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Está ligado o semáforo político. Verde, amarelo, vermelho, as cores que a Judite França e o Bruno Vieira Amaral vão escolher para avaliar temas e protagonistas da atualidade. Hoje é inevitável o resultado das legislativas em pano de fundo. Judite, queres falar-nos sobre dois vencedores da noite? Quem foram eles?
Chega e Livre. Esses foram clarinhos vencedores. Eu podia falar de Luís Montenegro, mas foi um vencedor à tangente. Ainda assim, para quem no início de novembro era considerado uma espécie de sublíder que podia nem sequer sobreviver às europeias, tudo indica que vai tomar posse como primeiro-ministro, portanto, também ganhou qualquer coisa, mas estava à espera de ganhar mais. E não vou pôr neste lote de grandes vencedores. E vou olhar pro Chega, que há cinco anos tinha um deputado e depois passou pra 12 e agora quadriplicou o número para 48. E isto é um fenômeno em cinco anos. André Ventura ontem disse que acabou o bipartidarismo em Portugal e tem razão, e foi o Chega que acabou com o bipartidarismo em Portugal. Ter mais de um milhão de votos é prova de que não existem dois polos. O Chega passou a ser um player fundamental neste jogo. Veremos é com quem quer jogar. Eu acho que o Chega tem o direito a exigir tudo. Pode é ficar a exigir sozinho. E isso pode acontecer e depois pode ter a tentação de bloquear tudo, que é uma tentação que vem com mais de um milhão de votos e com 48 deputados, e deve dar um eleitorão grande que pode ter essa tentação. E eu acho que se de alguma forma for responsável por bloquear uma legislatura mais ou menos tranquila de uma maioria relativa, eu não sei se será prejudicado ou não será prejudicado numas eleições antecipadas, porque objetivamente são os outros partidos que estão a ignorar um grupo parlamentar com 48 deputados, que vale mais de um milhão de portugueses.
Tem-se falado muito da dramatização que o PSD pode fazer, mas com esta votação, com este número de deputados, o Chega também pode fazer essa dramatização.
Pode, claro. Pode e vai fazer.
Criou-se essa ideia de que os partidos que derrubam governos minoritários são sempre penalizados.
Aconteceu com o PRD e, portanto, pesa várias vezes.
Sim, mas as circunstâncias são totalmente diferentes. E se nós pensarmos, por exemplo, nas eleições de 2019, e depois do governo de António Costa, que caiu também derrubado pelos partidos à esquerda, não há comparação com o peso relativo desses partidos à esquerda, nem com a vitória que o PS tinha tido nessas eleições. Agora estamos a falar de uma vitória do PSD, da AD, que é muito tangencial, e estamos a falar de um peso relativo do Chega muito superior ao que tinham os partidos à esquerda. Portanto, essa dramatização que se diz que o PSD pode fazer, o Chega também pode fazer, dizendo: "Nós queremos participar de um governo, queremos participar de uma solução governativa."
Somos um partido democrático, eleito democraticamente.
E estão nos a empurrar pra fora, estão a fazer esse cerco sanitário. Agora, também acredito que o Luís Montenegro, depois das condições que ele próprio se impôs, tem pouca margem de manobra.
Totalmente, mas que pode ficar imputado com o ônus da ingovernabilidade e com o ônus da instabilidade, isso pode lhe acontecer. E os dedos apontados podem ser de mais de um milhão de portugueses. São muitos dedos apontados a Luís Montenegro se isso acontecer. Deixa-me só passar rapidamente pro Rui Tavares, porque o Rui Tavares disse especificamente que queria formar um grupo parlamentar e conseguiu. E conseguiu exatamente o que queria, até mais do que o Chega, que disse que queria ganhar as eleições e que aliás, diz que esse é o grande objetivo nas próximas eleições. O líder do Livre disse que quer formar um grupo parlamentar e formou.
E também quadriplicou.
E quadriplicou, de um pra quatro. E ficou a par da CDU, uma coisa que também não era pensável há muito pouco tempo. O que significa que o voto útil no PS não funcionou como funcionou em 2022, porque em 2022, acredito piamente, que se não tivesse sido o receio da esquerda numa vitória do PSD com o Chega, o Livre já teria conseguido eleger mais do que um deputado, porque há espaço para uma esquerda ecológica, moderada, europeísta, sensata no Parlamento.
O Livre ganha ao Bloco de Esquerda em Lisboa. Eu ontem dizia, ainda antes de serem conhecidos os resultados, a um amigo que o Livre ia estar a morder os calcanhares do Bloco de Esquerda em Lisboa, mas fez mais do que isso. Passou da perna.
Abocanhou a perna.
Passou da perna.
Sendo que houve uma altura em que o Bloco de Esquerda tentou passar a perna a Rui Tavares no final da campanha Basicamente foi o Bloco de Esquerda que deu gás à ideia de que Rui Tavares era capaz de fazer qualquer tipo de acordo ou de negociação com a direita. Não foi isso que Rui Tavares disse especificamente. E portanto o Bloco de Esquerda tentou pôr essa casca de banana, mas não lhe correu bem, porque o Bloco de Esquerda nunca conseguiu ultrapassar a debacle que aconteceu em 2022 e portanto, manter cinco deputados não foi um bom resultado para o Bloco de Esquerda.
As dito com os vencedores, o Bruno Vieira Amaral com os derrotados. Há derrotados, Bruno?
Sim, já estávamos aqui a falar de um deles, o Bloco de Esquerda claramente derrotado. Por um lado, Mariana Mortágua tinha dito que tinha o objetivo de recuperar deputados em alguns círculos eleitorais importantes, como Aveiro, Braga, Coimbra. Falhou em todos. Só consegue eleger em Setúbal, Lisboa e Porto, aliás, como a CDU. Logo aí há uma derrota, mas também há esta derrota para o Livre em Lisboa, também é significativa, e há esta incapacidade de ir buscar votos que o PS perdeu. Se nós nos lembrarmos das eleições de 2009, depois da primeira maioria absoluta do PS com José Sócrates, em 2009 o PS perdeu cerca de 510 mil votos, até mais do que perdeu agora, e muitos desses votos foram para o Bloco de Esquerda e para o PCP, que é outro grande derrotado da noite. Na altura, o Bloco conseguiu 9,82% e o PCP 7,86%, ou seja, conseguiu ir buscar o voto dos desagradados com a maioria absoluta do PS. Desta vez não conseguiram, não foram buscar esses votos. O PS perde cerca de 486 mil votos e esses votos não foram para a esquerda, ou não foram para a esquerda na proporção que foram anteriormente. O Livre foi, por exemplo, buscar alguns votos.
Mas o Chega também foi de certeza buscar votos.
Essa é outra das questões, também é que o Chega vai buscar muito à abstenção, vai buscar também à direita, mas também entrou no eleitorado do PS, muitos destes votos.
E já tinha entrado no eleitorado do PCP e mais evidente ficou agora com a derrota total no Alentejo.
Sim, e aí está, e daí eu ter escolhido como esses os dois grandes derrotados, PCP e Bloco de Esquerda continuam a pagar a fatura da geringonça. Pagaram logo nas eleições de 2019, pagaram em 2022 com a maioria absoluta do PS.
A geringonça ou o facto de terem chumbado o orçamento que acabou por despoletar as eleições antecipadas em 2022?
Da geringonça, porque logo em 2019 quem beneficia com os bons resultados da geringonça é o PS, não são os dois partidos. Depois ainda piorou, porque o PS teve um governo minoritário, fez essa dramatização, conseguiu a maioria absoluta e agora quando se poderia esperar que uma baixa de votos no PS pudesse beneficiar a esquerda, viu-se que não, é uma grande derrota. O Bloco de Esquerda até aumenta o número de votos e mantém a mesma porcentagem, mas para o PCP confirma-se, ainda não é a morte do PCP, mas é a continuação desta lenta erosão e com esses resultados absolutamente catastróficos no sul do país, nomeadamente em Beja, que era um bastião do PCP e onde perde o deputado que tinha.
"O PCP resiste", foi a mensagem ontem deixada por Paulo Raimundo, secretário-geral do PCP.
É a única coisa que lhe resta, porque de facto não consegue mais do que isso, não consegue representar as pessoas que diz representar, já não se revê nessa força política que é o PCP. De facto, agora só lhe resta resistir e tentar adiar ao máximo a morte eleitoral que será perder a representação no Parlamento.
Muitos desses trabalhadores, digamos, braçais, terão passado para o Chega.
Sim, não tenho dúvidas em relação a isso. Nós nunca podemos falar, sem ter esses dados, de uma transferência direta de votos, mas que territórios historicamente dominados pelo PCP passaram a ter uma grande influência do Chega, isso é inegável.
É um dos derrotados da noite, o PCP, a Coligação Democrática Unitária, na opinião do Bruno Vieira Amaral. Está concluída mais uma edição do Semáforo Político.