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Paulo Sandro é especialista em assuntos europeus. Paulo Sandro, bom dia e obrigada por estar conosco.
Bom dia.
Era previsível esta crise política ao fim de 27 dias da indicação e da indigitação do novo primeiro-ministro?
Não era previsível, sobretudo pela rapidez. Era previsível que isso viesse a acontecer num breve prazo, rapidamente, porque infelizmente as condições em França, no Parlamento francês, na Assembleia Nacional, são muito complexas desse ponto de vista. Era muito difícil que um governo qualquer sobrevivesse. Só que de fato, a apresentação dos membros do governo por Sébastien Lecornu levou a este desfecho, porque a reação foi violenta de todos os lados e adivinhava-se uma nova moção de censura. Portanto, ele demitiu-se muito rapidamente, fez há pouco essa declaração, atirou as culpas para a incapacidade dos partidos de se entenderem, mas também há um problema acima dele. Lecornu é um dos fiéis de Macron, mas o problema neste momento está em Macron.
Está no Eliseu.
Exatamente.
E o que Macron poderá fazer agora? Porque tem indicado uma série de primeiros-ministros que não resistem.
Dificilmente. Este primeiro-ministro e este governo que este primeiro-ministro apresentou, naturalmente concertado com Macron, eu diria que era quase o último reduto. Dificilmente vejo que alguém possa vir a aceitar ser convidado pra um próximo governo, que durará, se calhar, já não 22 ou não sei quantos dias, mas ainda menos do que isso, e vimos batendo recordes sucessivos da duração dos governos em França.
Isto quer dizer que é inevitável a convocação de eleições antecipadas?
Das três soluções possíveis, haver um novo governo, eleições antecipadas e a própria demissão de Macron. Já agora, a própria demissão de Macron já é pedida não apenas à esquerda, de forma violenta, até com a apresentação de uma moção nesse sentido. Menos curiosamente pela antiga Frente Nacional, pelo Rassemblement National, pela própria Le Pen, etc., que no fundo querem eleições legislativas, ou então as eleições legislativas. Essas duas soluções parecem ser as únicas neste momento. O que Macron vai fazer? A olhar para este registro muito recente, ele provavelmente tentará adiar ainda mais. No fundo, o objetivo dele é chegar a 2027. Portanto, eu diria, se tivesse que pôr fichas em algum lado, infelizmente não tenho, diria que provavelmente vamos assistir eleições legislativas.
E quem é que ganhará mais com a antecipação das eleições?
Aqui há depois a questão da maioria absoluta. A maioria absoluta é difícil, neste momento estamos muito longe disso. Há também aqui um apelo da frente de esquerda, no sentido de a esquerda se aliar, os socialistas, etc., no sentido de tentar encontrar uma solução do seu lado. Aparentemente, até como eu disse já, os próprios republicanos, no fundo, olham mais pra substituição de Macron do que propriamente para eleições legislativas. Mas quem poderá ganhar? Naturalmente, a Frente Nacional, o Rassemblement National, Marine Le Pen e Bardella têm grandes esperanças nessas eleições. A questão é saber, Bardella já disse que se não tiver maioria absoluta, não aceitaria ser primeiro-ministro. O problema é que se estiver lá perto e tiver capacidade de negociar, não será fácil, mas se tiver capacidade de negociar, há direito a algum tipo de solução, poderá fazê-lo. E portanto, neste momento, todos vão para estas eleições, se elas se confirmarem, na esperança de conseguir um resultado que lhes permita depois ter acesso ao governo e conseguir poder, com um presidente em fim de mandato, conseguir governar. Mas vai ser também uma governação difícil, seja quem for. Se tiver maioria absoluta, qualquer um da frente de esquerda ou se quisermos o Rassemblement National, naturalmente poderá governar, não vai ser fácil.
Não há de ser fácil. Entretanto, e a nível externo, França tentava ter alguma liderança em relação aos conflitos, quer na Ucrânia, quer na Faixa de Gaza. Aqui o país vai ter um papel menos preponderante neste momento, pode também ter impacto nesses conflitos.
Claro. A França tem um problema. Repare, isto é um problema político que reflete um problema econômico. Isto é, há de fato uma situação muito complicada em França do ponto de vista econômico, uma situação eu diria, não vou dizer dramática, apesar de tudo, é uma enorme economia, mas é uma economia com grandes problemas neste momento, com dívida, com déficit, etc. E de fato, é preciso fazer reformas de fundo. Essas reformas estão mais ou menos anunciadas, nomeadamente por parte do Rassemblement National, Marine Le Pen, etc. Mas são reformas muito difíceis de fazer num país onde naturalmente, a rua está sempre pronta a receber manifestações e revolta. Portanto, a França, politicamente, do ponto de vista dos grandes objetivos, e particularmente Macron tem se concentrado muito nisso, como sabemos nos últimos tempos. A França tem de fato agora um problema sério, que a enfraquece muito nesse contexto, que é um contexto também, como sabemos, de enormíssima complexidade.
Paulo Sandro, muito obrigada pela análise