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Temos connosco em linha, também aqui na Rádio Observador, Jorge Silvério, psicólogo do desporto. Jorge Silvério, muito boa tarde. Obrigado pela disponibilidade por se juntar a nós. Falámos muito recentemente, também neste período de verão, sobre outra morte chocante nos últimos meses, de Diogo Jota e do irmão André Silva, e do impacto que isso acaba por ter na vida desses clubes, na vida dos jogadores, na proximidade que tinham também. Jorge Costa, nessa altura enquanto diretor desportivo do Futebol Clube do Porto, tinha uma ligação muito direta aos jogadores, estava a trabalhar de perto com a equipa principal e a trabalhar de perto com a equipa técnica, fazia essa ponte entre a equipa e a direção. Isto acaba por ter um impacto muito direto também no Futebol Clube do Porto.

Acaba, claro que sim. É uma pessoa extremamente importante na história do clube, além das funções que o Miguel acabou de dizer que ele exercia. Mas é um jogador que pertence à história e que encarna a mística do Futebol Clube do Porto e, portanto, claramente que vai ter impacto. Terá que exigir aqui um cuidado especial e uma atenção da parte do clube, da sua equipa médica, um trabalho também de acompanhamento mais próximo daqueles que estavam também mais próximos do Jorge Costa, em termos daquilo que é a adaptação a esta nova realidade. Todos nós sabemos que isto faz parte da vida e acontece, mas depois quando as coisas acontecem, as pessoas nunca estão completamente preparadas. E é importante que se faça esse trabalho de preparação para aquilo que vai acontecer agora, desaparecer uma pessoa importantíssima na estrutura do Futebol Clube do Porto.

Jorge, que trabalho é que se faz também com uma equipa num momento destes e junto dos jogadores? É psicólogo do desporto, há cuidados a ter? Estamos a falar, claro, de um plantel e não apenas de impacto direto numa pessoa ou num grupo mais reduzido. É um plantel inteiro, são quase 30 jogadores, uma equipa técnica também muito vasta, uma direção. Que cuidados há a ter também? Estamos a falar de atletas profissionais de alto rendimento, competições que começam em poucos dias e acaba por morrer alguém ainda numa idade jovem, 53 anos, um diretor desportivo. Que trabalho é que se faz junto de uma equipa num momento destes?

É, sobretudo, estar com atenção àquilo que são as reações das pessoas. Neste momento, o plantel do Futebol Clube do Porto e a equipa técnica têm gente com muitas culturas, de muitas nacionalidades, que reagem também de forma diferente e que fazem o luto de forma diferente. É importante que se perceba aquilo que está a acontecer e, sobretudo, se houver uma mudança muito radical em termos de comportamentos, em termos de emoções, aí sim, intervir no sentido de ajudar a passar esta fase do luto. Nós normalmente costumamos dizer que tem cinco fases. E essas fases são em diferentes velocidades, digamos assim, ou seja, pessoas diferentes adaptam-se a elas de forma diferente e vão evoluindo entre aspas, de fase para fase, de forma diferente. É muito importante que alguém esteja com atenção às reações e aos comportamentos, e se eles começarem a ser muito diferentes, então aí haver uma intervenção mais específica junto desse atleta, desse membro do staff, em que se note que está a haver essa diferença de comportamentos.

Jorge Silvério, há aqui muitas reações do mundo do futebol, até porque, de facto, é uma notícia completamente inesperada. Sentiu-se mal hoje durante um treino do Futebol Clube do Porto e acabou por morrer. O universo Futebol Clube do Porto a ser abalado também por várias situações durante os últimos meses. Jorge Pinto da Costa, Diogo Jota recentemente, Jorge Costa agora. Estão já a meia haste as bandeiras no Estádio do Dragão, homenagem já a acontecer junto ao estádio. De facto, acaba por ter um impacto em toda a estrutura, em toda a família azul e branca, mais esta morte do Jorge Costa, neste caso.

É. E não só. Nós estamos a falar do grupo mais reduzido, das pessoas que trabalhavam diariamente com o Jorge Costa, obviamente a sua família, mas dada a importância que o Jorge sempre teve no clube, isto impacta também todos aqueles que são sócios, que são simpatizantes do Futebol Clube do Porto e do desporto em geral. É um pouco como, não sendo uma pessoa da família de toda a gente, digamos assim, mas é uma pessoa que entra pelas casas e que nós estamos habituados a ver no nosso dia a dia. Portanto, acaba tal como aconteceu em relação ao Diogo Jota e como acontece em relação a personagens que são mais impactantes pelo que desempenham, neste caso, a nível nacional e até mesmo a nível mundial, acaba por também ter esse impacto. Seguramente que os próprios sócios e adeptos do Porto e do desporto em geral vão sentir esta falta. E sente-se ainda mais quando as coisas não são esperadas ou expectáveis, digamos assim. Quando acontecem de forma inesperada, o impacto acaba por ser maior. Daí os cuidados também devem ser maiores e deve haver esta atenção especial em relação àquilo que são as reações. Eu estava a me lembrar, por exemplo, a propósito do Diogo Jota, de uma situação que ouvi na altura e que me deixou a pensar, que era um pai a falar com o filho, cujo ídolo era precisamente o Diogo Jota. E o pai a dizer: "Mas tu não o conhecias, portanto, não tens que te preocupar." Mas de alguma forma, estas pessoas com o impacto que têm acabam sempre por ser conhecidas um bocadinho por todos nós e acabam por sempre ter impacto. Se houver jovens que chorem porque morreu uma pessoa que para eles era importante, isso não deve ser reprimido ou não deve ser: "Tu não conhecias aquela pessoa." De alguma forma, todos nós o conhecíamos. Temos que ter muito cuidado com aquilo que dizemos e com as reações que temos, de maneira a que isto seja, digamos assim, integrado e que seja vivido de uma forma mais positiva, entre aspas, de forma a não deixar traumas, pode sempre acontecer isso.