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O Ribeiro Telles fica conhecido sobretudo como uma pessoa que foi um grande pioneiro da causa ambiental. Muito antes dos movimentos que nós vimos recentemente da Greta Thunberg e muitos outros que defenderam a ecologia, a questão ambiental, a questão das alterações climáticas, muito antes disso tudo, há mais de 50 anos, já o Gonçalo Ribeiro Telles se batia pelo equilíbrio entre a natureza e aquilo que os homens constroem, que os seres humanos fazem. Já o Gonçalo dizia que era preciso um equilíbrio entre os sistemas construídos e os sistemas vivos. Já o Gonçalo Ribeiro Telles dizia que era uma indignidade a desigualdade territorial, o desordenamento do território. Foi nas news de 67 que eu fui lhe fazer uma entrevista, eu tinha 19 anos, e ele explicou com toda a bravura que de fato aquelas 500 pessoas que morreram numa noite aqui à volta de Lisboa numas inundações, não foi só porque choveu muito, foi porque viviam em condições miseráveis. E isso ele tinha a coragem de o dizer antes do 25 de abril. Ele foi um lutador pela democracia, pelo combate às desigualdades e de fato pelo ambiente e pela ecologia, quando ainda ninguém sequer sabia que isso era uma grande causa.

Foi um pioneiro, de fato, nessa área. Deixou também uma vasta obra feita.

Sim, extraordinária.

Que pode ser percebida por quem, porque basta percorrer a cidade de Lisboa e encontramos várias provas vivas de Ribeiro Telles.

E para ele isso era muito importante, porque a obra dele, uma vez que era uma obra também viva, era uma obra construída com seres vivos, com plantas, com árvores, com os pássaros que pousam nas árvores e tudo mais, é uma obra que está sempre a evoluir e resiste ao tempo. E ainda hoje, aqui em Lisboa, se nos apetecer ter um momento de calma e de paz, vamos ao Jardim da Gulbenkian e é uma maravilha. Portanto, um homem com essa visão compreendia o tempo da natureza, que não é o mesmo tempo do ser humano, mas também compreendia a necessidade de nos reconciliarmos com essa natureza. Isso, de fato, é uma grande lição. Por outro lado, também é uma coisa que se fala pouco, mas o Gonçalo teve um papel muito importante, foi fundador da Aliança Democrática, foi ministro, criou leis fundamentais, reserva agrícola nacional, reserva ecológica nacional, muitas outras coisas, mas entrou e saiu da política discretamente. Nunca ninguém o viu a erguer isso em sua defesa, nem nada parecido com isso. Portanto, é um homem combativo, valente, mas com uma grande discrição e, de fato, um senhor, um grande senhor. E faz-me falta.

Como é que era conviver com Gonçalo Ribeiro Telles?

Era muito extraordinário, porque a maneira dele pôr os problemas era sempre diferente de toda a gente. Há vários episódios que eu já tenho contado da vida dele, mas posso lembrar aqui um, porque é extraordinário, vê-se bem a diferença na atitude dele. Estávamos numa reunião da Aliança Democrática com os fundadores, com o Freitas do Amaral, o Sá Carneiro e o Gonçalo Ribeiro Telles, e estava-se numa altura pré-eleitoral a discutir o que é que se vai fazer, como é que não se vai fazer, qual é o inimigo principal. E o Freitas defendia que o inimigo principal era o Partido Comunista. E o Sá Carneiro dizia: "Não, o inimigo principal é os Manuel Ramalheiros." E o Gonçalo Ribeiro Telles: "Vocês não têm razão, o inimigo principal é o eucalipto". E isto deixava-nos um bocado desconcertados. E depois ele explicava: "Vocês vão ver que isto está a desertificar o sul do país bem. É melhor a gente olhar para o que se está a passar. O Vale do Cava acomodou um bocadinho as coisas, mas o eucalipto tem esse poder de secar tudo à volta". O Gonçalo falou disto há tantas décadas e ninguém lhe ligava muito. Isto era só para mostrar um bocadinho como era o Gonçalo. Ele vinha com argumentos que ninguém estava à espera, mas que eram os argumentos essenciais, os argumentos de fundo, não os argumentos conjunturais da pequena luta política.