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O enoturismo na região dos Vinhos Verdes tem crescido significativamente ao longo dos últimos anos e verifica-se uma aposta de muitos produtores na melhoria dos serviços e no investimento em novas estruturas, o que constitui uma oferta cada vez mais ampla e completa. Com este tema na ordem do dia e a crescer de ano para ano, há cada vez mais produtores de vinho a integrar uma variedade de serviços que podem ir das refeições ao alojamento, experiências e parcerias com outros operadores. Neste episódio da Rota dos Saberes e Sabores, com o apoio da região dos Vinhos Verdes, contamos com Maria João de Almeida, da APENO, Casimiro Alves, da Adega de Felgueiras, e Patrícia Soares, das Quintas de Melgaço. Agradeço aos três por terem aceitado o nosso convite. Maria João, vocês na APENO têm um contacto constante com a realidade do enoturismo nacional, obviamente. Por favor, dá-nos uma perspectiva da evolução do enoturismo em Portugal nos últimos anos.

Olha, Zé, obrigada pelo teu convite. Realmente, o enoturismo é hoje um dos setores mais falados na área do turismo e é um setor que surgiu espontaneamente. Como tu saberás, a revolução vitivinícola que se iniciou com a entrada de Portugal na Comunidade Europeia em 86, fez com que durante a década de 90 começassem a aparecer novas marcas, novos produtores, e que o mundo do vinho se começasse a desenvolver cada vez mais e cada vez também mais com qualidade. E portanto, o enoturismo surgiu na sequência desta revolução vitivinícola, ou seja, as pessoas começaram a querer perceber quem é que estava por trás dos vinhos, quem é que morava nas quintas, qual era a região, conhecer também as castas, enfim, conhecer as histórias desses mesmos produtores e isso fez com que o enoturismo fosse, ao longo dos anos, ganhando cada vez mais força. Efetivamente, nos últimos anos, uma das estratégias do turismo é o enoturismo e obviamente, quando uma entidade oficial dá força a um setor que também muito contribui para a economia do país, claro que obviamente temos imensa força hoje em dia nesta área.

Essa perspectiva que tu deste agora é muito interessante, que é realmente a conjugação dos esforços de mais que uma entidade. O turismo de Portugal é óbvio. Mas vocês na APENO também têm tido uma palavra muito importante a dizer. A divulgação, sobretudo, que vocês fazem é muitíssimo interessante.

Exato, Zé. Obviamente que ao ganhar força, o enoturismo também começou a ser cada vez mais investigado e mais falado. E quando falamos de enoturismo, nós, na verdade, não temos nada que o organize. O que eu quero dizer com isto? É que, por exemplo, se falarmos do conceito de enoturismo, existe efetivamente um conceito que surge na Carta Europeia do Enoturismo, mas que não é obrigatório. Portanto, quando falamos de enoturismo, nem sequer temos um conceito oficial, por exemplo, a nível mundial, que seja obrigatório, neste caso, oficial. Aquele conceito que surge na Carta Europeia é um dos que existe. Depois existem inúmeros conceitos que são falados pelo mundo fora, mas não existe um que seja oficial. E assim também em relação à legislação. Hoje em dia, há países como a Itália e o México, por exemplo, que já têm legislação, mas em Portugal não existe legislação e a APENO tem feito um grande esforço para conseguir essa legislação. Não uma legislação castradora e complicada, mas sim algo que nivele, pelo menos, o básico da qualidade, como acontece em Itália, e por isso é que eles são líderes a nível mundial do enoturismo. Nós a nível de enoturismo não ficamos atrás, mas na verdade, eles estão mais à frente porque já têm legislação e o México também. E há outros países como a França, como Espanha e como a África do Sul, que também estão a ir por esta área porque é absolutamente necessária. E depois, há tantas outras coisas. Nós também identificámos que o enoturismo não tem nenhuma CAE nem sub-CAE, portanto, a nível europeu não existe uma CAE e em Portugal, agora que está a haver a revisão de CAE, nós pedimos ao INE para que haja uma sub-CAE. Para quem não sabe, é realmente considerar o enoturismo uma atividade económica, que é importante que isso aconteça para podermos quantificar o setor. Nós hoje em dia não sabemos quantas empresas praticam enoturismo, têm atividades de enoturismo e por isso não podemos quantificar o setor. E nós na APENO temos todos os dias empresas, investidores, académicos, estudantes, todos a querer perceber os números do enoturismo que não existem. À conta de não ser tão complicado também ter estas sub-CAEs, também já pedimos, caso não seja possível e realmente é tudo tão complicado, pedimos um registo turístico para o enoturismo, caso a sub-CAE não aconteça. E por último, o código IRS, que é a parte profissional. Uma pessoa que vá trabalhar com enoturismo, nem sequer tem a categoria de, por exemplo, responsável de enoturismo ou estagiário de enoturismo ou diretor de enoturismo. Portanto, é um setor que apesar de existir com muita força, na verdade, podemos dizer que não existe, porque nada está organizado.

E como é que tu achas que vai ser a evolução do enoturismo na região dos Vinhos Verdes nos próximos anos? Ainda achas que ainda há lugar para crescer?

Eu gosto sempre de dizer isto, porque às vezes as pessoas não têm noção. Temos ganho muitos prêmios hoje em dia, o que ajuda a aumentar a nossa confiança, mas a verdade é que já somos bons há muitos anos. E os nossos bons enoturismos, no nosso país, seja nos Vinhos Verdes ou noutras regiões, são tão bons como em qualquer outro país. Só quem viaja é que tem essa noção. Achamos às vezes que o que lá fora se faz é que é melhor, e que lá fora é que há boas coisas. Não, em Portugal, realmente há muita coisa boa e já existe há muitos anos. Hoje em dia tem outra força, o que é diferente.

E visibilidade.

E visibilidade, obviamente. Agora, o que se passa na região dos Vinhos Verdes? Não era uma região tão visível. Como saberás, o Alentejo sempre foi a região mais visível a nível do enoturismo em Portugal, e o Douro, à conta dos vinhos do Douro, do Porto. Obviamente, tem também um foco de atenção para o Douro, existe esse foco, mas regiões menos visíveis, como por exemplo, os Vinhos Verdes ou o Dão ou a Beira Interior, ou até os Açores, por exemplo, que não eram falados a nível do enoturismo, aos poucos, durante estes últimos anos, têm ganho outra força. E os Vinhos Verdes têm hoje projetos incríveis que já dão cartas e que nos fazem sentir super orgulhosos. Estou a me lembrar agora da Aveleda, que é um case study. Não sei se tu saberás, não é só o vinho que traz as pessoas a Portugal, mas se complementarmos isso com outras atividades, é fantástico. E, por exemplo, existe um grande cultivo de camélias na Aveleda. É uma flor que se dá muito bem e isso até chama japoneses, especialistas japoneses que vêm cá de propósito para visitar, além de toda a vegetação maravilhosa que eles têm e todo o enoturismo que está montado ali, todas as atividades. Quando isso tudo se conjuga, porque enoturismo não é só a gente chegar lá e provar vinho e visitar a adega e a propriedade, pode ser muitas outras coisas complementares com atividades que chamam a atenção. E essa, por exemplo, é uma delas, lembrei-me. Ou então, por exemplo, o Monverde, que é um hotel fantástico.

Um hotel literalmente no meio das vinhas.

Não é? Com uma arquitetura maravilhosa, com uma decoração super sustentável. Como não gostar e como não dizer que aquele é um dos melhores enoturismos?

É extraordinário.

Agora numa perspectiva, por exemplo, mais biológica e mais natural, sustentável, estou me lembrando da Soalheiro, da adega da Soalheiro. Da Quinta de Soalheiro, que é fantástica também. Nós temos já muito bons exemplos de enoturismo na região dos Vinhos Verdes e assim vai continuar. Porque só dei alguns exemplos, mas cada vez mais. Ainda agora, mais recentemente, o Vila Galé, que é um grande grupo hoteleiro, como saberás, abriu agora em Melgaço, creio eu. Em Melgaço, um hotel novo, e eu até fui convidada para ir, não consegui, não estava em Portugal, mas tenho que lá ir muito em breve conhecer, porque hoje em dia já aparece tanta coisa que a gente já não tem tempo para ir.

Exato. Os nossos horários.

Não é?

Não, mas eu concordo contigo.

É uma grande aposta e os Vinhos Verdes têm tido um percurso maravilhoso. Agora, se me falares a nível de serviço, a nível de recursos humanos, de formação, aí sim, ainda há um trabalho a fazer, mas não é só nos Vinhos Verdes, é também em todo o país.

É geral.

É um problema transversal.

Mas eu, por acaso, concordo contigo. Acho que os Vinhos Verdes, neste momento, têm uma certa liderança de novidades, coisas novas que aparecem, de grande qualidade. Citaste três ou quatro exemplos, mas há mais, mesmo pequeninos, há que às vezes com belíssima qualidade. E é como tu dizes, não é só provar vinhos. Eles podem e devem mostrar muitas outras coisas, citaste alguns exemplos fantásticos. E é por esses que os outros se devem guiar, sem dúvida alguma. Onde é que um produtor de vinho se deve informar para fazer investimentos nesta área do enoturismo? Às vezes fazem-me essa pergunta ou eu às vezes digo: "É uma pena, vocês têm aqui, vocês podiam investir". O que devem fazer e que tipo de apoios é que existem?

Lá está, como nós não somos um setor enquadrado, muitas vezes esses apoios vêm ou do lado do vinho, do setor do vinho, ou do lado do turismo. Não existem fundos específicos para enoturismo. Por exemplo, se tu quiseres abrir um hotel, falámos de hotéis. Se quiseres abrir um hotel, tens que ir concorrer a fundos do turismo com a CAE de hotelaria. Ou então, por exemplo, se tu quiseres abrir um restaurante, tens que ir à área da restauração. Fundos para o enoturismo especificamente não existem, a pessoa tem que dar a volta. Obviamente que tu podes dizer: "Então o problema está resolvido". Não está resolvido, porque não quantifica o setor. Continuamos sem saber quanto é que vale o enoturismo e quantas empresas é que praticam o enoturismo. Porque uma empresa pode ter mais do que uma CAI, pode ter várias CAIs ou várias sub-CAIs. É complicado, às vezes, transmitir esta ideia. Por isso, um produtor, se quer fazer uma coisa à sério, se quer perceber esta área a sério, primeiro tem que ter formação, tem que perceber o que é o enoturismo na sua vertente mais aprofundada. Tem que perceber o setor, como é que pode funcionar no setor, se não é enquadrado, como é que pode agir, quais são os fundos mais apropriados dentro daquilo que ele quer para poder avançar. E acima de tudo, querer fazer as coisas bem, porque depois isto é só para a parte da organização, da produção e o desenvolvimento do projeto. Mas depois, há uma parte muito importante que as pessoas se esquecem, que é a parte da comunicação. A comunicação é fundamental. A pessoa às vezes tem um ótimo projeto, uma coisa fantástica. Como os vinhos. Quantos vinhos eu recebo de produtores pequenos que são ótimos, mas depois não há comunicação para nada. Como é que eles se encaram vender? Como é que eles se encaram divulgar? Como é que eles se encaram criar uma marca? Eu, como sabes, tenho formação de jornalista e vou mesmo ao fundo das questões. E faz-me imensa confusão, tu podes ter o melhor produto do mundo, mas se não o divulgares, como é que o vais vender? As pessoas que entram no mundo do vinho e no mundo do enoturismo, muitas vezes acham que consegue-se de uma forma caseira. Eu costumo dizer, na brincadeira, eu ainda sou do tempo em que se pedia ao filho ou ao sobrinho para tirar a fotografia, para mandar pro jornal quando pediam. E eu às vezes recebia aquela fotografia super desenquadrada, com luz péssima, tremida. E eu pensava: "Mas onde é que esta gente... As coisas têm que ser profissionais". Às vezes, o grande problema do produtor ou da empresa que pratica enoturismo, porque não são só os produtores que a praticam, é não querer trabalhar profissionalmente, bem e a fundo este setor. Se as pessoas se aprofundarem no setor, se estudarem o que é e tentarem ao máximo corresponder, tentando resolver os problemas do setor, vão trabalhar certeza muito melhor.

Só para finalizar, o que a APENO, como Associação Portuguesa de Enoturismo, que tipo de informações é que pode dar aos produtores que queiram enveredar pro enoturismo? Embora vocês não tenham soluções mágicas, mas vocês que tipo de informações é que podem dar?

Nós temos um gabinete de serviços completíssimo, ou seja, a APENO surgiu para aconselhar, para promover, para divulgar o setor e para tentar organizá-lo. Daí estas conversas que temos tido com o governo e tudo mais. Mas nós criamos na APENO um gabinete de serviços que orienta e aconselha gratuitamente os produtores. Quem é nosso associado, tem todos estes serviços gratuitos à sua disposição. Vou dar um exemplo: imagina que um produtor quer concorrer a um fundo. Nós temos no gabinete um consultor que diz: "Olhe, para ter um restaurante ou ter uma sala, poderá recorrer a este fundo". O aconselhamento é gratuito. Depois, se a pessoa quiser avançar com aquilo, obviamente, nós temos acordos com várias empresas que gerem este tipo de trabalhos, que trabalham esses projetos para entregar aos fundos, para poderem avançar com o desenvolvimento desse mesmo projeto. Mas aí já é um serviço pago, mas um serviço pago com preços muito mais acessíveis do que se não fosse associado.

E como é que as pessoas podem ser associadas?

Mandando um e-mail ou telefonando pra APENO e nós daremos, obviamente, todas as informações.

As informações. Está bem.

Basta ir ao site enoturismoportugal.pt, entrar na parte das inscrições e mandar-nos um e-mail ou ligar-nos também. Estamos sempre disponíveis no horário de trabalho normal.

Eu sou um pequeno produtor de vinho e agora quero realmente empreender para o enoturismo. Eu, se me associar à APENO, tenho todo esse gabinete que me dá todas as informações possíveis, mesmo que não seja para investimento.

Exatamente. Eu falei dos fundos, porque foi o que nós falamos, mas imagina que queres, por exemplo, construir uma adega. Nós temos vários arquitetos, várias empresas nossas parceiras, que também podem aconselhar. Ou então, por exemplo, a Abreu Advogados, que é nossa parceira desde o início, que tem ajudado muito nesta questão da organização do setor e que também pode ajudar na parte da legislação, de licenciamento, de aconselhamento. Obviamente, tem uma primeira abordagem gratuita, mas se a pessoa quiser desenvolver essas licenças e adquirir essas licenças e esse aconselhamento mais aprofundado, obviamente, aí paga. Mas sempre com preços muito mais acessíveis. Ou seja, este gabinete de serviços que nós criamos é para facilitar, porque uma associação é uma associação. Nós estamos aqui juntos para trabalhar bem, para aconselhar e arranjamos parceiros que nós consideramos que são líderes nestas matérias, seja numa área, seja na outra, e que podem ajudar o produtor de uma forma muito mais profissional. Obviamente, isso não invalida que o produtor queira fazer o seu caminho por si, não seja associado da APENO, está tudo bem.

Claro que sim.

Agora, aqueles que querem juntar-se a nós, não só vão estar muito bem informados, como também vão ter empresas que já trabalham no setor, que já conhecem o setor de alguma forma e que ainda por cima lhes dão preços mais acessíveis.

Claro.

E eu digo-te isto não é com tom comercial, porque nós somos uma associação sem fins lucrativos.

A associação é mesmo isso.

Exatamente. Portanto, essas empresas não nos pagam nada para estar aqui.

Sim.

São nossas parceiras, estão aqui para ajudar os nossos associados e os nossos associados podem recorrer aos nossos serviços. Porque às vezes há quem nem sequer gratuitamente faça orçamento nenhum.

Eu sei.

Às vezes os orçamentos já se pagam, portanto, há aqui várias vantagens.

Também o interior da região tem vindo a assistir a um aumento dos turistas que a visitam, mesmo em zonas mais industrializadas, como é o caso de Felgueiras Casimiro Alves, tem havido um grande aumento de fluxo de enoturismo na vossa adega?

Tem, com certeza. Há muitas agências de viagens que nos pedem para receber turistas que vêm visitar a região de autocarro, que andam num roteiro e vão à adega fazer umas provas de vinhos, fazer compras e portanto, tem havido um incremento grande nesse tipo de visitas. Nós não temos alojamento, só temos visitas à adega e prova de vinhos.

Isso que eu ia perguntar. Mas disse-me também que vêm comprar vinho. Portanto, há também um aumento da compra de vinhos que nos chama à porta da adega?

Sim. Nós temos um posto de vendas e uma sala de provas. E o posto de venda, normalmente, está aberto todos os dias, inclusive ao sábado até ao meio-dia, e vêm muitos clientes de fora comprar vinho. Mas este afluxo de turistas que andam a visitar a região em visitas guiadas, compram bastante vinho. Gostam de provar e depois levam bastante vinho no autocarro. Principalmente os estrangeiros.

E agora, que tipo de turistas vos visitam mais?

Normalmente grupos com autocarros de 40, 50 pessoas já organizados por agências de viagens, que andam a fazer tours pela região e pedem-nos para fazer uma prova e receber os turistas. Às vezes visitam a adega, às vezes quando pedem, visitam uma vinha, uma quinta. É tudo organizado por agências de viagem.

Muito bem. Entretanto, vocês como é que fazem a divulgação dos vossos vinhos? E não exclusivamente para turistas. Que tipo de comunicação é que vocês utilizam para divulgar os vinhos da adega?

Publicidade em revistas, nas redes sociais, outdoors. Temos uma campanha anual de publicidade programada com revistas da especialidade e não especialidade, todo tipo de marketing. Temos até marketing digital.

Mas vocês usam muito as redes sociais? Hoje em dia é uma coisa que já não está na moda, é muito importante. Usam muito as redes sociais?

Sim, e tem um feedback, porque as pessoas quando acedem às redes, se aparece um anúncio, às vezes têm curiosidade e vão ver o anúncio e tem impacto. Quem não é visto, não é lembrado.

Exatamente. Eu costumo dizer: "Quem não aparece, esquece." Muitas vezes, uma outra forma hoje em dia de divulgar os vinhos é junto da restauração. Vocês fazem algum trabalho desse, sobretudo na restauração da vossa área de influência geográfica?

Sim. Na nossa área fazemos um trabalho grande de divulgação, que não é preciso muito divulgar porque eles conhecem. Mas de alguma pressão para que prefiram os nossos vinhos e não outro tipo de vinhos. Na restauração em geral, não temos distribuidores específicos para a restauração. O nosso acesso à restauração é através dos canais de distribuidores que são nossos clientes e de cash and carries que fornecem a restauração. Todos os cash and carry regionais e os nacionais, a Recheio, a Makro. E tem subido esse canal que privilegia a restauração, tem subido de vendas.

Era isso que eu ia dizer, que eu ia perguntar. Realmente através desses canais, o aumento tem sido substancial, não é?

Tem. Esses cash and carries que estão mais vocacionados para a restauração, têm tido um aumento substancial nas vendas.

Isso também deriva do aumento gradual da qualidade dos vossos vinhos, que tem vindo a acontecer.

Sim. Os nossos e todos os vinhos verdes. Quer dizer, nos últimos 20 anos houve uma revolução enorme na vinha. Já tinha havido uma revolução nas adegas tecnologicamente, mas houve uma revolução no plantio, na reconversão, com os VITIS e outros programas, e o vinho em geral melhorou muito de qualidade. E portanto, o nosso acompanhou, é incomparavelmente melhor do que há cinco, 10 anos e continua a melhorar. Este ano tivemos uma excelente colheita, excelente uvas, que eu nunca imaginei há 30 anos que isso pudesse acontecer. Temos uma colheita belíssima este ano, em quantidade e qualidade.

Isso é ótimo, eu tenho falado com muitos produtores e é verdade isso. Entretanto, finalmente, os turistas, sobretudo estrangeiros, apreciam os vinhos verdes?

Apreciam. Principalmente aqueles que procuram vinhos com menos grau. Eles estão sempre todos muito preocupados com a saúde e com os graus altos do vinho e vêm à procura de vinhos mais leves, mais suaves. O que nós estamos a ter alguma dificuldade. Quando as pessoas querem vinhos com 9,5, 10 graus e os estrangeiros procuram esse tipo de vinhos, nós neste momento estamos a ter dificuldade. Os vinhos têm todos 11,5 e 12, começamos a ter um problema e vamos ter que se calhar, no futuro, começar as vindimas mais cedo para conseguir vinhos menos graduados.

Isso é um problema geral. Mas vocês, por exemplo, vocês têm espumantes, já não vendem amais cedo um pouquinho?

Não. Normalmente, o nosso espumante é feito de Arinto e selecionamos um dia ou dois para fazermos a base de espumante. E já está feito. Selecionamos mesmo os produtores e sabemos onde temos melhor qualidade, melhor acidez e mandamos vindimar um pouco mais cedo para base de espumante.

Que é um produto, é um vinho que tem vindo a evoluir de maneira fantástica, não é?

Sim, o espumante está a crescer vendas. Não temos linhas ainda otimizadas para aumentar muito as vendas, mas tem se consolidado e está crescendo.

Patrícia, o enoturismo tem aumentado significativamente também no extremo norte de Portugal, em Melgaço. Vocês nas Quintas de Melgaço tiveram que se adaptar a este fenômeno e para isso o que fizeram para se adaptar a este boom, a este fluxo do enoturismo?

Sem dúvida, nós notamos um aumento no número de visitantes e a procura dessa experiência, especificamente no enoturismo, não é só aquela pessoa que passa na estrada e diz: "Deixa-me ver, deixa-me comprar". Não, é mesmo um aumento na procura de pessoas que querem esta experiência, entrar dentro da adega, falar com as pessoas, falar com quem faz o vinho, com quem participa na adega e comprar. Sem dúvida nenhuma, nós notamos um aumento no número de enoturistas que nos visitam. Nas Quintas de Melgaço, nós notamos esse aumento de visitantes e temos vindo numa constante procura de servir melhor, de receber melhor. Inclusive, juntamo-nos com a Peno, que esteve lá a dar formação às pessoas que estão responsáveis pelo departamento de enoturismo das Quintas de Melgaço e tudo aquilo que nós possamos aprender para melhor receber as pessoas que nos visitam. Tentamos, obviamente, aderir a todos os dias que, por exemplo, estou me lembrando do Dia Mundial do Turismo. Na altura das vindimas, que foi há muito pouco tempo, também tentamos marcar esse dia com atividades que lançamos para receber as pessoas e proporcionar experiências únicas que só podem ser vividas e feitas naquela altura do ano, nas vindimas, e outras atividades durante o ano, o cinema na vinha. Enfim, todas as atividades que são lançadas ou por nós ou por atividades como, por exemplo, a Rota dos Vinhos de Alvarinho e a Comissão Vitivinícola, nós tentamos sempre aderir e proporcionar o melhor possível aos nossos visitantes. Estamos constantemente preocupados com o layout da loja para que seja apelativo, obviamente, criar ofertas dos produtos, cabazes, tudo aquilo que possa deixar os nossos clientes com uma experiência memorável e saírem obviamente satisfeitos.

Muito bem. Em termos de visitantes, os nossos vizinhos espanhóis estão mesmo ali ao lado de Melgaço e são visitas óbvias ao longo dos anos, ao longo do tempo.

Sim.

Para além dos espanhóis, que outras nacionalidades é que têm vindo a aparecer, é que têm vindo a aumentar as suas visitas?

Nós recebemos maioritariamente portugueses, sem dúvida nenhuma, mas curiosamente temos vindo a assistir a um aumento no número de americanos que nos visitam. Lá está, especificamente para terem uma experiência no enoturismo. Portanto, também vamos tentando adaptar a nossa oferta em termos de provas de vinhos, uma tábua de queijos, tudo produtos regionais, os queijos, os enchidos. Temos lá também uma compota de alvarinho com frutos secos, tudo aquilo que possa, obviamente, tornar esta experiência ainda mais deliciosa e inesquecível, principalmente. As pessoas vão, gostam, compram e não nos esquecem, que é o mais importante. Mas sem dúvida nenhuma, em termos de público, os portugueses são o que ocupam o maior número de visitantes e temos vindo a receber maior público norte-americano.

Em termos de visitas, de divulgação das visitas, o que vocês têm feito? Vocês têm divulgado também essa vertente do enoturismo?

Sim, nós estamos de mãos dadas com a Rota dos Vinhos de Alvarinho e a Comissão Vitivinícola dos Vinhos Verdes, que também são muito dinâmicas nessa área e na ajuda que dão aos produtores para a divulgação do que cada um tem. Por exemplo, tivemos o Dia das Portas Abertas recentemente e foi juntamente com essas entidades que houve essa divulgação para que nos ajudem a trazer o maior número de público às nossas quintas. Portanto, aparecemos sempre nesse cartaz de disponibilidade de quintas que estão disponíveis para receber as pessoas e, claro, a oferta que cada um tem. Tivemos também há pouco tempo, para assinalar o Dia Mundial do Turismo, foram essas entidades que lançaram o mote. É uma pintura de azulejos que está ainda a decorrer. O cliente pode ir às quintas, pinta um azulejo, depois vai ficar exposto durante algum tempo e depois vamos doar a uma escola em Melgaço esse mesmo azulejo. São estas as entidades com quem estamos mais próximas para a divulgação da nossa casa, da oferta e tudo o que é, por exemplo, uma ideia nossa, as vindimas, claramente. Eles ajudam-nos também a captar algum público para lá e tudo que são atividades divulgadas por eles, nós tentamos sempre aderir. O Cinema na Vinha também foi algo que aconteceu este verão, também teve uma adesão muito interessante. Eu realmente considero esta região a dar o salto que nós precisávamos, porque Portugal recebe muito bem, nós sabemos disso, e aqui a nossa região também, em termos de vinhos, em termos de gastronomia, nós temos tudo, obviamente, para tornar inesquecível qualquer pessoa que por lá passe.

Falaste agora em gastronomia. E falaste há pouco nas tábuas de queijo, enchidos, as compotas. Vocês têm uma boa interação com esses produtores locais? Porque há realmente coisas muito boas aí. Mas vocês têm uma boa relação com esses produtores e uma interação para vos fornecerem esses produtos?

Sim. Aliás, quando estamos no momento da prova de vinhos e promovemos os nossos vinhos, fazemos sempre questão também de dizer: "Olha, este queijo é de cá, da região, pode encontrá-lo no sítio X, é feito localmente". Ou seja, o queijo, o enchido ou a compota, inclusive dizemos onde a pessoa pode comprar. Temos também disponível no nosso portfólio os cabazes, onde incluímos produtos que fazemos também questão que sejam todos regionais. Come-se muito bem nesta pequena sub-região do país, e nós queremos também deixar essa curiosidade à pessoa para que, no fim da visita, queira experimentar o restaurante X, o restaurante Y, que nós também fazemos questão de promover. Temos os cartõezinhos lá com alguns restaurantes que nos pedem. Enfim, é um trabalho de sinergia. Não conseguiríamos ser bem-sucedidos sozinhos, e por isso, tanto a nível de produtores, há pessoas que vão lá, que não vão especificamente para a nossa quinta, que tiram este dia para fazer uma rota. E obviamente temos que estar todos em sintonia. Todos fazemos muito bem, todos recebemos muito bem e acima de tudo, não é promover só as quintas, mas é promover esta sub-região que é tão particular e única em Portugal.

Exatamente. Já estou com vontade de meter no carro e ir até aí. Finalmente, falaste em indicar aos turistas para ir aos restaurantes, muito bom, esse é o caminho, onde é que se compra o queijo, o enchido, mas os turistas obviamente que também compram vinho. Qual é a influência, digamos assim, no enoturismo, no aumento da venda dos vossos vinhos?

Em termos de faturação, é muito interessante aquilo que nós conseguimos faturar em termos de loja, obviamente, nas nossas quintas. É realmente uma parcela interessante do nosso negócio.

Há muitos turistas hoje, estrangeiros, sobretudo, obviamente, que querem comprar vinho, às vezes uma caixa ou duas, mas que não os vão levar no avião. Vocês fazem o shipping?

Tudo bem combinado, é possível fazer. Não temos ainda esse canal completamente. Os pedidos também, habitualmente a pessoa leva, não são assim tão grandes, mas nós muito facilmente conseguimos fazer o shipping. Hoje em dia a logística está muito facilitada, com uma oferta enorme de transportadores que estão completamente hábeis e que rapidamente se consegue pôr os vinhos na casa dos nossos clientes. Conseguimos, sim, fazer isso. É mais a venda, vou levar agora, provavelmente para consumo ainda nos próximos dias que estarão em Portugal, não sei, ou levarão, mas é muito fácil. Conseguimos, sim, pôr o vinho na casa das pessoas em qualquer parte do mundo.

Aquilo que costumo dizer, venham eles e comprem o vinho.

Venham eles. Exatamente. E já agora fica o convite a todos para visitar as Quintas de Melgaço, provar os nossos Alvarinhos, que são incríveis e toda a nossa oferta, e também, obviamente, as nossas tapas com os produtos locais que temos e que vão ser muito bem recebidos pelos nossos colegas que estão lá ao fim de semana, durante a semana, prontos a receber qualquer pessoa que nos visite. Vão sair de lá muito satisfeitos, ser muito bem recebidos e seguramente instruídos, porque o que nós também tentamos fazer, para além de dar a conhecer os nossos vinhos, é falar um pouquinho da história, do que fazemos ali e sempre com uma vontade enorme de receber toda a gente.

O enoturismo é uma importante alavanca na divulgação natural desta região, das suas paisagens, das suas gentes, da gastronomia regional e, acima de tudo, da excelência dos seus vinhos. Agradeço aos três terem aceitado o convite para estar aqui. Até o próximo episódio.