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Ana Santos Pinto é investigadora em questões do Médio Oriente. Ana, começava por lhe perguntar, de uma forma muito breve, o que causou o renascer deste conflito, desta forma que estamos a ver?
Há várias questões que contribuem para o momento em que estamos agora. A primeira é que há uma herança histórica que é muito marcada na população que ainda hoje vive. Aquilo que nós chamamos à raiva escondida, a ressentimento, e isso leva a reações emocionais nas ruas, como nós estamos a ver agora. E esse é um fator novo neste momento em que estamos a viver, é o conflito entre comunidades judaicas e muçulmanas, árabes israelitas e árabes judeus nas ruas. E esse é um fator novo com que o governo tem que lidar. Segundo, cronologicamente, esses conflitos começaram no final do mês de abril, com o início do Ramadão, com alguma limitação dos árabes muçulmanos para rezar na Mesquita Al-Aqsa, em Jerusalém. E a par disso, um processo que está a correr nos tribunais para despejo de famílias árabes dentro da cidade velha de Jerusalém, com uma disputa, digamos assim, sobre a propriedade entre árabes muçulmanos e judeus ortodoxos israelitas. E isso já vinha a agravar essa tensão. Depois temos o adiamento das eleições na Autoridade Palestiniana, que levam a que essa Autoridade Palestiniana, responsável pelo controle da Cisjordânia, mais do que em Gaza, não tenha poder para, de alguma forma, controlar aquilo que são movimentos de população e reivindicações. E finalmente, essa escalada de violência tem o momento com a entrada das forças policiais israelitas na Mesquita Al-Aqsa, que é um símbolo muitíssimo importante, a que o Hamas responde com foguetes, exatamente porque se quer apresentar como líder da comunidade palestiniana, em alternativa àqueles que estão no poder na Cisjordânia e que é o presidente Mahmoud Abbas e a Fatah. Então há um conjunto de várias dimensões que tornam a tempestade perfeita para que isso aconteça com essa dimensão neste momento.
E Benjamin Netanyahu já veio dizer que só parava quando tudo estivesse calmo. As Nações Unidas preveem uma guerra em grande escala. Neste escalar de violência, o que é que se pode seguir ou para apaziguar a situação ou para que a situação piore? O que é que se pode passar neste momento?
A única forma de apaziguar a situação é conseguir uma negociação entre o governo de Israel, que fará a sua intervenção militar impedindo que foguetes saiam, em particular de Gaza, para o território palestiniano. E ao longo das últimas horas temos também alguma informação, que eu não consigo confirmar se é verdadeira ou não, de foguetes a saírem também da zona sul do Líbano, à semelhança do que aconteceu em 2006. E portanto, essa intervenção militar, quando fala em larga escala, é exatamente isso, ou seja, ela pode alargar-se não só a Gaza e ter outros pontos do território que precisem desta proteção e de uma intervenção militar. A única forma de conter isto é, de facto, colocar num momento negocial, em primeiro lugar, um cessar-fogo temporário e depois um processo negocial mais alargado, vivendo alguma pacificação, como aconteceu entre 2014 e o momento que agora vivemos. Mas como eu dizia há pouco, tendo em conta que a população na rua, dentro de Israel, dentro do Estado de Israel, em cidades que são habitadas por israelitas judeus e árabes israelitas, portanto, todos eles com cidadania, na sua maior parte israelita, mas que têm estas duas comunidades nacionais, de matriz judaica e de matriz árabe. Considerando que isso está a acontecer dentro do território de Israel, torna a gestão política e até de segurança bastante mais difícil. E não esqueçamos que temos um governo de transição em Israel e que está a tentar se formar um governo de coligação, em resultado das últimas eleições, onde os partidos árabes israelitas são uma peça-chave. Portanto, é muito difícil neste momento antecipar o que é que possa acontecer. A iniciativa militar em Gaza é muito significativa. Estão a ser deslocados meios de grande intensidade, até porque a resposta a partir de Gaza tem já uma capacidade que também não tinha em anos anteriores. Há, por exemplo, a notícia de que as brigadas militarizadas do Hamas, as brigadas Izzy al-Qassam, têm capacidade para disparar foguetes a 250 km de distância. E portanto, essa escalada militar, que ninguém quer, na verdade, nem o governo israelita, nem o Hamas, nem os palestinianos, nem os israelitas e nem a comunidade internacional, sai fora do controle, porque não há ninguém que dê uma ordem e seja cumprida por todas as partes. Os Estados Unidos já não desempenham esse papel. Não têm essa capacidade, também por aquilo que aconteceu ao longo da última década. E portanto, é muito difícil antever ou há, de facto, uma solução negocial. Neste momento, parece-me difícil. Teremos que esperar uns dias para perceber se isso se torna uma possibilidade e durante esses dias podemos esperar essa escalada militar e uma intensidade de conflito e de violência muito significativa.
Ana, falava justamente de uma questão que eu também lhe queria colocar, que era: os Estados Unidos já anunciaram, na pessoa de Joe Biden, que iam enviar um diplomata para ajudar essas negociações. Não sei se as negociações de que falava. Pergunto-lhe que impacto é que poderá ter o envolvimento talvez mais forte dos Estados Unidos nestas negociações?
Os Estados Unidos são o único Estado, o único que nós chamamos ator internacional com maior capacidade de influência. Não é a China, não é a Rússia, não são as Nações Unidas, não é a União Europeia e nem mesmo são os países árabes da região, seja Arábia Saudita ou outros. Os Estados Unidos são os únicos que podem, junto de Israel, em primeiro lugar, e depois também por decorrência, junto da autoridade palestiniana e dos parceiros, dos financiadores, digamos assim, do Hamas, porque não há negociações diretas entre os Estados Unidos e o Hamas, são os únicos que têm essa capacidade de influência e puseram-no ao mais alto nível do ponto de vista político. O secretário de Estado, Antony Blinken, nomeou o vice secretário de Estado adjunto para as questões de Israel e da Palestina, que é o Adi Amr, como o funcionário de alto nível a chefiar essas negociações, que vai para a região onde ele tem todo o trabalho de investigação e o trabalho político dele nas últimas décadas tem sido feito em torno desse conflito. Portanto, colocam no terreno no sentido de colocar à volta da mesma mesa representantes do governo israelita e da comunidade palestiniana. Se vai resultar no momento em que a tensão é tão alta e no momento em que as populações, os cidadãos estão com um nível de tensão tão grande, é bastante difícil que essas negociações tenham resultado imediato. Mas de facto, a administração norte-americana colocou um alto funcionário a falar diretamente com estes representantes. Eu devo dizer que do ponto de vista negocial, eu tenho algumas dúvidas no impacto imediato, mas que o cessar-fogo vai ter que acontecer, vai. Vai porque há um nível de violência que deixa de ser possível de sustentar. Agora, volto a salientar, o que mais me parece preocupante é a violência interna dentro do Estado de Israel, entre comunidades judaicas e comunidades muçulmanas, árabes muçulmanos, porque todos eles estão dentro do Estado de Israel e é politicamente muito difícil essas tensões e essa disrupção nas ruas ser gerida politicamente.
Eu perguntava-lhe também, falava há pouco da questão das eleições em Israel, que ainda não estão resolvidas, com o partido opositor a Netanyahu a tentar formar governo. Colocava-lhe a questão de se isto pode ser uma demonstração de força política de um primeiro-ministro que de certa forma pode estar a ver a sua saída do governo daqui a pouco tempo. Pode tratar-se disso?
Benjamim Netanyahu está a jogar a sua sobrevivência política, claramente. Mas ontem com as declarações que o primeiro-ministro de Israel fez, em que foi muito afirmativo quando disse: "Nós não podemos permitir este nível de violência entre cidadãos israelitas, árabes israelitas e judeus israelitas", foi uma afirmação de alguém que estava, se me permite a expressão, até assustado com o que se estava a passar no Estado de Israel. Agora, como eu dizia há pouco, a coligação do governo é formada por todos os partidos da oposição a Benjamin Netanyahu. São vários, são muitos, e a chave para a aprovação dessa coligação é um partido que se chama Ra'am, que é um partido de árabes israelitas e que cessou, congelou, digamos assim, a sua participação nas negociações exatamente por esta violência estar a decorrer e sem isto estar resolvido, não voltaria às negociações. O que permite que o governo de Netanyahu prolongue o seu mandato e seja ele o responsável, porque é o governo que está em vigor, por garantir a segurança das populações e garantir a resposta militar. E a resposta militar sabemos qual é, porque ela tem sido o padrão ao longo de todos estes anos. É uma resposta muito intensa, que é desproporcional porque não há outra forma de ser. Nós estamos a falar de um Estado e de uma entidade que não é um Estado e que não tem uma força militar regular, com o número de vítimas civis que é muito significativo, sempre maior do lado palestiniano do que israelita, exatamente porque a capacidade de proteger as populações também é diferente e os métodos, utilizar edifícios civis para lançar roquetes, etc., como acontece no caso da Faixa de Gaza. Portanto, eu não diria que esse é um jogo de sobrevivência de Netanyahu, mas é um momento em que Netanyahu está vulnerável politicamente, mas que ao mesmo tempo quer mostrar que é ele que tem a capacidade, como tem revelado na sua perspetiva ao longo destes anos, de proteger Israel e os israelitas.
Ana, uma última pergunta, muito mais complexa do que qualquer uma que coloquei hoje, mas este conflito já se dura há muitos anos. A prever uma solução possível, qual é que neste momento seria a sua análise daquilo que pode ser feito para, não diria de vez, mas para este assunto poder ter alguma calma durante algum período de tempo?
Eu diria que a realidade nos mostra quais são as soluções aplicáveis. Se me pergunta se há uma boa solução e sustentável de forma permanente, a minha intuição é dizer não. Não há uma solução que seja ponto de partida negocial para todos e que tenha uma longa duração. O que é que a realidade nos mostra? Primeiro, não ter atitudes que provoquem a reação e a raiva do outro, porque a possibilidade de escalada de conflito, como vemos agora, é muito significativa. E o que é que tem acontecido ao longo de 2014 até agora e que permitiu alguma estabilização? Por um lado, criar alguma regularidade e funcionamento nos territórios palestinianos, e aí a União Europeia tem um papel fundamental porque financia grande parte do desenvolvimento e das estruturas económicas e dos salários dos funcionários da Autoridade Palestiniana. Ter uma negociação com o Hamas em Gaza, no sentido de, apesar do bloqueio, e esse bloqueio é o ponto central nas negociações, permitir-lhes alguma sobrevivência do ponto de vista económico e também uma regular vida das populações. E só depois disso é que se pode começar a falar naquilo que possa ser uma solução de médio prazo e que me parece a mim já dificilmente passa pela lógica dos dois Estados como foi visto até ao início da década de 2000. Dificilmente pelas questões demográficas, pela própria arrumação do território, pelos colonatos que são colocados na Cisjordânia e pela política que foi seguida pelo governo de Israel nestes últimos anos. O que é que se pode fazer neste momento? Basicamente, tentar um cessar-fogo e responder àquilo que são as necessidades básicas da população e a responsabilidade é do governo de Israel e das autoridades dos territórios palestinianos, seja na Cisjordânia, seja em Gaza. A comunidade internacional pode também voltar a pôr esse tema na agenda, que é uma coisa que deixou de acontecer, provavelmente, nos últimos cinco a seis anos. E não há nenhum empenho, há uma retirada total da comunidade internacional. Os Estados Unidos têm ficado longe deste tema e isso significa que as comunidades autogerem. E essa autogestão pode gerar este tipo de consequência.