Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Hoje ficamos literalmente parados no semáforo político. Pode acompanhar as escolhas da Judite França e do Bruno Vieira Amaral, não só na rádio, mas também em vídeo, no site do Observador e ainda no Facebook e no YouTube. Judite, o que está a acontecer com a até aqui provedora da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, Ana Jorge, merece pra ti um sinal vermelho.

Sim, porque nós sabemos que a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa tem um problema que não é de agora. E se recuarmos ao ano da pandemia, em 2020, a Santa Casa já na altura apresentou prejuízos. E apesar de ser verdade que as receitas do jogo foram inferiores àquilo que era esperado, exatamente por causa da pandemia, Edmundo Martinho, o anterior provedor, já na altura admitiu uma degradação das contas. Ora, foi também em 2020 que nasceu a Santa Casa Global, de que já todos ouviram falar, que foi criada pra gerir os jogos de apostas no mercado externo. E sabemos também que quando Ana Jorge esteve no Parlamento, em setembro do ano passado, revelou que o negócio da internacionalização no Brasil era um enorme buraco e que havia indícios de irregularidades na Santa Casa Global. E estas suspeitas foram apuradas numa auditoria externa, foram entregues por Ana Jorge à Procuradoria-Geral da República, e Ana Jorge no Parlamento falou de, estou a citar: "rede de negócios confusa no Brasil". Na altura, ainda revelou que a anterior gestão só tinha pedido autorização à tutela pra investir € 5 milhões, mas foram detectadas transferências que ascendiam a 27 milhões. Ana Jorge recebeu a Santa Casa com muitos problemas e denunciou-os. E ainda no final de 2020, a Santa Casa adquiriu uma participação de 55% na sociedade que gere o Hospital da Cruz Vermelha Portuguesa e queria tornar-se acionista único, o que depois acabou por não acontecer. Já para não falar da questão do Montepio, a Santa Casa também entrou no capital da Associação Mutualista, mas ainda houve uma forte pressão, se bem se recordam, pra que investisse no banco. Como se percebe, o dinheiro da Santa Casa serviu e servia pra tudo, e Ana Jorge herdou este estado de coisas. Eu não consigo, e acho que neste momento ninguém consegue avaliar se podia ter feito mais ou não. Sabemos que cortou despesas, reduziu o número de chefias, houve menos financiamento pra o desporto, por exemplo, assim de cabeça. Sabemos também que Ana Jorge tinha um plano, e eu duvido que com este panorama que acabei de descrever, 11 meses fossem suficientes pra produzir efeitos. Isto dito, mudar de provedor, porque tem ligações ao Partido Socialista, por outro provedor, com ligações à Aliança Democrática, que é o que parece que está a acontecer, não só não faz sentido, como é a famosa limpeza que os partidos costumam fazer quando chegam ao poder, e nisso PSD e PS, aparentemente, não são diferentes. O único exemplo que me recordo foi o de Santana Lopes, que António Costa manteve até o final do mandato, mas na Santa Casa eu acho que é o único caso. E a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa não deve ser um lugar de confiança política. A Santa Casa tem que ser bem gerida, seja com que partido for, porque tem um objetivo social muitíssimo importante. No meio disto tudo, a forma como foi exonerada, pra dizer, no mínimo, foi deselegante. O governo, pra além da forma como escreveu aquele despacho, diz que a Ana Jorge não tomou as medidas que se impunham pra inverter rapidamente a situação financeira. Veremos se se consegue reverter de forma tão urgente o que há tantos anos revelou ter problemas orçamentais. E, portanto, estaremos aqui pra ver se de fato era uma questão da Ana Jorge ou se de outra pessoa. Se ao fim de 11 meses o próximo provedor não tiver as contas saneadas, então percebemos que o problema não era da atual provedora e percebemos que antes tinha aquela clássica mudança de cadeiras e é o PSD a fazer exatamente o mesmo que acusou o PS nos últimos anos. Se não é saneamento, lamento, mas parece.

Com esta decisão, é o governo, Bruno, também agora a colocar em si próprio um prazo urgente pra dar provas de que consegue resolver o problema.

Sim, e acho que se precipitou aqui, houve uma precipitação, porque o Hugo Soares bem pode vir dizer que a preocupação e a atenção do governo está com os portugueses, resolver os problemas das pessoas, mas esta mudança tão brusca, dando 11 dias, ou o que é que foi, pra apresentar um relatório, isso de fato não faz muito sentido.

Pra apresentar um plano de reestruturação.

Não faz muito sentido e fragiliza mais até o governo do que propriamente Ana Jorge, que sai do lugar. Mas há este entendimento, que é partilhado por PS e por PSD, pela AD, de que determinados ou muitos cargos, um excesso de cargos, são de confiança política, quando não devem ser. O provedor da Santa Casa é um desses casos.

Até podia ser um gestor.

Aliás, devia ser um gestor, mas há esta prática, esta tradição de se pôr lá alguém de confiança política. Ora, há muitas pessoas que beneficiam da confiança política, mas não têm mais nenhuma qualidade que as recomende para os lugares. Não estou a dizer que é o caso da Ana Jorge, nem de outros, mas se nós pomos o critério da confiança política acima de todos os outros, corre-se o risco depois de ter lá pessoas incompetentes. E ao retirar Ana Jorge neste momento, que é um momento delicado pra instituição, de fato, o governo põe sobre si uma pressão adicional, porque podia perfeitamente-

11 meses, não tem mais do que isso

...podia perfeitamente dar a Ana Jorge margem de manobra, até por aquilo que a Judite estava a dizer, o que a Ana Jorge já tinha feito, a situação também que ela tinha encontrado, e seria também uma proteção, um escudo pra o governo. E então, ao fim desse tempo, ao fim de mais algum tempo, poderia fazer uma avaliação e eventualmente substituir, ou não, a provedora. Assim, coloca sobre si uma pressão adicional, e é de alguma forma injusto para o que nós conhecemos, que foi o trabalho da Ana Jorge na Santa Casa.

Bruno, tu vais aproveitar a boleia da Judite para dar também o semáforo vermelho.

Eu não dou boleia nenhuma, fico paradinha.

Ficam os dois a ver passar os outros. Para falar do ministro da Defesa, Nuno Melo, depois desta ideia de abrir a porta das Forças Armadas a jovens condenados por pequenos delitos.

Sim, Nuno Melo é ministro da Defesa, portanto, todas as suas declarações são lidas à luz do cargo que ocupa, da função que desempenha no governo. Ele não é um técnico de reinserção social, não é ministro da Justiça, portanto, se fala de uma questão que também tem que ver com o recrutamento para as Forças Armadas, é à luz dessa função que as declarações vão ser lidas e não como uma medida de ressocialização de jovens delinquentes. Eu acho que Nuno Melo pode se desculpar, pode tentar enquadrar de outra forma as suas declarações, mas as coisas são o que são. E eu acho sempre muita graça quando alguns responsáveis políticos dizem coisas que dão a oportunidade ao Chega de se apresentar como um partido moderado e sensato. Eu vou ler aqui o que escreveu o Chega no comunicado, que é: "O serviço militar, com as suas exigências, disciplina e valores, não deve ser visto como um mecanismo punitivo ou alternativa ao sistema de justiça juvenil." Eu não diria assim à partida que isto é coisa do Chega, um partido que até há pouco falava de castração química, como quem fala de ir comer uma bola de Berlim na praia. Quando o Chega faz de partido sensato, significa que alguém meteu a pata na poça, e esse alguém foi Nuno Melo. Eu não sei se foi uma tentativa de agradar ao eleitorado que dá muita importância à segurança e aos militares, se foi uma tentativa de agradar àquelas pessoas que em conversa de café dizem que aos bandidos o que lhes fazia bem era ir para a tropa, se houvesse tropa ainda, o serviço militar obrigatório, já ninguém cometia crimes. Mas se não foi isto, eu até recomendo a Nuno Melo que ele vá com fichas de inscrições para as portas das prisões e quando alguém sair, entrega-lhe, porque aparentemente as Forças Armadas serão especialistas ou terão as condições necessárias para reintegrar e ressocializar antigos condenados. É uma visão errada das Forças Armadas e também não é muito correta quanto ao sistema de justiça para os jovens, que Nuno Melo se referiu como escolas de crime. Se isso é verdade, se é isso que acontece, então tem que se alterar. Não é transferir jovens ou abrir-lhes as portas das Forças Armadas que se resolve o problema das instituições não darem resposta ou não conseguirem trabalhar essa ressocialização e reintegração dos jovens. Agora, se começamos a encaminhar estes jovens, abrindo-lhes as portas para as Forças Armadas, o que irão pensar aqueles jovens que têm a vocação e que estão a pensar ingressar no Exército, na Marinha ou na Força Aérea? Se a ideia é criar incentivos para o ingresso nas Forças Armadas, se ao mesmo tempo se diz: "Isto é o sítio ideal para jovens que tiveram problemas com a justiça", então aqueles que têm uma vocação militar, como é que vão olhar para a instituição? Dizem: "As Forças Armadas são para aqueles jovens que tiveram problemas com a justiça, porque isto aqui é disciplina, não é para quem tem uma vocação, é quase como uma última saída para os jovens que não têm outras." Nuno Melo esteve muito mal nestas declarações. Não se pode esquecer nunca que é ministro da Defesa. Já tinha feito declarações similares há uns anos, mas aí não era ministro da Defesa. Agora tudo o que ele diz é interpretado à luz da função que desempenha.

Vermelho para Nuno Melo, ministro da Defesa. Dois vermelhos hoje no semáforo político. Fica desligado durante o feriado, mas estamos de volta na quinta-feira.