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Este é um podcast da Rádio Observador. Pode ouvir a rádio também em 98.7, na Grande Lisboa, e 98.4, no Grande Porto.
Boa tarde. Estamos no SubScuta com Mário Ferreira, empresário, grande figura dos cruzeiros fluviais, de uma das maiores empresas de cruzeiros fluviais do mundo. Está aqui no programa da grande entrevista do Observador. Bem-vindo.
Boa tarde, obrigado por terem convidado.
Mário, eu ia começar com uma pergunta. Não sei se sabe, nós estamos a fazer um perfil sobre si e uma das pessoas com quem falámos disse que o Mário é um especialista a explorar oportunidades geradas pela ineficiência do Estado. É mesmo assim ou não?
Você começa com perguntas complexas.
Não, não é assim tão complexa.
Encontrar oportunidades é uma coisa, agora que elas sejam deixadas pelo Estado, isso é estranhíssimo. Não, isso não é verdade. Que gosto de ver e tenho tendencialmente olho para ver onde existem oportunidades, sim, é óbvio, mas isso acho que é uma característica dos empreendedores, é poder ver, muitas das vezes, oportunidades onde os outros veem problemas. Agora, coincidentemente, e provavelmente eu não sei quem é que disse isso, poderá estar a querer referir-se a dois ou três assuntos que possam ter algumas ligações e até sejam publicamente mais conhecidas, sei lá, a questão do Tua, mas a questão do Tua é uma questão privada, embora seja publicamente conhecida, é uma questão privada relacionada com a EDP, que é uma empresa privada agora, não foi, mas agora já é. Não sei, sem falar em concreto dos temas, é difícil, porque não faço a mínima ideia dos assuntos que estou a falar. Agora, ver oportunidades, sim.
Acha que há demasiada burocracia associada aos negócios, nomeadamente aqui no Porto?
Isso é outra pergunta. A burocracia, por muito que se tenha dito ao longo destes anos que desapareceu ou que se atenuou, é óbvio que não. Continua, porque talvez pela base das leis que existem, é permitido a um conjunto de instituições poder, de forma propositada, se assim entender, atrasar um processo. Veja, se tiver que pedir 16 ou 18 pareceres para uma determinada aprovação, estamos a falar em casos concretos, é possível, e dou-lhe um exemplo. Deve ser o campeão em Portugal, acho que não deve haver outro processo deste gênero. Há 22 anos, para licenciar um determinado projeto, chama-se Douro Marina Hotel, na altura foi lançado como PIN 003. Ainda hoje é um PIN, Projeto de Interesse Nacional, que está ativo, e é o 003. Veja lá há quantos anos é que isto vai. Em teoria, até teria um acompanhamento especial por ser um projeto de interesse nacional. Saiu há mais de 10 anos a sua publicação em Diário da República, que estava aprovado, é um projeto aprovado em Diário da República, e continuamos ainda neste momento a não o conseguir implementar. Está quase, mas já está quase há 20 anos.
Por pareceres negativos, não é?
Não, é que vamos lá ver. Se é assim: "Olhe, não queremos que isso aí se faça, pegue lá, está aqui uma indenização e desista desse projeto". O projeto está aprovado. Mas não é o caso. "Não, agora é porque o estudo de impacto ambiental, o primeiro tinha aqui umas incorreções", e até é verdade que tinha. Depois o segundo é por isso, depois o terceiro é por isto, agora estamos no terceiro. Mas depois é porque era a cota de cheia, depois é porque era a cota não sei o quê, depois é porque não podia ter o telhado assim, depois é porque não podia ter o telhado assado. Depois é porque a arquitetura não estava de acordo com as pessoas que lá estavam na altura a apreciar. E veja, os técnicos, estamos a falar de situações concretas, os técnicos que se deviam reger pela lei, não. Dão opiniões próprias, gostam ou não gostam, o que é muito desagradável para os próprios colegas.
Achei que isso é um dos problemas, haver esse achismo. "Eu acho que deve ser assim", entra naquelas pequenas estruturas de poder que conseguem bloquear um determinado destino.
Mas é que há sujeitos especialistas em ter que colocar o seu cunho próprio num determinado projeto. Não sei se é por serem pessoas que, se calhar à base daquilo que falámos há pouco, são mal pagas. Eu penso que algumas até estão relativamente frustradas nos trabalhos que exercem e vê-se isso em muitos casos. Felizmente, não estamos a dizer que são 100%, mas eu diria que mais de metade está na parte do frustrado, porque coitados, querem interferir, querem atrasar e não veem com bons olhos que alguém possa querer comprar um determinado ativo, transformá-lo e realizar dinheiro com ele. Isso incomoda muita gente. Eu dou-lhe um exemplo. Por exemplo, aqui o Hotel Monumental Era um ativo que esteve durante 20 anos fechado, abandonado. A empresa que o tinha veio à crise, era uma empresa espanhola, faliu, deixou aquilo ao banco. Nós compramos, reabilitamos, remodelamos. Foi tanto sucesso que nem conseguimos abrir. No dia da abertura, já estava vendido a um grupo francês que o quis, porque era uma peça única. Mas mesmo assim, nós tivemos críticas de pessoas a dizer: "Por que já vendeu? Então, isto há um jeito. E agora ganhou tanto dinheiro a vendê-lo". Mas essas próprias pessoas que dizem isso e que pensam dessa maneira, nunca lhes passou pela cabeça arriscar o seu próprio dinheiro, ir ao banco, pedir um financiamento, investir e transformar. Por isso, exige-se muita mesquinhez ainda nas secretarias destas instituições.
Mas acha que não tem a ver também com as questões ambientais? Porque um dos pareceres negativos foi precisamente que seria, e é só te ele que falou, uma ameaça à classificação do Alto Douro Vinhateiro.
Não, isso é uma mentira. Isso é uma dessas pessoas que eu cataloguei da forma que eu cataloguei, para não estar sempre a repetir-me, que disse isso sem qualquer tipo de fundamento. Se houvesse uma ameaça, não devia ter sido aprovado, e foi aprovado. E por acaso, temos sido perfeitamente à vontade, porque quando o projeto que existe hoje foi aprovado, não posso fugir daquilo porque é aquilo que está aprovado, nem foi aprovado por mim, foi aprovado por outra pessoa. Nós tínhamos vendido aquela unidade, porque ao fim de tantos anos eu já não queria perder mais tempo com aquilo, e vendi. Entretanto, a pessoa que comprou tinha pago só uma parte e depois entrou em dificuldades econômicas e achou por bem, não tinha capacidade de pagar a diferença, e como aquilo tinha uma reserva de propriedade, veio devolvido. E quando veio devolvido, já veio com esse projeto aprovado. Por isso o projeto que lá está e que foi idealizado não é um projeto nosso, mas é aquele que temos que levar em frente. E obviamente não tinha qualquer problema, nem existe essa questão. Isso são mitos que são criados e colocados junto à opinião pública para que algumas pessoas que não simpatizem com esse projeto, como não se podem fundamentar numa base legal e credível, inventam histórias. E infelizmente, existe um ou dois jornalistas que estão sempre disponíveis para fazer eco desse tipo de notícias porque vende jornais.
Mas relativamente ao Wine Lodge Hotel, outro projeto que também ainda não avançou.
Wine Lodge Hotel é um nome bonito.
É esse o nome, correto?
Não. É o nome do projeto. Isso não é o nome. Já teve vários nomes.
Mas ainda não teve pareceres positivos?
Não, teve pareceres positivos, ainda não teve os pareceres finais. Aqui dentro o projeto é conhecido pelo Hotel da Escarpa, porque está ali na escarpa do Douro. Esse teve uma curiosidade da qual soube esta manhã. O nosso arquiteto mandou as alterações que tinham sido pedidas para uma determinada instituição em julho. E achamos estranho, até pensamos que tinha sido culpa do arquiteto não ter mandado as alterações pedidas, porque nunca mais vinha resposta nenhuma. E na verdade, o que aconteceu foi que a técnica mudou de e-mail. "Os e-mails que mandou em julho para esse e-mail já não dá, porque agora o e-mail é outro". Isto aconteceu em outubro. Para se veja quantos meses se perderam por uma troca de e-mails. A culpa também é do nosso arquiteto, que deveria fazer um follow-up. Mas hoje em dia, se faz um follow-up, depois os técnicos também dizem que estão a ser pressionados. A gente já não sabe o que há de fazer. Se não pergunta é porque não pergunte, se pergunta é porque pressiona.
Mas que caminho é que há dar a isso?
O caminho que há dar a isto é, uma vez mais, uma profissionalização e que as pessoas que estão a trabalhar sejam avaliadas e que tenham que justificar os seus bons ou maus atos e que tenham uma avaliação concreta e credível.
Já falámos destas questões dos gestores. Queria te perguntar um gestor em Portugal que admire particularmente. Comecemos com Portugal.
Olha, eu desde que vim para Portugal, eu vivi muito tempo fora. Eu saí muito cedo, sei que com 16 anos, voltei, estava perto dos 25. Os dois grandes empresários que eu sempre admirei foram o América Mourinho e o Belmiro de Azevedo. Homens bastante diferentes, mas que sempre admirei como empresários em Portugal.
Há pouco estava a falar de América Mourinho e Belmiro de Azevedo. Quais eram as características? O que olhava e o que apreciava? O que tentou trazer para as suas próprias empresas?
No América Mourinho vê-se uma gestão, um homem, como é que diria, eu queria dizer uma gestão mais dura, mas vê-se um homem mais austero, mas também muito humano. Olhava para ele, tinha mais aquele ar de self-made man e que sentia o orgulho naquilo, nos accomplishments que ia tendo e no crescimento que tinha. O Belmiro via-se que era um homem mais estratégico. Pelo menos era a minha visão, não quer dizer que eu não sou nenhum especialista, nem estou aqui a analisar os outros. Para mim, o que eu via é que era um homem que apostava muito na formação dos seus quadros.
E é assim que o Mário se vê austero e ao mesmo tempo humano, ao gerir a sua empresa.
Menos austero, se calhar mais humano e também a querer diversificar bastante da gestão, podendo trazer para dentro do grupo estrangeiros e pessoas que não sejam só portuguesas. Desde o início do crescimento desta empresa, nós apostamos no mercado internacional. E ao apostar no mercado internacional, não depender praticamente nada do mercado nacional, do mercado português como clientela, tivemos a necessidade de procurar uma certa internacionalização da gestão da empresa. E foi essa uma grande aposta que nós fizemos.
Com quem é que faria mais rapidamente o negócio? Com o Elon Musk ou com o Donald Trump?
Essa é uma tricky question. Aleije-me um bocadinho lá, se faz favor. Essa é uma tricky question, porque é muito difícil responder nisso de uma forma objetiva. Eu com o Elon Musk não faria, vou lhe dizer porquê. Porque ele pode parecer um visionário.
Mas não acredita nele.
Eu não acredito em muitas das parvoíces que ele apresenta, porque é muito fácil parecer um visionário com bilhões que se estão a derreter de dinheiro que vem dos outros que estão a investir na bolsa. Se alguém é um visionário e investe as suas próprias poupanças, a sua própria riqueza, para desenvolver determinados produtos ou projetos, eu aí acho que sim, tem todo o mérito. Mas eu acho que ele derrete muito dinheiro em loucuras que não terão o mínimo de viabilidade comercial para quem lá a mete. Em relação ao Trump, eu acho que é até demasiado básico nas cartas ou nas respostas que dá. Sei lá, pouco disciplinado até no ponto de vista político ou pouco ortodoxo da forma em que normalmente os estadistas escrevem ou se referem a determinados projetos, mas ele é definitivamente um businessman. E ele sim, já faliu várias vezes, sabe o que é o negócio, é um homem de negócios, obviamente muito focado no real state, na área imobiliária, nos hotéis e nos golfes, mas é um homem de negócios e eu acho que nos Estados Unidos faria mais facilmente um negócio, sem sombra de dúvidas, com o Trump como homem de negócios, do que faria com o Elon Musk, que é um sonhador. E os sonhadores têm aquela coisa de bom e têm aquela coisa de mau, que sonhando em gastar o dinheiro dos outros é sempre mais fácil.
Mas naquela maneira que ele tem de ser.
Desculpe, eu estou aqui com um bocado de rouquidão.
Ia perguntar se aquela maneira que ele tem de ser e a forma que ele tem de encarar os negócios fariam dele um concorrente perigoso nos cruzeiros fluviais.
Fariam dele um bom concorrente, porque ele tem capacidade de execução. Eu acho que ele tem capacidade, sobre aquilo que eu fui lendo acerca dele e dos amigos que eu tenho, que são amigos dele, que eu tenho uma boa relação com os Estados Unidos. Ele é um doer, é um homem que faz acontecer. Por isso, obviamente, seria um bom concorrente. Agora, eu acho que a concorrência não é uma coisa má, a concorrência é uma coisa boa e quantos mais bons exemplos existirem num determinado negócio, melhor é para esse negócio, para ele poder crescer.
E o Mário vê-se algum dia a fazer uma carreira política também?
Eu não.
Não lhe interessa nada?
Está fora de questão?
Não. Não tenho jeito para isso, sinceramente. É preciso ter uma certa tendência para aquilo.
Mas era isso que eu ia pedir para elaborar um bocadinho. Por que acha que não pode dar um contributo nesse sentido, mas pode dar do ponto de vista da economia?
Ouça, não, porque eu vivo as coisas de uma forma intensa e personalizo muito as coisas. Para mim seria horrível eu estar a tentar fazer algo positivo, por exemplo, para o país, e ver, por determinadas ideologias políticas, até alguém perceber que o que eu estaria a fazer era positivo, mas vir dizer exatamente o contrário para uma televisão, porque a sua ideologia política assim o obrigaria. Isso a mim faz muita impressão na política, ver que as pessoas dizem aquilo que têm a dizer. É a mesma coisa que o Partido Comunista dizer que aquilo que se passa na Coreia do Norte é uma coisa boa. Obviamente que aquelas pessoas que estão a dizer aquilo sabem que não é assim, que não pode ser assim. Ou que o que está a acontecer na Venezuela é uma coisa positiva para aquele povo. É óbvio que em casa com os seus netos, eu não vejo que teriam coragem de dizer isso ao netinho com quase certeza absoluta.
Portanto, também nos últimos quatro anos vimos um Partido Comunista um bocadinho diferente.
Sim.
Um bocadinho mais para consumo familiar.
Não estou a querer dar aqui exemplo, estou a falar de uma forma genérica. Eu não conseguiria viver bem com isso. E digo-lhe, desde logo, eu quando voto, e voto sempre, voto em pessoas. Se eu achar que aquela pessoa que ali está poderá fazer o melhor pelo país naquele contexto, dentro do contexto mundial onde estamos, dentro do contexto Português e que eu acredite, posso vir depois a arrepender, mas que eu acredite, eu não tenho problema nenhum ou votar no Partido Socialista ou votar no PSD. Eu quando voto, voto em pessoas, não sou daqueles seguidores de partidos e acho que as pessoas devem seguir aquilo que acham que é melhor para a gestão do seu país. Mas isto é uma forma de ver isto num período de gestão.
Mas quem é que acha que é a melhor pessoa, António Costa ou Rui Rio?
É uma pergunta difícil, porque eu sou amigo do Rui Rio e também simpatizo, não sou amigo pessoal do primeiro-ministro, mas gosto muito dele como pessoa, já do tempo da Câmara Municipal, quando ele estava na Câmara Municipal, porque também acho que é uma pessoa muito eficiente. Não é daqueles que quando tem uma reunião com eles, "ah, não, é tudo fácil, é tudo possível e não sei o quê", depois nada acontece. Mas a primeira experiência que eu tive com o António Costa foi na Câmara de Lisboa e o que ele disse que poderia ser feito, foi feito. Na altura, nós precisávamos de colocar um cais no Tejo e aconteceu exatamente e nos timings conforme ele disse. Por isso eu valorizo muito esse tipo de pessoas. Com o doutor Rui Rio, tive uma experiência com ele aqui na Câmara do Porto, conheci-o. Ficamos amigos. Acho os dois muito bons gestores. E a piada, não sei se isso terá muita piada ou não, vai para o ar, mas olha, é o que é. Acho que os dois se complementariam muito bem no governo.
Mui.
Porque eu acho-
Há muita gente a falar nisso neste momento.
Não, mas eu vou lhe dizer. Eu acho que o António Costa faria muita falta a um modelo de gestão do Rui Rio para as partes que o doutor Rui Rio acho que não tenha, como eu acho que o doutor Rui Rio faria muito bem a um governo de António Costa.
Está a falar de uma coisa especial.
Estamos a falar numa coisa espacial.
Em vez da geringonça, um bloco central.
Eu, pessoalmente, mas pouco interessa aquilo que eu penso, penso para mim, posso pensar e ninguém me pode proibir de pensar. Acho que Portugal só teria a ganhar com o António Costa forte e com o apoio do Rui Rio. Ganharíamos todos com isso.
Deixe-me cortar para intervalo, nós temos que avançar para o noticiário e voltamos para a segunda parte do "Sob Escuta" com o empresário Mário Ferreira. Regressamos para a segunda parte do "Sob Escuta" com o empresário Mário Ferreira, futuro também patrão dos media.
Vê lá.
Exato. Eu ia lhe perguntar, a questão é: você lê de manhã?
Olha, os alertas que eu recebo de manhã, obviamente, são três e normalmente seguidos. É o Eco, a Economia Online, é o Observador e é o Jornal de Negócios. São os três alertas que eu tenho e normalmente vejo, porque tenho aquelas cinco coisas para começar o dia em termos económicos. No Observador, vamos vendo os alertas, depois vejo se há alguma coisa que me interessa, abro, depois vejo os principais, mas são esses três. Em Portugal ou no estrangeiro, são normalmente esses três.
E lê o Correio da Manhã?
Não, só leio o Correio da Manhã se alguma coisa muito extravagante aparecer, mas aí é se aparecer nas notícias da televisão e que chama a atenção naquilo quando se vê as capas dos jornais.
E em termos de televisão, vê o quê?
Em termos de televisão, normalmente, via sempre e estava sempre conectado à SIC Notícias, mas aqui há uns meses atrás mudei para a TVI 24.
Alguma razão?
Para variar um bocadinho.
Enfim, já foi anunciado que vai avançar com o negócio da compra da TVI.
Não fui eu que anunciei. Alguém decidiu anunciar.
Como é que surgiu esse negócio?
Eu não posso falar desse negócio, porque não existe nenhum negócio. Alguém disse que eu teria interesse em participar num determinado aumento de capital. Pronto, eu estou à espera, eu não posso comentar isso. Eu li nos jornais a mesma coisa que você leu.
Mas recebeu um convite por parte da Cofina?
Não pode falar sobre isso?
Pode nos pelo menos dizer, por exemplo, como é que conheceu o Paulo Fernandes?
Isso não tem nada a ver uma coisa com a outra. Eu e o Paulo Fernandes somos amigos da casa.
Da casa?
Caçamos juntos, fazemos esqui juntos, fazemos férias com a família, é uma coisa diferente. As pessoas é que misturaram tudo e os anúncios que saíram no jornal, o fato de eu não negar ou confirmar, criou aí um falatório. Agora, investimentos nos media, eu tenho, sou acionista do Eco, isso é conhecido. Se gostaria de investir no aumento de capital da Cofina? Provavelmente sim, mas isso em seu tempo. As coisas deverão ser anunciadas com o caráter formal que é requerido pela CVM.
Deixe-me perguntar em termos mais genéricos. O que pensa do panorama da imprensa em Portugal? O que é que lhe agrada mais, o que lhe agrada menos? Há pouco falávamos deste fenômeno das fake news e informação que é difícil de chamar.
Acho que a imprensa em Portugal está a sofrer uma transição como no resto do mundo, que é a questão do papel estar a desaparecer. É uma pena, mas é o que é. Mas títulos como o DN, que eram importantíssimos, praticamente desaparecer. O JN, que é um jornal importante para o país e para o norte de Portugal, com uma história fabulosa, também está a passar pelas ruas da amargura e terá que, obviamente, se reinventar mais numa base digital. Nesta fase de transição, o mix de poder estar ligado à parte digital é fundamental, mas para isso é preciso fazer grandes investimentos e a transformação é grande. Em relação aos media em geral, televisão e tudo mais, acho que o mercado é relativamente pequeno e que se puderem existir sinergias entre diversos grupos, mantendo a sua autenticidade e obviamente a sua base editorial e o seu estilo próprio, acho que isso só pode trazer vantagens no futuro.
Mas é atrativo? Ou seja, há dinheiro a fazer no negócio dos media em Portugal?
Se algum dia fizer investimentos à séria nos media, é para ganhar dinheiro, não é para perder dinheiro. Não tenho outras aspirações, só mesmo se não for um negócio. Mas eu acho que obviamente existe negócio nos media em Portugal e a visão que eu para isso tenho, tem muito a ver com aquilo que é um problema europeu. Vamos deixar de falar sobre Portugal, é uma questão europeia. Eu posso vir a investir em Portugal, posso vir a investir na Inglaterra, provavelmente, quem sabe, ou até na Alemanha, nos media ou em setores em que o envelhecimento europeu possa trazer grandes vantagens. Porque aquilo que eu acredito, pessoalmente, é que no futuro é provável que a Europa esteja a envelhecer e Portugal em particular. As pessoas vão ter mais tempo. Provavelmente, não estando a falar agora do Elon Musk, mas a robótica e a inteligência artificial vai facilitar a vida das pessoas, que vão acabar por trabalhar menos. Eu lembro-me o meu pai trabalhava aos sábados, trabalhava seis dias por semana. Nós agora trabalhamos normalmente cinco. No futuro, vamos trabalhar três ou quatro dias, porque a robótica e a inteligência artificial vão permitir que a qualidade de vida seja melhor nesse aspecto do trabalho e que exista mais tempo livre. Existindo mais tempo livre, mais pessoas idosas, o que é que faz falta? São conteúdos. E o consumo de conteúdos, sejam eles noticiosos ou sejam eles de lazer, sejam eles reality shows ou o que sejam, telenovelas, vão ter uma importância muito grande no futuro. Isso é aquilo que eu vejo como negócio e é por isso que eu acho que este é um setor que será importante investir no futuro.
E a linha vermelha a fazer dinheiro, há pouco me falava do Belmiro de Azevedo e da Sonae. A Sonae investiu durante anos num jornal, um grande título em Portugal que é o Público, e ainda não há notícia que alguma vez tenha recuperado o que quer que seja desse investimento. Mas criou-se um jornal que foi importante para a consolidação da democracia em Portugal também.
Sim, para mim é muito difícil falar sobre o Público, porque neste momento a relação que nós temos com o público não é das melhores. Agora, isso não impede que eu, de uma forma isenta, possa dizer e concordar consigo naquilo que disse, que foi um jornal importantíssimo e um jornal de uma credibilidade brutal e um jornal sempre muito virado para acompanhar as questões culturais e políticas.
Mas nunca viu dinheiro, nem ao Belmiro de Azevedo, nem a Paulo Azevedo, nem a Cláudia Azevedo.
Pois, mas isso aí eles lá saberão por que quiseram investir. Eu, pessoalmente, nunca na minha vida iria manter um título. Ouvi falar em prejuízos de 100 milhões de euros acumulados, nunca na vida. Para já, não tinha esse dinheiro, na altura, para o poder perder, mas também nunca faria isso. Eu para investir nesse setor, se investir, é para poder ser um negócio sustentável. Não acredito em estar a tirar dinheiro de outros negócios para sustentar uma coisa que não tem viabilidade.
Mas tem já algumas ideias para este negócio?
Não tenho nenhuma, porque não existe negócio nenhum. Pelo menos em geral.
Em geral. Mas disse recentemente que gostava de fazer coisas divertidas, não sei se foi esta a expressão.
Coisas que o divertissem, diria.
Não, isso foi alguém que colocou essa expressão, não foi assim que eu disse.
Mas teria intenções de se tornar um magnata dos media ou não é essa a intenção?
Eu não lhe posso dizer aquilo que quer ouvir, nem tenho esse tipo de intenções.
O que o Mário queria ser quando era pequeno?
Olha, era entre duas coisas, era piloto de aviões ou engenheiro civil, construir coisas.
Num porta-aviões americano esteve. Nós vimos ali.
Estive várias vezes.
Tivemos ali à porta a certificação como esteve no USS George W. Bush. Mas como é que depois evoluiu para a carreira que tem hoje?
Olha, a história é conhecida e não é assim muito complexa. Eu comecei nas férias da escola a ir para a Inglaterra para os summer camps, no verão, e de repente gostei. Achei que Portugal é uma coisa assim um bocado estranha com aquela idade achar isso, especialmente quando olho agora para os meus filhos, ficava traumatizado se eles me fizessem a mesma coisa.
Não deixaria que eles fossem.
O meu pai também não deixou. Foi contra a vontade dele, coitado Mas com 16 anos eu achei que Portugal era um bocado atrasado, e era. Achei que a Inglaterra era o futuro e que poderia evoluir lá muito mais rápido, e decidi aos 16 anos. Na altura, havia uma coisa que você se calhar nem sabe o que é, que era a emancipação. Eu já tinha no passaporte a possibilidade de poder viajar sozinho a partir dos 16 anos e a partir daí eu já comecei a viver sozinho, ia trabalhar em Inglaterra e aos 20 anos tive a oportunidade de poder fazer aquilo que eu queria, que era ir ver o mundo de barco. Sempre tive esse sonho.
Que pessoas é que conheceu nessa altura?
Conhecemos todo tipo de pessoas, embora sempre muito filtradas, porque na altura o turismo de cruzeiros não era o que é hoje. Para lhe dar uma ideia, você hoje pode comprar o cruzeiro à volta do mundo por menos de 30 mil €, 20 e tal mil €. Na altura custava 200 e tal mil €. Se fizer a relação, custava 10 vezes mais. Não existiam estes mega navios que existem hoje. E o tipo de navio e de serviço que era dado na altura, hoje eu acho que já não encontra em lado nenhum. Era uma coisa que estava para além das estrelas. Quando você hoje fala num serviço cinco estrelas, isso era derrotador para aquele tipo de serviço. Aquilo chamava-se White Glove Service. Hoje as pessoas até se sentem intimidadas com esse tipo de serviço. Era verdadeiramente White Glove Service, era um serviço de luva branca, traduzido para português, embora a expressão não queira dizer a mesma coisa traduzida à letra. O talher era em prata, os copos eram em cristal.
As pessoas vinham de smoking para o jantar.
Exatamente. Imagine, num cruzeiro de 15 dias, seriam pelo menos quatro black tie. Quatro ou mais. Tinha uma coisa que era o high tea e o viennese tea, em que faziam black tie com uma orquestra a tocar para um chá das 17h.
Acho que você ouvida durante cinco anos no VistaFjord, não é?
Não o intimidava esse ambiente?
Não, eu achei aquilo o máximo.
Alguma vez pensou investir no futebol em Portugal?
Ui!
Se investisse, investia no Leça?
Não. Nem futebol, nem política. Veja, só falta a terceira. Quando se está à mesa, não se discute nem futebol, nem política, nem religião. Mas não.
Religião nós não vamos perguntar.
Vamos lá ver, futebol eu acho, e está provado, que é obviamente um excelente negócio, porque se não fosse com esses passes que por aí se veem e estrangeiros a investirem em clubes portugueses e na Inglaterra. Eu gosto de investir em negócios que perceba o racional económico daquilo.
Como é que é a sua relação com a classe política? Porque nós vemos nas inaugurações dos seus barcos, faz sempre questão de ter, por exemplo, num dos últimos, o primeiro-ministro António Costa, depois também já teve o próprio Rui Rio, quando era aqui autarca do Porto.
No outro governo também.
E como é que era a sua relação com a classe política em geral?
A minha relação acho que é boa. No caso dos navios, o caso do World Explorer foi o primeiro navio de passageiros construído em Portugal. E acho que foi muito simbólico poder ter um evento onde não estava só a classe política, e não era só o governo, estava o primeiro-ministro, estava o ministro da Economia, mas também estava o doutor Rui Rio, também estavam os autarcas locais, também estava o presidente da Câmara de Viana. O importante, e acho que foi um ponto muito marcante, foi poder criar um evento daquela envergadura em Viana, no estaleiro, e o estaleiro poder mostrar-se ao mundo e poder mostrar que para um estaleiro que foi considerado moribundo e arrumado, que consegue construir um navio com aquela tecnologia e com aquela sofisticação. Acho que foi importante para todos. E o poder ter estado o primeiro-ministro num evento destes, acho que só deu grandeza e nobreza ao evento. Não há qualquer outra relação, não existiram qualquer tipo de subsídios do Estado à construção do navio. O navio foi feito com capitais próprios, por isso, até a banca que lá estava presente, os presidentes dos bancos que lá estavam presentes, foram também importantes para o futuro crescimento de outros navios que se venham a construir lá no estaleiro.
Mas acha que isso pode ser visto como uma forma, de certa maneira, pelos mais críticos, uma influência que o Mário possa ter nas decisões dos políticos?
Acabei de lhe dar a resposta. Se não há qualquer tipo de interesse direto que aquilo dá, é uma importância à cerimônia, não deixa de ser uma cerimônia, uma cerimônia onde está um bispo a abençoar uma determinada embarcação e que nós quedamos como uma afirmação nacional e internacional do evento. Eu acho que é uma honra poder ter um chefe de Estado, seja o primeiro-ministro, seja o presidente da República, numa situação destas, porque também Para eles, acho que lhes fizeram muita honra em poder estar no Mazout. Se vão a uma inauguração de uma fábrica ou de uma estrada qualquer, por que não hão de estar num evento que foi marcante, e devo lhe dizer que este evento foi determinante para a manutenção do know-how da construção naval em Portugal. Eu acho que um país que se quer afirmar no mar, marítimo cada vez mais, só pode dar valor a situações do gênero.
As várias pessoas com quem nós falamos dizem que o Mário Ferreira tem um estilo particular, mais duro, à americana, usaram esta expressão, e que não gosta que lhe façam frente. Concorda com esta expressão?
Vamos lá ver. Não. Um estilo mais duro à americana não é bem assim. Um estilo anglo-saxónico de gestão mais à americana, sim, isso é verdade. Isso é perfeitamente verdade. Mas isso quer dizer um estilo mais aberto e que quando acho que tenho razão, não tenho problema nenhum em confrontar essa razão. Agora, não, nós temos discussões bastante saudáveis com pessoas que dizem que não ou que não estão de acordo, é para isso que lhes pago, é para poderem ter ideias e para poder inovar. Agora, não tenho que estar sempre de acordo ou também não têm que estar sempre de acordo comigo. E aí, sim, discutimos acesamente, de uma forma controlada, diversas questões. Anteontem, eu estive segunda e terça-feira no escritório da Alemanha. E posso lhe dizer que num determinado momento, no segundo dia, tivemos uma discussão muito acesa e que eu tive que dizer: "Olhe, não me interessa o que o senhor quer ou que não quer", e estamos a falar o CEO é alemão, e sabe que os alemães são muito direitinhos. "Olha, não me interessa o que o senhor quer, eu quero desta maneira e pronto". E assim acabou a discussão. Pode ser dessa forma, mas aí quando chega a altura de ser o patrão, eu não tenho medo de ser o patrão. E isso faz a diferença.
Mas a sua relação com os autarcas e com as entidades locais teve problemas, teve conflitos sérios?
Os autarcas, nenhum. Tenho uma boa relação.
Então, mas isto tem um registo diferente, um é um empresário e o outro são pessoas que vêm mais do espectro político.
Nos autarcas, o que se nota é que a nova geração de autarcas é totalmente diferente. Eu ainda conheci quando vim para cá, era miúdo, tinha 20 e tal anos, e é preciso falar muito com os autarcas porque a infraestrutura era inexistente no Douro. E eu conheci muitos daqueles que eram considerados os dinossauros das autarquias. Boa gente, coitados, mas uma formação muito básica, não falavam línguas, tentavam alguns deles até representar o Douro nos primórdios daquilo de falar do turismo no Douro, no estrangeiro, mas tinham muita dificuldade porque não falavam línguas estrangeiras, mas era diferente. Hoje em dia, os autarcas são bem formados, estamos a falar de gente capaz, e os meios dos dias de hoje também são totalmente diferentes daqueles que eram no passado, mas respondendo-lhe muito concretamente, nunca tive assim nada de especial.
Mário Ferreira, muito obrigado pela entrevista e pela sua escuta e voltamos na próxima semana. Muito obrigado.
Obrigado.
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