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Junta-se agora em direto neste jornal Francisco José Viegas, editor em Portugal de Mario Vargas Llosa. Francisco, bom dia, obrigada por estar conosco.
Bom dia.
Estamos a falar de um autor suficientemente conhecido em Portugal?
Sim, acho que é um autor muito popular em Portugal, muito conhecido, muito lido.
Muito lido. Mesmo antes do Nobel da Literatura?
Com certeza. Eu acho que o Mario Vargas Llosa, por um lado, é um dos representantes do chamado boom latino-americano, ou seja, da literatura latino-americana após anos 70 e onde ele era uma figura de proa ao lado de Gabriel García Márquez. Foi a grande dupla, digamos.
A grande dupla rival.
Sim, rival, com uma história muito complexa, que tem a ver com aspectos pessoais e tem a ver também com aspectos políticos e provavelmente com aspectos literários. E, portanto, faz parte já hoje da história da própria literatura. Quer dizer, é um exemplo de compromisso audaz, esse entre Vargas Llosa e García Márquez. Aquilo que eu acho mais importante é a forma como cada um deles, e cada escritor, porque podemos falar de muitos outros, quer dizer, porque de certo é uma geração ou várias gerações de autores latino-americanos que mudaram o destino também da literatura em geral. Cada um deles interpretou o mundo à sua maneira. Eu acho que o papel de Vargas Llosa foi o de falar, sobretudo, da liberdade. Liberdade individual, o destino de cada personagem. E eu acho que isso foi feito em livros absolutamente fantásticos pra qualquer leitor, de qualquer geração, de qualquer tempo.
O que é possível destacar? E a obra do Vargas Llosa é muito diversa e vasta.
Sim, eu acho que no caso do romance, há uma série de títulos que são indispensáveis. Naturalmente, "A Conversa na Catedral", que é um grande romance. "A Festa do Boi", que é também um romance absolutamente notável. "A Tia Julia e o Escrevedor". Eu acho que são três romances fundamentais, juntamente com livros como "O Herói Discreto", já na última fase, digamos, de Vargas Llosa, "O Herói Discreto", "Cinco Esquinas" e "Tempos Duros". Eu acho que estes livros falam disso, falam da aspiração do homem à liberdade, falam também de aspectos que estão ligados à própria biografia de Vargas Llosa, às lutas políticas, aos seus compromissos políticos e geracionais. E é muito curioso, porque os primeiros livros, como "Conversa na Catedral", têm a ver com o Peru, radicalmente com o Peru, e no final da vida, Vargas Llosa volta a escrever sobre o Peru e volta a escrever sobre esses processos, digamos, que estão ligados não só à história peruana, mas também à história da sua vida, como "Cinco Esquinas" de um lado e "O Herói Discreto" do outro. Agora é preciso perceber que ele foi também um grande intelectual. Além de ficcionista, além de criador, ele foi um homem ligado à luta política, à defesa da liberdade. Foi professor, professor de literatura, professor de ideias políticas.
Chegou a ser candidato presidencial.
Sim, é verdade. E isso ditou uma espécie de interregno na sua relação com o Peru, a que regressou agora, definitivamente. Mas há livros como "A Civilização do Espetáculo", por exemplo, que é sobre este nosso tempo. Lendo "A Civilização do Espetáculo", nós compreendemos um pouco como funciona, por exemplo, a campanha eleitoral em Portugal, como funciona o mundo conforme ele existe nas redes e nos meios sociais, ou "O Apelo da Tribo", que é um livro também muito importante para perceber a filiação política do próprio Vargas Llosa. Aquilo que eu acho é que ele é um grande ficcionista, é um grande intelectual, é um homem muito comprometido politicamente com o seu tempo e ficará a marcar a vida de leitores e de várias gerações de leitores de quadrantes políticos muito diferentes.