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Só há vermelhos hoje no semáforo político. Fica feito o aviso desde já. A Judite França e o Bruno Vieira Amaral são sempre assim.
Não, também não.
Ou não.
Não somos sempre assim.
Temos sido bastante.
Também a atualidade não vos dá outra hipótese.
Não nos dá outra saída.
Hoje temos os casos de assédio, ou alegados casos de assédio, no Centro de Estudos Sociais em Coimbra, e também a sessão com o Lula da Silva no Parlamento no 25 de Abril. Vamos começar por aqui, Judite França, e vermelho para a presença do presidente brasileiro no Parlamento nesse dia específico.
Soubemos que, afinal, Lula da Silva vai estar no Parlamento no 25 de Abril, mas antes das comemorações.
Hora e meia antes.
Há uma sessão com Lula da Silva, que começa às 10 precisamente, que não é a sessão comemorativa, mas em que o presidente do Brasil vai discursar. E eu acho que ainda há tempo para nos perguntarmos: por quê? Qual é a relação de Lula da Silva e o 25 de abril de 1974? Há alguma relação, pergunto. Eu não encontro nenhuma. E eu recordo que logo depois da polêmica ter estalado, porque João Cravinho, o Ministro dos Negócios Estrangeiros, achou que devia anunciar que Lula da Silva ia discursar no Parlamento no 25 de Abril, ultrapassando o fato de governo e Parlamento não serem a mesma coisa, e não ser o governo que decide quem participa numa sessão no Parlamento, essa coisa da separação de poderes. Enfim, é um pormenor, claramente, para o ministro. Mas depois disto, e como o próprio Marcelo já tinha avançado com a ideia antes, mas foi à Marcelo, foi mais ao de leve, o presidente da República veio tentar arranjar uma justificação, como se isso fosse possível, e na altura falou da independência do Brasil e de como o Brasil foi precursor e pioneiro nas fases da descolonização portuguesa, basicamente misturando alhos com bugalhos. Só se engana quem quer, porque começando pelo fato de terem passado 150 anos entre a independência do Brasil e o 25 de Abril e a descolonização, mas já nem falando nisso, que é o mais óbvio, misturar a independência do Brasil com o processo de descolonização e o que isso significou para o fim da ditadura em Portugal, misturar tudo num bolo, só servem para nos fazermos de parvos, que, como sabemos, só os tolos é que é preciso. Como é? Bolos.
Com papas e bolos se enganam os tolos.
Pronto. De fato, não há nenhuma justificação para Lula da Silva estar nas comemorações do 25 de Abril. Aliás, vai ser o primeiro chefe de Estado a fazê-lo. E já agora, muitos chefes de Estado que resultaram efetivamente da descolonização poderiam ter já falado no 25 de Abril. Era interessante, mas não falaram. Portanto, vai falar um chefe de Estado que em nada está relacionado com o processo de democratização de Portugal. Isso, para mim, deixa-me bastante descontente, e por isso o vermelho. Mas só para terminar, isto ficou resolvido à portuguesa, que é assim aquele meio-termo. Mais ou menos.
É fumar, mas não inalar.
É isso, é uma crave na ferradura, o sol na eira e chuva no nabal, porque hoje os provérbios, não sei por que, lembraram. Eu estou aqui com muitos provérbios na cabeça.
Ou a chuva no Nabeiro, como dizia outro dia o primeiro-ministro.
E portanto, chega-se a este belo resultado. Não fala na sessão, mas fala no 25 de Abril, antes da sessão. Que tivesse direito a uma sessão solene no Parlamento, nada contra, mas tem que ser no 25 de Abril? Não tem que ser. Até porque o Lula da Silva vai estar em Portugal entre o dia 28 e o dia 25 de abril, e portanto, em qualquer outro dia faria muito mais sentido. Lá está, o Presidente da República arranjou um problema, porque partiu do Marcelo a primeira indicação de que Lula poderia estar presente na sessão do 25 de abril. O Ministro dos Negócios Estrangeiros veio piorar tudo e o Presidente da República arranjou aqui uma forma de desfazer o nó, sem desmentir o Presidente da República, sem amassar completamente o governo. Ficamos aqui neste meio-termo, que é basicamente uma bela descrição do país.
Já deu para perceber, Bruno Vieira Amaral, que é um bolo que não comes. Rapidamente acendes o teu.
Sim, mas Lula é um dos nossos, por isso é que vai discursar na Assembleia da República. É esta a justificação do governo, que na verdade, para este convite, para esta decisão, não há outra.
E o outro sinal vermelho do dia vai para estes casos de assédio e familiares no governo. Queres falar aqui sobre a fraqueza das instituições?
Pois, mais importante do que falar das pessoas envolvidas em todos estes casos, eu acho que é importante falarmos de um sistema e da fraqueza das instituições que permite que estas coisas aconteçam. Se é que aconteceram mesmo. Eu acho que, em primeiro lugar, e eu acho que também é importante dizer isto, nós devemos resistir à tentação de atacar politicamente pessoas por situações como esta. Eu sei que muitas pessoas à direita, sobretudo, claro, não simpatizam. Eu também não simpatizo muito com as ideias de Boaventura de Sousa Santos, mas acho que os argumentos políticos, as discussões políticas são feitas com argumentos políticos e não com estas situações. E não estou aqui a desvalorizar denúncias, que devem ser investigadas, mas depois também sabemos como estas alegações são muito difíceis de provar, é verdade, mas também são muito difíceis de desmentir Nós podemos dizer que as pessoas também devem evitar situações dúbias, e aqui estende-se também a questão às relações familiares no governo, na administração pública. E aqui é que reside o problema, porque isto não deve depender das pessoas. E eu creio que o que existe é uma falta de uma cultura institucional forte. Em Portugal, as instituições normalmente dobram-se às características, às qualidades e aos defeitos dos indivíduos que temporariamente ocupam determinados cargos. E quando o indivíduo é boa pessoa, é um tipo porreiro, tudo bem, maravilha. Quando é um crápula, a instituição absorve ou costuma absorver essas qualidades. Vimos isso no caso da Igreja, o problema dos abusos sexuais. O maior problema da questão dos abusos sexuais são as suspeitas de falhas institucionais da parte da Igreja que permitiram, para já não falar dos casos em que terá havido um encobrimento ativo dos casos, permitiram esses abusos. E as instituições não podem ficar reféns dos indivíduos que ocupam temporariamente os cargos. E isso acontece muito frequentemente em Portugal, não só na política, não só na sociedade civil, nos clubes, em órgãos de soberania. Confunde-se tudo com as características dos indivíduos que lá estão, e estão lá temporariamente. O que isso faz com que aconteça? Pouco escrutínio. E quando o poder é demasiado e o escrutínio é pouco, normalmente sucedem os abusos.
Judite França, acompanhas o Bruno?
Acho que sobretudo as instituições aqui têm que ser fortes e proteger os mais fracos. E, portanto, qualquer alegação que exista tem que ser investigada, independentemente de estarmos a falar de quem estivermos a falar.
Mesmo que seja um professor estrela.
Mesmo que seja um professor estrela, sim.
E a propósito destas denúncias de assédio na Universidade de Coimbra, vamos contar no direto ao assunto, depois do jornal das 18h, com a presidente da Associação de Bolseiros de Investigação Científica. Para já, só vermelhos no semáforo político. Estamos de volta amanhã.