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Junta-se a este jornal das 10, Arménio Carlos, histórico do PCP, pertenceu ao Comitê Central e liderou a CGTP. Bom dia, Arménio Carlos, obrigado por ter aceitado este nosso convite. Pedro Nuno Santos tem razão, o PCP caiu numa armadilha por parte do primeiro-ministro Luís Montenegro?

Bom dia. Eu creio que Pedro Nuno Santos não tem razão, porque se Pedro Nuno Santos diz que votará contra uma moção de confiança do governo, é porque não está de acordo com o governo. Por isso não se percebe por que não vota favoravelmente a moção de censura do PCP. Há aqui uma contradição insanável, que só demonstra que o Partido Socialista, neste momento, está a servir de trampolim para que o PSD continue no poder e que o povo português não tenha o direito e o dever de exprimir a sua opinião numas próximas eleições intercalares.

Vamos olhar então para a decisão de ontem de Paulo Raimundo de apresentar uma moção de censura ao governo, pouco tempo depois de ter sido apresentada uma moção de censura por parte de André Ventura e do partido Chega. Fez bem, Arménio Carlos, Paulo Raimundo em apresentar esta intenção ou há aqui algum tipo de precipitação?

Não, creio que não há precipitação nenhuma. Aliás, é a resposta ao desafio, porque foi isso que fez Montenegro. Montenegro desafiou os partidos da oposição a avançarem com uma posição na Assembleia da República, face ao que, se não fizessem, ele depois admitiria, não assumiu, admitiria a hipótese de avançar com uma moção de confiança. Ora, se a moção de censura não fosse apresentada, o que nós teríamos na próxima semana e nos próximos meses era a tese por parte do PSD e do governo, de que os partidos da oposição não eram coerentes entre a crítica que faziam e o medo que tiveram de apresentar a moção de censura. Portanto, aquilo que me parece que tem lógica é que independentemente desta posição de bullying do governo e de Montenegro sobre a oposição, a resposta passa pela moção de censura.

Ainda assim, Arménio Carlos, o governo admitiria apresentar uma moção de confiança se essa moção de censura não aparecesse. Agora apareceu, ao que tudo indica, será rejeitada, porque Pedro Nuno Santos disse que não a vai viabilizar. Que consequências, na prática, tem esta comunicação do PM então no entender comunista?

Neste caso, eu falo em nome pessoal. Neste caso em concreto, veremos qual vai ser o resultado da moção de censura. Independentemente disso, o que nós temos é uma situação em que o Partido Socialista não quer assumir as suas responsabilidades, porque não basta dizer que é necessário esclarecer coisas, não basta dizer que a saúde está pior desde que este governo foi para lá, não basta dizer que aumentou os preços da habitação para valores exorbitantes, impossíveis de serem suportados pelos portugueses. É preciso que isto depois tenha consequências. E são essas consequências que eu creio que neste momento o Partido Socialista não está a considerar.

Mas Arménio Carlos, a longo prazo, para a oposição, não seria mais benéfico não avançar com esta moção de censura e fazer uma espécie de contradesafio a Luís Montenegro para que avançasse com uma moção de confiança?

Bem, isso é entrarmos na fase dos ses. Porque se Montenegro quisesse apresentar uma moção de confiança ontem, teria feito essa proposta. Ou seja, teria assumido essa posição de que iria apresentar uma moção de confiança. Pronto, e assim veríamos se o governo estava tão à vontade como supostamente alguns pretendem fazer crer. Não. Portanto, Montenegro pura e simplesmente jogou com os trocadilhos, admitiu a hipótese da moção de confiança, mas é evidente que se não fosse apresentada uma moção de censura, o que nós teríamos era o governo do PSD e Montenegro a assumir de que, afinal, o rei vai nu. Ou seja, a oposição critica, mas quando chega à altura do confronto, fica em casa. E eu creio que neste momento não estamos numa fase, com base nas discussões e sobretudo nas dificuldades com que os portugueses vivem, não estamos numa fase de ficar em casa. Estamos numa fase de ir para a rua e dizer que isto não pode continuar assim, porque as desigualdades estão-se a acentuar cada vez mais e as injustiças sociais continuam a perdurar de uma forma preocupante.