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Esta febre é uma doença, um vírus transmitido por um vetor, ou seja, por carraças, neste caso. As carraças picam animais selvagens ou animais agrícolas, ou então animais de caça, que são portadores, e depois passam a poder transmitir aos humanos, picando-os. Os humanos, por sua vez, podem também transmitir a outros humanos, mas neste caso, exclusivamente por transmissão de fluidos, sangue, secreções corporais, e estes são os principais meios de transmissão. Em relação aos sintomas associados a esta doença, estamos, sobretudo, a falar de febres altas, tonturas, náuseas, vômitos, dores musculares, dores de cabeça, rigidez no corpo. Como se percebe, são sintomas muito indefinidos, que podem ser por várias infeções, e não é fácil fazer-se um diagnóstico, a não ser por meio laboratorial. Não é possível sequer fazer-se por meio laboratorial. Mas recorrentemente o que acontece é que depois estes sintomas escalam para uma insuficiência hepática ou então para os tais casos de hemorragia, internas ou externas. E a taxa de mortalidade estimada, se bem que não é muito precisa, varia entre os 10% e 40%, o que é bastante significativo e é uma doença séria.
Tendo em conta o único caso que apareceu em Portugal ter levado o doente a falecer, há a possibilidade de não haver risco de um surto. No entanto, sendo que poderá até ter a ver com a zona ou não, que ainda está a ser estudado, acha que no futuro poderá causar uma crise na saúde pública?
Eu não penso que esta doença, pelas suas características, possa causar uma crise de saúde pública. Por quê? Porque sendo uma doença transmissível entre humanos, é tão severa e seus sintomas são tão significativos que as pessoas acabam por ter que socorrer dos serviços de saúde com alguma rapidez e, portanto, estarão pouco tempo a transmitir o vírus na comunidade e depois a transmissão, uma vez mais, sendo por via de contactos corporais, de fluidos corporais, tem que haver um contacto direto com a pessoa. Não é uma transmissão, por exemplo, por via respiratória ou por aerossóis. Não acho que em nenhuma circunstância concreta se esteja aqui uma crise de saúde pública. Agora, considerando que esta doença é transmitida por vetores que são carraças, e estes animais reproduzem-se de uma forma significativa, se não houver uma vigilância entomológica, ou seja, uma vigilância destas populações de animais, como se faz, por exemplo, para os mosquitos, e se não houver nenhum cuidado, nenhum controle, a possibilidade de carraças transmitirem esta doença, o número de espécimes transmissores, obviamente que pode aumentar e aumentar pode infectar mais pessoas. E portanto, por essa via, pode haver um risco potencial de saúde pública, mas eu direi que não deve estar em cima da mesa neste momento. Longe disso, muito longe disso. Aquilo que se percebe, neste caso, é que pelo menos houve um espécime, houve uma carraça que tinha o vírus e a possibilidade de haver mais carraças com o vírus em Portugal, no território português, é real. A não ser que esta pessoa que faleceu, este senhor que faleceu, tivesse ido a Espanha, tivesse contacto com animais em Espanha ou animais provenientes de Espanha. É o tal despiste epidemiológico que depois precisa de ser feito. Falei do despiste entomológico e depois epidemiológico, que é quando as pessoas têm a doença, saber por onde é que as pessoas circularam, quais foram as potenciais zonas de contacto com o vírus, etc. Eu direi que é uma doença grave, mortal, para a qual não há um tratamento específico, mas que pelo meio de transmissão e pela severidade dos sintomas, não tem uma transmissão na comunidade que escale facilmente. E nessa medida, aquilo que se assistiu, por exemplo, com a Covid-19, não terá paralelo para esta doença.