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Este cessar-fogo vem 11 dias depois e cerca de 250 mortes depois. Foi a pressão internacional que permitiu que isto acontecesse?
Certamente que sim. Para além também, e acho que isso é uma parte muito relevante da pressão também interna, dentro de Israel, toda essa situação que tem-se tornado quase uma guerra civil e já quem fale nesses termos dentro do Estado de Israel, também coloca a opinião pública numa pressão muito grande contra, especificamente, o governo de Netanyahu. Mas efetivamente, a situação da guerra que aconteceu entre Israel e Gaza, foi uma situação que do ponto de vista humanitário não é a primeira vez, mas é muito chocante para quem vê de fora. Israel tem atingido indiscriminadamente uma série de alvos, incluindo alvos de mídia. E nesse sentido, a pressão internacional com certeza que teve aqui um papel, apesar de que foi uma pressão internacional já muito tardia. Como disse, já vem 11 dias depois, os Estados Unidos demorou imenso para agir, e o discurso da administração do Joe Biden durante os primeiros dias e até o início dessa semana, ainda foi de que Israel tinha o direito de se defender.
E ainda falta cerca de uma hora para a entrada em vigor desse cessar-fogo. O que espera que se aconteça neste período até lá? Podemos esperar mais ataques de grandes dimensões, a população de Gaza está a temer que isso aconteça. O que se espera até a entrada em definitivo desse cessar-fogo?
A levar em conta a experiência das vezes anteriores em que um conflito semelhante teve lugar, nomeadamente em 2008, em 2012, em 2014. O que se espera desses últimos momentos antes do cessar-fogo entrar em vigor é um aumento dos ataques. Nomeadamente, Israel sempre repetiu, especificamente o Benjamin Netanyahu, sempre repetiu que o motivo pelo qual os ataques se manteriam em força durante mais tempo, era porque havia um objetivo militar claro, estratégico, de enfraquecer a posição do Hamas e de destruir túneis outras vias que o Hamas utiliza para obter armamentos e para conseguir construir rockets e também para a organização do movimento. Nesse sentido, o que atualmente acontece nesse último momento é o intensificar da violência, apesar de que nesse momento ainda existe uma série de avisos sobre o lançamento de rockets da Faixa de Gaza para o sul de Israel e a entrada também de mísseis e drones de Israel para a Faixa de Gaza. No entanto, não me parece, pelo que eu tenho acompanhado ao vivo na Al Jazeera, nomeadamente, que tenha sido muito pior do que tem sido nos últimos dias. Não me parece que haja aqui uma grande intensificação. No entanto, Israel vai certamente aproveitar esses últimos momentos para terminar de cumprir alguns dos objetivos militares que eventualmente não tenham sido cumpridos.
E este caminho para a paz com este cessar-fogo que vai entrar em vigor daqui a cerca de uma hora, é só um acordo superficial, é um caminho para a paz, pode-se resolver uma parte da questão humanitária, mas não o problema de fundo, o que podemos antecipar do que pode acontecer no futuro, que realmente possa ter impacto nesta região?
A minha resposta para a sua pergunta começa por questionar qualquer utilização da palavra paz nesse contexto, mesmo antes desse empele do conflito, que nós temos assistido nos últimos 11 dias, eu teria muita dificuldade em classificar a situação em Israel e na Palestina, e nomeadamente, principalmente em Gaza, como uma situação de paz. O fato de que não há guerra declarada entre duas instituições internacionais, dois atores internacionais, não quer dizer necessariamente que haja aqui um contexto de paz, não só por conta do conflito violento entre os dois lados, mas nomeadamente porque o conflito israelo-palestiniano é um conflito prolongado, é um conflito de base identitária e, portanto, é um conflito que latente, mesmo quando não vemos episódios específicos de violência direta. A violência que é estrutural, que é uma violência que tem a ver com a justiça social e que tem a ver com dificuldades, e tem a ver com a quebra de oportunidades para uma série de pessoas dentro da sociedade, nomeadamente a sociedade palestiniana e árabe dentro de Israel, é uma coisa que é gritante para além do que podemos chamar também de violência cultural, que é a violência que está nos discursos, que está nas práticas, que muitas vezes é simbólica, outras vezes tem mesmo manifestação concreta e jurídica. E podemos ver isso, inclusive, na situação que despoletou tudo isso em Sheikh Jarrah, em que uma série de palestinianos foram expulsos das suas casas por uma ordem judicial, sem terem qualquer possibilidade legal de se defenderem. Então a própria desproporcionalidade na lei para tratar pessoas de cidadania israelita, nesse caso, dentro do Estado de Israel, é uma questão que me coloca muito em causa a utilização da palavra paz nesse contexto. No entanto, o que se pode esperar do cessar-fogo nesse momento, do meu ponto de vista, é que é um cessar-fogo muito delicado. Para começar, porque ele vem sem condições, é um cessar-fogo que nesse momento não tem grandes negociações de fundo. O que se espera nos próximos dias é que isso seja negociado, nomeadamente, Israel vai certamente colocar condições muito estritas com relação a qualquer tipo de lançamento de rockets a partir da Faixa de Gaza e o movimento que controla a Faixa de Gaza, que é o Hamas, vai certamente querer negociar qualquer tipo de alívio fronteiriço, porque a Faixa de Gaza é um espaço completamente controlado do ponto de vista das fronteiras. A metáfora que se usa frequentemente é que é uma prisão a céu aberto e a questão dos remédios e da comida e da água e materiais de reconstrução é sempre o que aparece depois desses períodos de cessar-fogo, também de trânsito de pessoas para hospitais. E espera-se que isso seja negociado, como costumava ser nos últimos tempos. Mas também é importante lembrar que o cessar-fogo entre o Hamas e o Estado de Israel não quer dizer que há qualquer tipo de cessar-fogo, se quisermos usar essa palavra, dentro de Israel. Chegou até a ser um comentário feito por um jornalista da CNN no Twitter, que falou que os egípcios agora se tivessem tempo, poderiam negociar o cessar-fogo do conflito interno dentro de Israel. Isso é uma situação que ainda não se sabe como é que vai terminar, principalmente porque a parte que é novidade nesse conflito atual, é o tipo de conflito social que temos visto dentro do Estado de Israel.