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Olá, bem-vindos a mais um podcast da JLL. Hoje o meu convidado é uma pessoa especial. É uma referência no imobiliário, é CEO da JLL Portugal e é um dos meus melhores amigos. Olá, Pedro Lancaster. Como estás?
Olá, Patrícia Barão. Estou lindamente aqui contigo. É um prazer enorme.
Maravilha. Vamos a isso. Queres contar-nos um pouco o teu percurso? Como é que chegaste aqui? Como é que chegaste a CEO da JLL em Portugal?
Muito rapidamente, eu trabalho há 27 anos, estive cinco anos na banca. Acabei o curso e não sabia muito bem o que havia de fazer. Naturalmente, as pessoas quando acabavam o curso, na altura, iam ou para as consultoras ou para a banca, para os trabalhos muito tradicionais. Estive em dois bancos diferentes, no Banco Mel, na altura, e o Banco BPI, que gostei imenso, trabalhei com pessoas fantásticas, mas não adorava o produto da banca, não me revia. Sempre tive um pouquinho aquela coisa de trabalhar num produto que eu gostasse. Aliás, isso vinha até por acaso de um conselho que o meu irmão me dava, que era: "Se gostas de futebol, trabalha numa indústria ligada ao futebol, se gostas de esqui, trabalha numa indústria ligada ao esqui". É uma coisa que, por acaso, hoje em dia, quando falo com os meus filhos, falo muito disso. E eu não sabia muito bem o que é que eu gostava, até que realizei que talvez gostasse de imobiliário e fiz uma pós-graduação em imobiliário e a minha vida mudou. Passados cinco anos, fiz a pós-graduação e entrei no mundo imobiliário, onde estou há 22 anos. Passei por três empresas, por uma concorrente nossa, da JLL, que era a Richard Ellis, na altura. Depois saí, estive três anos, fui para a Sogefi Sierra, onde estive a fazer desenvolvimento de centros comerciais em Portugal, que é a grande referência dos centros comerciais em Portugal. E depois vim para a JLL há 16 anos, onde estou e tem sido uma história que tu conheces.
É verdade. 12 anos que já és Country Manager da JLL, certo?
Sim, eu vim como diretor de Capital Markets numa altura difícil. Entrei em 2007, 2007 a 2011, como diretor de Capital Markets, numa altura em que o mercado estava muito parado. Eu lembro-me na altura quando vim, aliás, eu vim sem saber sequer muito bem o que era a JLL, mas vim um pouquinho atrás de explorar a minha veia comercial, que eu achava que tinha alguma veia comercial. E como estava na banca, mesmo estando depois noutras áreas imobiliárias, mas onde eu não me tinha exposto tanto, achei que tinha essa valência e queria testar. Portanto, vim como diretor de Capital Markets, que hoje em dia é uma equipa com 20 pessoas, só que eu durante cinco anos tive uma equipa que era eu próprio.
Exatamente.
Era eu. Por acaso, depois acabei por ter uma ou duas pessoas a reportar a mim.
Sim, mas naquela altura também a dinâmica do mercado também se calhar não exigia grandes equipas a trabalhar em investimento. Mas há uma história que foi quando tiveste a oportunidade de te poder candidatar a CEO, não é? Conta-nos essa história.
Aliás, eu vim para a JLL, eu digo muitas vezes isto, eu vim não atrás muito da JLL, que eu não sabia muito o que era, mas vim um bocado atrás de alguém que me convenceu, de uma pessoa que eu achei que seria um excelente líder, aquilo que se veio a confirmar. Portanto, vim mais atrás de uma pessoa do que propriamente de uma empresa e de um conjunto de pessoas que estavam na JLL. Eu gostava imenso, era o Manolo Puig, que era de Sevilha, estava cá em Portugal e um dia comecei a ouvir rumores que ele se calhar iria para o Brasil, para a JLL no Brasil. Eu fiquei em pânico que o meu guru, o meu chefe, ia-se embora e o que é que ia ser da minha vida. E na altura, lembro-me de pensar quem é que seriam as pessoas que o poderiam suceder. Lá dentro da empresa não via ninguém e comecei a pensar pessoas à volta, pessoas que eu conhecia, e lembro perfeitamente, mais uma vez aqui, ligar ao meu irmão e dizer: "Manel, tu arrasca, o meu chefe vai-se embora. O que tu achas deste?" E o meu irmão: "Eu acho que são nomes ótimos, mas por quê?" "Porque eles é que se calhar são bons para eu desafiar para dar nomes, para sucederem o Manolo." E o meu irmão falou: "Mas por que não és tu? Por que não hás de ser tu?" E eu lembro perfeitamente, fiquei para dois dias sem dormir e a pensar. E a minha resposta foi: "Eu lidero uma pessoa ou duas, como é que eu agora vou passar a liderar 40?" Na JLL éramos 44, na altura. Um dia enchi-me de coragem, acordei peito feito, bati à porta do Manolo e disse: "Manolo, olha, eu não sei se tu vais embora, mas por acaso se tu fores embora, eu sei quem é que pode ser o teu sucessor". A tremer, obviamente, dizia isto, mas com muito pouca convicção, mas aí acho que fui convicto e ele disse: "Quem é?" Eu disse: "Espero que não vás e que fiques, mas se por acaso fores, a pessoa certa sou eu". Disse isto assim. E ele disse: "Ó Pedro, nem imaginas o peso que me estás a tirar de cima das costas". E, de facto, nós já todos tínhamos pensado nisso e eu acho que estava um bocado à espera que eu desse esse sinal.
Claro.
Passado um mês, pediram para ir tomar o pequeno-almoço. Eu estava longe de saber que ele se ia embora, era um rumor que eu achava que tinha morrido e disseram: "O Manolo vai para o Brasil e tu aceitas ficar no lugar dele?" Eu fiquei felicíssimo, mas obviamente a tremer por todos os lados. E assim foi. Foi em 2011, acho que na altura estávamos a ser intervencionados pela Troika.
Pela Troika, também numa altura difícil, reestruturações. E agora lideras 400 pessoas, que é basicamente isso.
Dez vezes mais.
Dez vezes mais.
Dez vezes mais. Mas tem sido uma história feliz.
Nem mais.
E tens bem participado nessa história.
Exatamente. E neste teu caminho, não são só, obviamente, decisões fáceis que tiveste que tomar, também outras mais difíceis, mas tu sempre tiveste aquele espírito empreendedor e no meio deste teu percurso, aqui pelo meio, compraste duas empresas.
A JLL comprou.
A JLL, exatamente. Quando eu digo tu, foi sobre a tua liderança que isso aconteceu. E como é que tu geriste isso? Ou seja, apareciam as oportunidades, tu avançavas, ias sempre com aquele teu espírito superotimista e que hoje em dia a JLL é o que é, muito graças a esse teu espírito de te atirares para a frente e de avançares e de dares o corpo às balas, que é uma coisa que te caracteriza muito. Queres falar sobre isso?
Neste trajeto tomam-se muitas decisões. Eu acho que todos nós tomamos imensas decisões, quem lidera, quem não lidera, ao longo do nosso dia e das nossas vidas, e nem todas foram boas, obviamente. As melhores que eu acho que nós tomámos teve sempre a ver com pessoas. Foi conseguirmos contratar as melhores pessoas para trabalharem conosco. Isso foi feito ao longo do tempo. E não acertamos sempre, obviamente, mas eu acho que acertamos muito mais vezes do que aquelas que não acertamos. E estas aquisições fazem parte disso também, estamos a comprar empresas que têm pessoas. A primeira teve graça, porque foi uma empresa que não tinha nada a ver com a JLL, era uma empresa que construía lojas na Avenida Liberdade, aquelas lojas de luz, e que se chamava Novo Interior. A empresa foi-nos apresentada e eu estive dois anos ou três a convencer a minha estrutura internacional que era um negócio espetacular e eles achavam que eu era doido. "Mas por que é que havemos de comprar uma empresa de construção?" E eu dizia: "Porque nós temos muita presença no retalho, nas lojas e, portanto, podemos fechar o ciclo, podemos arrendar, trabalhamos com esses lojistas e depois é só completar e fazer também as obras". Foi uma longa maratona. Isto depois de ter estado dois ou três anos a tentar convencer a minha estrutura internacional a não fechar o país, porque nós estávamos intervencionados pela Troika, éramos pigs. Portanto, a grande dificuldade, para já, foi manter a bandeira da JLL em Portugal. E passado pouco tempo disso acontecer, veio este desafio e eu sabia que para crescer tínhamos que também fazer a coisa de uma forma orgânica, mas também se tivéssemos essa oportunidade de fazer aquisições, tinha que passar por aí. E foi uma história super feliz, com pessoas com perfil completamente diferente, engenheiros, arquitetos.
E ter que integrar todo esse mundo de uma empresa que vinha com uma cultura também diferente.
Uma cultura completamente diferente, obviamente. Era do João, que era o dono da empresa, e que de repente o João vinha a ser incorporado numa multinacional e, portanto, tudo isso era desafiante, mas eu acho que correu lindamente. Não pode ter corrido melhor e os resultados estão à vista. Eles se calhar eram 20, hoje em dia são 80. Nem vou estar aqui a falar de faturamento, mas é um negócio extraordinário e correu lindamente. Foi um casamento feliz, onde nós dizíamos muitas vezes, eu lembro quando falava com quem decidia, eu dizia: "Um mais um é igual a dois, mas um mais um vai ser igual a quatro". Mas não, um mais um foi igual a 10.
Exatamente. E repetiu-se a história depois também um ano mais tarde, com a compra também da cobertura e onde depois também houve o boost da JLL para a parte residencial, que também provou que um mais um era igual a 700.
Não, mas aí começa antes, porque aí tu já cá estavas. Aliás, antes de tu cá estares.
Exato.
Eu lembro perfeitamente do CEO, que hoje em dia é CEO mundial, de vir aqui a Portugal e dizer: "Ó Pedro, parabéns, para já porque a bandeira continua e está forte e sólida, depois porque fizeste uma aquisição que correu lindamente, de sucesso, e agora what's next?" Eu lembro perfeitamente da pergunta, a falar comigo tête-à-tête, e eu tinha um papelinho debaixo e disse: "Olha, next é abrirmos a área residencial em Portugal". E ele disse: "Ah, sim? Como é que tu propões que isso aconteça?" Primeiro fizemos de forma orgânica e quando ele estava cá, eu lembro-me que o quis levar à Comporta, porque ele estava a passar uns dias na Comporta, e eu disse-lhe: "Olha, já que estás aí a passar uns dias, deixa-me explicar-te o que é a Comporta com quem sabe". E pedi, na altura, ao Grupo Espírito Santo, alguém para me apresentar a Comporta, para apresentar ao chefe, para fazer bonito. E quem me veio fazer essa apresentação foste tu.
Fui eu.
E fizeste a apresentação, andámos lá num jipe a ver o que era a Comporta, que eu só conhecia as praias, mas depois passei a conhecer tudo, o que era todo aquele projeto. E ele ficou fascinado e disse: "Ó Pedro, acho ótima a ideia, essa coisa do residencial, e a Patrícia era a pessoa ideal para liderar o residencial". E eu disse: "Era ótimo, mas a Patrícia trabalha num cliente nosso, eu não sei se vou agora hostilizar o cliente e buscar uma pessoa tão importante como a Patrícia". Só que depois houve aquelas convulsões do banco, etc., onde tu vieste parar aqui, estar conosco, felizmente, foi dos grandes impulsos aqui da nossa empresa. E passado uns meses, tivemos a marca, não tínhamos ainda uma base de clientes, porque nós, JLL, não trabalhávamos com clientes particulares, era mais com as empresas, com as lojas, e portanto, menos com o cliente final que compra a casa. E então propusemos, tu e eu, comprarmos a cobertura. E foi mais uma história super feliz, 20 e tal pessoas, que hoje em dia são 200.
Duzentas.
Duzentas pessoas e, portanto, também mais uma vez multiplicámos por 10 o número de pessoas, que é o mais importante, e todos os rácios que vieram atrás.
Nem mais. Portanto, em todo este teu percurso, que no fundo já levas aqui largos anos de imobiliário, como é que tu agora olhas, não só para o imobiliário, mas para o país? Como é que tu olhas agora para o futuro? Como é que tu vês isto?
Eu não sei se é um otimista, mas tento ver as coisas pelo lado positivo. Nem sempre consigo, mas tento ver as coisas pelo lado positivo e sou um super otimista em relação ao nosso país Claro que há muita coisa má, claro que os licenciamentos demoram anos, claro que as questões políticas, as questões fiscais constantemente a serem alteradas. Agora temos estas coisas que estamos aqui a falar. Eu espero que quando esta entrevista for publicada, que tudo isto tenha resultado em quase nada. Aliás, até tenho esse otimismo aqui, mas veremos quando tivermos a ouvir isto. Mas sou um otimista em relação ao país, porque vivemos num país extraordinário, num pequeno grande país que estava numa ponta da Europa completamente esquecido e que hoje em dia está no centro do mundo. Temos investidores de todo o lado, tanto institucionais como privados, que querem investir cá. Temos estudantes que querem estudar aqui. Temos turistas, e sempre tivemos, mas temos cada vez mais. Temos empresas que querem vir do mercado leste, por exemplo, ou até da Irlanda, para se instalarem em Lisboa. Temos investidores privados e pessoas que querem cá morar. E portanto, temos o mundo inteiro com imensa vontade de conhecer este país e quem conhece ou compra, ou investe, ou passa aqui um tempo, e as pessoas adoram. Acho que às vezes gostam até mais disto e falam melhor de Portugal do que nós falamos ou do que nós falávamos. Acho que hoje em dia nós próprios também começamos a perceber que isto, de facto, é um país fantástico, com características únicas, e não admira que eles estejam cá.
Claro.
E portanto, eu vejo com otimismo, acho que ainda há muita coisa para fazer, tentando concentrar nas coisas boas, porque obviamente, quando olhamos para o país em si, para o PIB e sobretudo para o PIB per capita, por mais que nos tentem vender o que quiserem, o PIB per capita estamos ao nível da Roménia, estamos na cauda da Europa, portanto há aqui um desfasamento muito grande entre as coisas muito boas que estão a acontecer neste país, mas também as coisas negativas, sobretudo, que é uma população que está a ficar mais pobre. Obviamente que isso é a parte mais negativa, mas há muitas coisas positivas e eu acho que essas coisas positivas vão puxar pelas coisas negativas para se transformarem em coisas mais positivas. E as coisas positivas, eu acho que é aquilo que tem que se falado, não vale a pena, é tanta coisa boa. E portanto, há muitas oportunidades. E como as oportunidades estão aqui, sobretudo nós aqui no nosso mercado imobiliário, há muitos escritórios para serem feitos, há muita logística que vai acontecer e que somos um país de pouca logística, mas que está agora a acontecer muita coisa. Somos um país onde vai haver mais universidades, onde cada vez há mais escolas, todos os dias nós sabemos que temos muitas escolas internacionais a quererem abrir aqui em Portugal.
Há um mar de oportunidades e os fundamentals não vão desaparecer, apesar de todas estas dinâmicas menos positivas.
Exatamente.
Olha, mudando agora aqui um pouco para um outro Pedro Lencastre.
Sim.
Para o Pedro Lencastre sportingista, que vem de uma família de sportingistas e que a determinada altura cumpriu um sonho de infância, que era pertencer ao quadro diretivo do teu clube. És hoje vice-presidente do Sporting. Como é que tu tens feito essa gestão e que ensinamentos é que tu tens tirado do futebol e colocado na tua vida de executivo e vice-versa? Como é que fazes essa gestão?
Não era propriamente um sonho. Nem nos meus melhores sonhos pensaria que estava... nunca me tinha passado pela cabeça nem ser vice-presidente, eu nem sabia muito bem como é que as coisas funcionavam.
Eu acho que a todo o sportingista, daqueles mesmo.
Todos muito sonham.
Há sempre aquele sonho, aquela vontade de um dia fazer parte.
De um dia fazer mais do que ser adepto de bancada e de ser sócio. Isso eu acho que sim, mas muito sinceramente, não era o meu caso.
Nem nos teus melhores sonhos.
Não perdia um único segundo a pensar nisso.
E agora privas no meio dos jogadores e do presidente.
Não, agora faço parte do conselho diretivo, não temos assim uma grande proximidade com os jogadores, o meu pelouro nem sequer está relacionado com o futebol. Mas efetivamente estou ali a ver a casa das máquinas a funcionar muito mais de perto. Mas eu não sonhava, eu sonho todos os anos é que o Sporting seja campeão, sonho todos os anos é que o Sporting ganhe os jogos, isso sonhava e continuo a sonhar, nisso nada mudou. Isso para mim é o principal. Isto resulta de quê? O presidente do Sporting agora, o Frederico Varandas, era o médico do Sporting, quis criar uma equipa de pessoas que não tinham absolutamente nada a ver com a indústria do futebol. Ele conhecia-me há pouco tempo, por eu ser da JLL, portanto, eu acho que se eu não fosse líder da JLL, se calhar ele não me tinha conhecido. E acho que criou ali uma equipa com pessoas com perfis diferentes, mas com muita coisa em comum. Somos pessoas que temos as nossas vidas fora do futebol, que não precisamos do futebol para nada, que podemos viver sem futebol. Aliás, eu acho que as pessoas não têm noção, mas das 13 pessoas do conselho diretivo, só três é que são executivas, portanto, há 10 que não ganham absolutamente nada. Nós estamos ali com espírito de missão, com espírito de ajudar uma coisa que nós temos uma paixão gigantesca e estamos lá vai fazer cinco anos em setembro. Aliás, não sei se vai fazer cinco anos em setembro, porque no futebol isto muda tudo muito rápido, mas eu espero que sim. E não espero por mim, nem pelo Frederico, espero isto pelo Sporting, que acho que o Sporting precisa de estabilidade. E é esta estabilidade que o Sporting tem tido nos últimos cinco anos, que também tem trazido aqui um pouquinho mais de sucesso. Eu, desde que nasci, estava a pensar em 50 anos, nós ganhámos 27 títulos. E nos últimos cinco anos ganhámos seis. A média tem sido mais ou menos um por ano, apesar deste ano estar a ser um ano difícil Mas temos tido aqui algumas conquistas e ainda há muita coisa para conquistar.
Tens levado e trazido muita coisa dessa tua experiência para a tua vida executiva, de líder?
Tenho trazido muita coisa mesmo. Acho que daqui a uns anos, quando olhar para trás, eu já verbalizei isto muitas vezes com amigos, com família, está a ser das melhores experiências que eu tenho tido na minha vida. Enfim, não é um mar de rosas, é o contrário. A exposição é alguma, as pessoas sabem que eu estou lá e, portanto, quando ganhamos sabe bem, mas também como adepto sabe lindamente. Não sei se sabe melhor como dirigente ou como adepto. Quando ganhamos, o Sporting ganha, estamos todos felizes. Mas quando perdemos, sentimos um pouquinho mais na pele, porque há muito barulho à volta quando se perde, quando as coisas não correm bem. E se calhar dos melhores ensinamentos, das coisas que eu mais aprendi ou que aprendo lá, e que sou uma pessoa diferente nos últimos cinco anos, é saber viver com o ruído. Há muito ruído no futebol. Quando as coisas não correm bem, somos inundados com mensagens, com insultos, com ameaças. E é saber olhar para a frente, saber qual é que é o nosso rumo e acordar com energia para que as coisas aconteçam da melhor maneira. Dos maiores ensinamentos que eu tenho e de quem me dá os maiores ensinamentos é, sobretudo, o nosso presidente, porque tem uma resistência, uma resiliência, uma coragem, uma disposição e uma paciência, uma boa disposição, mesmo quando as coisas não correm bem, ou seja, não se vai abaixo, puxa-nos para cima. Há coisas, sei lá, estamos a perder ao intervalo, as coisas não estão a correr ao intervalo, depois claro que damos sempre a volta. Mas a cara dele ao intervalo, ou a minha cara, eu fico transparente. E ele passa por mim: "Pedro, então, bora lá, rapaz". E está com ar descontraído, a falar com as pessoas, muito confiante de que as coisas vão correr bem. Ele é muito positivo e aquele positivismo do presidente acaba por passar muito para baixo.
E tu, sem dúvida, que também mudaste muito desde que estás nesse teu cargo não executivo no Sporting. A tua liderança e a tua forma de estar também mudou e isso é notório e nós também notamos isso no dia a dia. Tu também és um homem de família. Tens uma ligação muito próxima com os teus pais, com as tuas irmãs, com o teu irmão, és uma pessoa que fala muito na família. Nós na empresa estamos muito habituados a ouvir-te partilhar muitas histórias que tu contas da tua família e isso para nós é muito importante, porque nos aproxima de ti como líder e tu dás-te a conhecer muito bem nesse campo. Tu passaste recentemente por uma tragédia pessoal grande, e tu hoje és um exemplo para todos nós, com essa tua força e com essa tua liderança. E isso, obviamente, marcou-te para a vida, mas eu hoje olho para ti, e posso falar também em nome das pessoas todas que represento, da JLL, e nós vemo-te como uma pessoa não só altamente inspiradora, mas como que conseguiu transformar uma dor numa grande força, que é isso que tu nos transmites a todos. Onde é que tu vais buscar isso? Onde é que tu vais buscar essa força toda?
Vou ter que me concentrar aqui também nas coisas positivas, senão não vai ser fácil, mas vou buscar o meu filho. Vou buscar o meu filho, desde o princípio que sinto que a vida dele se prolonga de outra forma e com quem eu estou em permanente contacto. Quer dizer, adorava vê-lo, adorava abraçá-lo, mas eu acho que a força que ele tinha, ele deve ter passado grande parte dessa força para mim. E depois vou buscar aos meus filhos. Incluindo o Martim, obviamente, mas vou buscar aos meus filhos e vou buscar à minha mulher, vou buscar às pessoas que eu adoro. E eu tenho a sorte de ter muitas pessoas que eu gosto, muitas pessoas que eu também acho que gostam de mim. Acho que nessas fases muito difíceis da nossa vida, nós também ainda realizamos mais isso, porque nós precisamos dos outros. Nunca pensei, pelas mensagens que recebi, pelas mensagens que recebo, que tivesse tantas pessoas que gostassem de mim, que gostassem tanto do meu filho Martim. Isso é uma força difícil de explicar e se calhar é essa a força que eu tenho. Eu lembro-me que desde o princípio, e para sempre, sinto-me amputado. Eu sei que é completamente diferente, mas às vezes penso como é que as pessoas amputadas, como é que as pessoas que vivem grandes tragédias podem ser felizes, e eu era a última pessoa que imaginaria que isso pudesse acontecer. Sinto-me amputado, mas eu nunca tive vontade de não acordar, nunca tive vontade de ficar na cama de manhã, nunca tive vontade de não ir trabalhar. Às vezes penso o que é que eu aprendi nestes dois últimos anos, o que é que o meu filho me ensinou nestes dois últimos anos. Aprendi a simplificar, aprendi a gostar mais das coisas simples, aprendi a dar muito mais valor quando vou levar os meus filhos pequeninos à escola, ou os meus filhos grandes. Aprendi a desvalorizar alguns estresses, alguns pensamentos que não interessam nada. E a cuidar um pouquinho mais de mim também. Eu acho que isto é um filho a puxar por mim, que ele estava super obcecado também com o desporto e faço muito mais desporto. Quando penso o que é que mudou, leio mais, não lia nada, lia pouquíssimo. Eu escrevi aquelas coisas no fim do ano passado.
The new year resolutions.
Essas resolutions, não sei quem é que mandou. E eu lembro que a primeira coisa que eu escrevi foi trocar o Instagram por livros. E o ano passado fiquei todo contente porque li seis livros. A minha mulher lê para aí cinco vezes mais depressa do que eu, portanto enquanto eu leio um, ela lê cinco e depois a gente fala sobre essas coisas. Eu só posso falar das coisas boas, porque senão é difícil. Talvez daqui a uns anos consiga falar de outras coisas. Mas dentro de muita coisa má, a minha família, sobretudo o meu núcleo mais próximo, mas também os meus pais, os meus irmãos, os meus sobrinhos, dão uma força brutal. É aquilo que depois eu deixo-me ir e levo para a JLL e para o Sporting, se calhar, não sei, e para o meu dia a dia. Só me apetece é viver, só me apetece é sair da cama e só me apetece é fazer coisas. Não sei se é por homenagem ao Martim ou aos meus filhos, mas tenho imensa esperança, continuo com imensa esperança.
E és claramente um homem que inspira e que passas essa confiança para todos os que estão à tua volta e que consegues fazê-lo com uma leveza e com uma beleza e com um amor inacreditável. Acho só mesmo quem priva contigo é que consegue perceber. Olha, estás a poucos dias de fazer 50 anos. Andas a falar imenso nisso nos últimos tempos. Eu acho que não há dia que nós não falemos em que tu não tragas esse assunto para cima da mesa. Eu acho que há aí uma festa pelo meio, quase certeza, conhecendo-te bem.
Tenho é coragem para isso.
Sei que o vais fazer. Mas olhando agora para a frente, o que é que tu queres nestes teus próximos 50? Imaginar que isto, OK, meio da vida, ainda tens mais umas valentes décadas para viver. O que é que ainda te falta fazer, Pedro Lancaster?
Eu nunca liguei muito às datas. Para mim cada dia é um dia e nunca liguei muito às datas. Aqui lembro perfeitamente que comecei a ligar muito mais às datas nos últimos dois anos, porque há ali datas que me marcam muito e que eu penso muito ou nos anos do Martim ou nos dias 28. E portanto, deixei de ser tão racional e passei a ser muito mais emocional. E eu, de facto, passei a ligar às datas e estou a ligar imenso a esta coisa de fazer 50 anos, nunca tinha ligado absolutamente nada. Claro que gostava de fazer anos como toda a gente. Mas eu olho para os 50, já pus na cabeça que vai ser metade, vou a meio.
Claro.
Espero que me faltem mais outros 50. Tenho imensa esperança que acho que os próximos vão ser melhores ainda do que foram os primeiros 50. Acho que os 50 deve estar numa elite de pessoas, ou seja, numa porcentagem pequena que tiveram uma vida extraordinária. Mas eu acho que nos próximos 50 ainda acredito que vai ser melhor. Ver os meus filhos a crescerem, ver netos.
Claro.
E ver o Sporting a ganhar muito mais, porque nos primeiros 50 não ganhou assim tanto. Acho que já disse há bocado, foram só 27 títulos ao todo em 50 anos, eu fiz essa conta no outro dia e agora vai ser o dobro. Os nossos rivais ganharam sempre o dobro do que nós e nós agora vamos ganhar pelo menos tanto como os nossos rivais. E eu não tenho a mínima dúvida, acho que o Sporting está nesse caminho. Mas acho que vão ser uns 50 bons, vão ser uns 50 felizes, vão ser uns 50 a fazer coisas, a fazer aquilo que eu gosto, a trabalhar, que eu adoro, a estar rodeado de pessoas como tu e como os meus amigos e como a minha família e a ver as coisas evoluírem e a crescer. Eu acredito imenso, tenho imensa positividade em relação ao mundo, que eu acho que também estamos a viver uma era com muitas dificuldades, guerras, etc. Coisas muito más e que temos que ter muito respeito e muita compaixão pelas pessoas e por quem está a passar por isso. Mas o mundo em geral, apesar dos altos e baixos, acho que está melhor e está-nos a fazer pessoas melhores. Acho que há mais informação para nos podermos transformar em pessoas melhores. E, portanto, eu acredito que com mais conhecimento, com mais aprendizagem, com mais autoconhecimento, com a minha mulher a ler mais depressa e a explicar-me os livros que leu e a dar-me coisas boas para ler. E portanto, vão ser 50 anos espetaculares, com algumas conquistas, obviamente que com muitos desafios e algumas derrotas também, mas isso faz parte.
Claro que sim. Tu és uma pessoa que costuma falar com imensa facilidade das coisas que são as tuas fraquezas ou as coisas que não te correm tão bem. Nós fazemos parte de um board executivo e muitas vezes temos a nossa agenda, mas muitas vezes há temas que são mais difíceis e mais desafiantes, mas tu tens essa capacidade. E a verdade é que a capacidade que tu tens, às vezes, de olhar para as situações que são mais desafiantes e torná-las mais leves e olhá-las de uma forma profunda na mesma, mas depois a ver como é que se passa para a solução, é uma das coisas que a nós todos nos marca muito e que faz com que nós depois passemos também toda essa energia para as nossas equipas. E eu acho que é muito esse o sucesso da JLL, é ter uma liderança como a tua, que é tão marcante e tão autêntica e que depois a seguir passa para o resto. Portanto, eu acredito que aquilo que aconteça na empresa, depois também acontece, de certeza, no resto dos teus grupos onde tu circulas, porque tu transmites isso de uma forma muito simples. Olha, estamos aqui no final do nosso tempo, da nossa entrevista. Faço-te só uma última pergunta Tu acreditas que a tua vida tem um propósito? Ou seja, que tu estás cá para cumprir algum tipo de propósito na vida?
Não sei. Eu sou marido e sou pai. Estou aqui para ser o melhor marido, para ser o melhor pai. Sou líder de uma empresa, estou aqui para ser o melhor líder. Acho que estou aqui para fazer bem e desfrutar muito daquilo que faço. Ou seja, para fazer bem, tenho que desfrutar muito. E eu desfruto muito. Se calhar, o meu propósito é esse, é fazer bem aquilo que faço e desfrutar muito das coisas. Tu sabes, e as pessoas que me acompanham, quem está mais próximo, não sei se chamar isso um propósito, mas o meu filho Martim é uma pessoa que eu quero perpetuar. Gosto muito de falar dele, mesmo que não tivesses perguntado, acho que ia-te falar dele. Mas gosto de falar dele e gosto de o perpetuar, gosto que as pessoas o conheçam, gosto que lhe vejam a cara, gosto que vejam os vídeos que eu tenho. Não sei bem como, mas acho que isso vai me sair naturalmente, que as pessoas conheçam. Acho que há mais pessoas que conhecem o Martim agora do que quando ele estava aqui. Definitivamente, faz parte do meu propósito, aqui no meu centro, juntamente com os meus filhos, dar a conhecer a alegria, a energia, a ginga, tudo aquilo que ele tinha. E ele vai-me ajudar a cumprir os meus sonhos e os da minha família.
Vai certamente. Obrigada, Pedro Lancaster. Obrigada a quem também ouviu e viu este podcast com este homem extraordinário, um líder incrível, mas acima de tudo, um homem como eu acho que há poucos. Obrigada e até à próxima.