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Ontem a Argentina foi a votos, ganhou Javier Milei, uma margem considerável do segundo candidato, mas Javier Milei é visto por grandes partes da população como um candidato muito radical, muito fora do normal do que se espera ver na Argentina. Agora, eleito, tem condições para unir o povo argentino atrás de uma nova liderança?
Essa é a grande pergunta que todos estamos fazendo, os cidadãos a pé, os expertos. Javier Milei é um, como é conhecido, um political outsider. Há dois anos, Javier Milei estava fora da política, era comentador de programas de jornal televisivo e em dois anos fez um crescimento histórico na política argentina. Javier Milei tem um trabalho muito difícil pela frente para poder controlar o déficit, controlar a inflação, que verdadeiramente preocupa a Argentina, e poder dar mais confiança aos mercados internacionais para que possa ter uma melhor situação na Argentina.
Estamos a falar do dia seguinte destas eleições. Já disse que Javier Milei vai ter um caminho difícil pela frente. Acha que vai deixar cair alguma das propostas que mais chocaram o eleitorado ou vai manter-se fiel àquilo que foi durante a campanha para estas eleições?
Javier Milei ganha uma eleição com muito mais votos do que os expertos preveiam. Isso vai dar mais fortaleza para que Milei possa implementar as suas promessas de campanha, mas temos que lembrar que são promessas muito complicadas, muito difíceis. Dolarizar a economia não é um caminho fácil. Sair do Mercosul não é um caminho fácil, cortar relações diplomáticas com os países que ele prometeu cortar relações diplomáticas não é um caminho fácil. E é por isso que nós temos que ter em conta que há que ser realistas. Aqui Milei vai formar um governo onde se espera que muitos dos seus ministros sejam da coalizão de Juntos por el Cambio, a coalizão de Patricia Bullrich, que perdeu na primeira volta eleitoral. E é por isso que se espera que seja um gabinete de mais concertação.
Vimos uma campanha eleitoral muito polarizada entre Milei e Massa. Como é que assistiu à campanha eleitoral, como é que a Argentina se preparou para ir a votos para estas eleições?
A Argentina está celebrando 40 anos de democracia. Não é pouca coisa que um país tão grande como a Argentina possa atingir uma eleição justa, transparente, na qual com menos de duas horas desde o encerramento dos comícios, o candidato que resultou ser o perdedor, o Sergio Massa, saia a aceitar a sua derrota. Isso é muito admirável para a Argentina. A entidade democrática do país se mantém, continua. Vai ser um caminho difícil, a situação na Argentina está muito complicada, o povo está a sofrer. Classe baixa, classe média, está sofrendo muito. O povo não pode chegar ao fim de mês, a inflação está fora de controle, a situação é mesmo muito má. Mas vale a pena mencionar que a situação na Argentina continua estável em termos de a continuância e a alternância democrática.
E ao olhar para as dificuldades econômicas que a Argentina está a enfrentar, o caminho proposto por Javier Milei é, no seu entendimento, o melhor caminho possível para a Argentina conseguir fazer aquilo que propõe, baixar a inflação, tirar a Argentina de um ciclo de estagnação econômica. Javier Milei é o homem certo para a altura certa neste momento na Argentina?
Com base no que estamos a ver nos resultados, estamos a ver que há uma diferença considerável, uma diferença de mais de 10% entre Javier Milei e Massa. Temos 55% versus 44% de Massa. Vamos saber que o povo está de acordo que a opção de Milei é a correta. Aqui na Argentina nós dizemos "del dicho al hecho hay un estrecho". Vai ser difícil saber se Milei vai implementar mesmo as suas promessas, se vai conseguir fazer isso. A situação no Congresso dos Deputados está muito difícil. No Congresso, no Senado, o Milei não tem maioria e isso vai dificultar as suas medidas. Mas o que nós estamos a ver aqui que foi um voto castigo, um voto antiincumbência, como estamos a ver no resto da América Latina, no qual o povo escolhe a opção que não é a que atualmente se encontra no governo.