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Ok. As unidades modelo C são algo que já estava previsto desde o início da reforma, há 20 anos. Portanto, não é uma novidade que tenha aparecido do nada, na realidade nunca tinham sido legisladas ou implementadas. Qual era a ideia que presidia a estas unidades? Era que nos locais onde o SNS não tinha chegado a nível de cuidados de saúde primários, onde já tinha sido feito tudo e não era possível chegar de outra forma, criava-se um tipo de unidades diferente, que seriam geridas ou por cooperativas profissionais, ou pelo setor social, ou pelo setor privado, e que permitiria dar resposta nestas situações excepcionais. Seriam locais onde já tinha sido tentado tudo, não tínhamos conseguido montar uma resposta do Serviço Nacional de Saúde e como não havia cobertura para aquela população em específico, de forma excepcional, criava-se uma unidade desse gênero. Nunca se avançou neste sentido por vários motivos, por questões políticas, por conjuntura, porque existiu aquele período de contingência da Troika. E entretanto, agora, neste contexto, surge esta ideia de, passados estes anos todos, implementar as unidades modelo C. O ministro anterior, o ministro Manuel Pizarro, já tinha falado disso, mas teria chegado à conclusão de que não havia profissionais disponíveis e agora voltou esta ideia a ser colocada em cima da mesa.

E quando se diz que vão ser geridas pelo setor privado e social, o que isso significa na prática?

Significa que são unidades do Serviço Nacional de Saúde, que têm algum tipo de contrato-programa, portanto, isto tem que ser percebido exatamente como é que a tutela está a querer regulamentar estas unidades, exatamente qual é a forma como as vai financiar, que não têm uma administração direta, por exemplo, de uma Administração Geral de Saúde, que agora está terminada, ou de um ministério, ou de uma ULS, e que têm esta autonomia ao serem geridas por uma entidade privada ou do setor social, ou eventualmente por uma cooperativa de profissionais. Portanto, terá que haver aqui um grau de autonomia diferente, um grau também de responsabilização diferente e tem que ser criada uma estrutura de financiamento, que é isso que também aguardamos para perceber o que é que vem por aí, que possa possibilitar o funcionamento destas unidades.

E acha que esta poderá ser a solução para a falta de médicos de família?

A grande questão aqui é: se nós estamos a criar estas unidades, significa que, e já se percebeu isso ontem nas entrevistas, mais atrativas para os profissionais, para as equipes nestas unidades. A questão principal é: se temos capacidade de dar condições mais atrativas, por que não o fazemos às unidades atuais ou aos profissionais que já estão no SNS? Por que não aplicamos esse modelo de uma forma generalizada e vamos só aplicá-lo em unidades que são geridas pelo setor privado ou social? É isso que nos faz aqui uma grande confusão, porque, na realidade, aquele pressuposto de que já foram esgotadas todas as possibilidades do SNS chegar a alguns destes locais, não é verdade, não é correto. Por exemplo, se falarmos em Lisboa e Vale do Tejo, onde temos locais que funcionam bem e temos outros onde não foi possível até agora atrair profissionais. Então por que não investimos nestas unidades e nos profissionais do SNS para os levar até lá? Estamos aqui a tentar inventar a roda quando, aparentemente, com esta tal forma dos cuidados de saúde primários, já tínhamos encontrado uma boa solução, lá está, as USF, nomeadamente o modelo B, que são atrativas, que têm bons resultados em saúde, que têm custo e efetividade comprovado, mas claro, precisam de ver as suas condições atualizadas ao longo do tempo. Há aqui ainda outro problema, que é: quem são os profissionais que vão trabalhar para estas unidades modelo C? Porque se elas são mais atrativas, e terão que ser, porque senão não fazia sentido fazer um novo modelo, então corremos o sério risco de estarem a provocar profissionais às outras unidades do SNS e, portanto, tapamos de um lado e destapamos do outro. Também já ouvimos a senhora secretária de Estado dizer que vão pensar em medidas para evitar a passagem direta de um lado para o outro. Mas isso depois levanta questões muito mais complicadas. Não estamos nós no mercado livre, então agora os trabalhadores, uns são de uma maneira, outros são de outra. Quem já está no SNS e apostou e defendeu o SNS durante vários anos, agora não tem direito a passar a este modelo. Quem é que pode ser lá colocado, sendo que, e aí temos que ser intransigentes, essas unidades a nível médico têm que funcionar com verdadeiros médicos de família e com especialistas em medicina geral e familiar. E aí é que pode estar o grande problema.

Tocando no assunto do plano de emergência, queria lhe perguntar o que acha dele e do fato de só oito das 15 medidas urgentes terem sido cumpridas.

Nós temos dito desde o início da divulgação do plano de emergência que é bom que um dos eixos prioritários tenha sido a medicina geral familiar, os cuidados de saúde primários, mas lamentamos que não tenhamos sido ouvidos neste processo. Nem nós, enquanto associação, nem as estruturas que representam os médicos de família e os profissionais dos cuidados de saúde primários. Isso é muito preocupante. E de facto, depois no terreno, este plano de emergência nos cuidados de saúde primários não tem ainda uma tradução prática. Para já, porque algumas das medidas que foram elencadas são de difícil execução, outras até já existiam. Por exemplo, quando se fala de implementar a consulta do dia nos centros de saúde, isso é algo que as USF já têm há vários anos e, portanto, não é nenhuma novidade. Dizer agora que já está cumprido é algo que já existia e, na realidade, o que fazia falta para os cuidados de saúde primários, a grande dificuldade, é precisamente a área dos recursos humanos. Claro que as outras questões todas são importantes, instalações, equipamentos, sistemas de informação, não podemos diminuir a sua importância, mas o problema aqui é mesmo a falta de recursos humanos. E nisso o plano não toca. E ao não tocar, acaba por depois ter esta tradução, que é a realidade no terreno é igual agora àquela que era há cinco ou seis meses e, portanto, para quem está a trabalhar, não é o plano de emergência que faz alguma diferença nos cuidados de saúde primários neste momento.