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Mais de 3 mil empresas já aderiram ao layoff nas últimas semanas. Ontem ficamos a saber que a Groundforce, a empresa de handling, também vai recorrer a esta medida extraordinária e, Aníbal, a decisão já foi comunicada aos sindicatos.

E recebemos agora, aqui na Rádio Observador, o CEO da Groundforce, empresa que presta serviços de terra da TAP. Paulo Leite Neto, bom dia. Obrigado, antes de mais, por esta disponibilidade. Está também aqui conosco o Nuno Vinha, o editor de economia do Observador. Está aqui conosco, está a acompanhar e estará a fazer parte também desta entrevista a partir de casa. Antes de mais, bom dia, Paulo Leite Neto. A Groundforce anunciou ontem que vai colocar mais de 2400 trabalhadores em layoff. Vão ter também reduções de horários de trabalho e reduções salariais. Estas medidas iniciais são suficientes para conter o impacto inicial provocado pelo coronavírus na empresa?

Em primeiro lugar, muito bom dia. Efetivamente, nem podemos sequer dizer que são medidas iniciais. Acaba por ser o culminar de um conjunto de decisões que têm vindo a ser tomadas para nos adaptar à grande quebra de atividade que nós tivemos. Eu acho que para termos uma ideia da dimensão, nós reduzimos a nossa atividade para o mês de abril em 96%. Ou seja, nós vamos ter cerca de 4% da atividade que estava prevista e para a qual nós nos dimensionamos, nós compramos equipamento, nós treinamos pessoas. Já tínhamos tomado um conjunto muito grande de medidas antes para absorver o impacto dos meses anteriores e estas medidas vêm atenuar. E vêm atenuar por quê? Nós somos uma parte integrante de um serviço público que é prestado pelos aeroportos, e eu vou ter realmente cerca de 390 pessoas ainda a trabalhar. E tenho algumas pessoas que têm que estar em aeroportos onde nós não vamos ter nenhum voo previsto no mês de abril, mas apenas para alguma eventualidade. Portanto, estas medidas acabam por atenuar um pouco esta quebra de atividade.

Força, Nuno.

Paulo Leite Neto, bom dia mais uma vez. Não sei se já me tinha ouvido.

Bom dia.

Quantos meses é possível aguentar uma quebra de 96% na atividade? Ou seja, esta crise é imprevisível, não há grande ideia sobre quando é que vão ser retomadas as operações em larga escala. Como é possível aguentar e o que isto pode significar em termos de risco para os cerca de 2900 trabalhadores?

Olhe, eu acho que o que disse é realmente o ponto mais importante e o que tem sempre orientado o nosso raciocínio. Primeiro, a nossa grande preocupação sempre foi, desde o início, a manutenção dos postos de trabalho e, acima de tudo, não deixar as pessoas desprotegidas num momento tão difícil, em que nós lutamos contra um incerto. E acho que o que disse é isso mesmo. Há duas perguntas que não têm resposta. Uma é: quando é que acaba esta pandemia? E a segunda pergunta é: como é que se processa a retoma da atividade depois da pandemia terminar? Porque eu acredito sempre, às pessoas, para estarem perfeitamente descansadas, que nós não vamos voltar a viajar de barco para os Estados Unidos ou para o Brasil. Vamos continuar a fazê-lo de avião, mas a velocidade da retoma é uma grande incógnita. Repare, nenhuma empresa, nenhum negócio, em qualquer parte do mundo, consegue sobreviver por um largo período, sem qualquer tipo de ajuda, com uma quebra de 96% da atividade. É impossível. O que nós estamos aqui a fazer e a entender é que nós somos uma parte importante.

Era essa a razão pela qual eu lhe ia perguntar.

Nós somos uma parte importante, cerca de 20% do PIB português, e eu acredito que vão ser tomadas medidas para apoiar e permitir-nos ultrapassar este momento. Eu não consigo dizer de uma forma efetiva quantos meses é que eu consigo. Eu consigo é, com as medidas que estão a ser tomadas, muito bem, pelo governo, e com também as medidas que a própria ANAC está a tentar, para todo o ecossistema aeroportuário, obter. Eu acredito que nós conseguimos sobreviver alguns meses até que a situação se recupere e se recomponha.

Paulo, explique-me também aqui. Nesta altura, a Groundforce está a trabalhar ainda. Quais são os serviços que estão obrigados a assegurar neste período em que há cada vez menos ligações aéreas? Qual é o trabalho que têm estado a fazer e quantas pessoas é que têm nesta altura, diretamente nesses mesmos serviços?

Olhe, eu acho que para termos uma ideia, a empresa tomou aqui uma decisão importante. Há 324 pessoas Que vão ficar na frente da batalha a assegurar as operações, porque continuam a existir voos. Muito poucos voos regulares dos clientes que nós assistimos, quer a TAP, quer Air France, quer outras companhias quaisquer, mas a atividade de carga é uma atividade que continua a existir. Ou seja, em todo este processo, há menos passageiros, mas acaba por haver mais carga, porque há mais espaço nos próprios aviões para transportar carga. Portanto, nós neste momento estamos nos principais aeroportos onde operamos e ainda continuamos a fazer alguns voos, nomeadamente no Funchal e aqui em Lisboa, muito poucos voos no Porto e, se tem qualquer operação, é em Faro e em Porto Santo. Aí realmente não temos, mas temos que lá ter as pessoas para o caso de haver alguma eventualidade, um avião divergir para lá. Portanto, mantemos uma equipa lá preparada para isso. Mas estamos a fazer acima de tudo pequenos voos de reentreamento e as operações de carga.

Paulo Netleton, deixe-me insistir naquela informação que deu há pouco sobre a eventual necessidade da empresa necessitar de ajudas. A UE, a União Europeia, já permitiu ajudas de Estado às empresas do setor e isto inclui obviamente o handling. Admite pedir ou já pediram ao governo uma ajuda à imagem daquilo ou à semelhança daquilo que aconteceu com a TAP e que nós sabemos que pode estar a ser um empréstimo entre 200 e 300 milhões com o aval do Estado? É esse o gênero de ajuda que a Groundforce também precisa?

O Estado centralizou na Autoridade de Aviação Civil, na ANAC, entender quais eram os pedidos das empresas do setor para ultrapassar esta questão. E realmente nós fizemos um conjunto de propostas para que possam ser avaliadas, que nos permitam fazer, no fundo, estender a liquidez, porque estamos a falar de uma questão de liquidez. Eu acho que é importante uma quebra de 96% de faturação. Ainda tem uma outra questão, que é, eu também tenho algumas dúvidas se mesmo aquilo que vou faturar, vou receber a tempo e horas. Portanto, essencialmente o que nós temos aqui, do ponto de vista de gestão, é uma questão de liquidez, no curto prazo, para enfrentar este processo. Nós temos 2832 trabalhadores que, mesmo agora focando 2425 em layoff, conservação temporária da prestação de trabalho, e depois mais 69 com redução de horário de trabalho, nós continuamos a ter encargos muito superiores à nossa faturação, porque é precisamente por isso. Se eu tenho que manter uma equipa em aeroportos onde eu não tenho voos, é perfeitamente notório que eu não vou ter sequer receitas, mesmo que eu as recebesse, para pagar o salário das pessoas que estão a prestar esse trabalho. Portanto, o apoio que o Estado tem dado o layoff, que é compreensível, não isenta a empresa da sua contribuição, e é para isso que nós também estávamos preparados e que nos permite enfrentar estes próximos meses com alguma relativa tranquilidade, porque entendemos que vão ser aprovadas algumas medidas adicionais.

Conseguimos dar um valor a este prejuízo nesta altura?

Eu acho que realmente a melhor forma de tornar muito transparente e dar a real dimensão disto. Nós dimensionamo-nos, como eu disse, em equipamentos e em recursos, em pessoas. Nós somos uma atividade diferente de outras atividades em que de um dia para a noite conseguem formar outra vez pessoas para caso haja uma retoma. Portanto, existirão outras atividades que conseguem fazer uma retoma rapidamente. Nós damos um mês e meio de formação, por todas as questões de segurança, por todas as questões departimentais, às pessoas antes de elas poderem voltar a operar. Mas nós, para entendermos, estamos a falar de uma empresa que no mês de abril tinha uma faturação prevista de cerca de 11 milhões e 900 mil € e vai faturar cerca de 400 mil. Eu acho que a melhor forma de dar uma dimensão a estes números é precisamente esta grande diferença, abismal diferença, do que nós íamos faturar e o que nós nos preparávamos para faturar e o que vamos faturar e não sabemos se vamos receber.

Vocês tiveram uma reunião com os vários sindicatos. O que é que vos foi transmitido por parte dos representantes dos trabalhadores depois desta decisão do layoff, por exemplo?

Nós temos trabalhado sempre muito. Este é um momento de união. Isto como em qualquer altura da nossa vida profissional, pessoal, acabam por ser nestes momentos mais de apreensão E que as pessoas entendem que isto é a altura de nos unirmos todos para um objetivo comum. A nossa principal preocupação, seja da administração, seja do management, seja de todos os trabalhadores, seja de qualquer uma das organizações sindicais, dos trabalhadores e afins, é o bem-estar dos trabalhadores. Todos nós estamos preocupados com isso e com a sustentabilidade da empresa. Portanto, ninguém que tenha participado nessas reuniões pode dizer que saiu de lá contente. Seria um contrassenso. Mas eu acho que todos nós ouvimos os sindicatos e algumas sugestões que eles deram e preocupações, nós acabamos por refletir. Outros deles também entenderam que nós estávamos a fazer um esforço sincero para, neste momento, apoiar e não deixar ninguém desprotegido. As 324 pessoas que vão estar na operação, a empresa tomou a decisão de não efetuar nenhuma redução do seu salário. Por quê? Porque as pessoas vão estar a dar o seu melhor todos os dias para que possamos auxiliar um serviço público a ser realizado. E achamos que elas próprias têm que ser, no fundo, também premiadas por isso. Portanto, eu acho que o sentimento que há, mesmo quando falo com as pessoas, e eu dei o meu número de telefone para que qualquer trabalhador da Groundforce me ligue, que tenha alguma dúvida sobre este momento, porque acima de tudo, o que nós temos que dar é confiança às pessoas que estamos a fazer o que tem que ser feito. E o sentimento que existe é ninguém gostava de escrever nem o comunicado que os sindicatos escreveram, nem a mensagem que eu passei, mas todos entendemos que era o melhor comunicado e a melhor mensagem que se podia passar neste momento para garantir o futuro da empresa.

Paulo, deixe-me fazer duas perguntas. Uma muito simples: qual é o número de casos positivos de Covid-19 na empresa? E outra é se considera que na fase inicial, a ANA e os serviços do aeroporto fizeram aquilo que era necessário para impedir eventuais contágios por parte de passageiros, porque todos nós vimos as imagens de dezenas e às vezes centenas de passageiros acumulados nos terminais.

Olhe, eu vou lhe começar, se calhar, por responder. A resposta mais simples é quantos casos. Nós tivemos o primeiro caso na Groundforce na sexta-feira passada, é o diretor-geral de operações, que está em casa, portanto está a recuperar bem. E tivemos mais outro caso também. Portanto, neste momento temos, que eu saiba, no momento, dois casos de Covid. Isto, por si, representa também uma visão de que nós fizemos e tomamos as medidas certas. Desde o primeiro momento eu sempre manifestei aqui, em nome da empresa, que era a altura de respeitar as opiniões técnicas. E seguimos escrupulosamente todas as recomendações da Direção-Geral de Saúde e da nossa empresa que gera a saúde, que é o CER, e seguimo-las à risca. E é prova de que não tivemos muitos casos, estivemos muito tempo sem ter nenhum caso no aeroporto, como disse muito bem, era um local onde passaram muitas pessoas e todos os infectados que chegaram, entre aspas, a Portugal, vieram de avião, tirando um ou outro que veio de outra forma. Portanto, eu acho que as medidas que foram tomadas foram as corretas. Não tenho por que entender que poderiam ser tomadas medidas diferentes. Existiram inúmeras questões, porque há questões ainda hoje que são polêmicas sobre quais eram as medidas que deviam ser tomadas ou não, mas eu respondo sempre que o melhor reflexo de tomarmos as medidas que deviam ser tomadas foi nós não tivemos muitos casos ainda no setor aeroportuário, e nomeadamente na Groundforce, nós estivemos muito tempo sem ter qualquer caso. Portanto, se podiam ser tomadas outras medidas ou não, eu penso que respeitámos as medidas que nos eram impostas e que eram sugeridas pela Direção-Geral de Saúde e o resultado não posso dizer positivo, que não é uma palavra que se pode dizer aqui, mas é um resultado que reflete os cuidados que tivemos.

A entrevista a Paulo Neto Leite, CEO da Groundforce, empresa que aderiu ao lay-off. Muito obrigado por ter vindo à Rádio Observador, neste final de manhã de sexta-feira, 3 de abril.