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Muito boa tarde, Carlos Pereira, jornalista do LusoJornal. Quase metade dos departamentos de França estão hoje em alerta vermelho. Aí onde está, em Clermont-Ferrand, como é o calor? É aquele calor sufocante?
O calor é muito, há transpiração, é necessário beber muito. Eu estou aqui em Clermont-Ferrand a cobrir uma grande festa portuguesa que se realizou este fim de semana. De facto, no meio do recinto onde se realizava a festa, é a festa de São João, uma das maiores festas portuguesas aqui, era impossível estar durante o dia. A parte que se realizou à noite correu muito bem, as pessoas chegaram-se à frente e assistiram aos concertos normalmente, mas no domingo à tarde, ninguém conseguia estar no recinto da festa e os artistas cantaram sem ninguém à frente, praticamente. As pessoas estavam todas debaixo de árvores ou debaixo de umas tendas mais lá para o fundo e a cena parecia ao espaço vazio, porque não era possível estar ao sol. Houve uns desfiles de grupos de folclore que, muito francamente, não sei como é que conseguiram desfilar nas ruas em Clermont-Ferrand com este calor. Era necessário estar a dar muita água. E a Proteção Civil, aliás, associou-se a este evento e esteve constantemente a vaporizar água às pessoas que estavam a desfilar, aos portugueses que estavam a desfilar e também alguns grupos folclóricos franceses, devido às altas temperaturas. A Câmara Municipal em Clermont-Ferrand ainda pôs a hipótese de mandar anular a festa no domingo, devido a altas temperaturas. Depois acabou por não o fazer e deixar que a festa se realizasse, mas reforçou a presença de meios de primeiros socorros, no caso em que fosse necessário. Houve quatro ou cinco pessoas que se sentiram mal e que foram acompanhadas, mas andaram a distribuir muita água durante a festa às pessoas que ali estavam, porque se não beber, fica muito complicado. Ao sol é praticamente impossível de estar actualmente. Há muitas escolas fechadas, nomeadamente à tarde. Há algumas que fecham de tarde. Por exemplo, esta tarde, estiveram só abertas de manhã, onde é possível haver aulas e depois, durante a tarde, anulam as aulas. É o que se passa hoje em praticamente toda a França, uma vez que há 53 ou 54 departamentos, podemos chamar distritos, que estão em alerta vermelho e depois mais uns 35 no alerta cor laranja. É praticamente todo o país que está a sofrer estas altas temperaturas e este encerramento de escolas à tarde é praticamente no país inteiro. Já estamos no fim das aulas escolares, há aqui também uma tolerância se as crianças não forem de manhã, mas há mesmo uma directiva do ministério de não abrir as escolas à tarde, de forma a que os alunos não estejam a sofrer, porque muitas vezes numa escola não há ar-condicionado, há janelas de vidros e entra muito calor. Às vezes os professores queixavam-se que estava a ser insuportável dar aulas nessas condições.
E como tem sido a comunicação das autoridades francesas durante esta onda de calor?
Há estes alertas que são lançados e estes alertas são depois retomados pela imprensa, nomeadamente pela imprensa regional, as rádios, os jornais e também nacional. Em função do alerta, nós vamos conhecendo os comportamentos a ter. Há muitas mensagens na televisão e também nas rádios a dizer às pessoas que fechem as janelas todas de casa durante o dia e que não deixem entrar luz, portanto, sol, de maneira a não aquecer as casas e abrir só durante a noite e arejar completamente durante a noite. Isso são mensagens constantes que aparecem em todos os órgãos de comunicação social, mas eu penso que nem se trata sequer de mensagens do governo. O governo limita-se a pôr os alertas e, neste caso, é alerta vermelho, é o alerta máximo, e automaticamente os órgãos de comunicação social retomam os conselhos muito habituais de beber muito, de não sair, de não fazer exercícios e de ficar fechado em casa ou fechar as janelas e as portas de casa, de maneira a não deixar entrar luz. Essas são mensagens constantes que estamos a estar a ouvir.
Aqui, por exemplo, em Portugal, nós recebemos mensagens da Proteção Civil quando há fenómenos deste tipo, ou incêndios, ou também tempestades. Em França, não há nenhum sistema deste género ou que pelo menos esteja a ser utilizado.
Eu posso lhe dizer que moro em França há 42 anos, nunca recebi nenhuma informação, nenhuma mensagem da Proteção Civil, exceto quando estou em Portugal. O meu operador telefónico francês reencaminha mensagens, porque me localiza em Portugal. Aqui não há esses Esses alertas eu nunca recebi, os meus operadores nunca me enviaram. Agora também não está o que há. Estes alertas ou de tempestade ou de forte calor, como está a acontecer agora, é amplamente divulgado nos meios de comunicação social e isso faz de alerta a todas as pessoas que moram aqui em França.
As autoridades francesas já emitiram vários alertas e avisos por causa do tempo quente. A presença das autoridades faz-se também sentir nas ruas ou nem por isso?
Não, as ruas estão praticamente desertas à hora de maior calor. Eu posso lhe dizer que ontem foi a Festa da Música em França, é uma festa nacional. Em todas as localidades há gente que vai pra rua tocar música. É um dia por ano e foi ontem, no dia 21 de junho. E aqui em Clermont-Ferrand, onde eu estou, durante a tarde não havia nenhum grupo de música a tocar na rua e depois com o cair da noite, foram às centenas de grupos a tocarem na rua. Qualquer pessoa pode chegar à rua e tocar, toque bem ou mal, etc. Estava muita gente na rua ontem à noite, mas durante o dia estava desértico, ninguém andava na rua, muito raramente. E hoje passou-se exatamente a mesma coisa. Atravessei Clermont-Ferrand há bocadinho e não havia quase ninguém na rua, não se via muita gente a andar a pé na rua, as pessoas evitam. Agora no sítio onde eu estou, já é um pouco mais desviado, mas começo a saber algumas pessoas aqui a sair, porque já está a parte mais perigosa do dia, onde aquece mais, que é no princípio da tarde, e aqui já é fim da tarde, é uma hora a mais do que em Portugal, já começa a haver pessoas aqui na rua a passear. Mas não, os apelos nas rádios e nas televisões é que, nomeadamente as pessoas idosas, que não saiam de casa, que não façam exercícios, que não se cansem, que bebam muito, etc. Mesmo que não tenham sede, devem. São mensagens habituais que já aparecem aqui. E eu estou cá há alguns anos e raramente assisti a períodos como este de muito calor. Já aconteceu de vez em quando, mas que ainda há umas semanas atrás houve um momento como este e agora voltou a haver este momento muito próximo uma da outra, isso nunca me tinha acontecido. De vez em quando aparece uma vez ou outra, num ano ou noutro. Agora, este ano já é a segunda vaga de forte calor que está a acontecer. E isso eu nunca tinha vivido aqui ainda e é a primeira vez que eu estou a viver no mesmo mês, praticamente, estas duas vagas de forte calor, uma logo perto da outra. É impressionante.
E como têm sido as noites? Falava há bocado da Festa da Música, em que as pessoas acabaram por sair mais à noite para festejar e para celebrar esse dia. As noites têm sido também muito quentes?
Onde eu estou, o centro da França, entre Bordeaux e Lyon, é muito mais para baixo do que em Paris. Em Paris costuma ser sufocante. Esta última vaga eu estava em Paris e estava a sufocar. Agora, acabei por estar aqui, porque estou aqui a trabalhar. É muito mais fresco durante a noite, evidentemente, e as pessoas aproveitam a abrir as janelas todas de casa, fazer corrente de ar, se for possível, e sair e andar, já que não podem fazê-lo durante o dia. Ontem era um caso particular, porque foi a Festa da Música e na Festa da Música, tradicionalmente, toda a gente sai. Agora, como calhou num domingo, tradicionalmente, as pessoas saíam mesmo durante o dia e havia grupos de música a tocar durante todo o dia. Neste caso, não houve. Os grupos não estavam a tocar durante o dia e isso até parecia estranho no Dia da Música, mas depois à noite estava muita música na rua, muita gente na rua. Nós atravessamos aqui a cidade várias vezes a pé e estavam milhares de pessoas na rua. Manteve-se a Festa da Música, mas só à noite, porque durante o dia não foi possível fazê-lo. E como a Festa da Música é uma instituição em França, há em todas as aldeias pequenas até às grandes cidades, toda a gente sai neste dia ouvir música e qualquer um pode tocar na rua. Há, como podem imaginar, muita gente que estava na rua a tocar e muita gente que saiu precisamente porque não podendo sair durante a tarde, já estava mais disponível à noite a sair. E de facto, aqui, pelo menos em Clermont-Ferrand, eu não posso comparar, nunca estive cá nos outros anos, mas aqui havia muita gente na rua e as pessoas que nos acompanhavam diziam que de facto havia mais do que nos anos anteriores, porque as pessoas não puderam sair durante a tarde e saíram à noite.
Carlos Pereira, jornalista do Lusa Jornal, muito obrigada pelo seu testemunho e boa sorte para lidar com esse calor em França. Obrigada.