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Temos Dulce Maria Cardoso, que se junta também a nós em direto ao telefone, também escritora portuguesa. Bom dia, Dulce. Obrigado por se juntar também a esta emissão especial da Rádio Observador. Dulce, a pergunta acaba por ser um pouco repetitiva, mas é aquilo que importa também perceber: o que nos deixa António Lobo Antunes para a nossa literatura, para a nossa história?
Deixa-nos uma obra importantíssima, especialmente para quem é português, apesar da Patrícia falar da dimensão internacional que a obra dele teve, e é verdade. Mas acima de tudo, o que me interessa nele é a maneira como ele pensou Portugal e o que é isto de ser português, e como nos ajudou a interpretar a história. Através dos seus romances, eu pelo menos consigo perceber bastante melhor o que é ser portuguesa e o que foi Portugal, mais do que lendo um ensaio de História ou de Sociologia. Deixou também um incrível tratado sobre as paixões humanas. Há muitos anos eu dei uma entrevista em que disse que não conhecia, e continuo a não conhecer, quem tenha aprendido a escrever tão bem em língua portuguesa. E mantenho a minha opinião, ainda que nem sempre me interesse o que ele diz, mas a forma como ele o faz é sempre maravilhosa.
É um estilo, uma escrita que vai marcar não só aquilo que já foi a história de António Lobo Antunes, mas que vai continuar a marcar a literatura portuguesa?
Ele tem muitos descendentes. Quase todos aprendemos com ele. Eu, o Saramago, a Agustina, o José Cardoso Pires, os mais novos, lemo-nos e aprendemos com ele. Evidentemente, há sempre uma fase de quase cópia ou de influência, nuns mais notória, noutros menos. E ele próprio também aprendeu com outros, ou seja, ele não começou do nada. A literatura é um longuíssimo diálogo através do tempo e do espaço. Ele também aprendeu com o Faulkner e com outros assim. Portanto, vamos todos acrescentando virgulinhas neste imenso diálogo através do tempo e do espaço.