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Carlos Moedas, esta justificação de Fernando Medina pareceu-lhe suficiente para deixar cair a exigência que fez ontem o pedido de demissão?
Obviamente que não, porque eu penso que temos que ter hoje uma maneira diferente de fazer política e temos que conseguir assumir aquilo que são responsabilidades políticas. E a responsabilidade política aqui de um ato tão grave como enviar todas estas moradas, todos estes contactos a um país estrangeiro, é inadmissível para um presidente da Câmara. É inadmissível num sistema democrático. Isso é o pior que pode acontecer. Como é que estas pessoas vão viver daqui para frente? Quem são os outros, se nós não tivermos Fernando Medina? Aquela que foi a explicação de outras manifestações que possam ter acontecido, outras manifestações em que pessoas também se manifestaram contra determinados regimes, se esses dados também foram enviados para outros países. E parece que isso aconteceu, porque ele diz que isto é o normal. Ora, isto não é normal e não é apenas um erro técnico. Eu penso que aqui a pergunta é outras manifestações que aconteceram, outras manifestações contra determinados regimes, se esses dados também foram enviados para governos estrangeiros. Está aqui um erro técnico, mas há também um erro político e há que assumir essa responsabilidade política, e o presidente da Câmara tem que assumir essa responsabilidade política. Isso é inaceitável num Estado democrático. É algo que ninguém compreenderia noutro país europeu, um país da União Europeia, onde os dados são tratados como a nossa dignidade humana. Esta incapacidade, esta falta de gestão, tem que ter consequências políticas.
Carlos Moedas, Fernando Medina acusou-o de desespero político. Como é que reage a esta acusação?
Parece-me que é Fernando Medina que está desesperado. Está desesperado pelo erro que cometeu e por aquilo que fez, que é inaceitável. E é óbvio que quando as pessoas estão desesperadas, atacam os outros dizendo que eles é que estão desesperados. Eu não estou de todo desesperado, mas ele sim, está desesperado porque cometeu um erro que é inaceitável e que neste momento ele tem que assumir a responsabilidade política. Se não o fizer, é porque é um político que é incapaz de assumir os seus erros, que é incapaz de assumir aquilo que é a função de um político. Esses erros técnicos, muitos deles que têm que ter responsabilidade política, no passado foram assumidos, inclusive por grandes membros do Partido Socialista, quando foram ministros e se demitiram perante este tipo de situações. Esta situação é gravíssima.
Fernando Medina fala de um funcionamento burocrático. Não lhe parece esta uma razão suficiente para pedir desculpa e assumir este erro burocrático, no fundo, que não é propriamente assumir o erro para ele próprio?
Não, porque não é um erro burocrático. É um erro que era usual, porque o que diz Fernando Medina é que eles enviavam sempre os dados não só à polícia, mas também às entidades pelas quais aquele que se vai manifestar contra essa entidade recebe os dados dessa pessoa e parece-me muito estranho. Sobretudo quando estamos aqui a falar de países estrangeiros. Isto aconteceu muitas vezes. Há aqui um erro que não é só burocrático, é um erro político e é um erro de gestão. E o presidente da Câmara, para além de ser o líder da cidade, tem que ser um gestor da cidade, tem que identificar esses erros e tem que os corrigir. Este erro não só foi identificado tarde demais, como foi escondido durante meses, porque Fernando Medina escondeu a todos os lisboetas o que tinha acontecido e para além disso, não o corrigiu. Está a corrigi-lo agora e diz que para o futuro vai estar tudo muito bem. Isso não chega. Não chega porque eu penso que há outras pessoas, para além dessas que ele contactou, que também estarão inquietas, que fizeram manifestações que têm o direito de as fazer e que hoje têm os seus dados eventualmente na mão de países estrangeiros que não deveriam ter acesso a esses dados. E o erro aqui é muito mais do que burocrático, é um verdadeiro erro político.