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O ensino à distância arranca já amanhã. Manuel Pereira é presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares. Pergunto-lhe: as escolas, os professores, as famílias e os alunos estão preparados para esta forma de ensino?

Tanto quanto é legítimo dizer, estão preparados. Não quer dizer que tenham todos as condições que gostariam de ter para poderem fazer um trabalho mais profícuo. Os professores estão preparados, têm a seu favor a experiência do ano passado, o tempo que aproveitaram para obter informação e especialização, nomeadamente das novas tecnologias. As famílias, algumas delas conseguiram adquirir computadores e meios tecnológicos. As escolas estão mais bem preparadas também. A verdade é que, não obstante isso, temos ainda uma larga faixa de jovens e crianças que não têm acesso a computadores. E essa é, de facto, uma forte limitação para podermos ter todos os alunos em pé de igualdade, isto é, para que a todos os alunos possa ser garantida a igualdade e equidade em termos de educação.

Esse problema não foi acautelado? Esse problema tem sido muito noticiado ao longo dos tempos. Já no primeiro confinamento era um dos grandes entraves às aulas à distância. Esse problema não foi acautelado pelo governo?

Digamos que o governo conseguiu fazer chegar 100 mil computadores para os alunos do ensino secundário e apoiar a população social escolar. E garante que até o final de fevereiro, princípio de março, cerca de 300 mil computadores também chegarão às escolas para os alunos do ensino básico apoiar a população social escolar. Nós entendemos que não se pode fazer tudo de uma vez, mas a verdade é que entre maio e junho do ano passado e agora, pouco mais aconteceu que isso, a não ser, como lhe tinha dito, que algumas famílias conseguiram adquirir computadores. Não sei mais o que lhe possa dizer. A verdade é que é público e conhecido que há muitos jovens que não têm ainda acesso à internet. E a verdade também é que a falta de computadores nem sequer é o maior dos problemas, porque temos crianças, nomeadamente os mais jovens, que não lhes basta ter computador, precisam de ter alguém constantemente junto deles para os ajudar a resolver pequenos problemas informáticos que acontecem muitas vezes. Portanto, a falta de computadores nem sequer é o maior problema, nomeadamente no mais jovens. A falta de computador é um problema fundamental, sim, mas de facto há crianças que têm computadores, mas que não têm quem os ajude e aí o computador não serve para quase nada.

Como é que isso poderia ser resolvido?

As escolas foram encontrando soluções imaginativas e os responsáveis pela informática das escolas, professores, assistentes operacionais mais especializados, técnicos de psicologia ou assistentes sociais, estiveram sempre disponíveis e estão para poderem ir a uma casa de um jovem, de uma criança que tenha problemas informáticos para os ajudar a resolver o problema. Mas é verdade que isto é um problema sem solução. Enquanto houver algum analfabetismo informático por parte da população em geral, é um problema sem solução, porque é um problema que acontece todos os dias com muitas crianças. É sempre um problema complicado, mas as escolas recorrem quase sempre a todo o recurso que podem encontrar, à imaginação e ao apoio das comunidades locais, associações, lutar com a igreja, autarquias em geral, para poderem estar mais próximos dos seus alunos e das famílias para poder encontrar soluções para esses problemas. Mas vamos continuar a tê-los sempre.

Manuel Pereira, tendo em conta tudo o que me diz, lembremos que no primeiro confinamento, quando as aulas à distância começaram, foi tudo muito em cima dos joelhos, se me é permitida a expressão, foi tudo feito muito rapidamente. Agora as pessoas tiveram mais tempo para se preparar, tanto as famílias, os alunos, como as escolas e os professores. Considera que, apesar dos problemas que aqui me fala e que têm sido noticiados ao longo das últimas semanas, que prevalecem, esta nova segunda ronda de aulas à distância vai ter mais sucesso ou pelo menos maior aceitação por parte de todas as partes envolvidas?

Obviamente, só pode ter mais sucesso. Todos nós, alunos, professores, escolas, famílias, estamos mais bem preparados agora do que estávamos há meio ano atrás ou há um ano atrás. E naturalmente, a experiência é mestra da vida e os erros que cometemos e as lições do passado são fundamentais para agora cometermos menos erros. Mas enfim, podemos dizer que claramente temos mais hipóteses de ter sucesso agora com o ensino à distância do que tínhamos em março passado. Mas isto não quer dizer que estejamos convencidos que vamos ter todo o sucesso que gostaríamos ter e que os nossos jovens alunos precisavam ter também. Mas temos que pensar também que a situação é toda extraordinária, que o maior valor a proteger é a saúde e as escolas farão tudo o que puderem e fazem tudo o que puderem e os professores fazem tudo o que puderem também, mas não há nada que substitua a presença dos alunos em sala de aula. Nada que substitua isso.