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Nesses casos de incêndio, aquilo que deveria ser feito seria uma preparação antes das catástrofes acontecerem, para que as coisas não sejam feitas a correr e de forma desorganizada. Os planos municipais de emergência e proteção civil deveriam já contemplar as medidas a ter em conta com animais e, dentro deles, a diferenciação entre os animais de companhia e os animais de produção. Portanto, ter os procedimentos mais ou menos definidos daquilo que há a fazer. Numa fase prévia, aquilo que há a fazer na criação de condições para que essas estruturas e os equipamentos onde os animais estão alojados não sejam afetados pelos incêndios, mais numa vertente de prevenção. E depois, na vertente propriamente da ação, em contexto de catástrofe, aquilo que há a fazer quando os animais estão ameaçados ou a ser afetados pelo fogo. E nós devíamos ter a noção do número de animais que temos, com o que estamos a contar, espécies, a sua localização, e depois prever o que fazer e quem fazer o quê numa situação de evacuação, transporte, realojamento. É preciso acautelar tudo isso. As questões de logística, de transporte, quem faz o quê, para onde vão, depois onde ficam. E tudo isto funciona muito melhor quando é planeado com antecedência e quando muitas vezes até é testado com simulacros. Aquilo que seria desejável era que estas situações estivessem já contempladas nos planos municipais de emergência e proteção civil. Os meios gerais municipais têm feito um esforço nesse sentido, mas efetivamente ainda não é uma realidade em todos os municípios. Mas, objetivamente, o que há a fazer numa situação de incêndio em que alojamentos de animais de companhia ou de animais de produção estão a ser afetados pelos incêndios, é antes dessa situação acontecer, ir perceber se existe uma necessidade de evacuação, retirar os animais, acautelar o transporte, transportar e realojar. Basicamente, é o que se deveria fazer. Sabemos que muitas vezes, nestas situações de catástrofe, nem sempre há tempo para executar aquilo que foi previamente planeado, porque as coisas às vezes precipitam-se em poucos minutos e é muito complicado. E quando estamos a falar de animais de espécies pecuárias de grandes dimensões, o animal não é como as pessoas que acatam as ordens, muitas vezes também é difícil com os animais em stress fazê-los movimentar. E outras vezes também é difícil das equipas de salvamento e de resgate entrarem em certos locais com ameaça de fogo. Tudo isto também complica muitas vezes as ações de resgate.
Já saíram algumas notícias que aconselham as pessoas que não conseguem retirar os seus animais a soltarem-nos e deixarem-nos ir. Concorda com essa maneira de execução?
Pois, isso no limite, pode ser uma opção a seguir, mesmo até para quem estamos a falar de pessoas com dois ou três animais, mas no limite estamos a falar, por exemplo, estou aqui a pensar num alojamento de animais de companhia, um canil ou um abrigo de uma associação. Se a aproximação do fogo é iminente, e se de facto não existem condições ou não há ali naquele momento condições logísticas para fazer a evacuação dos animais, entre deixá-los ali na iminência de poderem morrer queimados ou soltá-los e que eles naturalmente procurem salvar-se, creio que será sempre melhor deixá-los sair. Mas não é de todo desejável, há outras soluções que podem ser planeadas e executadas mais facilmente. Agora, eu entendo esse pedido das autoridades, muitas das vezes podemos estar até uma família que está dentro de casa e que está a evitar a sua saída por causa de um animal de grandes dimensões, um animal de produção ou até mesmo um animal de companhia que não conseguem relocalizar ou que não conseguem transportar, e que esse atraso possa de alguma forma condicionar a sua evacuação e pôr em perigo também a sua vida. Não creio que um, dois ou três animais de companhia possam colocar em causa a evacuação de uma família, mas pode acontecer, um cão que não queira entrar no carro, um cão que não queira sair do sítio onde está, um cão que esteja assustado e que esteja a morder. Um atraso, às vezes de minutos, pode de facto colocar em causa a segurança das pessoas. Isso pode acontecer, sim. Entendo dessa forma o pedido até das autoridades que possam fazer isso numa situação limite, mas isto deve ser feito sempre com antecedência. E eu estava há pouco a falar dos planos de emergência e dos planos municipais de emergência e proteção civil, e as pessoas que têm animais de companhia devem também fazer o seu mini plano à sua escala em casa para uma situação de emergência e que acautele todos os membros da família, não só os humanos, mas também os animais. As coisas devem estar previstas para numa situação de emergência conseguir sair e evacuar a todos, inclusivamente os animais.
Para quem não percebe de veterinária e tem que ajudar um animal que está com queimaduras, quais é que são os primeiros socorros que pode utilizar?
Olhe, primeiro, tudo entender que numa situação desta dimensão e desta natureza, é sempre preciso garantir a segurança tanto do animal como da pessoa que vai tentar socorrê-lo. Muitas das vezes estes animais estão em estresse, estão com medo E ao primeiro contacto podem inclusivamente atacar e morder. Portanto, primeiro acautelar a segurança do animal e acautelar a segurança do próprio. Depois, em termos de queimaduras, a primeira coisa a fazer será sempre tentar procurar ajuda de um médico veterinário. Hoje em dia existem clínicas veterinárias, existem centros de atendimento médico para os veterinários com alguma abrangência em todo o país e, portanto, a primeira coisa a fazer será sempre tentar levar a um médico veterinário. As lesões de queimadura são muito dolorosas, colocam em risco mesmo a vida do animal, tal como nos humanos. Podemos depois ter outras situações também muito graves, como inalação de fumos, intoxicação com monóxido de carbono, inclusivamente queimaduras das vias aéreas respiratórias. São tudo quadros bastante complicados e quanto mais cedo receberem a ajuda de um médico veterinário, melhor. Em termos de socorro, no local não há muito que se possa fazer, a não ser o cuidado geral das feridas, que se pode já ir adiantando, mas o desejável é que ele encontre uma assistência médica ou veterinária assim que possível.
E em caso de risco extremo, que papel é que as autoridades devem ter? Sem ser prevenir, já o pós.
O papel das autoridades, são as autoridades que definem e executam estes planos de emergência e proteção civil. Elas podem fazê-lo, obviamente, com ajuda de outras organizações, nomeadamente organizações não governamentais e até, neste caso, associações de proteção animal, mas são as autoridades oficiais, neste caso os municípios e algumas entidades centrais também, que devem liderar a execução destes planos. A proteção civil, o médico veterinário municipal, a Direção-Geral de Alimentação e Veterinária, devem executar estes planos. E numa situação de fogo iminente, de perigo de afetar os animais, deve haver um plano de evacuação daqueles animais daquele local que possa ser executado tal como estava planeado. Tendo definido quantos animais, por espécie, a localização dos mesmos, que meios utilizar, quantos meios humanos, quem faz o quê e relocalizar, ter um alojamento, que não é fácil conseguir, mas ter um alojamento já previsto para que aqueles animais que saiam dali possam ser realojados em segurança. E o que se deseja é isso, que as autoridades coloquem em prática estes planos e possam, numa situação limite, evacuar os alojamentos onde estão os animais, transportá-los a um local seguro.