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Quando falo, descubro mais sobre mí e quando escuto, compreendo mais os outros. Mas quer abra a boca ou preste atenção, tenho cada vez mais a certeza que somos todos malucos. Olá a todos, sejam bem-vindos a mais uma semana de Somos Todos Malucos, o vosso podcast dedicado à saúde mental e autoconhecimento. Todas as quartas-feiras um convidado aqui para abordar os mais diversos temas e às segundas-feiras os intermédios, pequenos episódios de reflexão minha, geralmente sobre a atualidade. Spotify, iTunes, Castbox, todas as plataformas de áudio. É um podcast observador, também está no site. YouTube, ao meio-dia, na quarta-feira, sai sempre o vídeo para vocês que gostam de associar caras a vozes. Referir ainda, não se esqueçam que eu continuo com o meu espetáculo, o "Volto Já". Todas as datas estão em antonioraminhos.pt. É um espetáculo que vai, pelo menos, diria eu, até o início do ano que vem, tem lá as datas que já foram feitas e as que vão surgindo. Vão sempre procurando, porque pode chegar uma data muito perto aí de vossa casa. Ora bem, o tema de hoje. A Joana Ramos criou o seu negócio aos 25 anos e vocês ouvem isto e até pensam: "Ah, ok, deve ser influencer e deve ser cosmética o que ela faz". É quase, quase cosmética. A Joana abriu uma funerária na casa da avó, após a avó partir. E o curioso é que gosta tanto da casa da avó que também vive lá. Para quem viu, é uma espécie de "sete palmos de terra". Na realidade, o que a Joana quer é mudar a perspectiva que nós temos da morte e deste adeus. Eu conheci a Joana no programa "2 às 10", na Cristina, não foi?
Exatamente.
Eu fui lá a propósito do meu espetáculo, do "Volto Já", que também está de certa maneira relacionado com este tema, porque o meu espetáculo é sobre o medo de morrer. Tu entraste antes de mim e eu ouvi a tua conversa e eu pensei: "Faz muito sentido levar esta miúda ao podcast". E ainda bem que vieste, muito obrigado por estares aqui.
Obrigada pelo convite.
Ora, Joana, primeiro que tudo, por quê? Como é que uma miúda de 25 anos tem uma funerária? Por que é que surge esta ideia de abrir uma funerária e sem sequer tradição, porque eu tenho a ideia que os negócios de funerária vêm de família, geralmente.
Sim, a maioria.
Como é que é possível? O que é que te deu?
Ok, desde já obrigada pelo convite, António. É uma honra estar aqui e poder ter abertura para falar destes temas tão relevantes. Respondendo à tua questão, por acaso, curiosamente, outro dia uma colega minha de secundário, que andou comigo no colégio, mandou uma mensagem a parabenizar o meu percurso, e eu já nem me lembrava disto, a realidade é essa, e ela disse-me: "Joana, não sei se te lembras, mas tu já no secundário falavas em abrir uma agência funerária. Parabéns por isso".
Não me digas que era um sonho de criança.
Não era de criança, mas já veio um bocadinho antes, até da partida da minha avó. Mas a partida da minha avó realmente intensificou a minha vontade de entrar no mercado. E por quê? A minha avó, tal como todas as avós e qualquer pessoa-
Avó da parte do pai ou da mãe?
Mãe. Avó materna, pessoa que me criou, educou, e daí também podemos relacionar com o facto de ser lá, vamos lá chegar. Mas a partida da minha avó, inevitavelmente, fez com que eu pensasse na morte e nas despedidas de outra forma, de outro prisma, porque foi uma morte muito pessoal. A minha avó educou-me, como já disse, e a minha avó foi uma figura tão importante para todos, para a freguesia, para tantos, não só para mim, mas para tantos. E eu senti que no momento, que é um momento que não se repete, no momento da despedida, o momento não contou o legado dela, não contou a história dela.
Ok.
E isso fez-me ver as coisas de outra forma. Não foi imediato, mas comecei lentamente a pensar nisso, a pensar: "Ok, eu tenho um propósito, tenho energia, vamos juntar as coisas e vamos abrir uma agência funerária". Não foi de imediato que abri, eu atualmente tenho 25 anos, abri a minha agência há cerca de um ano, mas o planeamento já vem desde mais ou menos meados de 2022. E foi então começando a estudar o mercado. Sei também que há muita gente curiosa sobre isto, eu recebo muitas mensagens e isso é bom, quer dizer que há curiosidade. "Joana, como é que começaste? Que curso é que tiraste?" E realmente foi ali praticamente um ano e meio a estudar o mercado, ou seja, a ir a cerimónias, conhecer, internet, mesmo no terreno, falar com pessoas mais antigas. E sabes quando trabalhas com propósito, que é: "O mercado está assim e eu tenho a ideia e o propósito certo".
Mas eu acho curioso. Tu sabes de onde é que vem essa vontade de abrir uma funerária? Se a tua colega disse-te isso, que idade é que tu tinhas?
Na altura, 18 ou 19. 12º.
Portanto, ainda foi antes da tua avó partir. Tu tens ideia de por que é que tinhas esse gosto da funerária ou não?
Não, por acaso, não. Eu acho que nessa altura, eu tirei Gestão de Empresas, sempre soube que queria ter um negócio, isso era certo.
Sim.
Mas por que eu cheguei ao mercado funerário? Nessa altura, sinceramente, não tinha assim nada relacionado. Eu lembro-me na altura de dizer que também queria abrir um ginásio.
É parecido. Às vezes um cara sai morto do ginásio.
Exato. Podia cansá-los lá e depois logo faço as vendas.
Tu estiveste nos últimos momentos da tua avó, ou não?
Sim, completamente.
Tua avó morreu em casa ou morreu-
Não, no hospital
...no hospital. Foi uma coisa esperada?
Aliás, até posso responder, permites responder de outra forma a isso. Volto atrás dizendo: se a minha avó faleceu em casa, para mim, sim, porque era domingo de Páscoa, dia 25 de abril de 2022, domingo de Páscoa, e a minha mãe ia buscá-la para almoçarmos todos juntos.
Ok.
E encontrou-a deitada no chão. E para mim, quando soube, foi ali. A minha avó ainda passou uma semana na-
Um AVC?
Sim, um traumatismo craniano.
Sim.
Mas nunca se soube o porquê. Caiu e teve um traumatismo craniano ou teve um traumatismo e caiu? Percebes? Ou seja, foi pro hospital, esteve lá uma semana, não recuperou, não era possível operar, o sangue já estava completamente disperso pelo hemisfério. Não dava, esteve lá uma semana, fez anos no hospital, portanto a minha avó nasceu a 19 e faleceu a 25.
E essa ideia, o meu pai teve uma situação também. O meu pai morreu com 84, talvez, mas o meu pai teve um AVC. O meu pai era muito autónomo, vivia sozinho, mas teve o AVC de manhã e só o encontrámos à noite. Então também já não deu para fazer grande coisa. Esteve ainda cerca de dois anos acamado, completamente dependente. Às vezes, quando o processo é mais curto, acaba por ser melhor pra todos.
Sim. Ou seja, há várias perspetivas. Nós nunca estamos, mas há muito essa ideia de que: "Ah, foi rápido, não foi doloroso", mas mesmo rápido magoa na mesma. Ou seja, nem tive tempo para me despedir.
E mesmo quando estás à espera, mesmo que seja uma coisa que estás à espera, a pessoa sabe que vai ter aquele fim.
Mas quando chega o momento, efetivamente, nós nunca estamos prontos.
Porque é que escolheste montar um negócio na casa da tua avó?
É muito por isso. Ou seja, eu estar naquela casa, tudo é memória, tudo é infância. Eu posso dizer que nasci e cresci naquela casa, sempre, educada pelos meus avós, juntamente com a minha irmã. E eu estar ali, as coisas ainda fazem mais sentido, entendes o que te digo? Ou seja, este propósito que falei há bocadinho, realmente existe na prática. Acho que juntei tudo, sinceramente, percebes?
Achas que isso tem um significado pra ela também?
Sim. Eu penso na minha avó todos os dias e tenho a certeza que ela está ainda mais orgulhosa do que eu, verdadeiramente orgulhosa. Ela vê tudo, tenho a certeza. Porque eu sinto-a. Lá está, aquele espaço tem tanta conexão, cada canto daquela casa traz-me uma memória. Sabes quando tu vais a determinado sítio e: "Já vivi ali, já comi ali uns gelados". Cada espaço remete pra uma memória antiga, aquela casa é igual pra mim.
E essa casa tu herdaste da tua avó?
Não herdei diretamente, a minha mãe herdou e eu estou praticamente a utilizá-la.
Ok. Eu não conheço, mas suponho que tu tens o negócio na parte de baixo e vives na parte de cima.
Exatamente, aquilo é uma moradia. Rés-do-chão e primeiro andar, mais de 120 m², uma área muito ampla. Na parte de baixo, consegui fazer lá a agência funerária, bastante completa, quase podemos considerar um centro funerário, e na parte de cima, tenho lá a casa.
Agora explica uma coisa: como é que tu explicaste os teus pais? Tu vivias com os teus pais?
Sim.
Tens irmãos?
Tenho.
Quantos?
Uma, a Francisca.
Como é que eles reagiram quando tu disseste: "Olha, estou a pensar abrir uma funerária e na casa da minha avó".
Exatamente isso. Naturalmente, não se riram assim dessa forma, mas o riso deu azo aqui a alguma indignação, e de certeza que é isso, porque aos 22, ainda por cima esta geração é: "Oi, queremos uma coisa".
"Olha lá esta agora com coisas".
Exato, é mais ou menos isso, mas isso mudou muito. E depois vamos chegar aí. Ou seja, aos 22: "Ah, ya, quero abrir uma agência funerária. Pronto, e amanhã quero ser dentista, e depois quero abrir um teatro". E juntamos tudo. Mas ao início, aquilo que gerou muita indignação, não só por parte de familiares e alguns amigos próximos.
"Você está maluca, tu és maluca, deixa-te de ideias", aquele clássico.
"Olha, vamos pensar aqui noutro negócio. Olha, eu conheço nada de empreendedor, nunca pensei nisso pra mim, vou pensar pra ti. Vamos ver aqui outro negócio". Porque imagina, a questão é: por que as pessoas diziam isto? E eu percebo.
Porque é a imagem que tu tens da morte, não é?
É. Ui, depois há aquelas pessoas que entendem que uma pessoa, por lidar com a morte, parece que traz a morte, carrega a morte às costas, traz ela pra casa. "Ui, vais tomar café comigo, tiras-me um ano de vida".
Pois é, verdade.
Aquelas pessoas que: "Ui, coveiro, agente funerário", porque agora é agente funerário, mas durante décadas nós éramos vistos de uma forma ainda pior. Graças a Deus, já evoluiu a forma como somos percepcionados na sociedade, mas era o coveiro, era o gato.
O gato? Eu não sabia essa.
O gato era o operacional, o cangalheiro, o armador. Sinceramente, estas palavras não...
Mas eu estou curioso é com essa ideia. Tu foste muito empreendedora no verdadeiro sentido da palavra, porque tu não tendo ninguém nesse negócio de família, tu tiveste que ir à procura sozinha. Tiveste que fazer muita pesquisa, provavelmente, perceber que curso é que tinhas que tirar. Tiveste que tirar um curso?
Sim.
De?
O único curso obrigatório na lei, à data de hoje, é diretor técnico funerário.
Diretor técnico funerário é outro nome pra agente funerário, é isso?
É. Ou seja, é um curso que pode ser tirado 100% online, tem componentes de procedimento, comunicação neste tipo de contexto, burocracias, atendimento.
Um pró-forma.
No fundo, o que eu quero dizer é que acho que ainda pode ser melhorado.
Pois, é isso. E tu já tinhas essa perspectiva da morte que tens hoje? Ou seja, já encaravas a morte de maneira tranquila ou não?
Sim, sempre fui quanto a isso Sempre fui uma pessoa muito prática e sempre soube que a morte é uma coisa que nos assiste. É uma condição que é inequívoca, a condição humana.
Dizem que há três coisas que são certas: a vida, a morte e os impostos.
Exatamente. Outro dia fui a uma reunião de empresários e utilizei esse gancho.
Exato.
E eles partiram-se a rir completamente. Há duas coisas certas na vida: a morte e os impostos. Quanto aos impostos, eu não posso fazer nada, mas contra a morte, no ano passado abri uma agência funerária, se quiserem conversar. Muito bom. Tirei esse curso, mas relativamente à perceção que estava a falar.
Sim, da morte.
Sim, eu sempre vi a morte como algo inerente, porque sou uma pessoa realmente pragmática, prática das coisas, sou orientada para algo concreto.
Para o objetivo, sim.
Sim. Mas agora a minha perceção mudou mais uma vez.
Como?
Até posso citar aqui Rui de Carvalho. Ele diz, agora que está numa idade mais avançada, mas já dizia isto há alguns anos, não sei se já ouviste os trechos dele: "Vivam, vivam intensamente. Vivam, não tenham medo de viver. Não percam tempo a pensar na morte, porque a morte é a única certeza que nós temos. Se é garantida, não pensem nela, vivam." E foi este mindset que agora me toca particularmente. Vejo tanta coisa acontecer-me, a passar-me pelas mãos, a tocar-me à porta, que agora ganhei o propósito, ajudar as famílias, mas acima de tudo, vivo e vivo mesmo intensamente. Vivo com a certeza que tudo pode acabar amanhã, para todos.
Tu já tinhas essa perspectiva, mas a verdade é que até teres o teu primeiro serviço, o teu primeiro trabalho, não sei como é que vocês chamam, é serviço, não?
Sim, normalmente serviço, eu digo cerimônia.
Tu até teres a primeira cerimônia, se calhar não tinhas também tanta noção do que era o trabalho ou a morte. Tu lembras-te da primeira cerimônia?
Lembro, perfeitamente.
Como é que foi?
Nunca se esquece a primeira cerimônia, quando estamos a começar do zero, sozinhos. Eu não fui educada numa agência funerária, eu não brinquei dentro das urnas, como a maioria dos agentes funerários. Portanto, quando vi um corpo, pela primeira vez deitado numa mesa, não digo que foi chocante, mas foi tenso. Precisei de respirar fundo e: "Ok, isto é real, está aqui uma vida. Eu sei, já não tem vida, mas foi uma vida, tem uma família lá fora, vamos ter que honrá-la." Isso é muito importante. A minha primeira cerimônia foi uma cerimônia um bocadinho mais específica, foi de um jovem, naturalmente não vou estar aqui a alongar por motivos de privacidade, evidentemente, mas tocou-me muito. Marcou essa cerimônia para a primeira, marcou-me mesmo muito a título profissional. Pensei: "Ok, isto pode acontecer. Tens que estar preparada, gerir emoções, gerir a família, mas também a título pessoal."
Claro.
Um jovem de 19 anos.
Tu não deixas de ser jovem também, não é?
Claro, exatamente por isso, pela proximidade de idades.
Eu vi uma frase tua que dizia, e eu acho que faz muito sentido, e acho que é aquilo que tu estavas a falar do teu propósito. Tu escreveste na tua página que a morte evita-se enquanto não acontece, simplifica-se quando acontece e encerra-se rapidamente como se a rapidez reduzisse o peso.
Exatamente.
Eu identifico-me muito com isto, porque eu venho de uma geração diferente da tua e realmente a morte era uma coisa que se hoje, de alguma maneira, está um bocadinho diferente, nos anos 80 e 90, tu não falavas, as coisas aconteciam simplesmente. E tipo: "Olha, o avô morreu, está aqui, é o funeral, está morto, enterrado, acabou". E pouco mais falavas sobre isto.
Relembrar esse contexto é muito importante. O nosso contexto sociocultural, histórico, é muito importante, porque houve realmente aqui uma grande evolução no sentido da mudança. Houve aqui uma mudança como a morte é percepcionada. Nesse tempo, as pessoas velavam em casa, juntavam-se, partilhavam os momentos, as crianças estavam presentes sem sequer se falar sobre, era como estavas a dizer: "O familiar morreu, faleceu e juntamo-nos em casa, é preparado." Naquele tempo, preparado simplificadamente, é preparado em casa e a família junta-se aqui e é velado aqui. Velar vem do latim vigiar, estar atento, e era isso que as pessoas faziam. Agora as pessoas acham muito estranho haver caterings, haver cerimônias. Uma pessoa quando fala de cerimônias, eu quando falo, ao início falava de cerimônias, as pessoas não entendiam, mas isto já vem de trás, as pessoas reunirem-se em casa, não sei se já presenciaste algum velório em casa, mas antes era muito assim, as pessoas juntavam-se.
Eu tenho memória disso.
Partilhavam momentos.
Tenho memória disso acontecer.
Os familiares até partilhavam comida, ofereciam comida como forma de gratificação, para honrar a presença. Acho que as coisas mudaram um bocadinho. Acho que agora é tudo muito rápido, queremos encerrar as coisas com rapidez, nem sabemos muito bem o que é que está a acontecer.
Tu vais ao velório, fazes a cerimônia e segues para casa.
É isso mesmo. Para mim, um velório não é eu chegar a uma cerimônia e encontrar mais pessoas cá fora do que lá dentro. Quem me conhece sabe, a minha perceção é completamente diferente.
Sim, pois é verdade, a malta nos velórios geralmente está cá fora.
Exatamente. Ou seja, vão como um culto social, para marcar a presença, estão lá 15, 20 minutos, perguntam se a filha já terminou o curso e se já casou, despedem-se da família e vão embora. Isso não é homenagear ninguém.
Sim.
E o conceito que criei e a forma como vejo é completamente diferente.
Como é que tu criaste o teu conceito?
O meu conceito, aqui em Portugal, não é assim muito praticado, não estou a reinventar a roda, simplesmente estou a trazer aqui um bocadinho o americano. O americano é mesmo isto: é nós celebrarmos a vida no momento de despedida. Ou seja, trazer as pessoas, fazer momentos abertos de partilha, contar a história, quem é que ele era, quem é que foi.
Ou seja, o elogio fúnebre?
Mais do que isso. O elogio fúnebre é aquela folha branca com um texto que não tem impacto, não conta, não diz verdadeiramente de onde a pessoa veio, não conta mesmo a história. E nas minhas cerimónias nós fazemos isso, é partilhar o legado, e isso mantém as pessoas cá dentro. A minha taxa de retenção nas cerimónias é 90%, ou seja, 90% das pessoas ficam até ao fim.
Tens que começar a cobrar bilhetes. Para a malta que vem de fora. Sim, mas está a ver.
Claro. E isso é diferente daquilo que vemos.
E tem também catering?
Sim, se a família quiser, temos, mas acho que faz todo sentido. Há famílias que passam lá muitas horas, que realmente passam muitas horas, que se desgastam muito e, naturalmente, temos ali um complemento para repor a energia.
Mas eu acredito que se calhar houve famílias, não sei se ainda acontece ou não, mas se calhar houve famílias que te procuraram que não sabiam que era isso que tu oferecias.
Pois, realmente já tive questões.
Já tiveste histórias desse género ou não?
Os casamentos também fazem.
A sério?
A sério, porque lá está, esta questão das cerimónias, não é cerimónias no contexto fúnebre, Joana. Percebes?
Exato, uma cerimónia não é uma festa.
É um velório, é um funeral.
Sim.
É isso.
É uma homenagem.
Exato.
Lá por ser uma cerimónia e ter catering ou ter pessoas a falar sobre os outros, não é necessariamente uma festa.
Não é uma festa, exatamente. Não confundam as coisas. Celebrar uma pessoa é, no fundo, evidenciá-la no momento de partilha, no momento de união. Uma festa é lançar foguetes, mas atenção-
Se a pessoa quiser
...se alguém me pedir foguetes, eu arranjo-os.
Pois, é isso.
No fundo, é isso.
Já te pediram alguma coisa estranha? Tenho essa curiosidade.
Estranha, estranha, não. Mas, por acaso, recentemente, posso partilhar aqui, um momento muito bonito de homenagem que me pediram. Um senhor que trabalhou a vida toda numa bomba de gasolina e deixou claro à família que quando partisse gostava de dar três voltas a essa mesma bomba de gasolina. Vejamos, ele trabalhou durante décadas, sempre ali. E claro, a família manifestou esse desejo e eu evidentemente que o cumpri. Foi um momento mesmo muito bonito. E para quem não sabe o que é uma homenagem, convido-vos mesmo a ver o vídeo, porque isto é uma verdadeira homenagem. Isto é mesmo honrar a pessoa.
Andava a carrinha.
Exatamente.
E os carros também atrás ou só a carrinha?
Não, as pessoas reuniram-se lá todas, na bomba de gasolina, amigos, familiares, todas com um balão da cor da Galp, laranja. Foi quase como algo temático, era tudo centrado nisso, as coroas fúnebres, as coroas de flores também.
Ou seja, gostava mesmo do trabalho, o homem.
Sim, muito. Era um legado. Inclusive a camisa dele estava pousada na urna como um símbolo mesmo. E então ele aí as três voltas, fizemos um minuto de silêncio, fizemos a partida, a largada de balões. Isso é uma homenagem, isso é o que eu considero uma homenagem, um desejo, uma vontade que foi eximiamente cumprido.
Já devem ter acontecido coisas engraçadas ou não?
Já acontecem algumas. Claro que nós mantemos sempre o rigor.
Sim.
Mas deixa-me ver aqui. Agora estou me a lembrar de uma também muito interessante. Estávamos também numa cerimónia e a minha equipa, os operacionais masculinos como femininos, vestem-se de bege, ao contrário do que é tradicional.
Até já aí é diferente.
Sim, o fardamento destaca-se logo da maioria. Acho que é para complementar também aquilo que eu "prego". E então eles estavam todos à frente da capela de velório e estavam lá a dar, não as boas-vindas, mas a direcionar as pessoas, exatamente. E houve lá uma senhora, isto para dar contexto, foi numa zona não tão litoral, digamos, o que não é costume, isto para dizer que não é costume lá ver um agente funerário de bege. E então o que aconteceu? Eles estavam lá à porta e uma senhora: "Vocês são da funerária? Ou isto é um casamento?" E eles nem sabiam muito bem como é que haviam de reagir e eu nem estava a perceber o que se estava a passar. Eles ficaram assim uns a olhar para os outros, percebes? Ou seja, este impacto de: "Isto é da funerária?" "Somos, minha senhora, somos da funerária, esteja à vontade. Cerimónia de homenagem ao senhor tal." "Ai, parecem todos casados, vocês, assim de bege, mas bonitos." Ela assim: "Mas bonitos!" Foi muito engraçado.
Aquilo que eu vejo, por exemplo, deixa-me cá pensar, acho que até foi no funeral do meu pai. É engraçado que os velórios também são oportunidades, na realidade, para tu reencontrares pessoas que não vês há muito tempo.
Exatamente. É o que se diz, não é? Só te vejo ou em casamentos ou em funerais.
Ou funerais. Mas nos velórios tu encontras gente que já não vês há muito tempo e o que acontece, pelo menos naqueles a que eu vou ou que já fui, há muita partilha das histórias ou da pessoa que faleceu, mas ali entre nós, ou da nossa infância, ou o que quer que seja. Parece-me que de alguma maneira há uma predisposição das pessoas para esse tipo de cerimónias que tu fazes. Só que culturalmente e socialmente ainda estamos muito presos àquela ideia do: "Não, isto é muito solene." E é solene, claro, há que haver respeito, mas não tem que ser pesado. É isso?
É exatamente esse o ponto. Uma coisa é culturalmente nós não estarmos habituados a isso. Outra coisa é o feedback que eu tenho das famílias após saírem de uma cerimónia minha. "De facto, senti-me ligada." Isto é o que eu mais ouço das famílias, para além de agradecerem, evidentemente, o meu trabalho, é: "Obrigada pela homenagem, agora sinto-me em paz." Porque este sentimento de se sentirem em paz é eu cumpri o desejo, isto é muito importante. Portanto, isto para dizer o quê? Que as pessoas quando saem de uma cerimónia não ficam a achar: "Ui Que teatro foi este? Não é isso. As pessoas sentem a diferença, as pessoas sentem o impacto de uma cerimônia.
Sentem o respeito.
Sentem o respeito. Eu costumo dizer que o respeito não se veste só de preto. Isso para dar a entender que não tem que ser assim tão escuro, não tem que ser uma capela fria, impessoal, com aquele cheiro de velório, não tem que ser assim. Pode ser uma cerimônia respeitosa, 100% concordo, mas com partilha, com emoção, com a música favorita a soar de fundo.
Com pessoas a rir, se for o caso.
Com pessoas a rir, se for o caso, porque às vezes uma boa memória desperta uma gargalhada.
Mas é isso que eu estava a dizer, nos velórios, a gente só diz merda nos velórios, porque fomos a contar piadas. Eu lembro quando o meu pai foi no velório, já foi na cremação do meu pai, eu estava com tios que já não via há imenso tempo. Claro, era aquilo que nós estávamos a falar, era uma morte já esperada do meu pai, uma partida já esperada, e eu fiquei feliz por estar no velório do meu pai com aquelas pessoas.
Claro.
Porque eram tios que já não via há imenso tempo e reavivei memórias e estive ali com eles.
Não é um momento raro. O que nos trouxe aqui não é realmente feliz, mas nós estamos aqui.
Mas é inevitável.
Mas é inevitável. Então vamos estar aqui calados? Vamos sair lá para fora, fumar cigarros, vamos embora? Não, estamos aqui. Isto é muito importante nós chegarmos, parece óbvio, mas às vezes não é. Nós estamos aqui por quê? Porque nós temos uma pessoa em comum da qual nós gostamos. É por isso que nós marcamos a presença. Nós vamos a um casamento, porque a pessoa que casa é importante na nossa vida. Ela consegue reunir ali 300 pessoas-
Ou então porque a gente não consegue dizer que não. Enviou o convite e a gente disse: "E agora tenho que ir ao casamento."
E vou comer e beber.
Sim, mas claro, estou brincando.
Mas, ou seja, agora é para ti.
Desculpa, eu tenho tendência depois para dizer: "Não, tu, ou seja, tu vais aos velórios exatamente para isso, tu vais porque interessa-te aquela pessoa, porque a conheceste."
A partilha é muito importante. É isso que eu tento fazer nas minhas cerimônias, que haja partilha. E não tem que ser uma partilha formal, como estava ao caso, esse termo utiliza-se muito, o elogio fúnebre. Não, não tem que ser um elogio fúnebre supertrabalhado, muito eloquente. Não, uma partilha, o que te vai na alma, por que estás aqui, o que ele significava para ti. No fundo, é isso.
Tu tens aprendido com os funerais que fazes, com os velórios que fazes?
Sim. Para a vida?
Sim. Porque também mudou a tua perspectiva da morte? Se bem que tu disseste que já era um bocadinho diferente, mas os serviços que tens feito, os trabalhos que tens feito, mudou a tua perspectiva da morte?
É, como disse há bocadinho, eu já tinha uma visão bastante pragmática das coisas.
Sim, mas essa perspectiva que tu tinhas dito, essa frase do Ruy Carvalho.
"Vivo intensamente."
De viver intensamente, também vem muito daquilo que tens visto?
Sim, sem dúvida. A partir do momento em que tu lidas com a morte todos os dias, vês ela de perto.
Sim, e se calhar, às vezes, não sei, digo eu, estou aqui a especular, mas tu tomas contacto com as histórias das pessoas.
Claro, exatamente.
E se calhar também vês ali histórias ou de pessoas que viveram intensamente ou pessoas que fizeram exatamente o contrário, que não viveram intensamente e tiveram fins trágicos ou difíceis.
Sim, isso é muito importante. Por isso é que a profissão, eu costumo dizer que a profissão do agente funerário é muito nobre e muito multifacetada, porque nós não abrimos um buraco e metemos lá um corpo. Nós ouvimos uma história, percebemos a narrativa, tentamos passar toda essa história para o momento da cerimônia. Muitas vezes as pessoas chegam lá, não é uma conversa de 10 minutos, pelo menos as minhas não são, não é uma conversa de 10 minutos. As pessoas sentam-se, respiram. Não é: "Olha, o que queres?" "Uma coisa mais ou menos." Pronto, está bom. Opa, siga, próximo. Não, não é isso. É ouvir com calma, é contar a história que estavas a dizer. Ou seja, como é que se sente? Naturalmente mal.
Sim, ouvir a pessoa.
Ouvir, porque as pessoas também nos procuram muito. Ou seja, nós somos o quê? O segundo contato, depois da notícia trágica. Elas vão falar com quem? O médico. Pronto, o médico dá a notícia e naturalmente avança. E nós somos logo ali o segundo ou terceiro contato.
E é uma grande merda. Desculpa, é um trabalho difícil.
Sim.
Porque eu já o fiz. Se calhar, não sei se tu fizeste em relação à tua avó ou alguém, se tiveste tu que tratar das coisas.
Já fiz.
É uma grande merda.
Queres falar sobre isso?
Sim.
Podemos falar.
Só que lá está, eu também tenho os meus medos todos e tenho medo da morte, essas coisas todas, e falo sobre isso, tenho as minhas questões com a ansiedade, whatever. Mas também tenho uma visão muito, obviamente, por causa da comédia, tenho uma visão muito alternativa da realidade. E eu lembro-me, quando a minha mãe morreu, por exemplo, os meus pais já morreram os dois, a minha mãe morreu em 2016 e eu fui com os meus irmãos à agência funerária tratar. E foi a primeira vez que eu tive a noção de: "Isto é um negócio", mas não é no sentido pejorativo. É naquela ideia de: "Meu, faz parte, é a vida. Portanto, a pessoa faleceu"-
E há aqui alguém a tratar disso.
E alguém a tratar disto. E então bora lá ao catálogo das urnas. E eu lembro-me de fazer piadas com os meus irmãos.
Hás de fazer as piadas nessa altura.
Sim. Fazermos piada sobre isso, brincar. E eu lembro com a gente sempre muita coisa, eu a dizer porcaria e ele ficava muito com vontade de rir, mas tipo: "Tenho que manter o meu papel."
Claro.
Mas ou seja, faz parte da vida. São momentos difíceis, e se realmente há alguém que os possa tornar mais pessoais, melhor.
Mais leves. A morte é certa, mas a forma como nos despedimos pode ser diferente. Eu digo muito isso também.
Claro.
Ou seja, se houver alguém deste lado, no caso o agente funerário, que pode tornar aquilo uma cerimônia, no fundo, a contar uma história com mais leveza, diminuir a todo o custo os encargos, a preocupação de uma cerimônia, eu acho que o nosso trabalho é este.
Sim, no outro dia eu vi uma senhora, também num programa de televisão que eu fui e estive quase para trazer cá, ainda tenho de ver se arranjo o contacto dela. Foi muito interessante, que ela fez uma coisa que eu nunca tinha pensado e isto realmente faz sentido: ela tratou o funeral dela em vida.
Exatamente.
Isso é altamente, porque é tirar um peso completo das pessoas. Eu tenho o meu funeral pago, está aqui tudo escrito aquilo que eu quero, vocês não têm que se preocupar com nada. Isso também é fixe.
Sabes que as pessoas não gostam de falar disso.
Claro.
Não gostam.
Porque é aquela ideia que tu dizes de: "Estou a atrair a morte".
Eu podia estar aqui a enumerar as vantagens, ou seja, eu podia me retirar do meu papel agente funerária e enquanto amigo, dizer-te as vantagens de A a Z, que realmente planear uma cerimónia tem. O impacto positivo que planear uma cerimónia antecipadamente, por muito que custe.
Estás me a dar uma ideia do caraças.
Queres planear já?
Planear já, mas com montes de surpresas. E as pessoas não sabem.
Daqui a 15 minutos vamos ter algo inesperado.
Não, as pessoas estão lá e de repente começam a disparar petardos e aparecem uma data de bailarinas, aquelas belly dancers. Isso é a grande ideia. Mas lá está, também não quero planear já. Claro que eu não sei quando é que vou morrer, mas é aquilo que tu dizes, se eu tenho 45, vou começar a planear o meu funeral, dá alguma ideia, é natural aquela ideia: "Estou a atrair a morte".
Uma das vantagens, além de personalizar, consegues personalizar tudo, de A a Z, também garante a coisa que eu considero a mais importante, que é o quê? Que é o peso que retira dos familiares. E as pessoas não têm noção das discórdias, das zangas que se criam até no momento de planeamento do funeral. Quando a morte acontece-
Assistes a muitas?
Já assisti a algumas. E é sempre o mesmo motivo. Mais do que um filho, mais do que uma opinião, mais do que uma vontade, não há consenso. Quantas vezes do outro lado: "Eu quero que seja cremado, eu quero que seja inumado. Ele merecia a urna mais cara, não merecia nada, a barata vai para debaixo da terra". Percebes? Se planeares isto antecipadamente, se falares com o próprio e ele de uma forma clara explicar o que é que quer.
Mas eu acho que isso também reflete um bocadinho as dinâmicas familiares, porque nós somos três irmãos e quer no meu pai, quer na minha mãe, não tivemos discussão nenhuma.
Claro. Sim, depende também, claramente.
Sabíamos muito bem o que é que a minha mãe queria e o meu pai também sabia.
Isso é o mais importante.
Então foi supertranquilo.
A vontade não é nossa, a vontade é de quem falece e é essa que nós devemos cumprir sempre e procuramos cumprir sempre. Mas mesmo assim, lá está, às vezes quando é mais do que uma pessoa a tomar decisões e não há consenso, se houvesse um planeamento por trás, decisões que 100% das vezes são feitas inconscientemente, sob pressão, completamente emocionais e sem conhecimento de causa.
Porque depois tu tens que resolver tudo em um dia.
Já viste o peso? Eu sei, mais uma vez, é chato falar sobre isto, mas já viram o peso que é um familiar ter que decidir tudo? Por muito que do outro lado seja um profissional capacitado, que consiga contornar e trazer as questões de uma forma leve. Mas decidir tudo, por quê? Nós planeamos tudo. António, escuta, nós planeamos tudo. Verdadeiro?
Sim.
Planeamos uma festa de aniversário, planeamos um casamento, até planeamos quando é que nos vamos divorciar, se for preciso. E a única certeza que nós temos, não planeamos.
É verdade, tens razão. Eu, por acaso, em minha defesa, eu também não planeio nem aniversários, nem muitas coisas. Portanto, se eu não planear o meu funeral, mas eu também digo que não quero nada. Aliás, eu queria uma coisa, eu gostava de fazer uma coisa, que é perfeitamente exequível. Não sei se vais ser tu, pode ser tu, mas que seja daqui a 40 anos, no mínimo.
Claro, isso sem dúvida.
Mas aquilo que eu gostava era que no meu velório eu tivesse vestido de Drácula. Estás a ver? Vestido de Drácula, com uma coisa de sangue aqui, muito pálido e com uma estaca ao lado, para ver se alguém ia lá me espetar.
Ok.
É exequível?
É exequível, completamente.
Outra coisa mais difícil era eu vestido de Drácula.
A tanatoestética tem que estar ali mesmo, tem que ser profissional.
Drácula, com a roupinha Drácula, aqueles dentes, tudo. Outra coisa, isto já não é possível, mas era giro. Ter um mecanismo mecânico que as pessoas metiam 50 cêntimos e eu levantava-me.
Ai, meu Deus!
Era giro. Se calhar, se falar com o Ricardo. O Ricardo é capaz, o tanatoprator. O Ricardo já esteve neste podcast, se calhar é capaz de me enfiar um ferro por baixo desse mecanismo.
Eu acho que conseguimos. Tiramos assim meio dia de órgãos, só para abrir espaço.
Exato.
Acho que conseguimos. Também essa é uma ideia.
Não sei. Acho que esta do vampiro é exequível.
É, vampiro é.
Sim, não sei. Eu digo isto meio a brincar, mas olha, não sei. À medida que eu for envelhecendo, se não for uma coisa de repente, se for envelhecendo, é uma ideia que é capaz de maturar e de me surgir.
Os pedidos costumam ser sempre muito dentro do normal.
Exato. Não é gasto loucos.
Metem a moeda.
Mas há muitas tradições. Aliás, este espetáculo que eu tenho, que se chama "Volte Já". Volte já é aquilo que eu quero ter na minha campa. Isto é certo. Quer dizer, na minha campa, volte já. Eu li muito sobre tradições fúnebres por esse mundo fora. Tu tens muita na cultura africana e da América Latina. Superengraçadas, desde o velório ser a pessoa a fazer algo. Imaginem: "Olha, esse senhor da funerária era provavelmente o corpo embalsamado dele a trabalhar na funerária" e ele estar como um boneco. Não sei se já viste essas tradições fúnebres.
Já, já.
Ou de um cara, no outro dia vi um que era um tipo que adorava carros e então o velório era ele dentro do carro dele. O carro dele estava no velório e o cara estava dentro do carro. Ou um que jogava bola com os amigos e eles tinham o corpo Para dar o último toque, e eles a passarem a bola entre eles. E as pessoas estavam na boa com aquilo, é muito engraçado. E tu vais mostrar isso às nossas mães ou avós. "Que sacrilégio!"
A nossa cultura aqui ainda está muito enraizada para o tradicional, para o sofrimento.
Eu acho que isso tem muito a ver com a cena do fado também, ou não?
Do fado?
Sim, a nossa cultura do fado. A música do peso, do fado, etc.
Sim, nós podemos voltar atrás uns anos e provavelmente já ouviste falar deste termo: as carpideiras. Era algo que era muito utilizado. As famílias contratavam, portanto elas eram mesmo remuneradas para irem a uma cerimônia e estarem ali a chorar. E por que as pessoas pediam estas pessoas para estarem a chorar? Porque quanto mais elas chorassem, parecia que mais adoradas as pessoas eram. Então a adoração media-se através do choro dessas carpideiras. Então nós claramente, quando se fala em celebração: "Joana, tu és doida, não, isto é para chorar".
Exato.
Ou seja, as nossas raízes culturais são essas, é muito virado para o sofrimento, para a dor. E quando realmente vamos para povos latinos e outros, realmente é completamente ao contrário. É uma celebração.
Tens uma celebração muito curiosa que é na Irlanda. Acho que ainda se faz, embora não seja já tão comum, que são os velórios de três dias, onde a malta está o tempo todo a beber, tens lá o caixão, está lá a pessoa, o corpo, e a malta está três dias a beber, e música, e festa, e convívio. Por quê? Isso tem a ver com uma cena que acontecia, eu acho que era os barris de uísque, ou era de uma bebida alcoólica qualquer, eu acho que era o uísque. Quando estavam a chegar ao fim, e a malta bebia a parte de baixo, que era extremamente fermentada e podia provocar envenenamento, mas também podia provocar a pessoa ficar em coma três dias. Então eles ficavam ao pé do corpo, ficavam ao pé das pessoas durante dois ou três dias, continuavam a festa para se certificar ou que o gajo acordava, ou que não acordava. E isto tornou-se uma tradição e tu encontras vídeos, se puseres isto no Google, tu encontras vídeos disso no YouTube.
Por acaso há uma série para os mais curiosos, é leve esta série, portanto posso recomendar, que está atualmente na Netflix, chama-se "The Funeral Director", que exatamente passa-se na Irlanda. É um documentário que acompanha a vida de um agente funerário.
É documentário?
Sim, mas é curto, não é nada pesado e é muito bom. É muito bom para este tipo de coisas.
E aparece lá estes funerais ou não, estes velórios?
Sim. A questão de estarem lá por mais tempo. Lá também as temperaturas ajudam.
Sim, está mais fresquito.
Também ajuda.
Tu viste o "Sete Palmos de Terra"? Não, a série. Tu não conheces o "Sete Palmos de Terra"?
Não.
Como é que é possível? Tu tens que ver essa série.
Onde é que está disponível? Vou procurar.
Procura, eu acho que é Netflix, HBO. "Sete Palmos de Terra" é exatamente a história de uma família de tradição de uma agência funerária, em que eles vivem por cima da agência e tem também lá um dos irmãos que prepara os corpos, é o tanatopractor, os outros são os agentes, depois tem várias intrigas, etc. Ali as dinâmicas todas familiares, mas o "Sete Palmos de Terra" é assim, se bem me recordo, começa sempre com um corpo a ser recebido, etc. Tens que ver, isto é uma das melhores séries, vale mesmo a pena. Isso leva-me aqui a essa pergunta, que certamente a ti não deve fazer confusão nenhuma. Tu vives por cima da agência funerária, não te faz confusão?
Não.
Tu tens só agência ou tens também arcas frigoríficas e essas coisas todas? Eu não sei como é que isso funciona.
Sim, temos a nossa sala de tanatopraxia.
Ou seja, preparam lá.
Sim. Portanto, basicamente a nossa agência funerária, nós temos uma sala de despedida, uma sala de velório, completamente personalizável ao gosto, à dinâmica, ao número de pessoas e acima de tudo, à religião. Somos uma agência que não se debruça só sobre a religião católica, mas qualquer uma. E também temos a parte operacional, já temos ali uma sala de tanatopraxia, portanto a tanatopraxia para mim não é um complemento, devia fazer parte sempre e portanto debrucei-me muito também sobre essa área.
Para quem não sabe, o tanatopractor, o Ricardo esteve aqui, é um dos principais em Portugal, acho eu.
Uma referência, sem dúvida.
Talvez dos primeiros. O tanatopractor é a pessoa que prepara o corpo, que tira os fluidos.
Tanatopraxia praticamente são técnicas avançadas de preparação que conservam o cadáver para uma apresentação digna e o conservam durante mais tempo.
Tu tens algum tanatopractor ou mandas...?
Eu sou tanatopractora.
Tu és tanatopractora?
Sim.
Grande maluca.
Sim, tenho duas especializações.
Ou seja, tu tiveste que fazer o curso.
Sim.
E tiveste que preparar corpos.
Sim.
Isso não foi pior do que o primeiro funeral que tu fizeste?
Não.
Fizeste antes ou depois o curso de tanatopractor?
Antes, foi tudo antes. Eu quando abri a agência funerária, já tinha os cursos todos. Neste momento, tenho o diretor técnico funerário, que é obrigatório. E lá está, neste momento, a tanatopraxia não é considerada obrigatória. Quem quer ser tanatopractor tem que ter, mas uma agência funerária não é obrigada a ter. Isso é outra questão. Mas tenho duas, tenho uma nacional e tenho outra, a mais recente, tirada o ano passado em Budapeste.
Fogo.
Mesmo intensiva. Mas casos muito mais avançados. Nós aqui estamos habituados em Portugal a casos assim-
O que é que são casos avançados? Pessoas mutiladas, sem pernas, sem braços?
Posso falar abertamente?
Claro. Crianças, provavelmente não.
Sim, mas é muitas reconstruções. Imagina pessoas que caem do 20º andar, que vêm completamente desfiguradas, afogamentos, atropelamentos, no fundo é isso. Já não é aquele idoso que está acamado e que tem algumas feridas.
Sim, as-
As chagas. Mas não é este bem o nome.
Não é escamas, é escoriações? Não será escoriações?
Pronto, no fundo são-
Sim, escaras.
Escaras. É uma acumulação de sangue que está ali "morto" e que rapidamente se transforma numa ferida aberta. Nós estamos habituados a casos mais simples, mas quando vamos lá fora, ora bem Não é lá fora, aqui também existe, mas nesse curso via-se muito casos muito mais complexos, é que já não era só uma tanatopraxia, já entramos na parte de reconstrução facial ou corporal.
Ou seja, é quase cirurgia plástica.
Sim, no fundo é. No fundo, é mesmo isso.
Tu lembras-te, quando começaste a tirar o curso de tanatopractora, lembras-te da primeira vez que tocaste num corpo?
Sim, lembro-me.
Não te fez impressão?
Não, fez. Também estaria aqui a dizer que fez.
Podias, não tinhas de fazer. Não estou a dizer que-
Fez-me alguma. Mas também vou ser sincera, pode parecer um bocado frio, mas quando nós conhecemos a família por trás, por exemplo, o meu primeiro funeral, como disse há bocadinho, quando tive a pessoa, o jovem deitado à minha frente, teve muito mais impacto do que quando tive a minha primeira aula de tanatopraxia.
Foste tu que preparaste esse corpo?
Com ajuda.
Sim.
Com ajuda, mas sim. Portanto, teve muito mais impacto, porque nós quanto mais soubemos a história, mais envolvidos ficamos. Automaticamente, já não é só um corpo.
Isso é bom ou é mau?
É uma dualidade. Tu tens que saber até onde é que podes ir.
Tens que saber distanciar, não é?
Exatamente. Distanciar de alguma forma as coisas.
Tens que ter a empatia para fazeres bem o teu trabalho, mas ao mesmo tempo entenderes que é só isso, um trabalho.
Exatamente. Empatia certa para segurar a família, apoiá-la, mas também aquele afastamento quando é necessário, porque eu continuo a ser a Joana, de 25 anos, que tem uma vida pessoal e que no outro dia precisa estar forte e saudável, principalmente a nível de cabeça, para a família seguinte. Portanto, tem que haver aqui um balizamento inteligente.
E fez-te mais confusão do que do primeiro corpo que tu fizeste no curso?
Sim.
Mas o que fizeste no curso foi a primeira vez que tu viste um morto.
Exato, mas também é diferente. Acho que nós estamos em contexto de aula, não estou só eu, há ali um professor, um docente, que nos deixa à vontade.
Mas acho que me ia fazer bué impressão, não sei.
Eu gosto muito. Vou-te ser sincera, tanatopraxia não é a área que eu mais gosto de tudo aquilo que faço.
Claro, sim. Mas eu acho que isso é uma prova-
Claro, é tudo triste, mais uma vez. Mas ao nível profissional, a nível operacional ou técnico, não é a função que eu mais gosto.
Mas eu acho que isso é prova, há certos trabalhos na vida, seja o teu, tanatopractor ou outros, que eu acho que é prova de que há um destino e há um objetivo na tua vida, no sentido em que se tu fazes algo, como o Ricardo, que já esteve aqui, podem procurar essa conversa. Quando tu fazes algo com prazer, e não é um prazer mórbido, é o prazer de perceberes que estás a fazer bem e que estás a contribuir com algo, estás a dar algo de ti, para mim é a prova de que há um destino.
O Ricardo diz uma frase muito interessante que é: "Ninguém está atrás de uma mesa durante três, quatro horas por dinheiro. Tem que ser por gosto, tem que haver um propósito. Tu tens que gostar mesmo daquilo que estás a fazer". Ser agente funerário, no fundo, é assim. Ou seja, eu não tinha nenhum vínculo com este mercado, vim para aqui, não pode ser só por números. Ao início, os números não são convidativos. Percebes? Tu tens que tentar conquistar o mercado, as famílias, a confiança. Conquistar é uma arte, demora tempo. Portanto, voltamos ao propósito. Quando tu tens o propósito certo, no fundo, o meu é melhorar a forma como as pessoas se despedem em Portugal, melhorar as cerimônias, esse propósito mantém-se em qualquer circunstância. É preciso mesmo gostar daquilo que se faz. Ser agente funerário, infelizmente, o agente funerário ainda é visto, mas claro que já a perspectiva mudou, tem vindo a melhorar, mas o agente funerário ainda é visto muito como: "Não quero contacto, não quero". "Ui, agente funerária". Quantas vezes. Quantas vezes. Às vezes vou num Uber: "Não, o que é que fazes? Tu és agente funerária? Ui, saia já aqui!"
Isso leva-me a essa questão. Não quero entrar em intimidades, mas namorados e relações.
Deixa ver se estou solteira, não é?
Pronto. Não sei.
É, porque eles tipo: " Ui, este gajo à meia-noite com bisturi, é logo".
É complicado ou não, quando sais com alguém ou algum interesse amoroso e tu dizes: "O que é que fazes?"
Eu devo confidenciar, já que estamos aqui num momento um bocadinho mais leve, eu já cheguei a pôr naquelas aplicações de encontro: "Sou agente funerária". Só para ver as reações.
Para ver se há quem queira, se há malta que-
Não é que funciona como um gancho.
Claro.
E eles assim: "Olha, mas tu és mesmo ou estás a ver como tu queres isto?" "Sou mesmo, sou, mas estás a ver?"
Isso nos primeiros dates a conversa deve ser só sobre isso, não é?
É. Ui, há muita curiosidade, há muito: "Como é que é possível? Como é que tens essa vontade?" Percebes? Há muita curiosidade mesmo.
E com os teus amigos? Ela está a olhar para fora, porque tem aqui duas colaboradoras amigas.
Olha, vou-te ser muito sincera, houve pessoas que não aceitaram. E eu, pronto, ao início, quando: "Vou ser agente funerária". Há pessoas que veem isso como: "Ui". Estás a ver? Não bate o estatuto. Não bate. "Ui, agente funerária? Ui".
Tu és de onde, desculpa?
Maia.
Maia, ok.
Pronto, e há pessoas que se afastaram, ainda bem que se afastaram, porque definitivamente não tínhamos os mesmos objetivos.
Claro.
Mas quem me conhece sabe. Tenho pessoas que me acompanham desde antes de eu colocar o primeiro tijolo na agência. Acompanhavam a ideia, o mindset, o propósito, e quem acompanha desde o início sabe que isto vai muito para além daquilo, percebes? No fundo, quem já me conhece e sabe aquilo que eu estou a fazer, sabe que eu estou no ramo certo. E muitas vezes os meus amigos dizem: "Isto é mesmo para ti".
E tu sentes isso?
Sim, claramente.
De quantos serviços é que já tiveste neste ano, neste teu primeiro ano?
Cinco.
Portanto, até relativamente tranquilo.
Tendo em conta todo o meu contexto, que estou a penetrar um mercado pela primeira vez, que estou numa zona muito densa, os funerais acabam sempre por ir para casas que já têm muita longevidade no mercado. Não diria que é mau, mas também consigo fazer melhor. Eu não tenho pressa, eu sei que aquilo que eu estou a fazer não se constrói de um dia para o outro, constrói-se todos os dias com propósitos e valores alinhados e é a longo prazo. Eu estou aqui muito pela caminhada. Aquilo que eu quero fazer, ou seja, mudar a forma como as pessoas percepcionam a morte e as despesas em Portugal, não se muda de um dia para o outro. Mudam-se com tempo, mudam-se com vontade.
E se calhar vai passar muito também pelo passa-palavra.
Claro que sim. Poucos ou muitos, o que importa, acima de tudo para mim, é o feedback das famílias. É perceber, mais do que um nível logístico, operacional, mais do que isso, que é o nosso dever intrínseco, é mesmo: como é que foi o meu acompanhamento? E as pessoas sentirem-se mesmo que foram verdadeiramente acompanhadas e que acima de tudo conseguiram honrar a memória do familiar. Isso é o mais importante e eu tenho conseguido.
Como é que tu chegaste a este nome, Morada da Luz?
Muito simples. Morada da Luz, no fundo.
É aqui que eu moro, é aqui que está a luz, Morada da Luz.
No fundo é assim, eu quero ser luz na vida das famílias. Se calhar esta resposta vai ser um bocadinho circundante, mas no fundo é isto, é ser luz, é ser esperança. Eu costumo muito dizer, ao início dizia isso muito aos meus operacionais, porque os operacionais vão para lá, cara baixa, cabisbaixo, cara trancada. Uma vez tive uma reunião com eles, um briefing com eles: "Ó malta, equipa, vocês estão de luto? Morreu alguém em casa?" Caras de esperança, caras de ânimo, caras de aconchego. Não tens que estar a olhar para baixo.
É isso, porque tu também tens que mudar os operacionais que tu contratas.
Tu és energia.
Ou são sempre os mesmos?
São sempre os mesmos.
Eles também acabam por ter que ter uma formação.
Têm uma equipa, claro.
Ter uma formação diferente de uma agência.
Acima de tudo, temos briefings. Isto é muito importante. Ninguém vai para uma cerimônia sem saber o nome, e pode parecer um bocadinho irrelevante aquilo que estou a dizer, mas não é. Mas sabes que a maior parte dos agentes funerários, quando vais a uma cerimônia, nem sequer anda identificado. Sabes quantas vezes é que nós vamos a uma cerimônia e: "Desculpe, é familiar?" "Não, sou agente funerário, pertenço à funerária." Quantas vezes é que isto acontece? Quantas, digam, quantas vezes? Portanto, ter briefings é muito importante. Que tipo de cerimônia vai ser? Qual é a abordagem? É uma cerimônia mais intimista ou daquelas que vai participando?
Quem era aquela pessoa, se calhar, também.
Convidados esperados, número de convidados esperados, o nome dos familiares mais próximos. Vocês sabem a quem é que se vão dirigir, como é que se vão dirigir? Doutor, senhor, isto é importante, pode parecer irrelevante, mas não é. Está tudo alinhado, tudo, a postura. Claro que as cerimônias seguem sempre um planeamento mais ou menos normal e é sempre o mesmo, mas cada cerimônia é única, pelo menos para nós, cada cerimônia é única, portanto, estes briefings são muito importantes.
Uma pergunta, curiosidade minha.
Claro.
Tu já viste coisas estranhas ou não? Morando por cima de uma funerária, já te apareceram fantasmas?
Nada estranho, não.
Nunca te aconteceu nada estranho?
Comigo não há essas histórias.
Não há?
Não tenho para contar.
Pensei que ias dizer assim: "Não há, tipo, não quero saber."
Às vezes fico assim uma coisa: "Acorda!" Não, estou a brincar. Não tenho.
Podia ser. Mas também lá está, estás no início, se calhar ainda tens tempo.
Exato, se calhar. Estás-me a dizer, se calhar vou chegar à agência e vou ter a porta aberta.
Ou um caixão. Sabes o que eu tenho no meu espetáculo? É muito curioso, há pouco estavas a falar disso, do atrair a morte. Eu no espetáculo tenho, em tamanho real, um caixão com um corpo lá dentro. Mas é aqueles como tu nas feiras, tu tens aquelas coisas onde metes a cabeça para tirar uma foto.
Sim.
Eu não sei como é que se chama.
Sim, mas estou a ver.
Ou de uma dama, de uma princesa, ou não sei o quê.
Sim, aquelas figuras.
Umas figuras que tu metes a cabeça.
Sim.
Para ocupar o lugar da cabeça.
Tipo um cenário.
Um cenário, exatamente. Eu tenho um caixão com um corpo e a cabeça recortada para as pessoas tirarem a foto. Há pessoas que não tiram.
Claro.
Têm medo. E no outro dia tive um espetáculo, já não me lembro onde, estava lá uma senhora assim: "Então já tirou uma foto?" E ela assim: "Ui, não, eu não vou tirar." Eu assim: "Ó senhora, não está a atrair nada, pode tirar." E é engraçado tu perceberes.
Imagina fazer publicidade, imagina o que é fazer prospecção. Como é que nós conquistamos, como é que nós vamos para o mercado?
Como é que tu fazes publicidade?
Ora bem, não tento vender o serviço, tento ir por temas conexos. No fundo, satisfaço a curiosidade que muitos têm, mas que ninguém pergunta. Dou informações relevantes, enfim, vou por temas conexos. Como é que são os meus serviços, o que é uma cerimônia personalizada, mas tento não falar de fúnebre, preto, morte. Eu tento ir pelos caminhos contrários. Por exemplo, estar aqui, isto é muito relevante. Eu recebo dezenas de mensagens. Isto para dizer o quê? Que eu sei que há curiosidade, só que as pessoas ainda não se sentem naturalmente à vontade para falar sobre isto. Portanto, este tipo de conversas é muito importante, porque eu recebo dezenas de perguntas: "Joana, dá formação? Joana, planeiam funerais em vida? Joana, obrigada por falar disto". Outro dia, quando fui ao "Luís às 10", recebi muitas mensagens a dizer isto. Mas pessoas jovens, aqui é que está. Pessoas jovens a dizer: "Olha, ainda bem que falaste nisso, Joana, porque eu queria mesmo planear o meu funeral, mas em casa ninguém me compreende, por eu ser bastante jovem". Ou seja, as pessoas sentem-se incompreendidas, mas querem falar sobre o assunto, mas também não têm os meios, os canais para o fazer.
Porque é isso que tu estás a dizer. Parece que tu falares sobre aquilo é estares a atrair.
E nós estamos aqui, informalmente, a conversar, não estamos a faltar ao respeito a ninguém, não estamos a atrair nada mau. Acho que não vou ser atropelada quando estiver lá fora.
Isso faz parte da vida.
Estamos a satisfazer muita curiosidade, estamos a falar de temas relevantes. Isto não é um tema que deve ser deixado pra canto. O agente funerário não é uma profissão que deve ser deixada pra canto. É muito honrosa.
Eu acho que sim. Acho que faz muito.
Tenho certeza.
Sim.
Cada vez tenho mais.
Tu tens medo da morte? Não.
Não. Mas tenho pensado mais.
Mas pensado no quê?
Viver.
Em aproveitar mais a vida?
Outro dia publiquei um post no LinkedIn sobre isso, sobre empreender aos 25, aquilo que é o expectável, e viver aos 25. Estás a montar um negócio, estás na luta todos os dias e, por outro lado, estás aos 25, está a vida a passar. E os meus amigos, onde é que eles andam? Isto é o meu sonho. A Morada da Luz é o meu sonho, é o meu propósito. Às vezes os meus amigos: "Lá vem ela". Por exemplo, quando andamos de Uber, elas sabem. "Olha, senhor, eu vou lhe já dar o contexto. A minha amiga é funerária, vai falar disso". Sai-me naturalmente. A Morada da Luz é como um-
Uma extensão.
Uma extensão de mim. Um filho, é a minha vida, é o meu propósito. Portanto, isto que supostamente eu estou a perder por ser jovem, a mim não me interessa, porque eu sou feliz. Sabes aquelas pessoas que se tentam ocupar com coisas superficiais, mas chega ao final do dia, não tem valor agregado? Eu sinto que agrego valor. Isso é o mais importante. A seguir disto, só mesmo ter filhos.
Mas espero que te procures divertir.
Sim, procuro, claramente. Eu vou sair daqui e vou já brincar.
Mas que sais com a malta, divirtas.
Saio. Mas isto para dizer que nada está perdido e uma pessoa consegue viver. Agora, cada um escolhe a forma como quer viver.
Sim.
Não é?
E aquilo que quer trazer.
Exatamente. O que queres deixar? Como é que queres ser lembrado? E um dia que tenhas filhos, que valores é que na tua vida inteira tu deixaste? Eu penso muito nisso. Não tenho filhos, mas espero vir a ter em breve.
Sim.
Em breve, estou solteira, não está fazendo muito sentido.
Se quiseres aproveitar o podcast para lançar a escada a alguém.
Não.
Alguém-
Por enquanto só cerimônias, está bem?
Exato. Só cerimônias fúnebres.
Viúvos, não venham já os viúvos todos encher uma caixa de mensagem.
Exato.
Estou brincando.
Joana, que mensagem é que tu gostavas de deixar pra quem nos está a ouvir?
Não tenham medo. Não tenham medo de falar sobre a morte, falem abertamente. Procurem informação, procurem o conhecimento, procurem pessoas que vos ajudem. Falar da morte não a vai atrair, vai vos esclarecer, vai vos acalmar. Não promovendo os meus serviços, mas procurem alguém que genuinamente tenha a vontade e o propósito certo de vos ajudar e de homenagear o vosso familiar. E mesmo pra terminar, não poderia terminar dizendo: vivam, vivam intensamente, vivam como se não houvesse amanhã, porque realmente não sabemos quando é que esta viagem da vida termina.
Sim.
No fundo, é isso.
E se calhar acrescentar isso que tu também já disseste, que a morte e os velórios são uma despedida, mas não têm que ter o peso que têm.
Exatamente.
Podem ser uma celebração.
Exatamente.
Tu, na morte, podes e deves celebrar a vida.
Não há forma mais bonita de se despedir de alguém sabendo que a homenageamos, que contamos a história dela.
Sim.
Nestas cerimônias, nós temos duas alternativas, dois caminhos. Uma cerimônia pode seguir um modelo ou contar uma história. E nós, na Morada da Luz, procuramos significativamente contar uma história.
Muito obrigado, Joana.
Obrigada eu, mais uma vez, pelo convite. Foi uma honra enorme.
Honra é essa. Muito obrigado por estares aqui. Muito obrigado a vocês que estão desse lado. Se quiserem acompanhar o trabalho da Joana, basta procurarem Joana Ramos Morada da Luz, vão encontrar no Instagram. Podem colocar-lhe as perguntas que quiserem. Podem vir aqui ao YouTube também, deixar os vossos comentários, já sabem, e partilhem esta conversa. Muito obrigado por estarem desse lado e até pra semana. Quando falo, descubro mais sobre mim e quando escuto, compreendo mais os outros. Mas quer abra a boca ou preste atenção, tenho cada vez mais a certeza que somos todos malucos.