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Contamos em direto com o tenente-general Marcos Ronha. Obrigada por estar conosco para um balanço de um mês de guerra e da perspectiva também para os próximos tempos. Boa tarde. Esta entrada do Iêmen pode ter que tipo de influência no rumo que este conflito vai tomar daqui pra frente?
Boa tarde e obrigado pelo convite. Vejamos, há aqui uma novidade que já era esperada, de algum modo, que julgo eu que pode, além de ser um novo apoio para o Irã, que os houthis, como sabemos, é um proxy do Irã, pode associar ao fecho, caso a guerra continue, como tudo indica, o fecho do Estreito de Ormuz, problemas também no Bab-el-Mandeb e aí afeta não só a parte do tráfico internacional de petróleo, mas do tráfico internacional das mercadorias entre a Ásia e Europa que passam pelo mar Vermelho e pelo Canal de Suez, e que vêm pro Mediterrâneo. Obrigando a Rota do Capo, coisa que como sabemos, já uns meses atrás, quando foi a guerra de Gaza, que os houthis também atacaram a navegação mercante, geralmente ligada aos Estados Unidos, aos países europeus e Israel. É mais um elemento negativo para a situação econômica mundial. Mas os houthis têm alguma capacidade, inclusivamente, de ir continuando também a atacar Israel. Mas essencialmente é sobre os navios e a interdição, de algum modo, da capacidade das marinhas mercantes poderem operar no mar Vermelho, que pode incrementar o fecho do Estreito de Ormuz e a questão do petróleo, dos derivados do petróleo, mais um problema pra economia mundial.
Entretanto, Donald Trump, e falando no Estreito de Ormuz, renomeou o estreito para Estreito de Trump. Isto é mais do que uma provocação ao Irã, senhor tenente-general. Pode o presidente norte-americano apregoar, nesta altura, que o inimigo está derrotado, como tem feito?
Eu acho que é essencialmente uma questão surreal. Com certeza, tem a ver com uma questão de comunicação, porque há aqui uma questão de comunicação, de facto, da administração americana com o Irã bastante estranha, no sentido de que não é normal. Quem quer, de algum modo, iniciar conversações para haver uma solução negociada pro fim da guerra, que trate o seu opositor da forma pública como o Donald Trump tem tratado os iranianos, o que com certeza não ajuda à criação do clima mínimo para haver a capacidade de haver algum tipo de entendimento, embora os pontos, como sabemos, de discórdia são muitos, quer dizer, estão em posições completamente afastadas. É evidente que não sabemos se o Donald Trump faz isso sob o ponto de vista, essencialmente, da sua imagem interna, junto à sua comunidade de apoiantes nos Estados Unidos, mas de qualquer modo, isso tem uma influência sob o ponto de vista da comunicação estratégica, que acho mais negativa para os Estados Unidos do que propriamente pro Irã. Porque o Irã, os iranianos, o regime iraniano, sendo aquilo que é, é mau, como sabemos. Um regime autocrático e teocrático, de algum modo, tem manifestado uma capacidade de resiliência que tem se mantido, consegue se manter à tona e, pelos vistos, não vai ser fácil degradar as capacidades de modo que o regime colapse por ele próprio. Essa é uma situação que vai dificultar a feitura de algum tipo de acordo. Mas o Donald Trump já sabemos como faz, faz isso com todos, tem feito com os europeus, tem feito com a NATO, tem de um modo geral tratado mal aqueles de quem precisa. E neste caso, precisa do Irão minimamente pra ter um interlocutor para um processo de paz que, ou por cessar-fogo ou por algum grau de entendimento, será fundamental.
O Paquistão está a desempenhar esse papel. Pensa que estas negociações podem chegar a bom porto ou será difícil?
Quando as posições estão muito extremadas, como sabemos, é muito difícil arranjar um entendimento. Temos a experiência da Ucrânia, onde os Estados Unidos se posicionaram como mediadores. Temos a questão do Omã relativamente ao Irã e os Estados Unidos. Temos agora o Paquistão e portanto, com posições extremadas e num clima de guerra, em que de facto a comunicação estratégica que é tida, especialmente do lado dos Estados Unidos pro lado dos iranianos, é de tal modo assertiva que não ajuda de facto à criação de um clima mínimo de confiança que leve a que seja possível haver um entendimento a curto prazo. Não quer dizer que as negociações e que o Paquistão não vá fazer um esforço no sentido de tentar arranjar aqui algumas pontes que possam, de algum modo, possibilitar um acordo de cessar-fogo ou um processo de paz no futuro. Mas nas condições, de facto, que são criadas no terreno e sob o ponto de vista internacional e mesmo no universo midiático, não ajudam nada. É esse clima pro entendimento.
E à parte dessa frente diplomática, pode vir a ser aqui o estreito de Ormuz e as consequências econômicas a chave para o fim desta guerra?
É uma pressão enorme. O Irã preparou-se pra uma guerra desta natureza há muitos anos, como sabemos. Baseou-se numa estratégia assimétrica, porque sabia que numa situação de um confronto com os Estados Unidos ou mesmo com Israel, sob o ponto de vista convencional, teria muitas dificuldades, como aliás teve. A questão do Estreito de Ormuz é uma peça desta estratégia assimétrica, como a utilização dos mísseis sobre Israel e sobre as bases americanas, no sentido de criar baixas, como o bombardeamento dos países do Golfo. Tudo isso se insere numa estratégia associada a uma capacidade de resiliência grande que o regime tem e que está suportado, embora na guarda revolucionária islâmica. Tem uma capacidade de resiliência que tudo indica que poderá, e tem capacidade ainda, segundo já vemos com a utilização dos drones, de ter alguma capacidade de fazer prolongar esta guerra por meses, tudo indica, pondo uma pressão enorme nos Estados Unidos que querem a guerra parada no mais curto espaço de tempo. Mas o que é certo é que sob o ponto de vista da atividade militar normal, portanto, os bombardeamentos aéreos, tudo indicam que precisarão de mais tempo, senão mesmo algum tipo de situação de uma intervenção militar terrestre, mesmo que limitada, no sentido de criar condições pra que o Irã seja forçado a sentar-se e assinar um acordo de paz. A manter-se esta guerra como está, com esta dinâmica de bombardeamentos aéreos, por um lado, e guerra híbrida do lado do Irã, por outro, eu julgo que as cartas estão do lado do Irã para a guerra durar meses, e esses meses prejudicam gravemente, não só a imagem dos Estados Unidos, como a imagem mundial e a economia mundial. Criando situações que não são favoráveis pra ninguém.