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Em direto neste jornal das 18h da Rádio Observador, junta-se agora Luís Graça, imunologista do Instituto de Medicina Molecular e membro da Comissão Técnica de Vacinação contra a Covid-19. Muito boa tarde e obrigado por estar conosco. Como é que a comissão chegou a esta decisão e a esta recomendação? Que fatores pesaram nesta ponderação?
Boa tarde. Os fatores que pesaram nesta decisão foi verificar a necessidade de proteção de vacinação em crianças desta faixa etária, que têm doenças que condicionam um risco maior de desenvolver doença grave, mas também crianças saudáveis, que são a vasta maioria de crianças, felizmente, que na sua maioria têm um curso favorável quando são infectadas, mas que ocasionalmente podem também necessitar de internamento hospitalar. E na verdade, nos hospitais portugueses, a maioria das hospitalizações por Covid-19 são crianças que não têm estas doenças. E na Europa o panorama é igual, cerca de 78% dos internamentos são crianças que não têm estas doenças que lhes conferem um risco maior de desenvolver complicações da infeção. Por tudo isto, é benéfico para as crianças, havendo uma vacina segura, protegê-la destas complicações, que são raras, mas que podem ocorrer e que podem levar a hospitalizações e a doença grave.
Os ensaios foram feitos com crianças em número suficiente para ter a certeza sobre a segurança e eficácia, que presumo, seja uma das dúvidas com que muitos pais se debatem.
Na verdade, tem havido uma unanimidade em relação à segurança e ao cuidado que foi colocado no desenvolvimento destas vacinas pediátricas. Estas vacinas resultam da adaptação da vacina utilizada em adultos para esta população pediátrica com uma dose menor e que foi testada em ensaios clínicos independentes dos ensaios clínicos que foram realizados para adolescentes ou para a população adulta. E esses ensaios clínicos mostraram que a vacina é segura e muito eficaz. E, para além disso, nós neste momento já temos também a segurança adicional da vigilância do que aconteceu nos países que já começaram a vacinar crianças destas faixas etárias.
Não foram tentados casos graves nesses países, e já são alguns?
Nos Estados Unidos já estão a ser vacinados, e no Canadá. Nos Estados Unidos já estão vacinados desde o início de novembro e não foi levantado nenhum sinal de segurança que coloque em causa a segurança desta vacina. Por isso, os pais podem estar tranquilos que a vacina é segura e que pode prevenir complicações da doença, que ainda que sejam muito raras, são preveníveis.
A incidência da Covid-19 nas crianças é um problema assim tão grave para a situação epidemiológica global? Ou seja, esta é uma forma de conseguir controlar, sob o ponto de vista epidemiológico, a disseminação do novo coronavírus? Ou esse fator também pesa, ou pesa exclusivamente salvaguardar as crianças de eventuais complicações decorrentes de uma infeção?
Naturalmente que todos esses diferentes pontos são considerados. Há um benefício claro para as próprias crianças, como eu acabei de referir, mas também neste momento em que a generalidade da população portuguesa está vacinada, a população que tem maior incidência da doença é a população com esta idade. E esta maior incidência de doença condiciona também perturbações na vida social e escolar destas crianças, que sendo vacinadas, vão também normalizar a sua vida social e escolar, como aconteceu com os adolescentes depois de eles estarem vacinados, havendo uma diminuição da incidência de infeções nessas faixas etárias. Tudo isto vai conjugar-se para o benefício da vacinação desta faixa etária, o benefício para a própria criança e o benefício também social e escolar, que também é para a própria criança, decorrente do menor número de infeções nesta faixa etária.
Apesar das vantagens que aqui elenca, a verdade é que a Direção-Geral da Saúde demorou algum tempo até chegar a uma decisão sobre a vacinação desta faixa etária. Encontra alguma explicação para esse facto?
Eu acho que é um procedimento absolutamente normal, porque todas as decisões da Comissão Técnica de Vacinação são decisões que são baseadas na melhor evidência técnica disponível naquele momento. E é necessário algum tempo para coligir essa informação, que neste caso é a informação do nosso país e a informação europeia, para haver reuniões com congéneres de outras comissões técnicas de outros países, para discutir estes assuntos e para se poder chegar à melhor decisão suportada pelos dados, que permite afirmar aos pais que estão preocupados com a vacinação dos seus filhos, que esta é a decisão que conduz à melhor proteção dos seus filhos com a melhor segurança disponível neste momento.
Em direto está também conosco o pediatra Mário Cordeiro, a quem também agradeço a disponibilidade para estar conosco nesta edição das 18h. Enquanto pediatra, que dúvidas é que lhe têm chegado por parte dos pais, se é que lhe têm manifestado essas dúvidas relativamente à vacinação dos filhos?
Boa tarde, Miguel, muito obrigado por esta oportunidade. Pois, eu estou inteiramente de acordo com o que acabou de ser dito pelo doutor Luís Graça. Quando eu fazia parte também da Comissão Técnica de Vacinação, aqui há uns anos, quando trabalhava na DGS e depois na União Europeia, havia três coisas sempre para decidir sobre uma vacina: se ela era segura, se ela era eficaz e se ela era necessária. Essas três coisas são fundamentais. O doutor Graça já explicou que a vacina é segura, aliás, foi aprovada pelas entidades oficiais e entidades que não estão a soldo, como às vezes se diz, de qualquer interesse particular, são autoridades científicas neutras. Depois, é eficaz. De facto, é, isso já está provado. E finalmente, a questão é se é pertinente, e aí Nós temos, por um lado, como foi referido, a própria criança, que realmente pode, mesmo que seja num número pequeno de casos, mas até um já é demais, sofrer lesões graves, poder ter de ser internada e até poder eventualmente morrer, para lá do que se chama o long COVID, que atinge também algumas crianças e adolescentes, que são episódios ambulatórios de cansaço, de falta de memória, que vão e vêm e que prejudicam muito, nomeadamente a aprendizagem e todo o bem-estar da criança. Depois, por outro lado, uma questão importante é que as crianças são as principais transmissoras, como aliás, foi dito. No fundo, o vírus é uma partícula, nem sequer é um ser vivo, precisa de pessoas para se replicar e poder continuar por aí. Nós fomos tapando este muro com a vacinação da população adulta e temos uma excelente taxa de vacinação. Aliás, os portugueses sempre nos habituaram a isso, mas ainda há essas brechas, que são as crianças, que importa colmatar, até porque as crianças convivem muito e ainda bem, e devem conviver com a normalidade, e elas podem ser os reservatórios dos vírus e daí a necessidade realmente de as vacinar.
Professor Mário Cordeiro, seguindo essa linha de raciocínio, eventualmente deveríamos ter avançado para a vacinação desta faixa etária mais cedo?
Não, temos de esperar a evolução exatamente para depois. Seria gravíssimo, aliás, qualquer entidade, um governo ou uma agência de medicamentos europeia ou a Infarmed, a vir apressadamente dizer que sim, que se poderiam vacinar as crianças e depois ter provas de que não poderia porque teria efeitos secundários. Isso seria uma irresponsabilidade e tudo tem o seu timing. E realmente, esta vacinação em massa, que é a primeira vez que é feita, nunca foi feita no nosso país, nem no mundo, uma vacinação desta forma. Nas outras pandemias havia vacinas. E por isso, de facto, obriga a estabelecer claramente prioridades para não dar passos maiores do que as pernas, para os centros de vacinação, por exemplo, não estarem às tantas a abarrotar e as pessoas saírem dali sem vacinas. É um processo muito complicado, que às vezes é tratado pela população de uma forma um bocado leviana, com certos comentários que se ouvem, esquecendo que isto não é propriamente um hipermercado, chegar ali, comprar e ir embora. Agora, há uma questão importante: a verdade é que o vírus pode colonizar uma pessoa vacinada, sabemos isso, mas também a sua capacidade de replicação na pessoa vacinada é muito pequena e, portanto, a transmissão da carga viral a outros é também muito reduzida. Ora, as crianças podem e devem estar com os mais velhos e com as pessoas doentes. É um aspecto que eu tenho como muito importante, repor outra vez a normalidade do tecido social. As crianças devem estar com os avós, bisavós e tios, devem estar com as pessoas da família que sofrem de alguma doença e que, por exemplo, estão em casa. E estas pessoas a que eu me refiro, estes adultos doentes ou envelhecidos, muitos deles, por mais doses que façam, pode ser a terceira, a quarta, a quinta ou sexta, não conseguem desenvolver uma imunidade adequada, porque todas as suas funções, os rins, o fígado, o coração, a audição, e a imunidade, por maioria de razão, estão muito pauperas, ou seja, não têm imunidade, não conseguem dar uma resposta. E manter por mais tempo, porque o vírus vai continuar aí a espreitar, manter por mais tempo essa situação em que as crianças não podem conviver com os grupos etários mais velhos ou com as pessoas doentes, é de uma injustiça social enorme.
E de uma questão de saúde mental.
Exatamente. É para as crianças, para as outras pessoas e para a sociedade toda. Finalmente, outra coisa: essa história de "o Manel está com COVID, vai tudo para casa", para facilitar a expressão. Ora, eu penso que com as crianças vacinadas, se o Manel está com COVID ou o pai do Manel está com COVID, as outras crianças que estiverem vacinadas, provavelmente, só se tiverem sintomas é que serão testadas e irão para casa, enquanto os outros, que estiverem frescos e bem-dispostos, poderão continuar a ir às aulas. Será o terceiro ano, este, de disrupção no meio escolar. E se me preocupa muito a parte acadêmica, de aquisições cognitivas e acadêmicas, preocupa-me muito mais o relacionamento social, os recreios livres, o não haver aquelas bolhas, o recreio novamente ter meia hora e as crianças jogarem futebol. Tudo isso que eu acho que é extraordinariamente importante e, portanto, saúdo a Direção-Geral de Saúde pela decisão tomada e fico muito contente. Não sei quando é que será a vacinação, se calhar naquela semana em que as crianças não têm aulas, é apenas um palpite, mas creio que realmente poderemos dar, mais uma vez, uma lição em termos de vacinação.
Professor Mário Cordeiro e professor Luís Graça, uma última pergunta para os dois. Começava por si, professor Mário Cordeiro. Esta vacinação das crianças dos cinco aos 11 anos, em sua opinião, pode travar esta tendência crescente do número de casos em Portugal?
Eu creio que sim, que pode diminuir bastante a transmissão do vírus na comunidade e, por consequência, diminuir também o número de pessoas que têm sintomas e designadamente aqueles que são realmente os mais importantes: os que são internados, os que são internados em UCI e finalmente, aqueles que acabam por morrer. Mas não esquecer que mesmo as pessoas que têm COVID, mas que ficam em casa, felizmente não têm de ir ao hospital em termos de internamento, que podem ter efeitos, e muitos deles têm efeitos secundários E sequelas que ficam, desde a perda do olfato e paladar a outras coisas que se prolongam muito tempo. Além da disrupção laboral, além de tudo que se passa socialmente, nós temos de vencer esta pandemia e enquanto não houver um medicamento consagrado que se possa tomar quando se está doente, a forma para lá da vacina, que eu acho que é muito importante, e ainda bem que isto é feito, também não esquecer, continuar a ter os cuidados com a higiene das mãos, com o uso de máscaras, e em todas as situações, mesmo que a pessoa vá pela rua e diga: "Não está aqui ninguém", pode surgir de repente uma pessoa que sai de uma loja ou outra coisa qualquer. O uso de máscara na via pública, eu acho que é uma questão, mesmo que não seja um dever, é uma questão ética em termos da população e que também protege, como aliás já acontecia nos países do Oriente, para outras viroses, para gripes, para tudo isso, eles há sei lá quantas décadas usam máscaras na rua também.
Professor Luís Graça, a mesma pergunta: é este o caminho para travar a evolução do número de casos de Covid-19 em Portugal?
Eu acho que a vacina tem uma grande vantagem, que nós já verificamos pela nossa experiência, que à medida que a vacinação de uma faixa etária era implementada, diminuía o número de casos nessa faixa etária. Isto foi sucedendo progressivamente de idades mais altas para as mais baixas, até ao ponto em que empurramos o grosso das infecções para esta faixa pediátrica, que é agora a que tem a maior incidência de infecções. E é expectável que ao vacinarmos também esta faixa etária, o número de vírus em circulação vai também diminuir, com impacto em toda a sociedade, como aliás foi modelado no documento que o ECDC partilhou a semana passada. Por todas estas razões, há dados que mostram que vai haver um impacto na transmissão do vírus com a extensão da vacinação. Claro que este não é, se calhar, o benefício último de fazer a vacinação das crianças. Esse benefício último é o benefício para a própria criança, mas tudo isto contribui para que haja uma evolução favorável na forma como nós estamos protegidos contra a Covid-19.