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Nos Estados Unidos da América, para se perceber a origem do soccer, é preciso falar de Francisco Marcos. É um português nascido e criado no Bombarral, que emigrou na adolescência para Nova Iorque. Na faculdade, iniciou uma espécie de programa Erasmus dedicado ao futebol. Fundou clubes, criou ligas, criou revistas de futebol, teve programas de rádio, crônicas em jornais, fez e faz parte da Federação de Futebol Norte-Americana e foi pai da estrutura competitiva que suporta, ainda hoje, a MLS, a primeira liga de futebol nos Estados Unidos. Em 2024, Francisco foi eleito para o National Soccer Hall of Fame. É o mais prestigiado prêmio ligado ao futebol nos Estados Unidos da América. Francisco é também um fanático pela seleção nacional e pelo Sporting. Vai a todos os jogos. Este homem, agora com 80 anos, tem também no currículo a presença em 15 mundiais. Foi a todos desde 1970. "O Observador" conversou com Francisco Marcos em Houston, no lobby do Hotel Cambria, depois do jogo de Portugal com o Congo. É uma longa entrevista que termina com conselhos para Roberto Martínez, Pedro Proença e Cristiano Ronaldo e que começa com a viagem para a América.

Realmente, sim, um típico imigrante. Vim para aqui antes de fazer 16 anos, dois anos depois do meu pai ter emigrado e, consequentemente, depois de o meu pai vir, deu uma opção a mim de ficar em Portugal na escola, onde eu estava no quinto ano, ou vir para os Estados Unidos. Não houve muito problema em decidir naquele tempo. Ora ficar com meus avós e ficar internado num colégio em Tomar, a escolha foi óbvia e vim para aqui.

Nasceu no Bombarral, certo?

Sim. No concelho, nasci numa aldeia ali ao pé, Valcovo, mas Valcovo, Bombarral. E lá vivi até aos 16 anos.

Como é que foi crescer no Bombarral nesse período de Portugal, anos 50, 60? Como é que era a vida nessa altura e por que os seus pais emigraram inicialmente?

O meu pai, como o resto dos imigrantes, emigrou para tornar a sua vida melhor. Não éramos pobres, não posso dizer isso. O meu pai era lavrador, tinha vinhas, tinha gado, mas tinha feito alguns investimentos em terrenos e decidiu que ele queria pagar esses terrenos o mais rapidamente possível para estar completamente livre. Então, em vez de ser o típico imigrante que vem para os Estados Unidos e fica toda a vida. O meu pai só esteve cá 13 anos, que não é o normal de um imigrante. Dois anos depois eu vim e o meu pai voltou e eventualmente eu fiquei assim que me formei da universidade. A minha vida, eu sabia que ia ser nos Estados Unidos pelo menos em termos profissionais.

Quando veio para os Estados Unidos, veio ainda para estudar.

Sim, a opção foi só essa. Não vim cá para ir, como nós dizíamos antes, para o pai picareta. Vim em dezembro de 1961, em janeiro entrei logo no segundo semestre do liceu em Nova Iorque. Vivi no Village, no bairro mais típico de Nova Iorque, onde naquela altura, estamos a falar dos anos 60, todos os grandes artistas atuavam ali. Fui exposto a muita coisa boa e má. Felizmente, consegui manter-me no outro lado, do lado bom.

Quando estava a dizer isso, estamos a falar do quê?

Estamos a falar do Greenwich Village, em Nova Iorque. É o centro da boêmia americana, pelo menos era nos anos 60. Portanto, aprendi muito, vi muita coisa, mas consegui realmente manter-me são durante todo esse tempo.

Ainda sobre isso, houve um choque de um jovem ainda em tenra idade sair de Portugal, do Bombarral, para Nova Iorque?

Sim, houve porque, por exemplo, eu com 15 anos tinha feito o segundo ano do liceu em Leiria, capital do distrito. Tinha feito a quarta classe. A primeira e única vez que tinha ido a Lisboa para fazer o exame de admissão ao liceu, depois da quarta classe, no Liceu Luís de Camões. E, portanto, o primeiro avião que eu vi ao vivo foi aquele que eu voei de Lisboa para Nova Iorque, um Clipper da Pan Am. Tudo isso foram novidades. Portanto, chegar a Nova Iorque e comparar. Nem deu para comparar com Lisboa, porque eu praticamente nem sequer conhecia Lisboa.

Chegou aos Estados Unidos, foi estudar, acabou os estudos em Nova Iorque e depois foi sair de Nova Iorque.

Sim, a saída de Nova Iorque coincidiu com um elemento de sorte, neste caso, porque eu estava a jogar em Nova Iorque na equipa do Clube Português de Nova Iorque, o clube social. Praticamente todos os clubes de imigrantes têm equipas de futebol. Ao mesmo tempo, jogava na equipa do liceu. A minha primeira equipa oficial de futebol foi mesmo o Liceu de Nova Iorque, onde joguei durante dois anos.

Jogava em que posição?

A médio e defesa central. Embora eu tinha querido ser guarda-redes pela influência do Carlos Gomes, mas como usava óculos, já cheguei a um ponto em que não dava para partir óculos todos os dias. Através dessa liga, onde o clube português jogava, liga amadora, jogavam aos domingos, houve a oportunidade proporcionada pelo presidente dessa liga me apresentar ao treinador da universidade para onde eu iria frequentar. Através de uma pequena conversa, se há algum clube que tem jogadores juniores de menos de 18 anos que estão interessados em ir para a universidade Uma das universidades em Nova Iorque. Falem comigo que eu posso pô-los em contato com o treinador, que é um amigo meu, etc. Isso aconteceu. Resumindo, duas semanas depois, tinha sido admitido nessa universidade com bolsa de estudo, que obviamente foi um salto enorme pra mim.

Foi um jackpot.

Sim, foi um jackpot, exatamente. Pouparam logo $1.200 de propinas, mas nesse tempo era muito dinheiro. Custava $2.100 por ano, entre propinas e depois dormitório e comida, e eu tive que arranjar maneira de safar para pagar dormitório e a comida, mas as propinas, que era realmente o ponto mais importante, $1.200 recebi como bolsa de estudo para jogar futebol. E aí começou tudo. O sonho americano começou mesmo aí, porque na universidade eu fiz de tudo e mais alguma coisa. Obviamente, fui para lá como estudante, mas a pouco e pouco fui avançando noutras coisas. Jogando futebol, obviamente. Quando cheguei ao terceiro ano da universidade, fui nomeado diretor do jornal universitário. Escrevia artigos, fazia artigos jornalísticos, escrevia artigos, escrevia colunas.

Escrevia sobre o quê?

Tinha uma coluna sobre tudo aquilo que eu quisesse escrever. Escrevia sobre futebol também, porque era aquilo que eu melhor conhecia e que provavelmente sabia melhor que todos os outros. Mas era mesmo o editor do jornal. Era um jornal semanário, que acabou por ser nomeado o melhor jornal universitário nos Estados Unidos, em universidades com menos de 4 mil estudantes. Vamos lá dizer que era uma segunda divisão do prêmio. As grandes universidades tinham jornais diários mesmo e as mais pequenas tinham semanários. E isso foi importantíssimo pra minha carreira, porque não só estava eu a jogar futebol, mas ao mesmo tempo entrei no mundo da mídia. Eventualmente, entrei como correspondente para o Diário da Cidade, para escrever futebol.

Diário da Cidade, estamos a falar da cidade onde era a universidade?

Sim, Oneonta, uma cidade a 200 milhas ao norte de Nova Iorque. Entrei na rádio local, entrei na televisão a cabo local, com um show de futebol que eu criei, porque eu fui sempre muito agressivo em tudo isso.

Foi convidado ou era você que propunha fazer isso?

Sim, as duas coisas.

Mas o que estava a estudar na universidade? Era jornalismo?

Ciência política e línguas. Outro fator muito importante que aconteceu: no último ano da universidade, no quarto ano, na Páscoa de 1968, a nossa universidade foi a primeira a ser convidada por um órgão das Nações Unidas a ir fazer uma excursão à Europa. Programas interuniversitários, intercambiais. Isso aconteceu um bocadinho por acidente, mas aconteceu.

Mas enquanto estudante ou futebolista da universidade?

A equipa da universidade.

Portanto, foi como futebolista.

Sim, a equipa da universidade, na Páscoa de 1968, três meses antes de eu me formar, de receber o meu diploma universitário, a equipa universitária embarcou numa viagem de 17 dias à Inglaterra, à Dinamarca, à Alemanha, à Alemanha Oriental, especificamente Berlim Leste, e fizemos 14 jogos em 17 dias. Como tínhamos a equipa completa, 22, 23 jogadores, podíamos fazer jogos quase todos os dias e mudar os 11, tudo isso pra jogar tantos jogos. Isso foi uma experiência incrível. Primeira vez que eu tinha voltado à Europa, sete anos depois de ter deixado Portugal, sem ir a Portugal, obviamente, e eu, que já era louco pelo futebol, através do meu conhecimento mídia. O primeiro jogo que eu vi na Europa, Liverpool, Burnley, na FA Cup, em Anfield. Bill Shankly, treinador. Grandes craques que o Liverpool tinha neste ano, posso estar aqui a nomear nomes que as pessoas não conhecem, Roger Hunt, Tommy Lawrence, Tommy Smith, etc. Essa viagem marcou-me de tal maneira que durante o período da viagem eu fui recolhendo nomes e contactos, telefones das pessoas que conhecemos, porque fizemos jogos, fizemos clínicas, quer dizer, deram-nos clínicas em Manchester, em Liverpool, etc. E quando acabou a viagem, nessa viagem de 14 jogos, ganhámos sete, perdemos seis e empatámos um. Um dos jogos, curiosamente, foi contra as reservas do Ajax, no velho estádio. Quem é que estava no outro lado, a jogar pelas reservas do Ajax? Um tal senhor chamado Johan.

E já jogava? Já jogava bem?

Já jogava. Ganharam-nos um a zero.

Só ganharam um a zero.

Só ganharam um a zero.

Com o Francisco a jogar médio.

A jogar a médio, exatamente.

A marcar o Johan Cruyff.

Era difícil. Mas esse evento, provavelmente mais de qualquer outro, ligou-me completamente ao futebol internacional. E decidi, naquele momento, durante essa viagem: "É isto que eu vou fazer. Eu vou organizar excursões da Europa para universidades e liceus americanos, para ensinar aos americanos o que é futebol internacional". É levar os infiéis à Terra Santa, neste caso. E foi isso que, dois meses e meio depois, eu liguei para o ex-capitão da minha universidade. Tinha sido meu colega de quarto durante seis meses no primeiro ano meu e último ano dele, e convenci-o. E ele era treinador já do high school, de um liceu. Convenci-o a arranjar 15 miúdos da equipa dele A fazerem aquilo que eu acabara de fazer. Só que o itinerário foi diferente.

Mas quem é que pagava?

Pagavam os pais dos alunos, o dinheiro que foi angariado num processo na cidade onde eles estavam, também no estado de Nova Iorque, mas não na cidade da universidade. E eu organizei tudo e a excursão foi Portugal, Espanha e Inglaterra. Em Portugal e Espanha, simplesmente, já nem me lembro como, liguei para Malta do Bombarral, que conhecia autocarros, hotéis, etc. E começámos a nossa viagem em Lisboa, jogando por exemplo contra o Dramático de Cascais, a Escola Salesiana no Estoril, mais um ou outros dois. Depois fomos ao Bombarral, jogámos com o Bombarral, com a equipa do Bombarralense na terceira divisão séniores, estamos a falar com miúdos de 15, 16 anos dos Estados Unidos. Chegámos ao Bombarral na camioneta e a primeira coisa que me depara quando eu saio da camioneta é um enorme cartaz típico à portuguesa, daqueles destoiradas: Sport Clube Escolar Bombarralense contra Estados Unidos. Estados Unidos. Não foi a pequena cidadezinha, vila de Washingtonville, com um liceu com 200 ou 300 miúdos. Eu disse: “Isto é uma loucura”.

Pessoas nas bancadas?

As bancadas? Completamente lotado. Quatro mil pessoas no chamado Estádio do Bombarralense, que estava na terceira divisão nacional. O resultado foi 10 x 0. Estamos a falar de miúdos que acabaram de jogar há dois anos. “ Francisco, nós não sabíamos que vocês eram principiantes”, etc. Isso significa que durante os próximos sete anos, a minha carreira foi fundador de uma organização, tem um nome bastante específico, American International Sports Exchange, da qual eu era dono e presidente, e o único. E durante os próximos oito anos, eu organizei 75 excursões da Europa de equipas universitárias, seleções universitárias, seleções colegiais, portanto de liceus. A nível local e a vida estadual.

Para além de estar a organizar viagens e programas para jovens norte-americanos viajarem para a Europa e conhecerem a realidade do futebol, como nós chamamos, soccer para os norte-americanos, começa também a entrar na organização do futebol interno nos Estados Unidos.

Sim, precisamente porque tinha esse bichinho de organizar, entrou em mim. E assim que eu me formei da universidade, já não podia jogar na universidade, porque acabou a universidade, a carreira são quatro anos e acaba. Então o que eu fiz? Na cidade onde eu estava, em Oneonta, eu formei uma equipa, Oneonta United. United por quê? Porque há duas universidades lá e eu simplesmente fui recrutar os jogadores das duas universidades que já se tinham formado, e portanto já não jogavam nas equipas da universidade.

O Francisco ainda jogava nessa equipa?

Não, obviamente. Eu era, nesse caso, treinador, secretário e jogador.

Presidente, treinador, secretário, capitão de equipa, era tudo?

Era tudo. Não vale a pena estar aqui a fingir.

Era a equipa do Francisco.

Era a minha equipa, obviamente. Mas obviamente para jogar, uma equipa tinha que ter uma liga para jogar. Então eu formei a primeira liga da minha carreira, que se chamava Empire State Soccer League, ESSL, norte do estado de Nova Iorque. Nova Iorque é maior que Portugal. E eu aqui aos 22 anos formei essa liga, na qual a minha equipa jogava, e eu era obviamente o presidente da liga também.

Francisco, desculpe, mas parece quase que um bocadinho concorrência desleal, porque o Francisco mandava na liga, mandava no clube, jogava na equipa. Quem é que ganhava o campeonato?

Ganhámos um. Mas foi assim. Se não havia outra maneira de fazê-lo, alguém tinha que fazer. Era mãos à massa e acabou-se, não havia problema. E isso foi realmente o ponto de arranque daquilo que eventualmente serviria como base, vamos lá dizer assim, da liga que eu eventualmente formaria vários anos depois, que seria uma liga nacional. Vamos falar do assunto.

E como é que se dá esse salto de uma liga estadual, podemos dizer assim, para depois passar para um evento nacional?

Esse percurso, jornal local, rádio, televisão, equipa, liga regional, tudo isso.

E a organizar viagens aos estrangeiros.

Foram sete anos, até que em 1974, fui convidado para ir para Tampa Bay, para os Tampa Bay Rowdies. Novinho em folha. Iam começar nesse ano, precisavam de uma combinação de diretor de relações públicas e um diretor de desenvolvimento de futebol. Por quê? Estrangeiro, jogador, etc. Não era jogador profissional, não ia jogar a esse nível, mas eu é que conhecia o mundo universitário, os jogadores universitários que nós íamos recrutar, ia ser eu, porque o nosso treinador era um sul-africano inglês, os Estados Unidos conhecia zero, e para recrutar os jogadores universitários que nós tínhamos que ter também na equipa, precisava de alguém que tivesse conhecimento muito profundo do mundo de futebol universitário, que acabaria por ganhar o primeiro campeonato em que jogámos no ano de 1975.

Campeonato nacional?

O campeonato nacional, a NASL. A liga onde jogou o Cosmos e os nossos grandes rivais, onde jogou o Pelé, tudo isso.

Ganham no primeiro ano em que esteve lá?

Primeiro ano, 75.

Para além dos jogadores universitários, foi buscar algum craque europeu? Teve autorização para isso?

Sim. Curiosamente, voltando só ligeiramente atrás, uma das razões pela qual fui convidado, foi porque no ano anterior, em 1973 O meu ex-treinador universitário tinha sido convidado para sair da universidade e ir treinar a equipe dos Philadelphia Atoms. E esse tinha sido o treinador que tinha ido naquela excursão da Europa. E o que ele precisava? Ele conhecia todo o mundo americano, os universitários e tudo isso, mas na Europa não conhecia ninguém. Quem é que foi recrutar os cinco jogadores estrangeiros para o Philadelphia? Francisco Marcos.

Foi lá à Europa buscá-los?

Fui à Europa buscá-los. Fui buscar, entre outros, por exemplo, o Roy Evans, que chegou a ser o treinador principal do Liverpool. Veio um de Liverpool, veio um do Everton, vieram dois de uma equipe da terceira divisão, na ocasião, o Southport, na Inglaterra. Em 1973, com essa base de cinco jogadores que eu recrutei na Inglaterra, através dos conhecimentos todos que eu tinha tido durante estes sete anos de fazer excursões na Europa, o Philadelphia, no seu primeiro ano de existência, com o meu ex-treinador como treinador, ganhou a liga.

E o Francisco nesse era só o conselheiro?

Só um conselheiro. No ano seguinte.

É que foi para o Tampa.

O Tampa, cujo primeiro gerente geral tinha sido o primeiro gerente geral também do Philadelphia. “Eu sei o que este senhor fez em Philadelphia”. Ligou-me, perguntou-me: “Terias interesse em vir para Tampa? Começar uma carreira nova?” “Olha, levem-me lá, ponham-me num avião e eu vou ver o que é”. Um mês depois, estava em Tampa.

Ou seja, havia adeptos?

A nossa média inicial do primeiro ano foram logo 18 mil pessoas. Inclusive 46 mil contra o Cosmos. E já no primeiro ano já tinham o Pelé também. De 78 para 79, eu tinha saído de Tampa e tinha ido para Dallas.

Por que sai de Tampa para ir para Dallas?

Quatro anos depois, tinha feito tudo o que era possível. Estas coisas não são sempre ligadas. O ex-treinador universitário, que tinha estado em Philadelphia, tinha ido para Dallas. E ele disse: “Não, tens que vir comigo”.

E aí foram trabalhar juntos, então.

Trabalhar juntos, quase tripliquei o salário. Naquele tempo, não era nada mau.

Está falando de Dallas, Texas, é isso?

Dallas, Texas, sim. Em que o dono da equipe era um dos grandes homens do desporto americano. Lamar Hunt, dono do Kansas City Chiefs, NFL. Inventor do WCT, do tênis. Inventor do tie break no tênis, inventor do nome Super Bowl. Esse foi meu patrão. Aprendi muito com ele. Um dos grandes visionários, que foi um dos responsáveis pelo início da primeira liga americana em 1967. Um daqueles que decidiu que ia começar uma liga de futebol nos Estados Unidos.

A NASL.

Exatamente. Portanto, fui para Dallas e nesse primeiro ano levei o treinador a Portugal, primeira viagem dele a Portugal, em que fomos recrutar jogadores. Convencemos o António Simões, que eu tinha conhecido quando ele jogou cá, inicialmente cá. Não éramos grandes amigos, mas conhecíamos. Ele ajudou-nos para já, apresentou-nos a várias situações. É o meu maior amigo no futebol em Portugal, o António Simões. Somos assim, embora ele seja da cor que é e eu seja da cor que sou.

Você tem anos a falar de futebol.

Convenci-o a vir para Dallas mais um ano para ser jogador e já um treinador assistente, porque íamos recrutar vários jogadores. E, portanto, era conveniente para o meu treinador ter alguém que tivesse aquele tipo de experiência, de habilidade, etc. E o António Simões é um cidadão incrível. Uma pessoa a quem eu chamo a consciência do futebol português. O António, curiosamente, uma das coisas que fizemos em Portugal foi levar-me ao Porto, apresentar-me ao senhor Jorge Nuno Pinto da Costa, para ver o que havia no Porto. No Porto acabamos por trazer um jogador das reservas, o Jairo, ponta esquerda, brasileiro, não jogava muito na equipe principal, trouxemos emprestado.

E aqui jogou bem?

Mais ou menos, mas mais importante, que acabou por não ser, mas mais importante teria sido se eu tivesse conseguido convencer o António Oliveira para ficar em Dallas. Ficar. Ele veio. Trouxemos cá, ficou cá uma semana a ver os treinos durante a pré-época. Ainda participou num treino ou dois só para manter a atividade. Oferecemos tudo e mais alguma coisa durante aquilo que era realístico naquele tempo, inclusive uma casa, por exemplo, nova, mas não o conseguimos convencer porque ele tinha já um acordo praticamente feito para ir para o Betis, porque ele ia ficar livre e a razão pelo qual o Pinto da Costa estava a sugerir que nós o trouxéssemos era porque ele estava com um medo enorme de que ele fosse para o Benfica. Acabou por ir para o Betis e um ano depois voltou para o Porto e acabou por ser jogador e treinador do Sporting. Aliás, o Simões acabar por ser o nome mais sonante que eu acabei por recrutar, que jogou cá na minha equipe. O Oliveira teria sido talvez o jogador com mais sucesso naquele tempo, porque o Oliveira estava no auge da sua carreira. Durante todos esses anos, eu tinha também começado a revista oficial da Federação dos Estados Unidos, uma revista chamada Futebol Mensal, Soccer Monthly. Fui o fundador da revista, convenci a federação a comprar o projeto e fui o editor da revista. Quando eu fui para Tampa, eu já tinha sido diretor da revista oficial da Federação dos Estados Unidos durante três anos. Pode imaginar o que isso me dava em termos de prestígio, conhecimento.

Depois de passar por Tampa, por Dallas, este mundo dos clubes, começa também a haver aqui uma ligação à criação de ligas, de competições nos Estados Unidos da América. Como é que isso acontece?

Bem, isso tudo tem a ver com o colapso Da liga da NASL. Em 1984, a liga acabou, porque era aquela história de talvez construir um teto sem raízes, sem colunas por baixo. Cheguei a uma encruzilhada na minha vida, tinha que decidir se ia arranjar um trabalho honesto, ensinar numa escola, ser treinador, sei lá o que fosse, lavar pratos, ou arranjar maneira de continuar no futebol. Já levava 12 anos disso, não sei fazer mais nada, vamos lá dizer assim. E então fui agente durante um ano e meio, dois anos, porque entretanto havia uma liga de futebol de salão, indoor soccer, jogo futebol de seis, com tabelas.

Isto em Tampa, é o que está a dizer?

Não, Estados Unidos.

Estados Unidos havia a nível nacional.

Chamava-se MISL, Major Indoor Soccer League, e foi bastante popular durante cerca de oito a 10 anos. Eu decidi: “Bom, eu vou continuar, porque como agente isto não pode ir muito longe, não há jogadores suficientes para ser um empresário de jogadores”. O que é que eu fiz? Eu estava em Tampa ainda, um dos jogadores que eu tinha trazido do Brasil, de São Paulo, tinha sido o grande goleador dessa liga do Tampa Bay. Eu decidi, nesse período, 84, 85, que ia mudar para Dallas, porque eu ia vender os direitos dele à equipa de Dallas dessa liga de indoor, e ele tornou-se não só no meu cliente jogador, também se tornou meu sócio ao fundar um centro de prática de futebol de salão. Eu decidi começar em 1986, no inverno de 86, aquilo que eventualmente seria a USL. Nos primeiros dois, três anos, chamada SISL, que simplesmente significa a liga de indoor do sudoeste dos Estados Unidos.

Portanto, criou mais uma liga.

Criei uma liga. Começou com cinco equipas no Texas, aqui onde estamos agora, e em Oklahoma e no Novo México. Tudo no território do sudoeste dos Estados Unidos.

Como é que passa daí para o futebol outra vez?

Vendi franquias por mil dólares cada uma. Eu como comissário, que é o título que se usa cá nos Estados Unidos. E para dar um pulo um pouquinho maior, de 86 para 89, essas cinco equipas ficaram a ser seis. A sexta foi a minha própria equipa no segundo ano. De seis passou para nove, nove passou para 12 e em 1989, quando a FIFA decidiu que o Campeonato do Mundo de 1994 ia ser nos Estados Unidos, Francisco Marques parou e disse: “Ei, cuidado aqui. O futebol de outdoor, o futebol normal, vai voltar e vai voltar em grande”, porque uma das condições exigidas pela FIFA para fazerem o Campeonato do Mundo nos Estados Unidos em 94, era a criação de uma nova liga a nível da primeira divisão profissional do futebol normal. Houve uma transformação de nomes. Tinha muito a ver com a região. Se éramos regionais, se éramos mais que regionais, mas ainda éramos nacionais. Fomos mudando, adaptando o nome, a sigla da liga, à medida que o território aumentava, ao ponto em que passamos a ser simplesmente a United Soccer Leagues, as Ligas Unidas dos Estados Unidos. Essa liga começou com cinco equipas. Quando eu saí da liga em 2013, quando me reformei, tínhamos 180 equipas nas várias divisões.

Portanto, só para perceber aqui a estrutura organizativa.

A minha liga, a que eu formei, começou em 89.

Então quando a FIFA disse que para ter o Campeonato do Mundo, os Estados Unidos tinham que ter uma liga, era a sua liga?

Não. Era uma liga que a federação ia implantar.

Que só implantou depois a MLS mais tarde, foi só depois do mundial que implementou.

Sim, as ligas são todas independentes. São federadas, sim, mas independentes, fazem o que querem. E eu não tinha ambição nenhuma de pensar que podia ser uma primeira divisão. Não havia capacidade financeira.

Só para perceber isto, quando acontece o mundial de 94 nos Estados Unidos, a liga de futebol que existia era a do Francisco?

Sim, exatamente, só. Já tínhamos nesse período, posso dar alguns nomes. Já tínhamos nesse período absorvido as equipas que estão agora na MLS de Vancouver, Seattle, Portland, Montreal, Cincinnati, que só vem muito depois, e são todas equipas da USL. Como pelo sistema de franquias, eram equipas com poder suficiente que a nossa liga não podia suportar, porque não havia equipas suficientes com esse poder financeiro. Até que a MLS entrou na cena e essas equipas decidiram que podiam pagar os 20 milhões ou 30 milhões, o que fosse, por uma franquia na primeira divisão. A minha ideia e ambição nesse período todo, eu não queria chegar à primeira divisão, eu não queria ser a primeira divisão, eu queria ser a base da pirâmide. Chegamos a ter, e temos, três divisões: segunda, terceira e quarta, sendo a quarta completamente amadora, tipo campeonato regional em Portugal, por exemplo.

Tipo as distritais de Portugal.

Distritais, exatamente. Paralelamente, fizemos a primeira liga nacional juvenil, dos 8 anos até aos 18 anos. Fizemos a primeira liga feminina sênior.

A da USL?

Não, era só a W League. A WSL vem já depois. Só a W, mais nada. A liga W. Muitas das grandes craques jogaram nessa liga. Eu decidi que eu podia Nós dominámos a cena do futebol até que começou a MLS em 96, depois do mundial 94.

Acha que a MLS tinha sido possível e tinha conseguido manter-se até os dias de hoje sem a USL?

Teria sido difícil. Além disso, há uma parte que vou tentar resumir muito rapidamente. A MLS acontece porque houve uma concorrência de três grupos diferentes para serem a chamada primeira divisão, no período de 94, 95. Dois outros grupos, não vale a pena sequer falar deles, que não ganharam o concurso. No verão de 94, depois do mundial, houve a eleição normal, quadrenal da federação. O presidente da federação, que trouxe o mundial para cá, senhor Alan Rothenberg, foi o impulsionador da MLS, mas no verão de 94, depois do mundial, ele tinha uma reeleição e quem ganhasse essa eleição iria ficar com um poder enorme para decidir qual dos três grupos é que ia ser premiado, designado como a liga da primeira divisão. O presidente da federação era o líder do grupo da MLS. Ele ganhou a eleição por 1,7%, com 6,5% de votos da posse do Francisco Marques.

Fazia parte da federação por ser o diretor da liga da USL.

Eu tinha votos como presidente da terceira divisão nesse tempo. Se ele não ganha essa eleição, a MLS perde o voto. E eu cheguei a ter tanta influência, não há outra maneira, não vou esconder, que depois desse campeonato do mundo e tudo isto a acontecer, eu recebi uma chamada do presidente e dono da Umbro, a marca bastante desportiva, que era a marca da Inglaterra, do senhor presidente da Umbro, que eu não conhecia. Ele disse: "Olha, eu sou senhor tal, senhor Jack Stone". "Conhecia o nome, mas mais nada. Tudo bem?", "Tudo bem", etc. "Quero te fazer uma pergunta muito direta. Tens interesse em vender a tua liga?" "O quê? Vender a minha liga? A quem? A mim? À Umbro? À companhia?" "Jack, eu não comecei a liga para vender a liga. Comecei a liga para vender franquias, governá-las e fazer a minha vida". "Não, mas eu compro com uma condição. Compro, vamos acertar preço, mas ficas como presidente durante 10 anos, mínimo. Se desistes, paras de receber também". "Dê-me dois dias para pensar no assunto". Dois dias depois, liguei-lhe e disse: "Olha, quando é que vou aí à Carolina do Sul para fecharmos negócio?".

Mas ele deu logo um preço?

Mais ou menos.

Um bom valor.

Mais ou menos. Nunca mais trabalhei. Tudo o que eu tenho, eu devo ao futebol.

Francisco, fala disto com um sorriso na cara. Alguma vez trabalhou?

Não. Eu sou um sortudo enorme. Eu fiz tudo o que fiz, teria feito de borla se não precisasse de viver. Só trabalhei naquilo que eu amo. Nunca fiz mais nada que não futebol. Nada. E toda a minha família. A minha esposa, que está aqui ao meu lado agora, foi a minha primeira secretária, minha assistente. De futebol, conhecia zero. Era uma patinadora. Patins mesmo. Patinava na arena de patins que eu converti numa arena de tal futebol de salão.

E não ficou chateada?

Naquele tempo, disse: "Olha, mas vais perder tu, vamos casar".

Mas pronto, perdeu o campo, ganha um marido.

Exato. E estou aqui, salteando muitas coisas. Estamos a falar de 50 anos disto, que eu lembro-me perfeitamente aos 22 anos, quando comecei esta história toda das viagens da Europa, jornais, revistas e tudo. Alguém me fez uma entrevista, perguntou: "Mas o que você está a querer fazer? O que você quer fazer com o futebol?" Eu disse-lhes em inglês, vou traduzir para português: "O que eu quero simplesmente é ajudar que o futebol nos Estados Unidos, eventualmente, seja alguém".

Conseguiu.

Eu acho que consegui. Eu acho que somos mais do que alguém. Nós não somos os reis do mercado, não estamos no topo da pirâmide, mas nem sequer precisamos de ser. Nunca vamos igualar o futebol americano, mas não é preciso.

Nessa altura, o nosso futebol está em que lugar do ranking dos desportos norte-americanos? Portanto, futebol americano em primeiro.

Sim, futebol americano em primeiro, basquetebol em segundo lugar. Não, nós já ultrapassamos o hóquei no gelo e em número de participantes e média de espectadores, tudo isso, já ultrapassamos beisebol também. Por que fica esta ideia de que o beisebol é o pastime nacional dos Estados Unidos? Era, já não é. As pessoas já não jogam tanto como jogavam. Foi o desporto original. É um bocadinho, por exemplo, se eu posso fazer uma comparação, aquilo que o hóquei em patins poderia ter sido em Portugal há 40, 50 anos, mas já superamos o hóquei no gelo. Ainda agora, o primeiro jogo dos Estados Unidos outro dia, a audiência televisiva superou os jogos da final da NBA. Não é brincadeira. E estamos a falar de uma equipa que estava a jogar contra os New York Knicks. Não era uma equipa da província Primeiro título que eles conquistaram desde 1973, uma coisa assim. Portanto, vamos ter que continuar a fazer o nosso caminho, caminhando o nosso caminho e não podemos ser impacientes. É fácil ser impaciente. Podemos dizer que o copo está meio vazio ou meio cheio. O meu está e sempre esteve meio cheio. Eu tenho 80 anos, eu estou nisto há 60 anos, 58 rigorosamente, pensando aos 22. É muito tempo, mas continuo com toda a energia necessária.

Francisco, vamos deixar a sua vida. Vamos falar deste mundial. O que está a achar deste mundial organizado nos Estados Unidos?

Para já, ia ser sempre o sucesso que vai ser, com os problemas que existem, controvérsia com a FIFA, controvérsia entre os Estados Unidos e o Irã, essas coisas. O mundial de 94 foi um sucesso enorme. Até hoje, ainda o maior mundial de todos os tempos em termos de audiência. E só com 24 equipes. Este vai superar tudo isso. Estádios ainda maiores, melhores, mais cidades. Não estou contente com várias coisas, principalmente relacionadas com a FIFA.

Por exemplo?

Os preços, para já. Os preços dos bilhetes. E depois, se a FIFA pode cobrar o que cobra pelos bilhetes, então as cidades também podem cobrar o que entenderem pelo estacionamento de carros, por exemplo.

E estão a fazê-lo.

E estão a fazê-lo. Mas de qualquer maneira, vai ser, de certeza, e já está provado, o mundial mais concorrido de sempre, em termos de audiências, não há dúvida nenhuma. Se os bilhetes fossem metade do preço, em vez de haver 500 lugares abertos, haveria talvez 10 mil que não podiam entrar, que não havia bilhetes suficientes. Não podes fazer nada acerca do clima, do tempo, é o que é. Isso aconteceu também em 94.

E acontece noutros países.

Tivemos que mudar o campeonato pro inverno. Teremos que talvez pensar nessa situação eventualmente, porque, por exemplo, o campeonato do Qatar tecnicamente foi muito bom. Por quê? Porque os jogadores chegaram ao Qatar na sua máxima força. Não há outra maneira de ver isso.

Acha então que a FIFA devia repensar mesmo esta questão de ter um mundial no verão, principalmente quando os clubes jogam cada vez mais jogos oficiais?

Eu acho que sim, eu acho que seria algo que devia ser pensado seriamente. Não sei se será todos os mundiais, porque aí depende um bocadinho de onde é que vai jogar os mundiais, mas se nós vamos começar a pensar seriamente que vamos jogar na Arábia Saudita em 2034, provavelmente, certeza que vai mudar. Portugal, Marrocos, Espanha, não será necessário mudar. Eu acho que teremos que ajustar isto. Se o clima está a mudar, então tudo tem que mudar um bocadinho também. Há grandes estádios no futebol? Há, mas não brincamos com coisas sérias. Tirando meia dúzia deles, Madrid, que é novo, Inglaterra, Tottenham, que é novo, Arsenal que é quase novo, etc. Estamos a brincar a isto. Os estádios que nós estamos a ver aqui são qualquer coisa impressionante.

São gigantescos.

São gigantescos, têm todas as comodidades. E não vale a pena estar dizer: "Ah, mas o futebol é só desporto". Não, isso é treta. E eu posso comparar isto. Há muita coisa para ser aprendida nos Estados Unidos, e o futebol está a aprendê-las, dos outros desportos, obviamente. E esta treta que nós na Europa, não só em Portugal, de que isto é desporto, isto não é negócio. Isso é conversa da treta. Isto é negócio.

Acha que vai ter um impacto maior para os norte-americanos do que teve, por exemplo, o de 94?

Obviamente, 94 foi o acordar muita gente. A história do futebol não tinha importância nenhuma, acabou. Isto agora é mais ou menos a confirmação de que este desporto é real, é autêntico, vai estar, destacar, vai ficar. Estamos a falar de equipes agora, franquias que estão a custar 200, 300, 400 milhões de dólares. Há três, quatro equipes na MLS que, em termos de valoração, estão no top 20 do mundo.

Francisco, Portugal neste mundial. Estivemos no jogo do Congo, não correu bem.

Não correu bem, mas eu já tinha dito na semana passada que fizemos uma grande decisão em ter jogado o último jogo de preparação com a Nigéria. Eu disse ao meu irmão, que estava no jogo comigo, à minha mulher: "Olha, semana que vem vamos jogar exatamente com a mesma equipe que estamos a jogar hoje, nos Estados Unidos, no jogo do mundial. Vamos jogar com o Congo, que é a mesma coisa que estar a jogar com a Nigéria". Aliás, a Nigéria perdeu nos pênaltis contra o Congo no playoff para vir ao mundial. E o jogo hoje foi a mesma coisa que jogamos em Leiria. Começamos muito bem, atacamos, etc.

Não conseguimos aprender com a Nigéria?

Devíamos ter aprendido, mas obviamente há uma coisa que ficou no caminho. Porque eu não vi quase diferença nenhuma. Nós dominamos a primeira parte, fizemos um gol, podíamos ter feito mais. Depois, há aquela atitude: "Se calhar vamos ganhar facilmente, etc." E depois as coisas não acontecem. Não falta muita coisa. Eu digo, temos o melhor meio-campo do mundo. Não tenho dúvidas nenhumas com isso. Os três, ou quatro, ou cinco que podem lá jogar, podem jogar com qualquer equipe. Pela primeira vez tivemos uma dupla de centrais que nunca jogaram juntos de início no jogo, o Veiga e o Araújo. Foi uma pena o Rúben Dias não poder jogar. E na frente, todos sabes que temos um problema a resolver.

É um problema?

Eu acho que é um problema, porque o Cristiano, até não sair, joga. Quer dizer, até não acabar como jogador, joga. E enquanto estiver em jogo, joga. Provavelmente devia ter sido ao intervalo, como saiu o Bernardo Silva. E eu sou um adepto e um fã enorme do Cristiano Ronaldo. Porque depois de Vasco da Gama e Eusébio, há Cristiano Ronaldo.

Depois.

Depois. O que é que esteve hoje no estádio? Estiveram lá para ver o Cristiano Ronaldo e para ver Portugal A quantidade de estrangeiros a verem o jogo de Portugal, uma coisa incrível.

Nós fizemos as contas, eram três cidadãos portugueses por cada 20 adeptos no estádio.

Eu na minha página no Facebook disse: "Vamos ter uma audiência de 75% CR7, 20% Portugal e 5% por aí do resto".

Vamos usar os mesmos números.

Ok, pronto. E essa é uma realidade que nós não podemos escapar. E eu não vou entrar nessas conversas se há poderes por trás que exigem.

O Francisco conhece esses poderes.

Eu sei, mas eu lembro dos tempos do Pelé e do Eusébio, só para mencionar dois exemplos, que o mundo mais ou menos conhece bem a situação. Quando o Santos ou o Benfica jogavam o jogo, em qualquer parte do mundo, era X se o Pelé jogasse, ou o Eusébio, e menos X se eles não jogassem. Era tão simples como isso. O Eusébio jogou infiltrado, com enormes lesões, não devia ter jogado, o Pelé andava de rastos, etc. Mas essa é a realidade. Não é o caso do Cristiano. O Cristiano joga porque está bem fisicamente. 41 anos à parte, isso é outra história. Agora, há um acordo que diz que o Cristiano não joga, a Nike, ou neste caso agora a Puma, não paga tanto? Não acredito. Mas claro, cada vez que o Cristiano joga ou não joga, há um efeito paralelo.

Francisco, de alguém que tem uma experiência, um currículo invejável no mundo do futebol, se falasse agora com Pedro Proença, o que lhe dizia a nível de organização da federação e também daquilo que ainda falta deste mundial?

Eu conheço o Pedro pessoalmente. Estive inicialmente na liga, estive durante dois ou três meses como um conselheiro dele. Éramos para vir aos Estados Unidos, acabamos por não poder vir por razões que só ele entenderá, para aprender a parte americana. Eu acho que é uma pessoa bastante inteligente, mas também compreendo que ele foi votado e que pode ser votado para dentro, votado para fora. Está ali num trilho um bocado delicado, mas eu acho que precisamente que ele precisa ser absolutamente frontal, deveria ser absolutamente frontal, e não esconder nada. Começam outra vez todos os boatos acerca da mudança de treinador. Provavelmente, já teria acontecido há um ano se não tivéssemos ganhado a Liga das Nações. E eu não sei se devo acreditar nisso ou não. Eu estive lá e ainda bem que ganhámos. Ainda bem porque ganhámos e ao mesmo tempo isso ajudou a estabilizar a situação atual da parte técnica da federação.

Gosta de Roberto Martínez?

Ao nível de comunicação, eu acho que ele é bom.

E a nível de treino?

Olha, treinar dois, três dias. Tens os melhores do mundo, alguns dos melhores do mundo. No fim, eu acho que é mais uma situação daquilo que se diz em inglês, "man management", do que ser propriamente um treinador.

E Roberto Martínez é um bom man management?

Eu acho que sim. Eu acho que eles respondem a isso. Essa é a minha opinião. Não o conheço muito bem, conheço-o pessoalmente, mas só casualmente. Só o facto dele ter feito um esforço enorme para poder comunicar com os portugueses em português, eu acho uma coisa notável. Podem dizer que isso não tem importância nenhuma. Para mim, tem importância. Representa um compromisso com o país. Não está ali só para receber o cheque daquela semana. Há melhores treinadores? Certeza que há melhores treinadores, mas quem é que vai ser melhor? Jorge Jesus? Não sei. Para já, eu acho que não foi bom, mas já tivemos outros jogos também assim e depois voltámos.

Portanto, há tempo para dar a volta e os próximos jogos, o que acha que Portugal deve fazer?

Para já, eu acho que há uma reação imediata, é o normal que haja. É tão simples como isso. Ganhamos os dois jogos, ficamos em primeiro lugar. É tão simples como isso. Portanto, eu quero que ficamos em primeiro lugar para facilitarmos também o nosso calendário nos 16 avos, etc, por aí à frente. Eu não vim para aqui com a ideia de que Portugal é o favorito para ganhar. Eu acho que somos uma das oito equipas que podem ser consideradas favoritas, que podem ser sérios candidatos. Os outros vêm à festa. Dois ou três são os chamados cavalos cinzentos.

Quem é que são?

Noruega. Ninguém está a prestar atenção, se calhar. Marrocos. Esses são os dois cavalos cinzentos principais para mim.

Estados Unidos, não?

Não. Se os Estados Unidos conseguissem chegar às meias-finais, estou a falar como nós, seria uma coisa fantástica já. Qualquer coisa até aos oitavos já será muito bom. Nos últimos oito.

Nos quartos, então. Nos últimos oito.

Desculpe, nos quartos. Qualquer coisa depois daí já é terra de sonhos.

E Portugal é para chegar à final? Tem condições para isso?

Já jogámos 24 campeonatos do mundo. Jogámos todos. Só oito equipas é que ganharam. Uma nem está cá, que já ganhou quatro, Itália. Uruguai está cá, mas é só a fazer parte da festa. São seis equipas, cá estão. Uma delas, Brasil, não acho que não tenha hipótese. Portanto, quer dizer que se não ganharmos é um falhanço? Não acredito nisso. Porque em qualquer momento, quando perdes com uma das favoritas, e mesmo que sejas um favorito, alguém vai perder. Nós perdemos penáltis contra No Catar, contra Marrocos, que é um dos tais dark horses e, portanto, a partir dos quartos-finais, qualquer equipa pode ganhar a qualquer equipa ou perder. E não consigo pôr um rótulo de perdedor a qualquer equipa que chegue aos quartos-finais e depois perca um jogo. Queremos lá chegar mais à frente, obviamente.

Francisco, só mesmo para terminar, a sua experiência em mundiais. Está a tentar bater algum tipo de recorde? Foi a todos os mundiais desde 1970, certo? Conte-nos como é que começou esta aventura.

Eu não estou a tentar bater nenhum, eu tenho o recorde. A Guinness não o reconhece, porque eu decidi que não ia pagar 1.500 € pela inscrição e ter que providenciar fotos, bilhetes e três testemunhas que jurassem que sabem que eu fui ou que estiveram lá comigo, coisa assim. Testemunhas eu consigo arranjar. Fotografias de todos os mundiais, tenho uma muito pequenininha, preto e branco, Polaroid, 1970. Bilhetes de todos os mundiais não tenho. Tenho muitos, mas não tenho todos, porque não fazia questão, nesse tempo, de pensar que eu ia estar presente em 15 mundiais seguidos. Portanto, eu sei que sou o recordista, muitas pessoas sabem que eu sou o recordista, gabo-me muito disso, tenho grande prazer em saber que é isso. Começou tudo em 1970. Quatro colegas da minha universidade, aliás, três mais um de outra universidade, saímos da nossa cidade universitária em Nova Iorque, num carrinho com 275 mil milhas já no carro, um Firebird, e em 36 horas chegamos à Cidade do México, a tempo de poder ver o Inglaterra vs Brasil, aquela grande defesa do Gordon Banks e o cabeça do Pelé. E mal sabia eu que esse ia ser o primeiro de uma carreira de 15 mundiais consecutivos, que eu já presenciei como jornalista, como fã, alguns de ponta a ponta, alguns só o princípio, outros só o fim, outros só o meio, depende. Não é questão de estar em todos os jogos, é impossível estar em todos e essa não é a questão. A questão é ir, especialmente a parte da fase de grupos, em que o mundo se junta muito mais do que na fase final. As pessoas criticam: “A fase de grupos é fraca, há equipas que não merecem estar cá”. Isso para mim é conversa da treta também. A parte mais interessante é realmente esta, em que está todo mundo aqui a conviver. Ir à Fanzone é uma coisa fantástica e foi uma coisa que eu nunca mais deixei sair. Já o meu filho tem, por exemplo, 35 anos e ele vai no oitavo mundial, o que é ainda mais curioso. O oitavo mundial, que são todos os mundiais da vida dele.

Ele está a recolher o material para o Guinness?

Ele está a recolher o material para o Guinness, mais, ele jura-me a mim que vai ser o primeiro ser humano a ver todos os mundiais de uma vida. E ele já fez oito na vida dele. Ele começou aos quatro anos, em 94, estava cá nos Estados Unidos, mas foi aos jogos, não era estar cá em casa. Ele foi aos jogos, foi a treinos, viveu comigo em São Francisco, quando eu estava a acompanhar o Brasil no Mundial 94 como embaixador da FIFA. A minha mulher foi a cinco, inclusive à Rússia, por exemplo, e é uma experiência fantástica, que eu não trocaria por nada. Eu vou a todos os jogos de Portugal, a não ser que tenha uma obrigação familiar que me impeça de ir. Mas estou a falar de jogos casa e fora, não é só os jogos de casa. Quando eu acabar este mundial agora, não sei quantos jogos ainda, vou fazer 60 jogos desta época, entre Portugal e Sporting, casa e fora. E isso vai continuar. Já tenho o meu programa de setembro, outubro, País de Gales, Dinamarca, Noruega, para a Liga das Nações planeado. Se Deus quiser, ainda vou fazer 81 anos, 82, e ainda tenho um outro mundial para fazer daqui a quatro anos, em Portugal, em Marrocos e na Espanha. Dá-me realmente um gozo enorme.

Ainda tem mais um para fazer? Está a dizer que acha que esse vai ser o último mundial que vai ser capaz de ir?

Vou ter 84 anos. Se lá chegar, já não é uma marca muito má.

Francisco está a planear a reforma de mundiais mais cedo do que o Cristiano Ronaldo.

Essa é mesmo boa. Eu acho que o Cristiano acaba agora. Eu acho que o Cristiano vai atingir os mil gols na Liga Árabe, na Liga da Arábia Saudita, e eu creio plenamente que uma vez que este mundial acabe, o Cristiano acaba também. E volto a dizer, como disse, Vasco da Gama, Eusébio e Cristiano Ronaldo. É impressionante. E é até mais impressionante, talvez, a porcentagem de portugueses que conseguem não admirar, não apreciar a projeção que o Cristiano tem dado a Portugal. É simplesmente incrível. E não quero saber dos nobres, dos políticos, dos intelectuais que não ligam ao futebol, não ligam a desporto. Para mim, não pega. O homem fez o que tem feito, joga para ele, não importa. E aliás, há muita coisa que ele faz que a pessoa normal não tem conhecimento, fora do futebol, fora do campo. Para mim, não é comparações com o Eusébio nem nada disso. É outra época, é outro futebol, é outra história. E ele vai ter o seu lugar nela, completamente merecido, e para ele só desejo tudo de melhor e que faça três gols contra o Uzbequistão.

Francisco, muito obrigado.

Obrigado eu.