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Então, a primeira pergunta que eu faço é se misturar vacinas pode ser, de facto, uma solução possível?
Sim, eu acho que sim. Neste momento, estamos com um problema com esta questão das vacinas de adenovírus, tanto a da Janssen como a da AstraZeneca, potencialmente também a vacina russa e a Sinovac também, dos chineses. São estratégias com adenovírus que, se calhar, não vão ter a possibilidade de ter duas doses e, portanto, misturar diferentes vacinas pode resolver este problema. Para além de que pode também vir a dar indicações que misturar duas vacinas diferentes até potencialmente pode ser melhor do ponto de vista da imunidade. Nós temos vários casos de resposta com vacinas diferentes que são até muito boas e isso é necessário perceber. E neste momento os estudos que estão a ser feitos em Inglaterra, em Oxford, mostram exatamente que há essa possibilidade. Não temos ainda resultados, mas os estudos estão a ser efetuados e estão a ser ampliados com mais voluntários, exatamente para combinar diferentes vacinas, principalmente aquelas da Pfizer e da Moderna, que parecem ser as mais seguras, sem efeitos secundários em quase 180 milhões de pessoas que tiveram essas vacinas. E, portanto, combinar essas vacinas com as vacinas de adenovírus pode ser uma resposta a este problema.
E em relação a uma possível terceira dose da vacina, essa hipótese foi ontem falada pelo CEO da Pfizer.
Eu acho que é uma hipótese até bastante viável. Nós ainda não temos esses dados, mas certamente a partir dos seis meses vamos começar a ter um decréscimo da imunidade e um reforço de uma terceira inoculação estava dentro dos planos e sempre pensámos que após um ano certamente teríamos que ter um reforço da vacina. Portanto, eu acho que é natural, não é um problema das vacinas, é certamente algo que estaríamos à espera e que é necessário sabermos exatamente se as pessoas estão ou não a desenvolver uma boa resposta. Certamente vai haver pessoas com mais resposta do que outras, e esta terceira vacinação iria permitir àquelas pessoas que ao fim de seis, nove, 12 meses começam a ficar sem imunidade, que reforcem ainda mais e consigam estimular mais a imunidade. Portanto, eu acho que é uma excelente forma de nós mantermos a imunidade durante mais tempo.
E quanto a uma vacinação anual no futuro, falou-se tal qual como a gripe, essa hipótese também é realista?
Sim, essa hipótese eu acho que, se calhar, nós vamos ter a possibilidade de ter aqui um ou dois anos de vacinação, mas eu não acredito que seja necessário uma vacinação anual para a Covid-19. Eu penso que isto é um vírus que se nós criarmos uma boa imunidade, esta imunidade certamente poderá, num segundo ou terceiro ano, ser necessário uma vacinação contra alguns variantes. Parece que nós estamos basicamente os variantes que estamos aqui a selecionar e que estão mais distribuídos pela população são os variantes da África do Sul e da Inglaterra. E se daqui a um ano vier uma nova variação dessa vacina, será certamente para nos proteger dessas variantes. Mas nós não acreditamos que existam muito mais variantes depois que venham a ocorrer no futuro. Portanto, eu penso que será um esforço que nós vamos fazer durante dois ou três anos, mas eu não acredito que seja necessário uma vacinação anual, porque a biologia deste vírus e o tipo de vírus é muito diferente dos vírus da gripe. Eu penso que será só necessário durante dois, três, no máximo quatro anos, termos este esforço de vacinação. É que cria uma imunidade forte e por isso mesmo é que ontem o presidente da Pfizer veio exatamente dizer isso, porque certamente haverá aqui já indicações que a imunidade vai, após algum tempo, em algumas pessoas, em algumas populações, após algum tempo, pode começar a diminuir. E, portanto, é para evitar que essa diminuição seja muito abrupta ou que deixe as pessoas com pouca imunidade, que potencialmente isso poderá acontecer. Mas isso eu acho que é algo que estaríamos à espera.
Já agora pergunto-lhe, há já algum critério para o tipo de pessoas que podem perder essa imunidade, algum tipo de característica?
Não, infelizmente, não. Temos algumas ideias. Nós, por exemplo, aqui na Faculdade de Farmácia, estamos a acompanhar quase mil pessoas e vemos, por exemplo, que pessoas mais velhas, as pessoas com mais de 60, 65 anos, não têm o mesmo tipo de imunidade, têm cerca de metade da imunidade das pessoas com 40 anos, por exemplo, na faixa dos 40 anos. E portanto, a idade é um fator que faz com que as pessoas percam a imunidade mais rapidamente. Em segundo lugar, as pessoas com doenças mediadas pelo sistema imunitário, ou seja, por exemplo, autoimunidades ou pessoas com problemas de imunodeficiências. Essas pessoas certamente também vão ter uma resposta mais baixa. E portanto, algumas dessas pessoas terão certamente que fazer os testes de imunidade e perceber se estão a continuar a desenvolver o mesmo tipo de imunidade que tinham, por exemplo, há seis meses ou há um ano. E essas pessoas é que deverão fazer o reforço, fundamentalmente.