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Tenho também em direto Alexandre Homem Cristo, é politólogo, colunista, especialista em educação. Boa tarde.

Boa tarde.

O primeiro-ministro tem manifestado uma grande preocupação em torno do desenvolvimento dos alunos, as implicações desta decisão de suspender as aulas no desenvolvimento dos alunos. É uma preocupação partilhada por Alexandre Homem Cristo?

Essa preocupação acho que neste momento é partilhada por toda a gente, porque nós já temos as evidências do que aconteceu desde março até setembro, em que os alunos ficaram sem acesso ao ensino presencial, nomeadamente os alunos do ensino básico, que ficaram todo esse período sem ensino presencial. E nós já temos vários indicadores, em Portugal menos, mas noutros países muitos mais, sobre o impacto na aprendizagem que isso causou. Sabemos que os alunos mais novos, nomeadamente do primeiro ciclo, foram os mais penalizados por serem menos autónomos na utilização de ferramentas digitais, precisarem mais de apoio das famílias e, portanto, também favorecer desigualdades sociais quando diz respeito à necessidade de apoio em casa, porque nem todos os pais têm a capacidade de os apoiar. E claro que também são aqueles que têm as suas aprendizagens menos consolidadas e, portanto, são aqueles que são os mais frágeis. E naturalmente nós já temos muitos indicadores que justificam essa preocupação, aliás, uma preocupação que eu partilhei e que eu julgo que toda a comunidade educativa, desde diretores, professores, pais, partilharam quando na semana passada a decisão do governo foi de manter as escolas abertas. Agora, eu acho que estamos aqui com uma situação que já é limite. Limite do ponto de vista sanitário, naturalmente, mas também limite de um ponto de vista operacional. As escolas agora fecham, fecham em grande medida porque já não conseguem estar abertas. Ou seja, já não é só uma questão de discutirmos se o contágio é feito ou se as transmissões do vírus são feitas dentro ou fora de portas e em que contextos. É reconhecermos que faltam professores, porque os professores estão a entrar em isolamento, faltam auxiliares nas escolas e, portanto, há alunos neste momento que por razões várias, algumas delas até ligadas aos receios das suas próprias famílias, já estão a faltar às aulas. Hoje tenho ideia que um quarto dos alunos já não apareceu nas escolas, portanto, o funcionamento das escolas tornou-se inviável. Isto é objetivamente a razão para fechar. E era uma notícia de certo modo anunciada, tendo em conta os desenvolvimentos políticos que nós tínhamos sabido desde ontem. O que eu acho mais surpreendente é que a decisão tenha vindo com duas surpresas, digamos assim, que é primeiro a duração da suspensão ser de 15 dias. Eu acho que é uma suspensão-

É um período curto?

Eu acho que é um período curto, por várias razões. Primeiro, é curto porque em 15 dias nós não teremos evidências ainda relativamente estabilizadas sobre os efeitos das medidas de confinamento que entraram em vigor recentemente. E também não acredito que nessa altura possamos ter a tranquilidade de dizer que as escolas têm condições para abrir. Agora, como é que eu interpreto essa decisão dos 15 dias? Eu interpreto primeiro com uma evidente busca de soluções para que nem todos os níveis de ensino fiquem fechados, ou seja, eu creio que a tentação aqui e a ideia que estará por trás desta decisão será que daqui a 15 dias se possa reavaliar e possivelmente abrir, por exemplo, o pré-escolar ou o primeiro ciclo.

Os níveis de ensino mais baixos.

Exatamente, porque são aqueles que têm, do ponto de vista também dos níveis do número de infeções naquelas faixas etárias, são também aqueles que têm os níveis mais baixos e também a população que tem menos riscos de saúde quando contrai o vírus. Portanto, eu creio que será essa a tentação. Agora, temos que também ser realistas e dizer que muito provavelmente não será viável olharmos para 15 dias, por exemplo, ao nível do ensino secundário, parece-me mais ou menos claro que daqui a 15 dias será renovada a suspensão e que o ensino secundário dificilmente regressará daqui a 15 dias. O outro ponto que eu acho que é relevante aqui dizer, e acho que esse sim, uma enorme surpresa, foi a questão da suspensão ser total, isto é, não haver a possibilidade de ensino à distância durante estes 15 dias de suspensão. Por que eu acho que isto é surpreendente e volta um bocadinho àquela questão que me colocou logo ao início. O primeiro-ministro justifica esta decisão com base na questão de nós sabermos que o ensino à distância não tem os graus de eficácia para a aprendizagem que tem o ensino presencial, o que é absolutamente verdadeiro. Mas também podemos estimar duas coisas. Podemos estimar primeiro que estes 15 dias não serão suficientes para muitos alunos e, portanto, inevitavelmente, eles terão que retomar as atividades letivas à distância, por um lado.

Essa é também uma justificação do primeiro-ministro, é que o período é curto, são só 15 dias e por isso mais vale suspender e retomar daqui a 15 dias, em vez de se optar pela solução que foi adotada no primeiro confinamento.

Esta questão de ser um período curto é um bocadinho irrealista, porque nós podemos estar mais ou menos confiantes que estes 15 dias vão ser renovados para muitos dos alunos. De qualquer modo, há aqui uma ideia que eu acho que o próprio argumento do primeiro-ministro tropeça nele próprio. Por quê? Porque ao dizer que o ano passado tivemos um dano na aprendizagem que foi brutal Possivelmente irrecuperável, ou melhor, irrecuperável se nós não agirmos em consonância e, portanto, não aplicarmos todos os nossos esforços para o recuperar. No momento em que eu tenho que suspender as aulas, não permite o ensino à distância. Eu acho que seria algo óbvio, até porque esta ideia de que o ensino à distância aumenta as desigualdades é verdadeira, mas a ausência de ensino à distância também aumenta as desigualdades, naturalmente, porque os alunos de meios socioeconômicos mais favorecidos vão estar em casa, em contextos onde também vão aprender coisas com os seus pais e os alunos em contextos mais desfavorecidos não terão essas condições familiares pra continuar a sua aprendizagem. E, portanto, com ensino à distância ou sem ensino à distância, a desigualdade iria sempre manter-se. A diferença é qual? É que sem ensino à distância, as escolas não têm qualquer influência nesse processo e, portanto, não têm qualquer instrumento para contrariar aquilo que seria as desigualdades já sociais de raiz. E depois, eu interpreto, sem querer dar um salto demasiado grande, mas eu acho que é uma decisão política, sobretudo política, porque permite ao governo não ser imediatamente responsabilizado pela sua incapacidade de preparar o ensino à distância nas escolas, formando professores, distribuindo equipamento aos alunos.

A distribuição de computadores, que acho que ainda não está concretizado esse anúncio que foi feito pelo governo.

Certo, computadores e acesso à internet. Reparemos que se nós tivermos todas as peças do puzzle na cabeça, as coisas começam a encaixar. Reparem que os alunos do ensino secundário tiveram a distribuição dos seus computadores, estamos aqui a falar dos alunos do ensino secundário da ação social escolar, portanto, aqueles mais desfavorecidos, mais pobres, que em princípio, não teriam os equipamentos para poder aceder ao ensino à distância. O que é que isto significa? Significa que apesar de ainda estarmos muito longe de termos as metas de distribuição de computadores cumpridas, estamos a cerca de 10% do total, que está na meta do governo, esses 10% estão nos mais desfavorecidos do ensino secundário, o que significa que é nesse nível onde há melhores condições pra fazer o ensino à distância. E também por aí, é muito mais confortável pro governo, daqui a 15 dias, dizer: "Vamos manter o ensino à distância, mas vamos fazê-lo então pro ensino secundário apenas e damos a possibilidade dos mais novos regressarem ao presencial." É uma forma de o governo não ser levado a ter que responder à pergunta que é: por que é que demorou tanto tempo a preparar o ensino à distância? E por que os mais novos não tiveram acesso a esses equipamentos e a esses meios? Portanto, eu acho que houve aqui uma estratégia também política para proteger o governo das suas dificuldades e até alguma incapacidade de fazer o planeamento pra aquilo que era mais ou menos óbvio e que nós sabíamos desde o início do ano letivo, que é, num momento ou noutro, nós muito possivelmente teríamos que confrontar-nos com a necessidade de enviar alunos pra casa, fosse a nível local, e vamos imaginar numa situação num conselho onde houvesse um risco descontrolado de infecções de Covid, ou a nível nacional, como agora estamos a fazer. Portanto, acho que foi sobretudo um critério político.

Como agora estamos a fazer.