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Junta-se a nós o major-general João Vieira Borges. Major-general, antes de mais, obrigado pela disponibilidade. O que é que podemos esperar durante este arranque, caso confirme mesmo a entrada de tanques israelitas na fronteira do Líbano?

Muito boa noite. Eu não tenho os dados todos, mas há aqui indicadores que, efetivamente, depois do ataque, quer das aeronaves, quer da artilharia, obviamente, há a entrada dos blindados. Aquele terreno é muito complicado, não tem nada a ver com Gaza. É um terreno muito complicado porque assim já foi em 2006, assim já foi em 1982, ou seja, é zona montanhosa e, portanto, é necessário que a infantaria tome determinado tipo de objetivos primeiro, para que depois os carros de combate passem sem serem alvejados pelas armas anticarro de determinado tipo de posições. O fato de ser feito à noite protege as forças tecnologicamente mais avançadas, é o caso de Israel, porque tem aparelhos de visão noturna, pode se deslocar com mais facilidade do que durante o dia e, portanto, já estávamos à espera, uma série de indicadores, que fosse durante a noite esse mesmo ataque e não tradicionalmente pela manhã, numa operação convencional tradicional, e portanto, tinha que ser durante a noite, mas tinha que ter, obviamente, a ação preparatória com focos, quer de aviação, quer de artilharia.

Major-general, que tipo de movimentações é que podemos esperar? Qual é que é a prioridade no momento em que se decide entrar para dentro de uma fronteira de um país vizinho?

A prioridade aqui, independentemente dos objetivos políticos, agora está a me fazer perguntas em termos militares, ou seja, os objetivos táticos, do foro operacional e tático. Aqui, julgo eu, não temos todos os dados, mas com as referências de 2006, julgo que a prioridade é conquistar determinadas zonas, pontos da altura, numa primeira fase, e basta ver as imagens que temos da fronteira para perceber que é fundamental, para que desses pontos não sejam alvejados nem o território israelita, nem, neste caso, os carros de combate ou mesmo as viaturas blindadas de transporte de pessoal de infantaria. A prioridade, na minha perspectiva, numa visão mais alargada, tem a ver com uma linha de rio. Portanto, há um rio que está a 20, 30 km numa zona de fronteira, o rio Litani, e noutra está muito próximo da fronteira. Em 2006, o grande objetivo era chegar junto ao rio, e chegaram junto ao rio facilmente. Facilmente não, tiveram algumas baixas. Quando eu digo facilmente, morreram 120 e tal, se não me engano, em 34 dias de guerra, 120 e tal militares e 40 e tal civis, não me lembro agora dos dados. E, portanto, foi o rio que funciona como obstáculo natural, mas também como separador, e era importante e foi atingido nessa altura. Em 82, não. Em 82 foram até Beirute. Eu não sei se esta é uma situação semelhante à 2006, de garantir, em termos militares, aquela zona tampão, que não é a primeira vez que é falada, quer pelo chefe do Estado-Maior, quer pelo ministro da Defesa, garantir a zona tampão para que não haja depois ataques sobre território israelita, como tem sido habitual desde o dia 8 de outubro do ano passado. Muito embora o alcance das armas, desta vez do Hezbollah, é muito superior a essa distância, o que faz com que, mesmo que conquistassem território até ao rio, obviamente continuariam os ataques da parte do Hezbollah. É uma situação difícil de entender nesta fase. Só amanhã de manhã, se efetivamente o ataque começou. É que nós tínhamos informações de que os serviços de informações obviamente já estariam em território libanês, que é normal. Determinadas forças de operações especiais, é normal. Forças de reconhecimento, também é normal. Mas em termos de invasão, ainda não tenho a confirmação. Tenho indicadores da fronteira de Ramish, tenho indicadores de orações judaicas para os soldados das Forças de Defesa de Israel, que é sempre assim no início dos ataques, mas ainda não tenho mais informações. Isto é o que lhe posso dizer agora. Estamos a acompanhar, todos nós que temos que comentar, temos que acompanhar em pormenor, mas não tenho outros dados. Tenho alguns indicadores do Líbano, de Beirute, mas são pessoas que estão em Beirute e ali na fronteira não tenho outras informações em direto.

Major-general João Vieira Borges, uma última questão: que próximos passos e o que é que podemos esperar neste momento? São 11:00 da noite em Beirute, ou seja, noite cerrada na zona do Líbano. Como é que será a madrugada e também a manhã do dia de amanhã?

Se efetivamente houver o ataque neste momento, de acordo com os indicadores, amanhã estarão obviamente nos pontos de cota, como nós chamamos, nos primeiros ali a três, quatro quilômetros. Duvido que estejam mais as viaturas blindadas. Poderá haver unidades mais avançadas, mas mais do que isso é difícil. E começarão, certamente durante o dia, os combates com armas anticarro da parte do Hezbollah.

E é por aqui então que depois, é neste contexto que entra então a importância dos ataques aéreos que as forças israelitas têm realizado.

Uma coisa é a preparação, nós chamamos a preparação, que já foi feita. Outra coisa é durante o avanço das tropas, vai continuar a haver artilharia sobre determinados focos de resistência, é assim que nós chamamos E sobretudo aviação sobre os focos mais intensos, mas é feita a coordenação em termos militares, de maneira que os objetivos sejam os mais adequados à aviação, que tem maior capacidade de destruição relativamente àquilo que é a artilharia, e também depende do tipo de artilharia que estamos a falar. Isso será um combate, apesar de tudo, muito diferente daquele combate que nós tivemos em Gaza. Em Gaza foi essencialmente guerra urbana. Aqui, naquelas montanhas, numa fase inicial, não é bem assim. E tal como em 2006 e em 1982, as unidades blindadas contornavam essas zonas, porque sabiam que eram as zonas onde estavam entrincheiradas as forças do Hezbollah. Nós temos mapas e acompanhámos essas duas guerras. Quem acompanhou, obviamente criavam bolsas e depois eram determinadas forças de infantaria que entravam nas tais zonas mais urbanizadas, nas aldeias e nas vilas, para combater com o Hezbollah. Eu, sinceramente, não tenho noção hoje do que é a capacidade do Hezbollah, independentemente do armamento que dispõe, independentemente da preparação muito superior àquela que era em 2006, muito superior àquela que tinha a OLP, que não era o Hezbollah, em 82. Portanto, o que se afigura é que se penetrarem esta noite, amanhã teremos combates em direto nas televisões, nos primeiros quilómetros, e vamos ver se é só até ao rio, se depois continuam as forças como em 82 até Beirute. Não sei, depende com certeza também daquilo que for a resistência, porque obviamente o povo israelita não admite muito mais baixas em função daquilo que já vem sendo a guerra em Gaza. É uma guerra diferente, temos que separar as duas situações.

E que diferença, em que é que difere, major-general?

É muito diferente.

Tem a ver com a capacidade também ofensiva do Líbano, que é superior à da Palestina?

Claramente. E eu nem gosto de falar do Líbano, porque isto é um Estado dentro do Estado, isto é o Hezbollah. O exército libanês, eu tive informações há pouco que recuou. Está a ver? Portanto, o próprio exército libanês recuou porque tem consciência que a guerra é com o Hezbollah. É a mesma coisa que nós temos aqui. Aquilo é mais ou menos a dimensão do Algarve em termos de quilômetros quadrados, 10 mil quilômetros quadrados. Imagine ter o exército português, mas há um movimento político X, que tem tropa que é treinada na Rússia, nos Estados Unidos, não é isso agora que interessa, e que tem uma autonomia total e o próprio exército português tem que sair e são eles é que combatem dentro de Portugal, ou dentro deste caso, se for o caso. Num cenário, nós fazemos muitos exercícios deste tipo em determinadas zonas, e é um cenário muito complicado. Há pouco, as informações que recebia é que tinham recuado as forças do exército, onde eu tenho camaradas que fizeram curso comigo. O exército libanês retirou-se da fronteira. Os que ficaram foi o Hezbollah, o tal movimento que também é um partido e é um movimento terrorista. Agora, a diferença é que nós estamos a falar do Líbano como um Estado, caótico ou não, é um Estado. E é um Estado que tem no seu interior forças terroristas que atacam à ordem do Irão, que atacam o Estado de Israel, que querem destruir o Estado de Israel. Preferem a destruição do Estado de Israel do que a criação de dois Estados, paralelo a Israel e um Estado palestiniano. Preferem isso. Desde 48 que preferem isso. Não se entendem entre eles e preferem isso. E portanto, é diferente daquilo que se passa em Gaza e na Cisjordânia, que tem a ver com um território que, de acordo com as Nações Unidas, devia ser um Estado e que está ocupado por Israel. Portanto, são situações diferentes. Para algumas pessoas é importante tornar uma coisa igual. Aqui é muito diferente. Aqui Israel está a se defender de ataques sistemáticos desde o dia 8. Obviamente, tem que proteger a sua população, tem 60 mil pessoas refugiadas, aquelas aldeias e vilas, está tudo isolado, não tem ninguém. E, portanto, aqui há uma certa legitimidade de Israel em função dos ataques do Hezbollah. Vamos separar, isto é muito importante. Gaza é diferente, Israel foi atacado, não esquecer, 7 de outubro, deu a resposta. A resposta é demasiado pesada? É, houve muitas mortes. É criticável? É. Podemos fazer outro tipo de comentários. Aqui é uma situação diferente. É claro que uma coisa está relacionada com a outra, mas Israel não quer, certamente, relacionar uma coisa com a outra. Evidente que há relação direta, porque o Hezbollah argumenta que em função da situação na Cisjordânia e da situação em Gaza, eles hão de sempre bombardear enquanto não acabar a guerra. Mas isto podia acontecer com o Iraque, isto podia acontecer com a Síria, isto podia acontecer com a Jordânia, isto podia acontecer com o Egito. Todos os países ali à volta, se reagissem da mesma maneira, em função daquilo que se passa na Cisjordânia, obviamente, Israel desapareceria em dois dias. Felizmente, há divisões entre eles e há posturas completamente diferentes. O Líbano tem uma postura, e eu posso lhe dizer que o Líbano tem uma postura muito diferente daquilo que é o Hezbollah. Neste momento, inclusivamente em termos internos, isto vai dar origem, como sabe, os nossos ouvintes, não há presidente da República, que devia haver, obviamente, já há mais de um ano, já nem sei há quanto tempo, que devia ser um cristão maronita. E não há. E, portanto, neste momento, quer o primeiro-ministro sunita, quer o presidente do Parlamento xiita, que antigamente eram minorias, e as maiorias eram os drusos, eram, neste caso, os cristãos maronitas. Entretanto, vão ficando em minoria, porque todos aqueles combatentes que vêm depois da Cisjordânia vão pra ali, que vêm de Gaza vão pra ali, da Síria vão pra ali. Aquilo, de um momento pro outro, tornou-se um país completamente diferente em termos demográficos, ocupado por forças Comandadas pelo Irão. É uma situação diferente. É bom que se separe, apesar do relacionamento que há entre uma coisa e outra. Em termos militares também é diferente, porque o teatro de operações é diferente, as forças são diferentes, o território é diferente.

Como é que fica o exército do Líbano vendo este tipo de situação? Há pouco dizia que eles retiraram-se, que se terão afastado. Como é que ficam sabendo que vêm forças armadas na direção contrária, ao que tudo indica, como está a avançar a televisão da Arábia Saudita?

O Mikati, que é o primeiro-ministro interino, ainda por cima, já pelo menos tem boas relações neste momento com o Nabih Berri, que é o presidente do Parlamento. São islâmicos os dois, com pensamentos diferentes, mas o pensamento deles é defender o Líbano e já querem inclusivamente eleger um presidente aceite por todos para ver se com um presidente haja legitimidade e autoridade para parar a guerra, sendo cristão maronita. Isto tem consequências também em nível interno. Esse exército obviamente que está à ordem do primeiro-ministro, neste momento, que assume as funções também interinamente de presidente. E vai recuando até fazer a proteção daquilo que são as instituições soberanas do país. Sinceramente, olhando para 82, eles a determinada altura afastam-se e entram, sobretudo em combate, as forças e os movimentos que têm relação direta. Na altura, em 82, os cristãos apoiaram os israelitas, curiosamente. Os sírios apoiaram outros movimentos, a OLP mais tarde viriam apoiá-los. É uma confusão muito grande, depois aqui houve uma guerra civil. E é muito difícil prever, porque há movimentos islâmicos que não estão minimamente de acordo, mesmo o movimento Amal, nem sempre esteve de acordo com o Hezbollah. Há ali senhores da guerra dentro daqueles territórios, sobretudo os territórios fronteiriços. É muito difícil perceber neste momento, só mesmo tendo gente lá que nos vai informando a pouco e pouco o que é que se está a passar. A essa questão não consigo dar uma resposta. Dei aqui alguns dados para as pessoas perceberem a complexidade deste conflito, mas às vezes há viragens ali nos apoios. À última da hora há ali apoios que se transformam, por conflitos que há entre os próprios grupos islâmicos, designadamente entre sunitas e xiitas. Se não houvesse o problema de Israel, haveria o problema de sunitas e xiitas, como há entre a Arábia Saudita e o Irão. Isso já aconteceu.