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O Semáforo Político está ligado, verde, amarelo ou vermelho, hoje com a Judite França e com o editor adjunto da Sociedade, Pedro Rainho.

Já vamos ao ping-pong de declarações sobre cenários de governabilidade, mas começamos com um semáforo intermitente, porque há uma ameaça das Forças Armadas, Pedro. Ameaçam sair à rua se o governo mexer nos subsídios das forças de segurança e esquecer os militares.

Boa tarde. Eu nem sei se é um sinal intermitente, se é um sinal de alerta de perigo no caminho, daqueles com ponto de exclamação que às vezes encontramos na estrada, porque de facto há uma notícia de hoje do semanário Expresso. Há ali muita coisa que não é novidade, mas há sobretudo esta nota de uma manifesta e clara disponibilidade para ir pra rua, para sair em manifestação, para protestar contra algo que os militares consideram que não está bem. Nós podemos ter nos habituado a ouvir falar sobre manifestações, sobre forças de segurança na rua, sobre bombeiros na rua, sobre uma série de classes profissionais que saem à rua precisamente para se manifestarem, para defenderem os seus direitos. Não estamos habituados, e ainda bem, a ouvir falar em militares a sair à rua. E esse é de facto um sinal de alerta. Há aqui duas reações que podemos ter em função desta informação e desta abertura dos dirigentes das associações que representam estes militares, associações oficiais das Forças Armadas, sargentos e praças, que dizem de forma muito aberta que nenhuma ação está posta de parte, que dizem também que os militares com menos de 40 anos são aqueles que, nas rondas que têm sido feitas por essas associações, estão mais disponíveis para sair à rua e, portanto, são os militares que estão nos quartéis, que estão a desempenhar missões, que estão mais disponíveis para sair à rua. Há até uma expressão: "há malta com garras de fora nos quartéis". E, portanto, como eu dizia, não estamos habituados, e ainda bem, a ouvir este tipo de discursos, e podemos ter duas reações. Uma é questionar-nos sobre o direito legal desta classe, eu não vou chamar de profissional porque é mais do que isso, porque lembra-nos que os militares são um símbolo também da nossa soberania e um garante último da nossa soberania. Portanto, não são uma classe profissional no sentido mais tradicional do termo. Ao ouvir dizer que estão disponíveis para ir à rua, nós podemos questionar-nos sobre o direito que têm em fazê-lo. Eu estive a falar esta tarde com alguns militares, com representantes até destas associações, e para eles é claro que há este direito de saírem no estrito cumprimento da lei.

Os passeios, não é? Os passeios silenciosos.

E também dizem: "Atenção quem esteja com a ideia de que os militares vão fazer aqui qualquer coisa de extraordinário." Não, os militares não vão cair em aventurismo. Não vão fazer aqui nada que não seja no estrito cumprimento da lei. Ainda assim, há posições legais, há pareceres, há um parecer do Conselho Consultivo da PGR de 2011, creio eu, que diz de forma muito clara que os militares não é assim tão taxativo que possam sair à rua. Não é só a questão da farda, não é só a questão da arma, não é só a questão de trazerem símbolos associados às Forças Armadas, é mais do que isso. Há um parecer, como eu dizia, da PGR que diz que quando estão em causa matérias relacionadas com o seu estatuto socioprofissional, o direito à manifestação lhes está vedado. Portanto, isto podia ser uma primeira reação, questionar-nos sobre a possibilidade ou não, de facto, de militares em efetividade de serviço poderem sair à rua, como fazem os polícias, como fazem os médicos, como fazem os bombeiros, etc., e manifestarem-se por um direito, que neste caso é um direito a melhores salários. Podemos pôr nestes termos mais simples, para percebermos todos aquilo que estamos a falar. Isto decorre tudo daquele suplemento de missão que foi atribuído à Polícia Judiciária, que depois deu lugar a uma série de reivindicações. Portanto, essa poderia ser a primeira constatação ou a primeira dúvida. A segunda é precisamente uma constatação que é, não quero parafrasear uma figura da nossa história, mas é o estado a que isto chegou. Nesta notícia do Expresso, havia um oficial das Forças Armadas, já não em efetividade de serviço, que dizia: "Recordem-se que no 25 de Abril foram questões relacionadas com a carreira que fizeram os militares sair à rua, descer de Santarém para Lisboa e imprimir uma grande modesta neste país." Ora, falarmos sobre esta situação nos 50 anos do 25 de Abril com esta naturalidade deve-nos pelo menos fazer pensar como é que deixámos que passasse tanto tempo e que tantas classes profissionais cheguem a esta, profissionais e não profissionais, e os militares, em última análise, que deixássemos que se chegasse a este ponto em que há estas tomadas de posições muito claras, muito frontais em áreas da nossa sociedade que são absolutamente basilares. Isto, quanto mais não seja, deve fazer-nos pensar bem naquilo que estamos a fazer e naquilo que são as prioridades.

E por isso o teu amarelo em jeito de alerta.

Era um sinal de alerta.

É um sinal de perigo do Pedro Rainho e a Judite, depois de uma semana que tem sido marcada por sucessivas declarações de Pedro Nuno Santos, isto a propósito de cenários de governabilidade e sobre o que vai fazer também ou não Luís Montenegro no pós-eleições, tu queres aqui recuar no tempo, porque isso também é muito importante em política.

É, vamos puxar pela memória, porque nós temos olhado para as reviravoltas de Pedro Nuno Santos sobre os tais cenários de governabilidade durante esta semana, e foram muitas. E também já tínhamos falado aqui no Semáforo da questão de José Luís Carneiro, quando foi candidato contra Pedro Nuno Santos nas eleições internas, falou na hipótese de deixar passar um governo minoritário da AD com a expressão concreta, estou a ler: "Não será por mim que o Chega chega ao poder." Não foi assim há tanto tempo, isto foi em novembro. E na altura Pedro Nuno Santos disse, e também passo a citar, porque fui recolher as frases: "O PS não será muleta do PSD. Dois: sou o único garante da autonomia estratégica do PS. Três: José Luís Carneiro não está focado na vitória em março." Ora, com estas três frases, e depois do debate de segunda-feira, e tanto se passou já sobre este debate, que parece que já passaram duas semanas, mas não, foi na segunda-feira, Pedro Nuno Santos anunciou que se perder as eleições e por uma questão de humildade democrática, então não apresenta nenhuma moção de rejeição da AD, nem viabiliza nenhuma moção de rejeição. E isto é contraditório com tudo aquilo que eu acabei de ler, que foi dito em novembro e que, aliás, serviu de arma de arremesso contra o seu oponente dentro do partido. E depois ao longo desta semana desdisse.

Veio o desobrigado.

Basicamente chegamos àquilo que é o princípio original de Pedro Nuno Santos, que é perdendo, mas tendo maioria de esquerda, claro que governa e faz nova geringonça. Não fosse Pedro Nuno Santos, aliás, um grande fã da geringonça. Trabalhou especificamente e diretamente no Parlamento com os dois partidos.

E orgulha-se disso.

Claro que sim. Aliás, toda a gente se lembra do quatro que Pedro Nuno Santos fez com os dedos quando aprovou o quarto orçamento do Estado, que foi um trabalho de filigrana, de certeza, com os partidos de esquerda. Portanto, dizer agora que esta tática serviu para pressionar Luís Montenegro a dizer se seria recíproco ou não, foi apenas tática, porque é muito difícil explicar às pessoas porque é que a posição nos Açores é a oposta. Nos Açores, no PS, está irredutível e a única diferença é que nos Açores é preciso votar um programa de governo. Mas isso é uma pequena diferença de forma, não é mais do que isso. Portanto, o resultado é nunca deixar passar um governo minoritário e repetir 2015. Logo, em que é que quer Pedro Nuno Santos reciprocidade? Se não deixa passar um governo minoritário, Luís Montenegro não tem nada a dizer. Portanto, no meio disto tudo, se isto impacta nas pessoas e nos indecisos? Não, eu acho que não. Eu acho que as pessoas sinceramente gostavam de ouvir falar sobre ideias e sobre propostas para o país e dispensam isto, porque a dada altura é preciso começar a fazer contas de cabeça ou árvores genealógicas. "Se este se juntar àquele com X votos, vai dar isto." Não é isto que as pessoas querem saber. E isto não chega às pessoas. E portanto, eu acho que isto é uma péssima estratégia para uma semana que foi absolutamente perdida do ponto de vista de pré-campanha.

E agora vêm aí duas semanas de campanha eleitoral. Pedro Ramos, estás à espera de um virar de página aqui, de que se comece a falar efetivamente de propostas eleitorais? Temos pouco tempo, mas gostava que falasses.

Sinceramente, não. Se tenho a esperança, tenho. Porque como a Judite dizia, mais do que jogos de tabuleiro, mais do que calculismos de lugares no Parlamento, acho que as pessoas estão de facto interessadas em perceber quais são as propostas, que já estão na sua grande maioria, se não na totalidade, disponíveis para consulta.

Mas as pessoas não vão ler programas, nós sabemos. Portanto, os partidos e os líderes têm que apresentar as suas propostas, aproveitar a campanha e a atenção mediática imensa que têm para fazerem passar essa informação.

E têm uma oportunidade hoje no debate das televisões. Vão estar os oito líderes partidários.

Hoje a oito vai ser difícil passar muita informação, mas se se prenderem com este tipo de... há bocado tu falavas no jogo de tabuleiro.

Sendo que em 2022 este jogo de tabuleiro acabou, eventualmente, por contribuir para a maioria absoluta do Partido Socialista.

Esse foi outro jogo de tabuleiro. Porque esse foi o jogo de tabuleiro que o PS já não tem. Porque o PSD é muito claro, ou Luís Montenegro é muito claro, a dizer que não faz nenhum acordo com o Chega. Esse é o problema de Pedro Nuno Santos. É por isso que ele agora está com este artifício, porque não tem a vantagem que António Costa teve, que foi dizer: "Eu sou o único garante que o Chega não chega ao poder."

O Semáforo Político desliga-se agora por dois dias. Está de volta na segunda-feira, já com a campanha eleitoral em força, mas tendo em conta o debate desta noite, amanhã e o vencedor é nas manhãs de fim de semana, depois das 10h30.