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Agora, ao telefone, temos a investigadora Iva Pires, autora de um ensaio da Fundação Francisco Manuel dos Santos sobre o desperdício alimentar. Muito bom dia, obrigada por se juntar à Rádio Observador neste jornal. Consegue ajudar-nos a perceber a dimensão deste problema? Por que os supermercados ainda deitam tanta comida válida para o lixo?

Muito obrigada pelo convite. É sempre importante falar sobre desperdício. Como refere, realmente as pessoas estão mais alertadas para o tema, estão mais interessadas e querem saber mais informação. Mas a questão da doação é muito complexa, só aparentemente é simples, mas, na verdade, é um tema muito complexo. A doação é uma cadeia que envolve muitos atores sociais, vai desde a porta do doador até ao uso final, mas inclui depois o transporte, o armazenamento, a distribuição, etc. E, na verdade, o que nós hoje temos é uma situação em que é mais fácil deitar a comida para o lixo do que doá-la, mas nem sempre necessariamente por culpa da distribuição ou dos supermercados. Na verdade, é um problema que é transversal a todos os países da União Europeia, não acontece só em Portugal. Ninguém gosta de ver comida no lixo, como é evidente, mesmo em situações de boom econômico.

Consegue explicar-nos por que é mais fácil deitar para o lixo do que doar a quem precisa?

Sim, porque no fundo, existe um enorme potencial de redistribuição dos alimentos por parte da distribuição, da restauração também, mas também existe um conjunto de barreiras. E, por exemplo, há um requisito que é muito importante, que é a qualidade do alimento e segurança do alimento. Não é pelo fato de os alimentos serem doados, que eles não têm que chegar nas melhores condições aos setores finais, às famílias que precisam deles. E, portanto, há que cumprir um conjunto de requisitos que estão relacionados com o manuseamento, as questões da higiene e segurança dos alimentos. Mas depois há também todo um conjunto de barreiras. Por exemplo, a distribuição normalmente identifica o fato de ser necessário afetar recursos humanos para doar os alimentos, ou seja, é necessário preencher uma ficha de doação. Por quê? Por causa da rastreabilidade dos alimentos. Se por acaso, por alguma razão, um alimento, por exemplo, for consumido por uma família e isso tiver algum problema, é preciso voltar atrás e perceber de onde é que veio esse alimento, qual foi o lote de onde ele foi retirado, para imediatamente reagir e evitar que outras pessoas possam ter também problemas com esse alimento. E, portanto, é necessário preencher essas fichas de rastreabilidade, de doação, isso implica que as cadeias de distribuição têm que afetar recursos humanos para preencher toda essa parte da burocracia. Mas depois existe também a questão do armazenamento. É preciso manter esses alimentos no armazém à espera que, por exemplo, as IPSS vão lá recolher. As próprias IPSS identificam também algumas barreiras, alguns problemas. Eles próprios lidam com problemas de recursos humanos, por exemplo, a Refood, que trabalha sobretudo com voluntários, mas é preciso que estes fluxos de doação existam todos os dias, não apenas pontualmente. E isso implica uma logística complexa, implica ter recursos humanos e coordenar bem esses recursos humanos. E depois a questão do transporte, quem é que vai buscar os alimentos? É a cadeia de distribuição que doa e ainda tem que ter transporte, ainda tem que os transportar. São os setores, as IPSS, mas muitas vezes eles também lidam com esse problema, não têm condições suficientes para ir buscar muitos alimentos, têm poucas carrinhas de transporte, por exemplo. Então, por causa da questão da higiene e da segurança do alimento, não se podem, em princípio, transportar congelados em automóveis. É preciso ter carrinhas refrigeradas para que, mais uma vez, os alimentos cheguem às famílias nas melhores condições possível. E nem sempre estas IPSS, estas associações que se dedicam a recuperar alimentos para poder distribuir, têm estas condições. Na verdade, como disse, é apenas aparentemente simples, mas na verdade, a doação é muito complexa.

E há aqui requisitos que são obviamente atendíveis, mas há processos que poderiam ainda assim ser agilizados? Como é que podemos resolver ou diminuir este problema?

Seguramente, essas barreiras não podem significar que os alimentos vão parar ao lixo só porque existe um conjunto de barreiras. Como é evidente, o que é preciso é pensar em uma legislação que seja suficientemente flexível para, ao mesmo tempo, não abdicar dos requisitos de higiene e segurança dos alimentos, mas ao mesmo tempo facilite a doação. Ou seja, nós temos é que inverter a situação atual e tornar a doação mais simples do que deitar os alimentos para o lixo. E para isso, temos que, no fundo, reunir todos os intervenientes, sejam associações como a Refood, por exemplo, os doadores, os setores finais, as IPSS, mas há um elemento muito importante também que é, no fundo, o governo, porque é ele quem legisla e quem pode legislar. Existe um conjunto de diretrizes da União Europeia. A própria União Europeia está preocupada com esta situação, porque, como disse, percebe que existe aqui um enorme potencial para recuperar alimentos em condições adequadas para o consumo humano e, ao mesmo tempo, reduzir o desperdício. No fundo, é aquilo que nós chamamos uma situação win-win, todos ganham. Mas essas diretrizes depois têm que ser adaptadas pela legislação de cada um dos países. E o governo tem estado a fazer isso, sobretudo com a Direção-Geral de Alimentação e Veterinária. É preciso, no fundo, reunir todos os atores sociais que estão neste sistema de doação, pensar em um modelo de governação, quais são os requisitos mínimos dos quais não se pode abdicar, como é que se distribuem as responsabilidades entre estes vários atores sociais e, de alguma forma, em conjunto. Eu penso que tem que ser mesmo em conjunto, porque cada um dos elementos, dos atores sociais desta cadeia, digamos, terá uma perspectiva própria. As IPSS, mas por que eles não doam mais? E a distribuição dirá, e provavelmente a APED irá falar nisso, mas é preciso envolver os recursos humanos para realmente nós conseguirmos doar os alimentos, para os manter. A janela temporal também é muito curta para muitos destes alimentos e, portanto, é preciso todo este sistema estar muito bem oleado para que os alimentos possam fluir muito rapidamente do sítio onde eles estão em excesso para as famílias que precisam deles. E a única forma, como digo, que eu vejo é realmente reunir todos os atores sociais e discutir uma solução conjunta que sirva a todos e com o objetivo único, digamos, de recuperar os alimentos que agora estão sendo deitados fora. E, como é evidente, ninguém gosta de ver alimentos no lixo, como eu disse, eles não são produzidos com esse objetivo.