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Há registo de pelo menos 80 mortes relacionadas com o vírus Ebola na República Democrática do Congo, oito casos confirmados e ainda mais de 240 casos suspeitos. No Uganda, foram relatados nos últimos dias dois casos em laboratório de pessoas que viajaram precisamente do Congo. Para nos ajudar a explicar o significado deste surto, está conosco a Dra. Joana Moreno, é vice-presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública. Bom dia, muito obrigado por ter aceitado o convite da Rádio Observador. Doutora, a OMS considera o surto como uma emergência de saúde pública, mas para já não atende aos critérios de uma emergência pandémica. O que isto significa? Há perigo? O que implica este surto de Ebola?
Olá, muito bom dia. Esta declaração por parte da Organização Mundial de Saúde dá uma importância a este surto, do qual já há precedentes nestes países, e faz com que, obviamente, todos os países a nível internacional estejam atentos a este surto. De facto, não cumpre os critérios de emergência pandémica, o que significa que a probabilidade deste surto se expandir para todos os países do mundo, ou quase todos os países do mundo, é improvável, e daí não cumprir os critérios para se expandir deste modo. Mas, de facto, é algo que nós temos que acompanhar de forma próxima, porque efetivamente a quantidade de pessoas que hoje se mobiliza de um sítio para outro é grande e nós temos que ter sempre em consideração que um caso pode vir a ser identificado em países onde não era provável acontecer, por exemplo, em países europeus ou noutros continentes. Mas, de facto, neste momento, o risco de se expandir de forma larga para os outros países é baixo e daí que a Organização Mundial de Saúde o classificou como não tendo critérios de emergência pandémica.
Por isso, para Portugal, devemos ficar preocupados ou esta notícia de não cumprir os critérios de emergência pandémica pode acalmar um pouco as preocupações?
Acho que nós devemos ficar, acima de tudo, informados. Quando estes alertas surgem noutros países, e este aqui, apesar de tudo, é longe, não partilhamos fronteiras, nós devemos estar, acima de tudo, informados. Devemos estar informados do que é esta doença, de como é que ela se transmite, e devemos não criar o pânico quando este tipo de coisas acontece. De facto, aqui o risco é maior para pessoas que tenham de viajar para estes países nesta altura. Essas pessoas que viajam para esses países têm o risco de potencialmente estarem em contacto com alguém que esteja infetado. E sim, essas pessoas devem preocupar-se e fazer uma consulta do viajante e informar-se que medidas podem adotar para prevenir o risco de infeção. No entanto, para nós, Portugal, e para a maioria dos países que não partilham fronteiras com estes dois que referiu, de facto, as restrições que estão referidas pela Organização Mundial de Saúde são limitadas. Ou seja, não há evidência científica que deva ditar o encerramento de fronteiras ou o controlo das pessoas que retornam destes países. O que deve sim haver é um controlo dentro dos países afetados atualmente, para que pessoas doentes não façam viagens para fora do país, quer seja por via aérea, quer seja pelas estradas, e assim controlar muito mais localmente o surto. Para nós, Portugal, devemos continuar a fazer a nossa vida normal, estar atentos, manter-nos informados, não criar o pânico. E se tivermos que fazer uma viagem para países africanos, principalmente países desta zona onde estes dois se localizam, então estarmos informados, ponderar eventualmente protelar essa viagem para posterior, e tomar as medidas preventivas necessárias.
Nas últimas semanas, vimos o aparecimento de alguns vírus, o hantavírus, e agora este surto de Ebola. É apenas uma questão de tempo até termos uma nova pandemia ou aprendemos alguma coisa com a Covid-19 e estes novos surtos tendem apenas ser controlados e haver aqui uma certa prevenção ou realmente há aqui razões para estarmos preocupados?
Todos estes vírus que mencionou, o hantavírus, o norovírus, o vírus Ebola, nas suas diferentes espécies, já são vírus que nos são conhecidos, que já sabemos como é que funcionam, como é que se previnem, como é que nós podemos, enquanto humanos, controlá-los. De facto, os surtos vão ocorrendo e o facto de efetivamente estas doenças, principalmente o hantavírus e o vírus Ebola, terem alguma gravidade, acabam por soar alguns alarmes e acabamos por ficar mais preocupados com estas situações. Mas não quer dizer que se está a aproximar a próxima pandemia. Ou seja, o que nós temos enquanto humanos é de garantir que não nos expomos a situações que possam fazer com que haja transmissão de doenças que ainda não conhecemos e que existem nos animais, principalmente os animais em contexto mais de floresta, e que possam eventualmente vir a ser transmitidos aos humanos e poder-se conhecer novos vírus desta forma. Que é assim, no fundo, que surgem alguns dos vírus que acabam por afetar, hoje em dia, os humanos. Mas nada disto que temos visto recentemente prevê que estejamos próximos de uma pandemia. São vírus que já são conhecidos. Também o facto de nós agora termos melhores meios de diagnóstico, mais depressa conseguimos perceber quantos casos temos, qual a dimensão, e que se calhar antigamente não conseguíamos perceber isto de forma tão fácil. Portanto, também essa parte de melhor diagnóstico faz com que nós tenhamos mais conhecimento das coisas e parece que temos mais doença a ocorrer, mas pode também só simplificar que nós temos melhor forma de diagnosticar, melhor forma de transmitir a informação a todo mundo e não necessariamente que há mais doença. Mas nada creio querer que efetivamente vamos ter uma pandemia em breve. É só simplesmente o ocorrer das doenças da sua forma natural nestes locais e que efetivamente podem corresponder a melhor diagnóstico.