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Temos agora também ao telefone Maria da Piedade Ferreira, editora e também tradutora. Bom dia, Maria da Piedade, obrigado por se juntar a nós.
Bom dia.
Como é que podemos recordar este homem marcante da literatura portuguesa?
Olhe, eu tinha escrito um pequenino texto quando foi a homenagem na Gulbenkian. Como não preparei nada, vou lê-lo. "Em 1979, um cometa rompeu o panorama literário português, dominado ainda por uma literatura muito politizada no rescaldo da revolução. 'Memória de Elefante', o primeiro livro de um então jovem médico psiquiatra, veio trazer algo de completamente novo pelo tema, pela linguagem, pela inovação e qualidade da prosa, tão rara numa obra de estreia. Tendo António Lobo Antunes feito a guerra colonial em Angola como médico, essa experiência iria marcá-lo profundamente e seria o tema do seu segundo livro, 'Os Escudos de Judas', publicado no mesmo ano e ainda hoje o seu livro mais traduzido. Quarenta anos, 30 romances e cinco livros de crônicas depois, António Lobo Antunes é hoje um escritor de primeiro plano na literatura mundial, traduzido em inúmeros países e distinguido com os mais prestigiados prêmios, como o Prêmio Camões, Prêmio Jerusalém, Prêmio Europeu de Literatura, Prêmio para o Melhor Livro Estrangeiro em França, Prêmio da Associação Portuguesa de Escritores, Prêmio Juan Rulfo no México, Prêmio Ovídio na Romênia, só citar alguns." A obra de Lobo Antunes vai ser eterna, porque é vasta, é magnífica no estilo, nos temas. E eu fico muito orgulhosa de ter sido editora do António Lobo Antunes nos últimos 15 anos. E tive hoje de manhã a triste surpresa de saber que ele tinha morrido.
E precisamente nessa relação pessoal com António Lobo Antunes também, como era?
Olhe, foi muito curiosa, porque o António Lobo Antunes não admitia grandes comentários ao que ele escrevia. Ele mandava o manuscrito, não passava à máquina, mandava o manuscrito, eu mandava bater no computador e depois fazia-lhe algumas sugestões, que ele, por exemplo, nas datas das coisas e nesse tipo de pormenor, às vezes não acertava. Mas ele ficava muito furioso comigo quando eu lhe fazia notar que ele tinha ali um desajuste qualquer. Mas fora isso, demo-nos muito bem. Ele era muito exigente, não gostava que lhe mexessem nos textos, estava sempre em cima do seu trabalho e sabia muito bem que o trabalho dele estava bem feito e não queria emendas. E foi uma relação muito cordial, muito amigável, que durou 15 anos.
Bom dia, Maria da Piedade Ferreira, daqui Bruno Vieira Amaral. Ainda perguntando sobre essa relação enquanto editora, foi também para si uma grande responsabilidade ser editora de um nome como António Lobo Antunes. É diferente ter essa responsabilidade de outros autores, sem menosprezo por qualquer autor?
Eu publiquei outros autores de quem tinha também muita responsabilidade, como por exemplo, o Vergílio Ferreira, que era uma pessoa muito exigente e com um feitio difícil. E Namora, por exemplo, também fui editora dele, do David Mourão-Ferreira e outros. O António Lobo Antunes era um caso especial, porque primeiro tinha uma obra muito vasta e depois porque ele era muito confiante no que escrevia. Isso para mim também era uma enorme confiança, porque sabia que o que ele tinha escrito era o que ele queria fazer e que era bom. E foi uma relação muito boa, muito cordial, às vezes conflituosa, quando ele brigava comigo ou eu com ele, mas de resto, foi muito honroso para mim, muito bom ter sido a editora do António Lobo Antunes.
E imagino que tenha também sido um privilégio aqueles momentos em que recebia o novo livro do António Lobo Antunes.
Era eu a primeira pessoa a ler os livros dele.
E como é que se sentia nesses momentos? Havia sempre, imagino, uma grande emoção ter essa oportunidade.
Sim, porque eu era realmente a primeira pessoa a ler os livros. Ele escrevia à mão, não passava à máquina, escrevia à mão, mas uma escrita escolar, muito legível, e eu depois lia, assinalava uma ou outra observação, e depois começava o processo da produção do livro.
Qual é que acha que é o legado de António Lobo Antunes, não só para a nossa literatura, a literatura portuguesa, mas para a literatura mundial?
É um legado importante. Ele tem prêmios internacionais importantíssimos. Está traduzido ainda hoje, pedem direitos de tradução dos países mais diversos. Portanto, a obra dele está viva e continua a ser traduzido. Teve os maiores prêmios e eu acho que vai ficar para sempre.