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O cenário em Caracas é semelhante a este que acabamos de ver retratado em La Guaira. Faltam equipas de resgate para tentarem salvar as pessoas que estão por baixo dos escombros?

Sim, a situação é realmente de catástrofe. Eu parto do princípio que para uma situação como esta, é muito difícil que qualquer país estivesse preparado para uma situação tão dramática. Agora, sem dúvida que não nos podemos esquecer que a Venezuela atravessa uma crise económica e social há vários anos e que com certeza isso tem um impacto importante à hora de uma catástrofe desta dimensão. A preparação talvez não seja a melhor, os recursos não são muitos e com certeza que isto está a afetar a atenção primária, ainda que já começaram no dia de hoje a chegar vários apoios internacionais. Já chegou uma equipa da Espanha, da El Salvador, do México e continuam a chegar. E realmente o apoio internacional é fundamental e importante para que, nestas primeiras 72 horas, possa tratar-se de, pelo menos, resgatar pessoas ainda com vida.

Essas equipas a que fazia referência, já estão no terreno? Já é possível ver aí nas ruas de Caracas essas equipas de resgate a trabalhar?

Não, eles ainda não chegaram ao terreno, chegaram à Venezuela, devem ter aproximadamente um par de horas. Há duas, três horas começaram a chegar e agora com certeza chegaram à Base Aérea Libertador, que fica em Maracay, 100 km de Caracas e a 130 de La Guaira. Com certeza que agora há uma logística importante para que eles cheguem efetivamente ao terreno. Acredito que com a experiência que têm, sobretudo as pessoas que vieram do México, as pessoas que vieram do Chile, são gente com muita experiência nesse sentido. Acredito que provavelmente possa começar a ver-se alguma manobra no terreno que permita dar um bocado mais de esperança às pessoas. A situação é muito dramática e realmente, no momento em que começam a mover todos os escombros de todos aqueles prédios que caíram, sobretudo na zona do litoral central, na zona de La Guaira, acredito sinceramente que debaixo desses escombros devemos encontrar coisas realmente dantescas.

Aí nas ruas de Caracas, o que se vê? O que nos pode descrever da situação nas ruas da capital?

Com certeza, há uma apreensão muito grande por parte das pessoas. As pessoas andam um bocado desorientadas. Hoje é um dia de trabalho, de pessoas a trabalhar, com certeza, aqueles que estão bem e que não tiveram maiores problemas. Definitivamente, as pessoas estão a voltar ao seu trabalho.

Os estabelecimentos comerciais estão abertos?

Sim, há locais comerciais abertos, com certeza, sobretudo que são supermercados e a parte alimentar com certeza que está toda. Todos aqueles que não tiveram problemas estão a funcionar. Digamos que se vive já há muitos anos na Venezuela, e sobretudo na cidade de Caracas, a anormalidade praticamente já é normal. Então, realmente, frente a uma situação como esta, claro que não é de maneira nenhuma normal para nenhum de nós. As pessoas têm-se adaptado muito bem. E por outro lado, eu tenho que dizer que realmente a solidariedade do povo venezuelano e com certeza também da nossa comunidade, que está muito integrada, é brilhante, é impressionante. Realmente as pessoas já se estão a mover para prestar o apoio que seja necessário. Com certeza, com alguns desadaptados também que aparecem e que se começam a aproveitar desta situação, sobretudo no litoral central, pois já começou a haver situações de saques e realmente também não se vê militares na rua, por exemplo, sobretudo polícias municipais, que realmente não são suficientes para poder atacar uma situação dessa.

Saques aí em Caracas?

Não, basicamente no litoral central. Em Caracas, a situação é mais simples, mas na zona de La Guaira, perto do aeroporto, na zona do chamado litoral central, realmente a situação é complicada, é muito difícil. Não se pode, neste momento, circular livremente de Caracas para La Guaira. A situação é muito difícil.

Não se pode circular livremente sob risco de quê?

Não, porque as autoridades não estão a permitir que as pessoas circulem para o litoral central assim, de maneira tão simples. Há bastante controle nesse sentido.

Ontem havia a indicação de que houve uma suspensão da circulação de vários transportes públicos. E hoje?

Não, em Caracas já está a funcionar. Realmente o problema basicamente centra-se muito na zona de La Guaira. É uma zona que foi realmente muito devastada e aquilo é praticamente uma faixa pegada ao mar e à montanha que está à frente de Caracas. É uma faixa muito comprida e a circulação faz-se muito dificilmente.

Relativamente aos portugueses, apresentei-o aqui como Conselheiro das Comunidades Portuguesas em Caracas. Tem recebido muitos pedidos de ajuda nas últimas horas?

Sim, com certeza. As pessoas comunicam-se muito conosco, com todos os conselheiros, com todos os que estamos ligados ao associativismo aqui na Venezuela. As pessoas tratam de apoiar-se nesse sentido. Sabemos que as autoridades portuguesas tratam de fazer o melhor possível, mas também estão muito limitadas. Realmente é pouco aquilo que o consulado e a embaixada podem fazer frente a uma situação como esta, porque não dispõem de meios para isso. De tal forma, a informação que temos é que também já vai chegar algum grupo de apoio de Portugal, aparentemente que está por sair de Portugal. Vamos lá ver até que ponto é que isso pode ajudar. Mas a situação é dramática, é difícil e realmente vamos ver agora o depois da tragédia, a outra tragédia que nos vai cair em cima. A reconstrução vai ser muito difícil, ou seja, o país economicamente e as pessoas não estão preparadas economicamente para enfrentar situações de recuperação de vivendas. Muitas pessoas perderam vivendas completamente e famílias, por exemplo, da nossa comunidade, deve haver famílias que ficou melhor ficar os filhos, morrer os pais, ficar os pais, morrer os filhos. Eu não descarto até que possa haver uma nova vaga de cidadãos portugueses a querer ir para Portugal. Isso pode suceder facilmente. Ainda não tive informação direta disso, ainda ninguém me manifestou essa possibilidade, mas eu acredito que isso pode suceder, porque a reconstrução vai ser muito cara, muito difícil e neste momento o país não tem condições para isso. A mesma banca local, créditos há muito tempo que nós não sabemos o que é isso. Então vai ser difícil que as pessoas possam ter recursos para poder reconstruir.

Uma dificuldade acrescida para o que há de vir. Agradeço-lhe, Fernando Campos Topa, o relato que aqui nos fez. Fernando Campos Topa, Conselheiro das Comunidades Portuguesas em Caracas, com o retrato da situação vivida, em particular na capital, mas também no estado mais afetado pelos terremotos, o estado de La Guaira