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Arranca agora o Sem Falta especial Campeonato do Mundo. Contamos com a análise do Pedro Henriques, o audioárbitro da Rádio Observador, ao desempenho dos árbitros no Mundial. Todas as semanas vamos contar com os casos mais emblemáticos, problemáticos e que precisam de alguma explicação, digamos assim, desta prova que junta milhões ao mundo do futebol, sendo que há também muito para falar sobre as mudanças que estão em vigor neste Campeonato do Mundo, no que toca à arbitragem, claro. Pedro Henriques, muito bem-vindo. Como estás?

Boa tarde.

Muito boa tarde. Vamos começar com os destaques deste Campeonato do Mundo, sendo que há ainda apenas dois jogos para analisar, o México-África do Sul e também a Coreia do Sul-República Checa. Contudo, este jogo de abertura, o México-África do Sul, que terminou com vitória mexicana, já dá aqui muito sumo para conversar, sobretudo devido à prestação do árbitro brasileiro, Wilton Sampaio. Pedro Henriques, o que é que há a destacar deste jogo que contou com três expulsões logo na abertura do Campeonato do Mundo?

Boa tarde uma vez mais. Sim, e tem a ver exatamente com essa parte, com a questão das expulsões. Não é normal, não é muito vulgar, mas são os tempos que correm, são os tempos do vídeo-árbitro. Dessas três expulsões, uma delas foi o vídeo-árbitro, as outras duas foi o árbitro em campo e são três decisões corretas, o que nos remete primeiro para um ano, que já vamos falar a seguir, um Campeonato do Mundo um bocadinho especial, porque houve mudanças muito radicais, importantes e impactantes. Normalmente, as mudanças não são assim tão impactantes. As equipas e os jogadores acabam por vir de uma época e que depois quando iniciam esta competição, seja um Campeonato Europeu, um Campeonato do Mundo, Campeonato do Mundo de Clubes, como aconteceu também no ano passado, levam normalmente com essas primeiras alterações. E como são alterações relativamente pequenas, normalmente não há o tal impacto. E eu acho que este ano específico, em concreto este Campeonato do Mundo, vai ter esse impacto. E o vídeo-árbitro também com aquilo que é um pouco o rigor, sobretudo naquilo que são os comportamentos, as condutas. Nós tivemos aqui três expulsões, vamos dizer que duas são de natureza do jogo, parte técnica, ou seja, jogadores que vão isolados, nós chamamos de uma clara oportunidade de gol e que sofrem falta e daí o respectivo cartão vermelho, e tivemos uma expulsão específica que tem a ver com comportamento quando a bola não está lá e tem a ver com, normalmente a gente diz agressão, tecnicamente chamamos conduta violenta. A primeira expulsão da África do Sul é o Yaya Sitole, um jogador que todos nós até conhecemos.

Jogou no Campeonato Português.

Exatamente, um jogador que joga no meio-campo e é do Tondela, e que acaba por fazer aquilo que nós chamamos anular uma clara oportunidade de gol. Basicamente, o jogador do México vai na direção da baliza, vai isolado, isto é, tem a bola controlada, distância curta e mais nenhum jogador defensor, entenda-se da equipe contrária, neste caso a África do Sul, podia intervir em tempo útil no lance. E o Sitole ao derrubar o seu adversário ainda fora da área, a sua equipe é punida com um livre direto e, sendo fora da área, não há aquela chamada lei da dupla penalização, que muitas vezes reduz o cartão vermelho para amarelo. Aqui, sendo fora da área livre direto, não havendo a penalização do pênalti, o jogador é expulso e, portanto, cartão vermelho. E foi bem visto pelo árbitro, era um lance relativamente simples de ver pelo enquadramento e o árbitro aqui esteve bem. Naturalmente que o vídeo-árbitro limitou-se a seguir aquilo que o árbitro fez no campo e a confirmar. Depois o Themba Zwang, eu acho que estou a dizer bem os nomes corretos, também da África do Sul, já foi por uma conduta violenta. E aqui, basicamente, a bola não está a ser disputada. Ele até pode ter sofrido falta, um bloqueio por parte do adversário, sem bola, mas mesmo que tenha sofrido tecnicamente essa infração, ele não pode responder sob o ponto de vista de dar ali um género de um estalo no adversário. E estas condutas violentas que passam despercebidas ao árbitro porque a bola não está lá e que dantes passariam e passavam muito despercebidas porque os árbitros não tinham apoio tecnológico, hoje com o vídeo-árbitro, não faz sentido absolutamente nenhum esse tipo de atitude e comportamento do jogador. É o jogador que se prejudica, que ao ser expulso, fica de fora desse jogo e do próximo jogo, no mínimo, e portanto, num Campeonato do Mundo que tem poucos jogos, os jogadores querem é estar, aparecer e serem opção e prejudicam a seleção porque diz a estatística que quando uma equipa fica reduzida, e neste caso até ficou reduzida a nove, quando uma equipa fica com menos um, muito dificilmente consegue. O máximo que muitas vezes consegue é aguentar o resultado. Agora, dar a volta a um resultado ou passar a ganhar é extremamente complicado. Isto alerta-nos também para todos nós, até porque portugueses temos recente esta questão do Rafael Leão numa situação fora do campo, com o jogo também já interrompido, parado, e depois aquela atitude do Rafael Leão. Nesse caso concreto, salvou-se o facto do adversário também ter sido expulso e, portanto, digamos que não se ficou em inferioridade numérica, mas são situações que os jogadores têm que perceber que não vale a pena, mesmo aquilo que dantes passava despercebido, porque muitas vezes a bola não estava lá. Hoje em dia está lá o vídeo-árbitro e de uma maneira geral vai ver, vai verificar. E portanto, mais uma expulsão por conduta violenta. O árbitro foi ao monitor, confirmou aquilo que foi a opinião do vídeo-árbitro e portanto expulsou. A terceira, já para o México, César Montes, é enquadrada também na primeira do Yaya Sitole. Não é tão clara, não é tão evidente, porque há mais jogadores ali próximos, lateralizados na área, mas tem muito a ver com estas diretivas, que é quando tu entras na área, seja pela esquerda, centro ou direita, e vais na direção da baliza, mesmo que seja na diagonal, e sofres uma infração, normalmente estás perante uma situação de uma clara oportunidade de gol, porque tu já estás na cara do guarda-redes. E aí o árbitro também esteve bem O vídeo-árbitro limitou-se a confirmar. E a única coisa que me deixa um pouco preocupado em relação àquela que é a conduta, e Portugal vai jogar contra uma equipa com este perfil, como é o caso da Colômbia, é que este tipo de jogador ferve em pouca água. Estão habituados nas suas competições internas ao rebuliço, a discutirem com os árbitros, a irem para cima dos árbitros, a pressionarem. E este é o Campeonato do Mundo, não adianta. E os mexicanos parecia que não estavam a perceber que tinham mesmo um jogador que foi expulso, que o vídeo-árbitro confirmou essa mesma expulsão e que tudo o que eles possam fazer só vai contribuir para aumentar a probabilidade de outros jogadores serem advertidos ou expulsos. Ainda por cima num jogo que estavam por cima, estavam a ganhar e que estavam 11 contra nove. Se é para queimar fichas, não é numa situação como estas. De qualquer maneira, estas três expulsões são claras, óbvias, evidentes, foram boas decisões. A única coisa menos boa foi o inglês do árbitro quando tentou explicar ao som do microfone um dos motivos da expulsão e que neste momento já virou vários memes na internet, porque só se percebeu a parte final em que ele disse "red card". Prontos, pelo menos esse acertou.

Pedro, este Campeonato do Mundo traz também muitas novidades no que diz respeito à arbitragem. Ao longo da competição, vamos explicá-las aqui neste "Sem Falta" especial mundial, é a lei traduzida. Hoje vamos focar-nos em duas alterações. Peço-te algum poder de síntese, Pedro, atenção que o tempo corre. Vamos começar com os cinco segundos do pontapé de baliza e também do lançamento lateral. O que é que está aqui em cima da mesa? Que mudança é esta?

Sim, a mudança é bastante importante e radical, porque o objetivo é acelerar o jogo ou pelo menos evitar que se perca tanto tempo. Não é quando a bola sai pela linha de baliza e não é quando a bola sai pela linha lateral que o árbitro inicia a contagem. O árbitro inicia a contagem dos cinco segundos, em ambas as situações, quando percebe que o jogador que vai repor a bola, que vai fazer o pontapé de baliza ou vai executar o lançamento lateral, já tem condições para o fazer. Se o árbitro perceber que ele vai muito devagarinho para a bola, apita e inicia a contagem decrescente, o cinco, quatro, três, dois, um, com toda a gente a ver o braço em movimento, uma escolação de cima para baixo, e o jogador só tem que acelerar. Se entretanto os jogadores já tiverem a bola na mão, aconteceu com o jogo Portugal, Rafael Leão já tinha a bola na mão, de repente aparece o Cancelo, que é quem faz o lançamento, e o Rafael Leão deu a bola, no jogo de preparação, para o Cancelo e o árbitro automaticamente apitou e começou a fazer a contagem. Se porventura ultrapassar os cinco segundos, tanto no pontapé de baliza como no lançamento lateral, o pontapé de baliza transforma-se num pontapé de canto contra a equipa. O lançamento lateral passa para a outra equipa e com isto, se pensarmos, temos 20 situações de pontapé de baliza e temos 30 a 40 de lançamento lateral, percebemos o quanto o jogo aqui vai acelerar e quanto vai ser mais difícil os jogadores perderem tempo com estas situações.

Pedro, outra das mudanças importantes, 10 segundos para substituições.

Sim, esta também é bastante importante, só que com uma nuance. A partir do momento que o árbitro recebe a informação de substituição, ou seja, o quarto árbitro está com a placa levantada no ar e o árbitro normalmente olha para o quarto árbitro e faz aquele gesto de mão a rolar, os dedos a rolar um sobre o outro como substituição, ou apita e dá aquele sinal de pode entrar, por assim dizer, ou seja, autoriza a fazer a substituição, significa que o jogador que vai sair, além de ter que sair pelo sítio mais próximo do terreno de jogo, que já era assim, tem 10 segundos para o fazer. Se não cumprir com isto, e o árbitro uma vez mais faz a contagem decrescente, neste caso 10 segundos, se não cumprir com isto, o jogador sai, imaginemos que foram 12, 13 segundos, sai e o seu colega já não entra e vai ficar lá fora um minuto. Mas depois, passado esse minuto, ele não entra logo, só entra quando a bola sair do terreno de jogo ou o jogo estiver interrompido, o que significa que o jogo até pode estar dois ou três minutos seguidos sem a bola sair e esse jogador não entrar, o que significa que a equipa vai ficar com menos um e isso obviamente que é importante. Só para explicar, para terminar, se houver três ou quatro substituições ao mesmo tempo, que às vezes acontece, numa equipa e na outra, quando é que começam a contar os 10 segundos? Quando o quarto árbitro levantar a placa do último jogador, o que faz algum sentido. Os jogadores que estão a ver a placa, estão a sair, esses até vão ter um pouquinho mais de tempo. O último, quando levantar a última placa desses três, quatro, o que seja, ou dois jogadores, a partir daí o árbitro inicia a contar os 10 segundos.

Pedro, temos ainda tempo para dar uma nota, não são cinco segundos, nem 10, temos um minuto. Qual é que é a nota da semana, sendo que o Campeonato do Mundo começou ainda há pouco tempo?

Sim, tem a ver com o caso do árbitro da Somália, o Omar Abdou Kadir Artan. Toda a gente já sabe o qual é o encontramento. Ele aterrou, os Estados Unidos da América não permitiram que ele fizesse parte da comitiva, recambiou, veio para trás, acabou por ser viral, acabou por se tornar até um herói no seu país. A nota claramente negativa para a FIFA, que tem também as suas responsabilidades, não é como diz o presidente da FIFA: "Ah, mas culpa é que nós temos se houver um país que não permite?" Claro que tem, na perspectiva de que um país como este não pode organizar um jogo de futebol. E depois a resposta que deu a UEFA, e a UEFA nestas oportunidades não perde a oportunidade, o caso do presidente da UEFA, o Ceferin, que diz que o futebol tem o propósito de unir e para dar uma bicada na FIFA, disse: "Então o senhor Omar Artan vai apitar a Supertaça Europeia, a final, que vai ser entre o Paris Saint-Germain e o Aston Villa". Deram o honras a um árbitro que é africano, que nem sequer pertence ao continente, à UEFA, mas que vai arbitrar esse jogo e é uma bofetada com luva branca, porque efetivamente o futebol é para unir e não é à disposição do país do senhor Trump que vai decidir quem é que tem que estar ou não tem que estar. E se é assim, então não podiam estar na organização. O futebol é para unir, não é para dividir. Nota zero para a FIFA e nota claramente 20, quer para o Omar Artan, que está a viver este momento, quer para a resposta que a UEFA deu através do seu presidente, o Ceferin, quando o nomeou para a final da Supertaça.

Muito obrigado, Pedro Henriques. Fica por aqui o "Sem Falta" especial Campeonato do Mundo, todas as semanas com os destaques da arbitragem no Mundial, sendo que há sempre edição quando Portugal jogar neste Campeonato do Mundo. Pedro Henriques, um grande abraço. Até uma próxima.

Um abraço. Até à próxima. Obrigado.