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Estou aqui com a Helena Mata e também com o Alexandre Borges, mas junta-se também a nós o Paulo Ferreira e o André Azevedo Alves. Paulo Ferreira, começava por ti. Acaba por não ser propriamente uma surpresa este nome de Maria Luísa Albuquerque.

Não, é o nome talvez mais citado nas últimas semanas na imprensa como esta possibilidade de ser indicada por Portugal para a Comissão Europeia, e confirma-se. Não foi o único, houve mais nomes, nomeadamente Miguel Poiares Maduro, mas Maria Luísa Albuquerque, se fizéssemos um ranking daquilo que aparecia nas notícias, não como confirmação, mas como forte possibilidade, era ela que ia à frente e confirma-se. Ninguém teve a certeza para o afirmar perentoriamente, isto se quisermos analisar o processo de decisão do governo e a capacidade de guardar segredos. Ninguém conseguiu confirmar perentoriamente a notícia a ponto de ter dado dessa forma, mas obviamente que várias redações, nomeadamente o Observador, tiveram conhecimento de que tinha sido uma das contactadas ou pelo menos era essa uma das preferências de Luís Montenegro, como se confirma agora.

Olhando, Paulo, para o percurso de Maria Luísa Albuquerque, é possível antever ou perceber qual é que seria uma pasta indicada para este nome?

Certamente, se dependesse dela e do governo português, seria uma pasta ligada à economia e às finanças, nomeadamente a pasta das finanças. E quando falo aqui de economia, falo de economia no sentido mais lato, não a pasta de economia concretamente, mas colocando aqui também, por exemplo, a pasta da concorrência, de alguma forma o emprego, a agricultura também, energia, enfim, pastas que têm a ver com atividades. Habitação, que vai ser uma pasta nova, que em princípio será criada por Ursula von der Leyen para dar resposta ao problema europeu, e que tem forte componente económica. Agora, a partir dos nomes que são indicados à presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, até o desenho final da Comissão, incluindo o número de pastas ou o conteúdo de cada pasta, ainda vai um processo relativamente difícil. É um trabalho de puzzle complicado, porque há agora que equilibrar várias coisas em jogo, nomeadamente o peso dos países e as pastas que devem lhes ser atribuídas e outros cargos que os países eventualmente já ocupam. Eu diria que o que assentava como uma luva, de facto, era a pasta das finanças. A Maria Luísa Albuquerque tem larga experiência no assunto. Pode-se concordar ou não com as decisões políticas que ela tomou no governo, mas a competência técnica, eu acho que ninguém questiona a competência técnica nesta área de Maria Luísa Albuquerque. Noções orçamentais também, como é evidente, tudo o que tem a ver com orçamento, mesmo a interação entre os vários governos e a própria Comissão Europeia em matérias essenciais como são as finanças públicas. Nós sabemos que há regras rígidas, isso seria assentar como uma luva. Agora, desse equilíbrio, e lembrando que estas pastas são importantes e que Portugal tem já António Costa como presidente do Conselho Europeu, vamos ver até que ponto é que isso não acaba por contaminar negativamente a pasta que vai ser atribuída à Maria Luísa Albuquerque, atribuindo-lhe uma pasta com menos importância, precisamente porque o país já tem um representante seu com um cargo importante. Portanto, vai ser esse jogo agora, que é um jogo difícil, é um puzzle difícil que Ursula von der Leyen vai ter que fazer, em articulação, obviamente, com os capitais nacionais.

Paulo, imagino que concordes também com esta interpretação do André, mas queria também perguntar se, tendo em conta também a declaração que foi feita por Luís Montenegro, muito neste sentido e na lógica da questão das finanças e da concorrência, se até poderíamos pensar que Maria Luísa Albuquerque poderia até ser indicada para uma vice-presidência da Comissão Europeia, por exemplo, pelo facto de ser mulher também.

Sim, a von der Leyen quer, de facto, dar peso, e faz bem, à composição por mulheres de pastas importantes. E de facto, as várias capitais ou o grosso das capitais não lhe facilitaram a vida, porque a informação é que a maior parte apresentou nomes de homens, o que dificulta muito, por um lado, e como disse o André também. Por outro lado, Portugal ao apresentar um nome definitivo, fechado, de uma mulher, Maria Luísa Albuquerque, maximiza de facto essa possibilidade. E as vice-presidências são pastas importantes, se bem que a importância das pastas, muitas vezes, ou algumas vezes, pelo menos, também depende de quem as faz. O caso, por exemplo, de Margrethe Vestager, a Comissária Europeia para a Concorrência, foi no fundo ela nos últimos anos que foi fazendo a pasta pela importância que lhe deu e pelas batalhas que foi comprando, e que foi abrindo, nomeadamente em relação às grandes empresas tecnológicas. Era uma pasta que podia também ser gerida de forma a cumprir aquilo que são as regras do mercado único e muito burocrática, mas a Comissária dinamarquesa deu-lhe um peso político fortíssimo. Talvez foi claramente, até agora, a pasta mais importante, ou uma das pastas mais importantes, seguramente, do último mandato. Depois há pastas novas, de alguma maneira. Os oceanos, por exemplo, e há outras que não sabemos como é que vão ser geridas. A pasta da defesa, eventualmente, que pode ter um papel fundamental olhando para aquilo que neste momento são os desafios geoestratégicos. É uma pasta nova e que vai depender muito de quem a faz também. E portanto, é neste jogo de equilíbrios também. A pasta da coesão, por exemplo, o tema da coesão é um tema importante para nós, que somos um país beneficiário da coesão, mas digamos que a Comissária Europeia, Elisa Ferreira, e este nome nenhum desprezo para ela, mas o peso político da pasta não é muito, é muito burocrática. O desenho dos fundos está feito e, portanto, aí não houve grande influência. Eu não sei até que ponto a von der Leyen e os países do centro e do norte da Europa, que gostam de ficar com as pastas mais técnicas, sobretudo na área das finanças, e a pasta das finanças era a pasta mais indicada para Maria Luís Albuquerque, se não houvesse mais dado nenhum em cima da mesa. Não sei até que ponto é que esses países, os ditos falcões, aqueles que defendem mais o rigor orçamental, vão permitir, se quisermos, que ela seja entregue a um país do sul, apesar de um país do sul, Portugal, que tem feito um ótimo caminho nos últimos tempos, como sabemos, nos últimos anos, precisamente no controle das finanças públicas. E Maria Luís Albuquerque esteve também no início desse processo, precisamente ao executar o programa da Troika, quando o país estava à beira da bancarrota. E há vários dados em cima da mesa que não afastam, à partida, Maria Luís Albuquerque de uma pasta muito importante. Pode haver uma pasta importante, mas para a qual nós não pensaríamos que seria a primeira opção da própria Maria Luís Albuquerque, nomeadamente que ela pode fazer uma boa pasta. Habitação, por exemplo. Mas vamos ver como é que este jogo todo agora nos próximos dias, e obviamente depois o Parlamento Europeu também terá a palavra final, porque vai avaliar um a um todos os comissários.

Todos os candidatos.

Exatamente, todos os candidatos. Claro que um dos rostos que assistimos ao pacismo, se é que existe pacismo, é o de Maria Luís Albuquerque, que sucedeu a Vítor Gaspar nas finanças. Só uma nota, é que há dez anos, precisamente, quando estava a ser formada a comissão de Jean-Claude Juncker, Maria Luís Albuquerque foi o primeiro nome que Passos Coelho se lembrou para indicar para comissária. E estava disposto, indicou, falou com ela, estava tudo acertado até com Jean-Claude Juncker, mas depois, quando se avizinhou a necessidade de resolução do BES, Passos Coelho achou por bem não mudar de ministro das Finanças em um momento crítico como esse e então retirou o nome, convenceu Jean-Claude Juncker e avançou com o nome de Carlos Moedas. E é curioso, de facto, que Maria Luís Albuquerque já 10 anos depois vai para a Comissão Europeia, de alguma maneira, para onde ela já esteve indicada e para onde tinha concordado ir nessa altura. Isto também reforçando um pouco aquilo que a Helena estava a dizer.

E há aqui uma outra coisa.

Das componentes e a capacidade técnica, de facto.

E além da capacidade técnica, também a capacidade humana, porque uma das coisas que se lhe reconhece, e nós sabemos as circunstâncias em que ela tomou posse como ministra das Finanças, é uma capacidade de trabalho, mas simultaneamente uma boa relação. A crise do irrevogável nunca teria acontecido com Maria Luís Albuquerque. Pegando em um termo que tem aqui sido usado muito esta manhã, a propósito de diferentes protagonistas, aqui há mais racionalidade do que impetuosidade, o que para alguém que vai ocupar um cargo de comissário me parece ser uma extraordinária mais-valia.

Paulo, queres concluir?

Ia só dizer que a Helena falou agora do irrevogável e desses tempos, que Maria Luís Albuquerque foi ministra das Finanças contra a vontade de Paulo Portas.

Sim.

Foi uma das fricções entre Paulo Portas e Pedro Passos Coelho. Paulo Portas queria claramente uma condução diferente depois de Vítor Gaspar, uma condução diferente para as finanças, mesmo naquele contexto, e não a continuação daquilo que tinha sido a gestão orçamental de Vítor Gaspar. É curioso também isto e vamos ver como é que o CDS, que volta agora a ser parceiro de governo do PSD, como é que olha para esta nomeação. Provavelmente já são feridas passadas e isto agora são contas do passado.

Mas que se podem reabrir, Paulo, não te esqueças da moção apresentada por Montenegro e do perfil que deve ter o próximo candidato a presidente da República apoiado pelo PSD, portanto, só militantes.

E vamos ver até que ponto é que isto não são feridas ainda abertas.

As feridas podem sempre reabrir na política.

Claro. Nos próximos comentários já vamos perceber isso, certamente.

Exatamente