Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Antes de mais, Teresa Guilherme, muito obrigada por ter aceite o nosso convite para recordar o Marco Paulo. Primeiro de tudo, pergunto-lhe qual é o legado que fica?

Ficou um imenso carinho, amor até, que as pessoas tinham, o público no geral tinha por ele, pela voz dele, pela obra dele, pelas canções dele, pelos imensos momentos de alegria e de prazer que ele deu, mas também pela fé dele. E acho que para muitas pessoas também foi uma inspiração. Um homem que há tantos anos batalhava contra esta doença, infelizmente tão comum, o cancro, que o foi acompanhando ao longo das décadas e ele explicar tudo e contar tudo publicamente, sofrem do mesmo mal. Portanto, eu acho que muita gente hoje tem de ter perdido o Marco Paulo em todos os aspectos, menos um, que a música dele ficará.

Ainda há dois dias, salvo erros, esteve na televisão e comentou acerca do estado de saúde. Acha que o próprio tinha noção de que o estado de saúde estava a piorar?

Sim. Ele sempre teve a noção. Tinha a noção que conseguia, nos primeiros anos desta doença, já há muito tempo, que conseguia vencer a doença e venceu durante 20 anos, há muito tempo. Depois quando a doença voltou, e ele mais velho, mais preocupado, mas recentemente, já há um tempo esta parte que, vamos dizer, há dois, três meses, que ele anda a dizer que desta vez era muito mais complicada e que desta vez não via isto tão bem parado e ele recentemente já dizia que tinha chegado a altura de se despedir. Ou seja, acho que ele já estava um bocadinho cansado, porque isso é uma doença que toda a gente sabe que traz um sofrimento imenso. E acho que ele tinha bem consciência disso.

E lembra-se de alguma coisa que ele tenha dito nos últimos momentos que a tenha marcado?

O mais recente que eu estive com ele, ele estava bem disposto. Eu acho que ele tinha uma enorme felicidade, era uma alegria. Era uma felicidade pelas manifestações de carinho do público, pelas manifestações de carinho que levaram tempo, que as pessoas não aceitaram logo, apesar de ele ser tão bom cantor, não aceitaram logo, mas dos colegas de profissão, dos cantores, dos músicos e não só, de quem o rodeava. E acho que ele agradecia muito. Ele era uma pessoa de fé, também isso é uma coisa realmente muito importante para ele. Ele agradecia muito ter vivido e ter chegado até a esta idade, porque ele tinha 79 anos. Ter chegado a esta idade, apesar de doente, mas sempre rodeado de pessoas que se preocupavam com ele, que gostavam dele, que queriam o melhor para ele. E as pessoas muitas vezes são abandonadas quando estão doentes, quando estão velhas. E não foi o caso dele. Ele disse que sempre rodeado de gente, com trabalho, com a admiração e o tributo das pessoas do meio dele e especialmente do público. Nunca o deixou, nunca.

E perguntei-lhe sobre uma memória mais recente e agora faço o oposto. Qual é que é a primeira memória que tem do Marco Paulo?

Claro que eu já o conhecia antes, mas lembro-me dele num programa meu, eu penso que fosse o "Eterno Feminino", há muitos anos atrás, mas talvez não. Quando ele apresentou o "Taras e Manias", que era muito sexual. E então, lembro-me das pessoas ficarem completamente, toda a gente a dizer: "Mas como é que é possível?" E deve ter havido um choque, mas foi um êxito tremendo. Mas lembro-me perfeitamente dele a cantar e tar umas pessoas muito chocadas no público, que eram programas da tarde, portanto, tinha pouco público, mas mesmo entre nós, colegas, achar que era uma ousadia, mas que era uma ousadia que lhe ficava bem. E lembro-me muito bem dessa grande surpresa e boa disposição. E ele gostava desse choque que provocava, obrigava as pessoas a reagirem. E lembro-me perfeitamente dele a cantar e o êxito que aquilo foi a seguir. Essa é a minha primeira memória concreta, talvez minha como apresentadora, que eu o comecei a tar, mas já o conhecia, obviamente, como público.

E existe alguma história que possa contar de algum momento que passaram juntos?

Rendeu muito, que foi a um programa dele na SIC, destes agora muito recentes, e eles mostravam imagens nossas de vários anos. E uma delas era ele no "Escova de Dentes". No "Escova de Dentes" nós temos uma orquestra e os artistas iam lá cantar, não as suas músicas, os cantores, não as suas músicas, mas uma música que eles escolhessem. E ele escolheu o "Delilah" do Tom Jones, o Tom Jones é um homem com uma voz poderosa. E cantou em português, porque ele fazia questão de cantar em português. Dizia ele que era em português, cantava só em português. E lembro-me de ver agora e estar a coisa: "Olha nós". Mas o poder da voz dele, que a gente quase se esquece, porque se habituou a ouvi-lo nas canções dele e naquele "Delilah", que é uma canção difícil. Para ele nada, difícil. Como ele cantou aquilo tão bem no "Escova de Dentes", também de boa memória. E rimo-nos muito e lembrámo-nos de coisas daquela época e é sempre engraçado duas pessoas verem-se com 30 anos menos. É sempre engraçado.