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É a primeira vez que um partido árabe vai estar no governo em Israel. Eu perguntava a ele, em primeiro lugar, o que isto pode significar para o país.
Ok, boa noite. Como soubemos nas últimas horas, Mansour Abbas foi um dos últimos líderes políticos partidários a assinar o acordo para esta nova solução governativa. As alterações que se preveem ainda são possíveis de discernir, se bem que a assinatura do acordo por parte de Abbas tem muito a ver com este sistema de trocas, ou seja, para acabarem com os 12 anos consecutivos de liderança de Benjamin Netanyahu à frente do governo israelita. Essa possibilidade que foi aberta e essa vontade por parte da oposição e de alguns ex-aliados facilitaram também esta aproximação a um partido liderado por um palestiniano e que representa os interesses da comunidade palestiniana em Israel. No fundo, como é que isso se processa? Através de um sistema de trocas. Netanyahu também já tinha aberto, para impedir esta coligação, tinha feito algumas propostas ou sugerido algumas propostas de última hora a Mansour Abbas, não tanto para se aproximar do político e do seu partido, mas para dificultar essas negociações finais ou a aproximação dele a Naftali Bennett e principalmente a Lapid. Através desse mesmo sistema de trocas, mesmo durante a campanha, Netanyahu já tinha aberto a porta para as negociações com o Ra'am, o partido de Abbas. As duas principais conclusões que podem ser tiradas agora é que esta aproximação a um dos partidos que também já tinha mostrado abertura para a negociação com o campo sionista é, no fundo, dividir a representação política palestiniana dentro de Israel, uma tática já experimentada de outras formas em relação a essa rivalidade entre o Hamas e a Fatah e a OLP dentro dos territórios ocupados e Gaza, como representantes da população palestiniana nesses territórios. Agora acontece o mesmo. E no fundo, esta aproximação é uma aproximação de interesse, não há uma grande transformação ou uma grande aproximação à comunidade palestiniana de Israel a partir desta coligação com o partido de representação palestiniana.
Ou seja, não se preveem mudanças no conflito israela-palestiniano, não será por aí que o partido árabe deve ir.
Não, na ocupação, colonização e no regime do apartheid, dificilmente. Uma das exigências de Mansour Abbas, que eu ainda não tive a oportunidade de ver se foi satisfeita, porque os acordos foram agora assinados, é que Mansour Abbas pedia a revogação de uma lei que impedia o acesso à compra de território e à compra de terras pela comunidade palestiniana, por exemplo. Outra das exigências que se falava dele era que não fosse Ayelet Shaked para o Comitê de Justiça e Lei do Knesset, do Parlamento israelita, mas que fosse a líder do Labour, uma política mais de centro-esquerda, do campo sionista também, mas que permita uma negociação um pouco mais próxima com a comunidade palestiniana que vive em Israel. Mas a abertura em relação à questão colonial e da ocupação serão pequenos acordos que trarão alguma abertura um pouco ténue em relação à comunidade palestiniana de Israel, mas em relação à relação com os territórios ocupados, com Gaza e uma abertura total dentro do Estado de Israel para com a comunidade palestiniana, dificilmente, até porque o peso do partido no Knesset é muito pequeno, ou seja, o partido com menos representantes no Parlamento. Mas também é interessante, por outro lado, se pensarmos bem, ver como políticos como Naftali Bennett, da extrema-direita, com um discurso abertamente fascista, antipalestiniano e racista. Basta ver qualquer entrevista de Bennett para perceber que ele em algumas entrevistas nega o próprio caráter comunitário dos palestinianos, ou seja, que eles existam como comunidade, o que já foi feito até por políticos do Labour, como Golda Meir, mas ele faz isso abertamente e perceber como, num momento de interesse, Bennett se aproxima a um representante da comunidade palestiniana e também quais serão os reflexos disso no futuro para o seu eleitorado. Ou seja, como eu dizia outro dia, se esta solução do governo falhar e se falhar rapidamente, políticos como Bennett, principalmente, e Avigdor Lieberman poderão ter uma queda eleitoral fortíssima e Netanyahu poderá aparecer muito reforçado numas novas eleições se isso acontecer. Se Netanyahu não puder concorrer, o seu partido, o Likud, que é um partido que já governa há algumas décadas, intermitentemente com o Labour, mas que já chefia o governo israelita desde o fim dos anos 70, mesmo com outra liderança, poderá sair muito reforçado também numas novas eleições, graças a esta aproximação. Ou seja, podemos tirar muitas conclusões rápidas, mas precisamos de ver a atuação do novo governo também nos primeiros meses de governação, pelo menos, para retirar conclusões mais aprofundadas. Mas também como eu dizia noutro dia, a base deste governo é uma base sionista, ou seja, desde o centro-esquerda até à extrema-direita, e o sionismo também se alimenta desta ocupação territorial e é um sistema político baseado também, em certa forma, na negação do acesso ao território dos palestinianos e nesse roubo de terras. Portanto, dificilmente um governo com uma base tão ampla sionista Que permitirá uma aproximação significativa, até porque, só para terminar, essa aproximação depende muito mais do reforço da legitimidade da causa palestiniana no mundo também. Ou seja, internamente para os israelitas, tem de haver uma mudança da opinião pública israelita para que haja uma mudança também da aproximação dos partidos sionistas, neste caso, e tem de haver uma mudança dessa legitimidade e da capacidade de reunir apoios internacionalmente, tanto nas populações em todo o mundo, como dos próprios Estados. Enquanto o Estado de Israel não tiver de prestar contas a absolutamente ninguém, como se tem visto principalmente depois desta ofensiva em Gaza, da tentativa de expulsão de mais famílias de Sheikh Jarrah em Jerusalém Oriental e da entrada das tropas israelitas e da polícia israelita na Cisjordânia, que é um factor recorrente. Enquanto isto for totalmente naturalizado e a comunidade internacional não tomar qualquer tipo de posição, principalmente os poderes dominantes, falo dos Estados Unidos, no caso, o governo israelita não se sentirá, apesar de existirem pequenos balanços de poder muito ténues, como este acordo de necessidade e interesse entre o partido de Abbas e a maioria sionista do Parlamento, será difícil vermos grandes mudanças para uma negociação bilateral em posições de igualdade entre representantes palestinianos e representantes israelitas, e para que hajam transformações substanciais também nesse processo.
Bruno, eu perguntava também como é que sai Netanyahu 12 anos depois. Há uma possibilidade forte de não estar no governo. Como é que sai este primeiro-ministro?
A primeira coisa que chama a atenção é o profundo desespero de Benjamin Netanyahu nos dois discursos principais que ele deu, um há algumas horas, ainda hoje, e outro no momento em que sabe que a coligação vai para a frente, porque ele é claramente surpreendido, principalmente pela mudança repentina de Naftali Bennett. Naftali Bennett muda de opinião algumas vezes, ou seja, durante a campanha diz que não se coliga a Lapid e cola Lapid à esquerda, o que é claramente falso. Lapid é um político de centro, centro-direita. Depois, já se aproxima de Lapid para negociar uma solução de governo. Depois, durante a ocupação de Gaza e a tentativa de expropriação em Sheikh Jarrah e os levantamentos palestinianos no território israelita, Bennett, como um grande defensor da segurança do Estado, afasta-se de Lapid novamente e depois volta-se a aproximar. Tudo isto confunde Netanyahu, e Netanyahu num ato desesperado faz um conjunto de declarações a atacar a oposição que esteve coligada com o Likud e pertenceu a inúmeros governos do Likud. Bennett e Lieberman foram ministros de inúmeras pastas em governos de Netanyahu e foram criados, no fundo, politicamente por Netanyahu. E ele ao se aperceber da profundidade dessas traições políticas, desespera, começa a atacar os Estados Unidos, começa a atacar a relação desses políticos com os Estados Unidos, a insegurança que vão trazer ao Estado e hoje, em direto, oferece lugares aos políticos da direita desta coligação, a Bennett e a Saar, principalmente, cargos de primeiro-ministro e ministérios importantes, em direto na televisão, para eles mudarem o campo político. Ou seja, esse desespero de Netanyahu não é um desespero de preocupação sequer com os cidadãos israelitas, nem tão pouco com a comunidade palestiniana, obviamente, é uma preocupação nem com o partido, é uma preocupação com ele mesmo. Netanyahu está a ver adensar-se a possibilidade de ser preso e de ser condenado nos julgamentos que estão em curso e vê claramente a sua carreira política a chegar ao fim. Por outro lado, a popularidade de Netanyahu continua a ser evidente e o Likud, e principalmente o campo de Netanyahu dentro do Likud, tem uma força popular muito grande em Israel e tem uma combatividade mediática, ou seja, na imprensa e principalmente nas redes sociais, que se vai prolongar durante alguns meses, pelo menos no início da governação, dependendo de como esta nova solução se comporta. Ou seja, já há uma série de guerrilhas dos media sociais a atacarem intensamente Bennett, a atacarem intensamente outros parceiros da coligação, que já sofreram inclusive ameaças de morte por causa de se terem juntado a Yair Lapid. E então vamos ver, estas trocas vão ser uma constante nos próximos meses. E Netanyahu, apesar de sair enfraquecido, ou seja, toda a sua capacidade de reunir acordos em torno da sua pessoa acaba por chegar ao fim de uma era, podemos dizer, e não saberemos. Só na possibilidade de existir uma falha nesta solução e outra eleição, como eu disse, aí Netanyahu poderá ser reforçado, mas isso sempre dependente de um falhanço estrondoso desta solução governativa, porque aí Netanyahu vai aparecer como a única solução possível, praticamente, para uma sociedade israelita altamente radicalizada e muito ligada a uma conversa, a um discurso, a uma narrativa de segurança. Segurança, no fundo, que é uma metáfora para a ocupação, colonização e segregação da população palestiniana, que é sempre representada como uma ameaça existencial Para o Estado de Israel, uma construção, como sabemos, um dos Estados com o maior arsenal militar da região, e os palestinianos que não têm capacidade militar sequer e têm uma capacidade de guerrilha, quanto muito.
Bruno, uma última questão, que estamos a ficar sem tempo. Quem vai governar os primeiros dois anos, supostamente, é Naftali Bennett. Eu coloco-me esta questão, porque Naftali Bennett é quem tem menos lugares no Parlamento do que Yair Lapid. Por que esse acordo está feito assim?
Mais uma vez, acaba por ser por uma questão de interesse. Ou seja, a única maneira de convencer Bennett para entrar nessa solução governativa foi porque, no fundo, o que move esta solução são interesses pessoais também, não é um interesse nacional. Por um lado, isto aqui é uma imagem de Israel se tentar salvar a si mesmo. Ou seja, na minha leitura, é também consequência das operações militares levadas a cabo pelo governo Netanyahu, que tiveram um resultado negativo na opinião pública. Naftali Bennett acaba também por se mover para um determinado lado ao se aperceber disso. Por outro, foi a única maneira que Lapid teve de convencer Bennett, porque Netanyahu já tinha oferecido a Bennett, sabe-se, nas negociações anteriores, um posto no governo também, como primeiro-ministro em rotatividade depois de Netanyahu. Lapid tinha este trunfo na manga com o partido com apenas sete lugares, Bennett, recordo que em 2019 não tinha sido sequer eleito para o Parlamento israelita, mas o objetivo político de Bennett sempre foi ocupar, sempre se viu como um substituto de Netanyahu, não tão rapidamente, mas conseguindo essa oportunidade graças a esta intensa instabilidade política que se vive em Israel nos últimos anos, Bennett viu uma abertura e muito provavelmente foi a única forma que Lapid conseguiu de convencer o seu adversário político a assumir esta solução governativa.