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Passamos horas seguidas a trabalhar, muitas vezes sem parar. Reuniões, e-mails, tarefas, sempre em modo contínuo. Mas a pergunta é: trabalhar mais tempo seguido significa trabalhar melhor? Ou será que a falta de pausas está a afetar a nossa saúde e até a nossa produtividade? Doutora Vanessa Mendes, bom dia.

Bom dia.

Fazer pausas é mesmo importante?

É fundamental, diria. O cérebro funciona por ciclos de atenção. A evidência científica mostra-nos que após cerca de 60 a 90 minutos de trabalho contínuo, há uma diminuição significativa da capacidade de concentração e do desempenho cognitivo. Portanto, sem pausas, instala-se uma sobrecarga mental progressiva. É normal que aconteça uma diminuição da atenção, aumenta a probabilidade de erro e reduz, naturalmente, a capacidade de decisão. Ou seja, trabalhar de forma contínua, sem pausas, não aumenta a produtividade. Pelo contrário, até diria, torna-nos menos eficientes.

E qual é o impacto no nosso corpo, no nosso organismo?

Estar muitas horas sentado tem estado associado a um aumento de risco cardiovascular e até metabólico, mesmo em pessoas que fazem exercício físico de forma regular. Depois, também a nível musculoesquelético, há uma sobrecarga contínua da zona cervical e lombar.

Sei que andamos agarrados aqui no telemóvel, às costas, à lombar.

É muito normal. E depois também a nível cerebral, mantém-se ativado o eixo de estresse com o aumento do cortisol, como também já aqui falamos. O resultado disso é muito claro. Há mais cansaço, mais irritabilidade e, portanto, menor capacidade de concentração ao longo do dia.

Mas, doutora Vanessa, as pausas curtas fazem assim tanta diferença?

Fazem.

Também já falamos sobre isso.

Sim, fazem. E até há dados interessantes. Há alguns estudos que mostram que micropausas de apenas três a cinco minutos podem melhorar o desempenho cognitivo e reduzir o que chamamos de fadiga mental. Portanto, pausas regulares ao longo do dia estão associadas a maior produtividade e menor risco até de burnout, também. Nós já fomos falando aqui de alguns temas.

Os temas cruzam-se.

Exatamente. E mesmo pequenas interrupções com movimento ajudam a reduzir o impacto do sedentarismo. Portanto, não é tempo perdido. Estamos a falar de efetivamente de recuperação ativa.

Mas depois como é que se aplica isso no dia a dia?

De uma forma simples, diria até bastante eficaz: fazer pausas a cada 60 a 90 minutos.

Hora, hora e meia.

Mais ou menos isso. Levantar-se, caminhar ou até alongar, se for possível, desviar o olhar do ecrã e desacelerar o ritmo respiratório. Também já falamos aqui na parte da ansiedade, tentar ter aqui algumas técnicas respiratórias para conseguirmos relaxar um pouco. São pequenas estratégias com um impacto significativo na nossa qualidade de vida.

Portanto, Vanessa, uma das mensagens que importa deixar é que parar faz parte do trabalho.

Isso mesmo.

É como se fosse também uma função, uma das funções.

Sem dúvida. E aqui, então, a evidência é clara. O desempenho sustentável depende de ciclos de esforço e recuperação e, portanto, as pausas permitem reduzir o estresse, melhorar o foco e proteger a saúde física e também mental, que é fundamental, porque o nosso organismo não foi desenhado para funcionar em contínuo e, portanto, precisamos mesmo de parar e por isso concluir dizendo que a produtividade não se pode medir pelo tempo que estamos de forma contínua a trabalhar.

Foi mais um Tratado da Saúde com a doutora Vanessa Mendes. Até amanhã, doutora.

Até amanhã. Obrigada.