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Mas vamos ao encontro do investigador moçambicano João Feijó, que está também em Maputo. Bom dia, João Feijó. Como é que é a situação neste momento aí em Maputo?

Bom dia. Desde ontem caiu uma grande chuva em Maputo. Aqui não é preciso chover muito para as vias ficarem todas muito condicionadas e afetar bastante o trânsito. Hoje, Maputo acordou com pouco trânsito e com as vias bastante danificadas, mas os relatos que temos é de pessoas a aproximarem-se do aeroporto, como era de esperar. E também como era de esperar, estas reações hostis da polícia a disparar o gás lacrimogéneo e balas para os manifestantes que insistem e procuram ter acesso ao aeroporto. Parece que mesmo os jornalistas têm dificuldade para fazer o seu trabalho, pelo menos a partir de algumas lives que eu assisti esta manhã. Então estamos na expectativa. Consta que vai haver depois uma pequena marcha da Praça dos Heróis até à Praça da Paz, não são mais que um quilômetro. Mas eu desconfio que autorizem essa marcha. O Venâncio Mondlane vem numa altura bastante desagradável e vem incomodar o governo, que está aqui já a ensaiar a tomada de posse do partido Frelimo, que ganhou as eleições oficialmente. E então ele vem destabilizar a situação social e provocar aqui este incômodo.

A ideia, João Feijó, é essa, é de incomodar o governo moçambicano, mesmo sendo uma decisão de alto risco pessoal.

É uma situação muito corajosa e eu ainda não vi imagens em que ele tenha chegado ao aeroporto. Consta que sim. Eu acho que é um risco muito grande, ele corre o risco de ser preso ou de ser detido, ou de ser assassinado. Não sei se há um acordo no sentido de permitir que ele chegue a Maputo, mas também esse acordo dificilmente vai ser cumprido, quer por parte da Frelimo de lhe garantir condições de segurança e depois também imunidade e, portanto, anistia para crimes que ele tenha cumprido, apesar de não haver nada ainda transitado em julgado, mas também do Venâncio Mondlane, que duvido que depois cumpra a sua parte de provocar manifestações e destabilizar politicamente. Então, os próximos tempos serão tempos de tensão.

De muita tensão, sendo que Mondlane quase que prepara esta chegada escrevendo a vários presidentes de vários países, incluindo a Marcelo Rebelo de Sousa. Portugal pode ter um papel importante aqui, nesta fase tão crítica da vida moçambicana?

Eu acho que não, porque Portugal não é um doador, não tem grande peso em termos de apoio internacional em Moçambique. Até há alguma contenção diplomática que deve ter até pelo passado colonial que teve. Depois as coisas são entendidas como ingerência colonial, até porque Moçambique é um país soberano. Na verdade, Portugal e grande parte dos países ocidentais no geral, estão aqui na expectativa, porque estão a ver aqui um jogo entre duas forças em que nenhuma delas se impõe. Por um lado, Venâncio Mondlane parece ter o apoio das ruas e consegue destabilizar, de fato, o país. Mas, por outro lado, a Frelimo é que tem as armas e que controla as coisas, embora nenhum deles consiga, de fato, mostrar que consegue dominar a situação. Então há aqui um empate técnico e perante este impasse, a comunidade internacional fica sem saber como é que se há de se posicionar, até porque se arriscar um apoio descarado à Frelimo, os respectivos investimentos ficam em risco, porque Venâncio Mondlane já mostrou que é capaz de, nas redes sociais, fazer críticas que depois são cumpridas por parte da população.