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Em primeiro lugar, espero que não seja um encerramento definitivo. As condições do Hot Club não seriam as melhores, mas há sempre soluções e maneiras de voltar a abrir, havendo vontade política e financiamento, pode partir de muitas frentes. Depois, dizer que naturalmente fico triste, porque o Hot Club é uma instituição que eu creio que abriu nos anos 40 e que numa Lisboa ainda com alguns reveses culturais, sobretudo dado o Estado Novo, era uma instituição que projetava uma modernidade, uma luz de modernidade na capital. Portanto, ali passaram os maiores nomes da música contemporânea da altura e do jazz. Por ali passaram, de facto, os grandes músicos de jazz de todo o mundo, sobretudo os norte-americanos. Eu fui professor do Hot Club nos anos 80 e nos anos 90. O Hot Club era um local que fervilhava da cultura jazzística e é o sítio de onde emergiram grandes músicos hoje conhecidos, alguns com obra consagrada, não só nas áreas do jazz, mas nas áreas da música pop, do rock, da música erudita. Portanto, aquele sítio é a memória musical do país também. E eu espero que o Hot Club reabra rapidamente.
E a título pessoal, teve muita importância pra si a passagem pelo Hot Club como professor?
Sim, eu não só fiz parte do corpo docente, portanto fui professor do Hot Club durante alguns anos, como fazia parte do grupo. O Hot Club tem sempre um grupo chamado Corpo Docente, exatamente, que é um grupo que andava a correr o país a tocar e portanto a levar o jazz aos mais variados sítios. Eu lembro-me de uma série de digressões que nós fizemos com o Cacum na bateria, o Carlos Martins no saxofone, com o Jorge Reis. Enfim, são músicos todos já de outra geração. Eu só queria relembrar que ali nasceu, e nas escolas de jazz que também aconteceram no Porto e em Matosinhos, uma geração de músicos portugueses que depois vieram para o panorama europeu, que são fundamentais numa inserção de Portugal no mundo do jazz. O Hot Club teve um papel importantíssimo nesse aspecto. Eu felizmente fiz parte dessa estrutura durante algum tempo. Mas, por exemplo, a Sexteto de Jazz de Lisboa ensaiava no Hot Club. Estou-me a lembrar do Mário Laginha, do Tomás Pimentel, do Mário Barreiros, do Pedro Barreiros. Portanto, há toda uma geração que foi professor ali, que também se formou ali e não podíamos deixar de referir aqui os irmãos Moreira, o Bernardo e o Pedro Moreira, porque eles próprios são filhos de um dos fundadores do Hot Club e, naturalmente, o Luís Vilas-Boas, que não sendo músico, foi o grande impulsionador do jazz em Portugal. Portanto, o Hot Club enquanto fronteira entre passado e futuro. Isso cumpriu. E é com saudade e com alguma tristeza que eu ouço essa notícia.