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Eu tenho as melhores das recordações do Pedro Gonçalves, até porque o início dos Dead Combo partiu de um convite que eu fiz ao Tó Trips para participar num disco de homenagem ao Carlos Paredes. Eu tinha escutado umas gravações que o Tó Trips tinha feito ainda sozinho, já utilizando o nome Dead Combo, mas ainda sem uma gravação oficial. E depois a história é bonita porque há esse desafio e o Tó, como grande amigo do Pedro e como pessoa que sempre lhe disponibilizou muita confiança artística e pessoal, saem de um concerto que decorreu num local onde já não existe, em Lisboa, um bocadinho antes de Santa Apolónia, e vêm a pé até ao Bairro Alto, os dois. Calhou esse encontro acidental e é nesse caminho, é nas ruas de Lisboa, junto ao rio, que o Tó Trips convida o Pedro Gonçalves a trabalhar com ele esse tema para essa coletânea do Carlos Paredes. E claro, convida-o também para começarem a tirar essa grande aventura musical que os dois nos ofereceram nos últimos anos, que são os Dead Combo.
Perguntava-lhe se nos últimos anos tem tido contacto com o Pedro Gonçalves, tem falado com ele ou tinha falado com ele ultimamente?
A minha proximidade com os Dead Combo sempre foi grande, acompanhava as pessoas que faziam música que eu gosto muito. Depois de o Pedro ficar doente, encontramo-nos muito poucas vezes, a última das quais foi num programa no qual eu desenvolvi e produzi para a RTP1, o "Elétrico", possivelmente uma das últimas aparições do Pedro na televisão a tocar a música dos Dead Combo ao vivo. Um espetáculo que aconteceu numa gravação que fizemos no Capitólio no verão de 2019, creio eu. A partir dali os encontros foram muito residuais. O Pedro começou, claro, naturalmente, a recolher-se, a confiar muito na sua recuperação e o nosso contacto foi realmente muito residual, era muito distante e queria saber muitas notícias dele. Esta notícia é de facto muito triste, até por tudo aquilo que ele sempre foi um músico, a meu ver, muito discreto. Sempre foi aquele músico que está sempre ao serviço de outros. Foi assim numa série de bandas. Ele tocou com Sérgio Godinho, tocou nas suas experiências de jazz, tocou com o Xute e Pontapés em turnés acústicas e ele a assegurar a parte do baixo. E só nos Dead Combo é que ele ganha uma dimensão pública de acordo com a dimensão artística que oferecia aquilo onde se colocava. Eu quando olho para os Dead Combo, como se fosse uma obra de construção, eu diria que o Tó Trips é o arquiteto e o Pedro é o engenheiro. Muitas vezes o Tó Trips tem essa designação: "Eu sou o guitarrista, ele é que é o músico", porque há um lado de organização, há uma componente musical que o Pedro tinha, para além de ser um excelente instrumentista, tinha uma capacidade e uma dimensão musical muito forte. Há outro disco que aconselho todos a ouvirem por ser uma obra maior e que teve, mais uma vez, uma participação excelente do Pedro, muito valiosa do Pedro, com a descrição do Pedro, que é um disco que ele produziu para a fadista Aldina Duarte. É um disco muito bonito, até porque tem duas faces. Tem uma face de fado tradicional e depois tem uma outra componente, uma segunda parte do disco, que é quase como se o disco fosse feito segundo os critérios e o imaginário do Pedro Gonçalves. Portanto, para lá de toda a obra que ele construiu com os Dead Combo, esse disco de Aldina Duarte é de certeza um dos momentos musicais mais bonitos que o Pedro construiu na sua vida.
Acabou de me fazer uma espécie de descrição musical do Pedro, uma descrição do Pedro enquanto profissional. Agora pedia-lhe se me podia fazer uma descrição de como era o Pedro enquanto pessoa.
O Pedro era uma pessoa muito discreta. Vejo nele sempre uma discrição. É uma pessoa com humor refinado, mas sempre muito discreto nos contactos. Não era aquela pessoa de hipercomunicação, a pessoa que é o centro das atenções. É engraçado notar a relação que existe entre o Pedro persona e o Pedro musical. Acho que os dois coincidem. Sempre foi uma pessoa da palavra certeira, mas económica. Era uma pessoa que não é que pensasse as palavras, mas não era o tipo falador, efusivo. Era uma pessoa com essa palavra cuidada. Onde o silêncio muitas vezes estava para além da parte da comunicação oral. Era uma pessoa também com muita instrução, do tipo que ouvia um bocadinho de tudo. Vibrava com o Tom Waits como vibrava com o piano do Keith Jarrett. Uma pessoa muito fascinada, no fundo, com a vida musical que teve. Apesar dessa discrição, o Pedro era uma pessoa feliz em ser músico. Isso num país às vezes tão precário como o nosso em relação à cultura, eu creio que é uma conquista.