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Nuno Galopim, antes de mais, muito obrigada por estar aqui a ajudar-nos a recordar o Marco Paulo. Começo por lhe perguntar: quem é que foi para si o Marco Paulo?

Quem foi para mim o Marco Paulo? Essa é uma pergunta tão abrangente, mas vamos em vários frentes. Para já, foi alguém com quem eu tive profissionalmente a oportunidade de contactar já numa etapa tardia da sua carreira, porque apesar de desde miúdo conhecer os seus discos, eu só fiz um primeiro trabalho sobre o Marco Paulo, que é há uns cinco anos, por ocasião de um momento em que estava a fazer uma série para a RTP1, o "Vejam Bem", uma série sobre as histórias dos músicos contadas na primeira pessoa, e fui à casa do Marco Paulo gravar a entrevista que serviu de base a esse mesmo documentário. Só aí o conheci pessoalmente e depois, curiosamente, encontramo-nos, cruzamo-nos mais vezes, sobretudo à volta dos espaços da televisão pública. Agora, para mim, enquanto ouvinte de músico, comprador de discos e alguém que segue desde muito cedo na minha vida o fenómeno da edição discográfica, foi alguém que, para já, e estou a reportar-me ao meu tempo de vida, entra em cena com grande popularidade numa espécie de contraciclo do que era a comunicação do que se fazia na música portuguesa de então. Se recuarmos ali assim a 1980, que é o ano em que o Marco Paulo tem o seu primeiro grande êxito. Não é o primeiro êxito. O primeiro êxito é o "Ninguém, Ninguém", em 78, que era um lado B. Não era a canção destinada a ter sucesso e acabou por ser a canção que teve sucesso, porque era claramente melhor do que o lado A. Era uma grande interpretação. Ele ainda tem um segundo single já com um relativo patamar de sucesso no ano seguinte, "A Mulher Sentimental", mas o boom dá-se em 1980 e toda a gente se lembra do "Eu Tenho Dois Amores". Agora, se falo de contraciclo, por quê? O que é que estava nessa altura a ser o espaço de maior comunicação da indústria discográfica portuguesa, ao mesmo tempo a ser escutado nas rádios e a passar pela televisão? Era uma emergente nova geração de artistas de pop rock. Falava-se do boom do rock português. Era isso que estava na linha da frente das atenções. E de repente surge aqui alguém com uma canção que, apesar de um arranjo com eletrônicas e uma batida disco, e vale a pena ouvir de novo o "Eu Tenho Dois Amores" para reconhecer que isso lá está. Ele estava, sobretudo, a devolver também focos de atenção a um espaço que tinha perdido algum protagonismo na comunicação da música nos anos mais recentes, a canção ligeira portuguesa. E foi aí que, de facto, ele começou a dar os seus primeiros passos, discograficamente falando, quando grava o seu primeiro single, na verdade, um primeiro EP em 1966, e daí em diante, toda a obra do Marco Paulo se faz no espaço da canção ligeira, algo alicerçado na capacidade interpretativa de uma grande voz e depois de um trabalho sábio de um produtor que soube escolher as canções para atribuir a uma voz que não compunha nem escrevia. Houve algumas canções inéditas, ou seja, houve alguns originais entregues à voz do Marco Paulo. Uma delas, por exemplo, foi o "Sou Tão Feliz", a canção com a qual ele assinala em 67 a sua primeira passagem, e não muito feliz, pelo Festival da Canção. Maior felicidade tiveram outras que ele gravou mais à frente, mas já por essa altura, a editora percebeu, ou quem trabalhava na editora, sobretudo o produtor Mário Martins, que com letras traduzidas para português, adaptadas à voz do Marco Paulo, e depois com o passar dos tempos também a uma identidade artística que ele foi talhando, essas letras, essas versões em português de canções de autores internacionais podiam, nas versões do Marco Paulo, ser sucessos discográficos entre nós. E assim foi. Bom, e se no início de carreira ele canta o "San Francisco" do Scott McKenzie ou em dueto com a Simone de Oliveira, o "Something Stupid", que era do Frank Sinatra, cantado originalmente com a filha Nancy, mais à frente, e com capacidade de perceber o que é que podia ser sucesso na voz do Marco Paulo, o Mário Martins traz canções como o original do "Eu Tenho Dois Amores". Vinha de um autor grego, tinha sido até um lado B num single de uma banda que tinha passado pelo Eurovisão representando a Grécia, mas com um novo arranjo e uma nova letra e na voz do Marco Paulo, essa e outras canções foram grandes sucessos entre nós. Não quer dizer que o Marco Paulo não tenha voltado a cantar também versões de grandes sucessos internacionais. Fê-lo, por exemplo, em 1981 com o "Só Falei Para Dizer Que Te Amo", nada mais, nada menos do que uma versão do "I Just Called to Say I Love You" do Stevie Wonder, que foi um dos êxitos maiores à escala internacional desse ano. Mas grande parte dos êxitos que o Marco Paulo foi somando entre 78 e a década de 90, é a fase de maior popularidade em termos de mercado de single, e foi no mercado de single que ele, de facto, somou números astronômicos, mais adiante faria também o mesmo com os álbuns. Grande parte dessas canções eram canções internacionais de artistas, uns mais conhecidos do que outros, o Udo Jürgens, Áustria, foi um deles, mas que com o poder da interpretação e novos arranjos e letras traduzidas para português, tiveram aqui sucesso.

E tem alguma memória particular sobre o Marco Paulo?

Nós quando procuramos memórias, tentamos sempre fazer com que haja uma espécie de cruzamento entre o percurso das nossas vidas e os protagonistas dessas memórias. Isso eu tenho memória desde muito cedo, ouvir os singles, porque estão inscritos na nossa memória coletiva. Os êxitos que o Marco Paulo tem a partir de 78, a partir do "Ninguém, Ninguém", eu acho que não há nenhum português que tenha tido ouvidos atentos à música naquela altura, gostasse ou não das canções, que não as conheça, que não as reconheça. Pois, apesar dessa vivência feita de single atrás de single, sucesso atrás de sucesso, que fui escutando e confesso na altura, não comprando, só comprei os discos do Marco Paulo mais tarde quando trabalhei o documentário que fiz sobre ele, e aí com um interesse em procurar na discografia o storytelling que ali podia estar para ser contado. Mas se eu tenho memória com o Marco Paulo, acho que é do dia em que o visito em casa para gravar essa entrevista, que foi a medula central, ou seja, a medula estrutural do documentário, e a dada altura ele aproxima-se de um espaço na sua sala onde podíamos ver três paredes cheias, mas cheias, repletas de discos de platina, discos de ouro, discos de prata, e do Marco Paulo me dizer: "Nuno, o que está aqui são 4.500.000 pessoas que me levaram para casa". E de facto, a presença daqueles singles de platina, de ouro e de prata nas paredes da casa da sala do Marco Paulo davam conta da forma como este artista, a sua voz, as suas canções, de facto, passaram a estar representadas nas casas de muitos portugueses. E esse patrimônio de sucesso, que se transformou depois, de certa forma, numa memória coletiva, é isso que faz com que hoje, no dia em que ele nos deixa, todos o estejamos a lembrar.