que diz: "Eu digo, mas eu não posso aparecer." Nunca aconteceu, porque noutras situações há sempre alguém disponível para prestar declarações. E já agora, se quiserem perceber mais o que eu estou a dizer, para ver o quão condicionado isto está, se repararem, são os próprios presidentes de Câmara que estão a dar as informações do que está acontecendo no local. E são eles que têm esta proximidade com o jornalista que está a dar a informação a pari passu. Eles quase que nem têm intermediários. Se não fossem os presidentes de Câmara a nos dar as indicações e a dizer: "Estamos convictos que não há mais aqui", nós não conseguiríamos ter essa informação. Eu quero parecer, e tanto quanto me recordo, eu acho que é talvez a primeira vez que a situação seja mais, eu não sei se é um excesso de zelo, eu não sei se é porque há muitas pessoas a mandar no terreno, eu não consigo perceber se é descoordenação, mas estes incêndios, e eu já estou no terreno desde quinta-feira de manhã, quando ele se propagou da quarta pra quinta, eu não me lembro de haver assim tantas restrições, de bloquearem, de não permitirem. Pelo contrário, às vezes até nos facilitavam. Portanto, quer me parecer que talvez seja uma situação recente, inédita, quase, mas não tenho muita certeza. Mas assim que eu tivesse recebido tanto feedback da parte dos colegas, eu penso que esta é uma situação que nunca me tinha apercebido, nem nunca tinha passado com tantas restrições brutais.