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Vamos ver. Esta visita de Putin, pelo menos aparentemente, surge em desafio àquilo que são as últimas circunstâncias de todo este processo, toda esta guerra, nomeadamente esta condenação pelo Tribunal Criminal Internacional, com o mandado de captura de Putin por crimes de guerra. Portanto, é essa a leitura, diria, imediata, a leitura mais próxima desta situação, desta visita, quer à Crimeia, quer a Mariupol. Mariupol é obviamente uma provocação grande, porque Mariupol é um símbolo. Até cair, tornou-se o símbolo da resistência ucraniana aos ataques russos. E é obviamente uma cidade importante no Mar de Azov, no oblaste de Donetsk, uma das zonas que, de facto, a Rússia pretende ver definitivamente afastada da Ucrânia e é um dos grandes objetivos de guerra de Putin, diria eu, consolidar a Crimeia e ganhar, pelo menos em toda esta zona, o direito a garantir um eventual e futuro cessar-fogo e uma eventual e futura paz, que não se sabe quando acontecerá, garantir que as coisas se consolidem. Portanto, esta visita é um sinal de Putin de desafio, diria eu, ao Ocidente e, portanto, aos aliados, à Ucrânia, e é um desafio, obviamente, com impacto, como se está aliás a ver, e por essa razão também estamos a falar. É assim que eu acho que pode ser entendido, é isso que é, e é mais um passo nesta escalada. Portanto, continuamos a não dar passos no sentido da paz, continuamos a dar passos no sentido da intensificação e da continuidade desta guerra, passos esses que não prenunciam nada de bom nos próximos tempos.
E também queria saber a sua opinião que estas visitas também podem ser uma provocação a estas acusações que Putin agora tem sido alvo pelo Tribunal Penal Internacional.
Sim, de facto, o Tribunal Penal Internacional, como sabemos, muito recentemente, na sexta-feira, portanto há dois dias, e na véspera da visita, acusou quer Putin, quer Maria Lvova-Belova, como responsáveis pela deportação de crianças ucranianas pra Rússia. Enfim, nós em Portugal já ouvimos alguns comentadores, nomeadamente alguns dos generais mais conhecidos nesta matéria, dizer que as crianças foram enviadas pra Rússia para as proteger, porque estavam em zonas de guerra, o que é obviamente a maior hipocrisia, porque as crianças foram deportadas pra Rússia, não precisavam ter sido deportadas pra Rússia. Enfim, não parece que fosse a vontade delas, ou pelo menos não há sinais disso. E, como disse, o Tribunal Penal Internacional fez esta acusação. É evidente que esta acusação do Tribunal Penal Internacional, permita-se-me esta expressão, vale o que vale. Isto é, a Rússia não reconhece a autoridade do tribunal, tal como a China também não reconhece, os próprios Estados Unidos também, como sabemos, já há alguns anos puseram em causa a autoridade do tribunal e a competência do tribunal para isto que faz. E, portanto, não é reconhecido em muitos países. Agora, é simbólico, obviamente, quando há um órgão internacional que, apesar de tudo, junta 120 e tal países, que condena um chefe de Estado, neste caso o chefe de Estado da Rússia, numa situação destas, e em particular com uma acusação específica, é evidente que tem peso em si mesmo, e tanto que tem um peso em si mesmo que desencadeou uma série de reações. Parece-me, como estamos aqui a conversar, que inclusivamente desencadeou ou levou, pelo menos, a que esta visita fosse assumida como uma espécie de resposta de Putin a essa acusação. E, portanto, como eu disse há bocadinho, é mais um passo na escalada. Não há sinais de, quer de um lado, quer de outro, que possamos a qualquer momento ter um acalmar da situação, um cessar-fogo, etc., ou pelo menos uma tentativa de ir na direção da paz. E quando a Rússia consolida desta forma a sua presença e a sua autoridade sobre estes territórios, portanto, Crimeia como Rússia e estes territórios como territórios independentes e fora da esfera e do Estado-nação que é a Ucrânia, também não estamos a ir nessa direção, sabendo que isso não é aceitável, pelo menos até agora, por parte do Zelensky e por parte dos ucranianos. Portanto, é um sinal, é um sinal muito forte, mas é um sinal que não prenuncia nada de bom em relação a isto.