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A mãe e os irmãos estão em Portugal, mas o resto da família não. E os amigos que deixou há 10 anos também não dão notícias, não têm como fazê-lo.
Neste momento, o Talibã fechou todas as maneiras de como podes comunicar no Afeganistão, porque 20 anos antes também os talibãs, quando apareceram no Afeganistão, fecharam todo o tipo de tecnologia, dizendo que isso é a tecnologia do diabo, mas usam arma para matar as pessoas.
No Afeganistão dispensa-se a tecnologia do século XXI, mas não as armas. Farid Walizade vive em Portugal há 10 anos, desde os 14. Foi logo em 2013 que se tornou campeão nacional de boxe. É universitário, tem uma bolsa de estudos cedida pela equipe olímpica de refugiados. Falhou o apuramento para Tóquio 2020 por causa de uma lesão. O pugilista vive em Lisboa com estatuto de refugiado, mas nos últimos dias tem o pensamento mais longe, a quase 9 mil km de distância. E no dia em que os talibãs tomam conta do último refúgio do governo afegão, o desespero sobe.
Não sabemos quem está vivo, quem está morto, porque não sabemos nada.
Diz que tem a rádio do Afeganistão sempre ligada para saber se algum dos amigos ou familiares morreu, mas os nomes das vítimas já não passam no éter.
Eu, neste momento, todos os dias, 24h, estou ouvindo a rádio Ariana, rádio Afeganistão. É ouvir se passa o nome de algum dos meus familiares ou passa alguma pessoa que eu conheço. Só que agora já não aparece nomes, o número dos mortos é tanto que agora só passam números.
Frustrado, afirma que não tem como pedir ajuda. As embaixadas vão deixando o país e o resto do mundo parece estar em silêncio.
Seu mundo, seu NATO, seu resto, não ajuda nada o Afeganistão, e isso vai demorar. Acabam todos os direitos humanos, que já estão desaparecendo.
Farid não tem dúvidas do que está em causa com a ofensiva talibã.
Nós, neste momento, o Afeganistão está indo 20 anos para trás.
E recupera a memória daqueles que lhe foram contando como era a vida sob as regras dos fundamentalistas islâmicos no país.
O que é que fizeram? Depois de uma semana, começaram a abrir o estádio de futebol e matar as mulheres. E depois começaram com artistas, com músicos, com os cantores. As mulheres vão ser violadas. Quem não deixar ser violada vai ser morta no meio do povo, vai ser apedrejada. É esse que é o futuro do Afeganistão neste momento.
O futuro do Afeganistão, prevê Farid, ele que deixa duras críticas ao presidente Ashraf Ghani por ter abandonado o país.
Esse é um líder covarde, um líder da porcaria, um líder nunca deixa sua terra de fugir. Um líder que deixa sua terra não é líder. Ele é a pior coisa que existe no mundo, porque deixou um povo sozinho, sem conseguir lutar.
Sozinho e sem conseguir lutar. É também como se sente Farid. Agora só espera respirar de alívio com boas notícias vindas de um país a 9 mil km de distância, mas teme que essas nunca cheguem