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Pedro Neto, ontem depois da conquista de Cabul pelas forças Talibã, vimos milhões de deslocados, milhares de pessoas a tentar fugir da capital do Afeganistão. Depois analistas políticos, como Paulo Portas, apontou aqui para a possibilidade de estarmos perante uma nova crise de refugiados à porta da Europa. Eu perguntava-lhe se este cenário é realista e qual pode ser o impacto da conquista do Afeganistão pelos Talibã nos países ao redor do Afeganistão.
Sim. De facto, com todo o respeito pelos analistas políticos e pelo Paulo Portas, que utilizou a expressão, eu creio que uma crise de refugiados não acontecerá, porque os refugiados ou as pessoas que estão a fugir porque não têm condições para viver nos seus locais de origem, são as vítimas, não são a causa da crise. O problema é outro. O que haverá é uma crise de liderança se não houver formas de acolhimento célere, eficaz, que possam acolher estas pessoas. E aí sim, será uma crise, mas de liderança. A juntar à crise que já está a acontecer no Afeganistão e que não é nova. Há aqui uma nova conjuntura que se está a adensar e problemas que estão a escalar, que é uma transição de poder que não é democrática e que escala ainda mais os abusos de direitos humanos que já existiam, que não são recentes e que agora estão a uma escala muito maior e generalizada. Já antes a Amnistia Internacional reportava problemas de abusos sobre mulheres, a questão de crianças-soldado que eram crianças recrutadas, quer da parte dos Talibã, quer da parte das forças militares governamentais. A questão de abuso de mulheres, violação, obrigá-las a casamentos forçados, já existia e estamos a monitorizar que esse problema vai escalar ainda mais no Afeganistão. Toda esta crise que tem uma localização, que tem razões e cujos países e as autoridades internacionais não são alheias e contribuíram até para isso. Não falo só dos Estados Unidos e dos aliados, falo também da União Europeia, até de Portugal, da sua estratégia de intervenção e trabalho diplomático, da Rússia, da China. E até podemos ir à história e perceber que os Estados Unidos e os Talibãs já foram aliados no tempo da Guerra Fria contra a União Soviética. E portanto, o problema não é novo, as causas dele também não. E falar de uma crise de refugiados que pode vir a acontecer parece-me incorreto, porque os refugiados, no meio de toda esta panóplia de acontecimentos e de razões muito complexas, são as primeiras e as maiores vítimas. Oxalá não haja uma crise de liderança no acolhimento destas pessoas, tal como houve uma crise de liderança na intervenção do Afeganistão, na intervenção internacional. Os Estados Unidos foram em 2001, mas o problema é ainda mais antigo.
Pedro Neto, pegando aqui nas suas últimas palavras, eu perguntava-lhe, portanto, no seu entender, fica um pouco afastada a possibilidade de haver aqui um grande aumento do influxo de migrantes do Afeganistão a procurar a Europa como um porto seguro. Isso pode não vir a acontecer, dado com a explicação que nos teve a dar?
Sim, eu acredito que pode vir a acontecer. A minha questão e aquilo que eu refuto é o termo crise de refugiados. Colocar nos refugiados aqui o foco num problema, quando não são. Eles são as vítimas e são as pessoas que teremos que ajudar se cá chegarem. Aquilo que vai acontecer, e que já há sinais disso, é as pessoas estarem a tentar sair do país. E em primeiro lugar, são os países que fazem fronteira com o Afeganistão e que estão mais próximos geograficamente. O Irão, o Paquistão, entre outros. Depois, claro, as pessoas quererão refazer a sua vida e quererão ter oportunidades e procurarão chegar a países onde entendem que isso é possível de acontecer. E geograficamente, a Europa também está mais próxima como terra para as pessoas recomeçarem a sua vida, até porque não estão a abandonar o país de ânimo leve, nem por livre vontade, nem por oportunismo. Estão a ser forçadas a isso, principalmente mulheres e crianças, que são aquelas que veem os seus direitos humanos agora postos em causa com maior risco e relevância. E, portanto, eu creio que poderão vir as pessoas para a Europa, isso não será problema se a Europa souber acolher, souber promover rotas legais e seguras para estas pessoas, se souber promover um acolhimento descentralizado e se os países da União Europeia partilharem as responsabilidades nesse acolhimento, e depois se as pessoas forem bem integradas. A propósito de outras notícias, fala-se em problemas de demografia em Portugal e na Europa também. Portanto, no entender dos economistas e para que a economia continue a crescer, nós precisamos de mão de obra, de pessoas que contribuam para o Estado Social e portanto, se precisamos de pessoas, isso não devia ser um problema. A minha questão é resumo, é nomenclatura, a crise de refugiados. Não são os refugiados que são a crise, essas pessoas são as vítimas, as primeiras. E portanto, cabe a nós, às entidades políticas e às autoridades internacionais trabalhar não só no acolhimento das pessoas, mas também no problema, na origem do problema. E essa, neste caso, está no que está a acontecer agora no Afeganistão.
Claro. Pedro Neto, Portugal também tem o centro para acolhimento para refugiados e também ontem à noite o ministro da Defesa disse que Portugal estaria disponível para receber estes deslocados do Afeganistão, estes refugiados. É um gesto louvável, pode fazer a diferença?
Pelo que percebi do ministro João Gomes Cravinho, a disponibilidade que ele mencionou foi àqueles que trabalharam e cooperaram com os Estados Unidos e com os aliados europeus, e que não se estendia a uma resposta a refugiados. Eu creio que esse trabalho também envolve mais que o ministério, envolve várias secretarias de Estado e, portanto, tem que vir também uma palavra do primeiro-ministro ou, neste caso, da primeira-ministra em funções, a doutora Mariana Vieira da Silva. E portanto, vamos ver se temos essa esperança do acolhimento, não só àqueles que cooperaram, mas também a todas as pessoas, especialmente mulheres e crianças, que são as pessoas que estão em maior perigo agora. Mas não basta a Portugal. Portugal também tem que ser voz e influência em sede da União Europeia, porque esta tem que ser uma resposta da União e não só de um país. Os países têm respondido individualmente e isso também tem sido parte do problema. Portanto, tem que haver uma resposta, claro, de cada país, mas depois também uma resposta ao nível da União Europeia.